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Instrumentos e Medidas do Fenótipo Ampliado do Autismo



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Instrumentos e Medidas do Fenótipo Ampliado do Autismo 
 
Uma  vez  que  o  diagnóstico  de  transtornos  na  infância  é  essencial  para  uma 
intervenção  precoce,  direcionando  políticas  públicas  e  intervenções  (Mercadante  & 
Zilbovicius,  2009),  é compreensível  que existam  mais  instrumentos  para  detecção  de traços 
do TEA na infância do que na adolescência e adultez. Ainda assim, em um recente artigo de 
revisão em que são listados os instrumentos utilizados para o rastreio do TEA em países com 
baixa e média renda, ao citarem a América Latina, Stewart e Lee (2017) referem somente três 
deles utilizados em estudos no Brasil: o Child Behavior Checklist (CBCL), o Autism Behavior 
Checklist  (ABC),  e  o  Autism  Screening  Questionnaire  (ASQ).  Outra  revisão,  desta  vez 
brasileira,  conduzida  por  Seize  e  Borsa  (2017),  apresentou  os  instrumentos  utilizados  para 


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avaliação  precoce  do  autismo  em  diferentes  países,  concluindo  que,  dentre  os  onze  mais 
utilizados no mundo, apenas um havia sido validado para uso no Brasil, o Modified Checklist 
for Autism in Toddlers (M-CHAT). 
Em  se  tratando  da  avaliação  de  traços  do  TEA  em  adultos,  a  partir  da  revisão  da 
literatura,  observou-se  que  três  instrumentos  tem  sido  utilizados  com  maior  frequência  para 
avaliar a presença e o grau de traços do FAA em adultos: O Autism Spectrum Quotient (AQ), 
ou  Quociente  do  Espectro  Autista  (Baron-Cohen  et  al.,  2001);  o  Broad  Autism  Phenotype 
Questionnaire  (BAPQ),  ou  Questionário  do  Fenótipo  Ampliado  do  Autismo  (Hurley,  Losh, 
Parlier,  Reznick  &  Piven,  2007);  e  a  Social  Responsiveness  Scale  (SRS),  ou  Escala  de 
Responsividade Social (Constantino & Todd, 2005). Uma vez que o FAA a princípio pode ser 
melhor  estudado  tendo  acesso  aos  pais  de  crianças  diagnosticadas  com  TEA,  optou-se  por 
analisar os instrumentos desenvolvidos para aplicação em adultos. 
O  Quociente  do  Espectro  Autista  (QA)  foi  desenvolvido  para  avaliar  em  que  grau 
indivíduos adultos de inteligência normal possuem traços do Espectro Autista, e discriminar 
indivíduos com TEA de alto-funcionamento de indivíduos típicos (Baron-Cohen et al., 2001). 
É um instrumento de autorrelato composto por 50 itens que devem ser avaliados através de 
uma escala graduada de 4 pontos (“concordo totalmente”, “concordo parcialmente”, “discordo 
parcialmente”  e  “discordo  totalmente”).  Entretanto,  os  mesmos  são  pontuados  de  forma 
dicotômica (0 ou 1), representando a presença ou ausência do traço em questão. Os autores do 
instrumento  propuseram  uma  estrutura  fatorial  de  cinco  dimensões  (Habilidades  Sociais, 
Alternância  Atencional,  Atenção  a  Detalhes,  Comunicação  e  Imaginação),  porém,  estudos 
posteriores  indicaram  um  melhor  ajuste  com  uma  estrutura  de  três  fatores:  “Habilidades 
Sociais”,  “Detalhes  /  Padrões”  e  “Comunicação  /  Mentalização”  (Austin,  2005;  Hurst, 
Mitchell, Kimbrel, Kwapil & Nelson-Gray, 2007). Austin (2005) recomenda, inclusive, que a 
escala seja pontuada de 1 a 4, revertendo os escores quando necessário, de forma a preservar o 


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grau de concordância de cada indivíduo e ampliar a distribuição dos escores, melhorando a 
análise fatorial e de confiabilidade. Embora não tenha sido desenvolvida especificamente para 
estudo do FAA, o instrumento permite aferição de traços do Espectro Autista na população 
adulta clínica e não clínica. 
O Questionário do Fenótipo Ampliado do Autismo é uma escala de autorrelato de 36 
itens,  em  uma  escala  graduada  de  6  pontos,  variando  de  “muito  raramente”  a  “muito 
frequentemente”,  desenvolvida  para  avaliar  especificamente  o  FAA  em  parentes  de 
indivíduos  com  TEA.  A  estrutura  fatorial  proposta  pelos  autores  é  de  três  dimensões: 
Personalidade  Indiferente,  Personalidade  Rígida  e  Linguagem  Pragmática  (Hurley  et  al., 
2007). 
A  Social  Responsiveness  Scale  (SRS),  ou  Escala  de  Responsividade  Social 
(Constantino & Todd, 2005) é uma medida do grau de comprometimento social associado ao 
TEA  de  acordo  com  os  critérios  do  DSM-VI.  Foi  inicialmente  desenvolvida  para  ser 
respondida por informantes a respeito do comportamento de crianças com suspeita de TEA, 
entretanto,  foi  adaptada  pelos  autores  para  adultos  (SRS-A)  e  também  para  ser  utilizada 
enquanto  medida  de  autorrelato  (Ingersoll  et  al.,  2011).  É  composta  por  65  itens  em  uma 
escala graduada de 0 a 3 que varia de “não se aplica” a “quase sempre se aplica”, e apresenta 
uma estrutura fatorial unidimensional. 
Ingersoll  et  al.  (2011)  conduziram  um  estudo  com  objetivo  de  comparar  esses  três 
instrumentos  em  termos  de  consistência  interna,  distribuição  de  escores,  estrutura  fatorial e 
validade de critério. Eles aplicaram o AQ, o BAPQ e a SRS-A em uma amostra de mais de 
600  estudantes  universitários  e  verificaram  que  todas  tiveram  distribuição  contínua  e  boa 
validade  de  critério,  convergindo  com  medidas  de  outros  construtos  associados.  O  BAPQ 
demonstrou melhor replicabilidade da estrutura fatorial proposta em relação às outras medidas 
e tanto ele quanto a SRS-A evidenciaram consistência interna superior ao AQ. Embora todas 


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tenham obtido alpha de cronbach acima de .70, somente o BAPQ obteve tais valores também 
para  as  três  subescalas,  enquanto  as  cinco  subescalas  do  AQ  obtiveram  alpha  de  cronbach 
abaixo de .70. A análise fatorial exploratória identificou um modelo explicativo de três fatores 
para  o  AQ  como  tendo  o  melhor  ajuste,  entretanto,  não  foram  apresentadas  análises  de 
consistência interna para tal modelo. 
Embora  os  autores  desse  estudo  tenham  concluído  que  o  BAPQ  era  o  instrumento 
mais recomendado para avaliar o FAA, eles consideram que o mesmo é ideal para discriminar 
entre  parentes  de  indivíduos  com  TEA  que  fecham  critérios  para  o  FAA  e aqueles  que  não 
fecham,  enquanto  o  AQ  e  a  SRS-A  parecem  ter  mais  sensibilidade  para  discriminar 
indivíduos com TEA daqueles com outros tipos de psicopatologia, sugerindo que o objetivo 
do  pesquisador  seja  levado  em  consideração  no  momento  da  escolha  do  instrumento 
(Ingersoll et al., 2011). Além disso, os autores utilizaram o sistema de pontuação dicotômico 
para  o  AQ,  ao  invés  do  sistema  de  4  pontos  recomendado  por  Austin  (2005)  em  caso  de 
análise de distribuição na população geral. 
No Brasil, Endres et al. (2015) publicaram um estudo utilizando uma versão brasileira 
da BAPQ, entretanto, ainda não foram publicados dados sobre validação dessa versão, com os 
parâmetros  psicométricos  do  instrumento.  Por  sua  vez,  a  SRS-A  é  um  instrumento 
comercializado  e,  portanto,  não  é  de  livre  acesso.  Quanto  ao  AQ,  não  foram  encontradas 
publicações brasileiras de validação da escala. 
Uma  vez  que  se  trata  de  um  instrumento  importante  na  literatura,  que  apesar  das 
críticas, é considerado sensível para avaliar traços do TEA, este projeto se propôs a realizar a 
adaptação transcultural e validação do AQ para uso no Brasil. 
É  importante  pontuar  que  há  críticas  na  literatura  de  que  o  AQ  pode  apresentar  um 
viés  para  sintomas  mais  típicos  em  indivíduos  do  sexo  masculino  (James,  Dubey,  Smith, 
Ropar & Tunney, 2016). Um trabalho utilizando uma versão reduzida do mesmo instrumento 


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que revelou boa consistência interna, porém, não encontrou vieses na identificação de traços 
associados ao TEA em homens e mulheres com esse diagnóstico (Grove, Hoekstra, Wierda & 
Begeer,  2016).  É  essencial,  portanto,  buscar  bons  parâmetros  estatísticos  ao  validar  uma 
versão  adaptada  do  instrumento,  ainda  que  seja  necessário  reduzir  a  escala  para  que  esta 
apresente consistência interna adequada para a amostra, de modo a evitar possíveis vieses. 
Estudos recentes também dão suporte à indicação de Austin (2005) de que seja dada 
preferência  ao  modelo  politômico  de  correção  do  instrumento,  referindo  que  este  oferece 
maior precisão para identificar traços do TEA na população geral (Murray, Booth, McKenzie 
& Kuenssberg, 2016), além de melhorar a consistência interna e confiabilidade teste-reteste 
do instrumento (Stevenson & Hart, 2017). 



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