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CAPÍTULO 3 – EMPATIA: UM CONSTRUTO MULTIDIMENSIONAL 
 
A Evolução do Conceito de Empatia 
 
Uma revisão do conceito de empatia na literatura das últimas duas décadas revela que 
houve uma evolução na sua definição e na compreensão dos mecanismos subjacentes a essa 
capacidade. Por conseguinte, a forma de avaliar a empatia também mudou, o que dificulta a 
interpretação  dos  resultados  de  pesquisas  e  a  comparação  entre  os  mesmos  (Cuff,  Brown, 
Taylor & Howat, 2014). 
O  principal  debate,  no  que  diz  respeito  à  sua  definição,  consistia  em  delimitar  se  a 
empatia se tratava da capacidade de “sentir com” o outro, compartilhando emoções alheias de 
forma  vicária;  da  capacidade  de  compreender  o  estado  emocional  do  outro,  através  do 
reconhecimento de emoções e tomada de perspectiva emocional; ou de uma combinação de 
ambos (Reniers, Corcoran, Drake, Shryane & Völlm, 2011). 
Cuff et al. (2014) publicaram uma revisão crítica do conceito, buscando diferenciá-lo 
de outros construtos, como “compaixão”, e debater questões relacionadas à existência ou não 
do  componente  afetivo  e  cognitivo;  se  a  mesma  se  aplica  somente  a  reações  afetivas 
congruentes  com  a  do  outro  ou  se  essa  reação  pode  ser  divergente;  se  é  automática  ou 
controlada  por  processos  cognitivos  superiores;  dentre  outras.  A  partir  desse  debate,  os 
autores  sugerem  que  a  empatia  deveria  ser  compreendida  como  uma  resposta  emocional 
afetiva (empatia afetiva), com mecanismos automaticamente desencadeados, porém moldados 
por  processos  cognitivos  superiores,  de  acordo  com  a  percepção  e  compreensão  do  estado 
emocional alheio (empatia cognitiva) e reconhecimento de que a fonte dessa emoção não vem 
de si, mas do outro. 


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De fato, há concordância na literatura atual de que a empatia engloba um componente 
afetivo e outro cognitivo, tratando-se, portanto, de um construto multidimensional (Jolliffe & 
Farrington,  2006;  Dziobek  et  al.,  2008;  Reniers  et  al.,  2011).  Diversos  estudos  de 
neuroimagem e neuropatologia corroboram essa perspectiva, indicando que a empatia afetiva 
(EA)  estaria  relacionada  a  uma  maior  ativação  da  ínsula,  amígdala  e  giro  frontal  inferior, 
enquanto a empatia cognitiva (EC) é mais frequentemente associada a uma maior atividade no 
giro do cíngulo e áreas adjacentes do córtex pré-frontal dorsomedial e ventromedial (Shamay-
Tsoory,  Aharon-Peretz  &  Perry,  2009;  Dvash  &  Shamay-Tsoory,  2014).  Há  evidências, 
inclusive,  de  que  uma  maior  densidade  de  substância  cinzenta  nessas  respectivas  regiões 
estaria positivamente correlacionada a um maior escore de EA ou EC (Eres, Decety, Louis & 
Molenbergh, 2015). 
Compreender o funcionamento da empatia em seres humanos é essencial, posto que se 
trata  de  uma  habilidade  importante  para  o  convívio  social,  com  estudos  indicando  sua 
associação com competência social e comportamento pró-social (Eisenberg & Miller, 1987; 
Cecconello  &  Koller,  2000;  Rameson,  Morelli  &  Lieberman,  2012)  e  inibição  de 
comportamento  antissocial  (Jolliffe  &  Farrington,  2004).  Em  contrapartida,  uma  baixa 
empatia  está  associada  com  comportamentos  antissociais  como  bullying  e  agressividade,  o 
que  faz  com  que  treinamentos  em  habilidades  sociais  para  indivíduos  que  apresentam  esse 
tipo de comportamento com frequência contemplem em seus objetivos um possível aumento 
na  capacidade  empática  (Miller  &  Eisenberg,  1998;  van  Noorden,  Haselager,  Cillessen  & 
Bukowski, 2015; Vachon, Lynam & Johnson, 2014). 
Não obstante, uma revisão sistemática apontou que há diversos estudos que falharam 
em  encontrar tal correlação entre  baixa  empatia  e  comportamento  agressivo  (Vachon  et  al., 
2014).  Essa  contradição  poderia  ser  atribuída  a  problemas  nos  instrumentos  utilizados  para 
medir  a  empatia,  que  muitas  vezes  não  diferenciam  ou  não  contemplam  o  aspecto 


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multidimensional do construto, ou mesmo parecem medir outras variáveis, como tomada de 
perspectiva não relacionada a emoções, autoconfiança social e tendência a fantasiar (Baron-
Cohen & Wheelwright, 2004; Vachon et al., 2014). 
Em  relação  a  diferenças  por  sexo,  embora  diversos  estudos  apontem  que  mulheres 
apresentam maior nível de empatia do que os homens (Wakabayachi et al., 2006; Rueckert & 
Naybar,  2008;  Sampaio,  Guimarães,  Camino,  Formiga  &  Menezes,  2011),  essa  diferença 
parece  tratar-se  de  um  viés  de  instrumentos  de  autorrelato.  Por  exemplo,  em  um  estudo 
envolvendo  crianças  e  adolescentes,  foi  observado  que,  embora  o  nível  de  empatia  fosse 
maior em meninas em medidas de autorrelato, não houve diferenças significativas no padrão 
de atividade cerebral em resposta à dor alheia (Michalska, Kinzler & Decety, 2013), o que é 
discutido  pelos  autores  como  a  possibilidade  de  que  meninas  mostrem  maior  propensão  a 
relatar  respostas  empáticas  em  escalas  do  que  meninos.  Em  outra  pesquisa  envolvendo 
adultos, os autores concluíram que não houve diferença significativa entre homens e mulheres 
em  aspectos  comportamentais  da  empatia,  mas  as  mulheres  descreveram-se  como  mais 
empáticas  nas  escalas  de  autorrelato  (Derntl  et al.,  2010).  Os  mesmos  autores  apontam  que 
diferenças na ativação cerebral em mulheres durante tarefas de avaliação de reconhecimento 
de emoções e tomada de perspectiva sofrem influência hormonal, com maior sensibilidade e 
comportamentos  pró-sociais  na  fase  folicular  do  ciclo  menstrual,  e  que  homens  tendem  a 
ativar áreas mais corticais, relacionadas à neurocognição, enquanto mulheres recrutam mais 
áreas  de  processamento  emocional  ao  resolverem  essas  tarefas.  Ainda  não  são  claras, 
portanto, todas as variáveis que influenciam respostas empáticas em homens e mulheres, mas 
espera-se  encontrar  diferenças  em  instrumentos  de  autorrelato,  ainda  que  possa  tratar-se  de 
um  viés  do  método  de  avaliação,  seja  por  questões  culturais,  desejabilidade  social,  ou 
autopercepção. 


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No  que  se  refere  à  associação  entre  empatia  e  idade,  há  divergência  na  literatura, 
provavelmente devido a diferentes métodos de estudo e instrumentos (Sun, Luo, Zhang, Li & 
Li, 2017). Há indícios de que adultos próximos dos 50 – 60 anos apresentam maiores níveis 
de empatia do que jovens, enquanto em idosos, esse nível volta a diminuir, o que sugeriria o 
formato  de  um  “U”  invertido  ao longo  da  vida  (O’Brien,  Konrath,  Grühn  &  Hagen,  2012). 
Outros  estudos,  porém,  sugerem  que  diferenças  na  empatia  entre  grupos  etários  ocorre 
somente  para  emoções  negativas,  não  tendo  sido  encontradas  diferenças  na  tendência 
empática para com emoções positivas (Blanke, Rauers & Riediger, 2015), ou então que são 
dependentes  de  contexto  e  conteúdo,  por  exemplo,  idosos  demonstram  maior  empatia  para 
com indivíduos mais próximos de sua idade e / ou quando o conteúdo do tópico discutido é 
mais  relevante  para  a  sua  faixa  etária,  e  o  mesmo  ocorre  com  os  jovens  (Richter  & 
Kunzmann, 2011; Wieck & Kunzmann, 2015). Ainda, um estudo longitudinal verificou que 
não  houve  variação  significativa  da  empatia  nos  indivíduos  ao  longo  de  12  anos,  embora 
tenham  sido  encontradas  diferenças  quando  comparados  diferentes  grupos  etários,  o  que 
sinaliza  que  provavelmente  não  há  aumento  da  empatia  conforme  a  idade,  e  esse  efeito 
relatado  em  algumas  pesquisas  pode  ser  decorrente  de  vieses  que  precisam  ser  melhor 
controlados (Grühn, Rebucal, Diehl, Lumley & Labouvie-Vief, 2008). De todo modo, esse é 
um aspecto a ser melhor investigado em estudos sobre a empatia. 
 



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