Microsoft Word Samara Reis Dissertacao Mestrado versao final submetida docx


Estudos Genéticos e o Fenótipo Ampliado do Autismo



Baixar 5.46 Mb.
Pdf preview
Página13/52
Encontro30.06.2021
Tamanho5.46 Mb.
1   ...   9   10   11   12   13   14   15   16   ...   52
Estudos Genéticos e o Fenótipo Ampliado do Autismo 
 
Em  uma  revisão  de  uma  década  de estudos  com  gêmeos,  Ronald  e  Hoekstra  (2011) 
discutem  as  fortes  evidências  de  uma  herança  genética  envolvida  nas  causas  do  Espectro 
Autista. Estudos iniciais apontavam em média 76% de concordância para a presença do TEA 


35
em  gêmeos  monozigóticos  (ou  seja,  se  um  dos  gêmeos  apresentava  TEA,  o  outro  também 
apresentava, em três a cada quatro casos), enquanto estudos atuais chegaram a apontar uma 
concordância média de 88%. Para gêmeos dizigóticos, essa concordância foi reportada entre 0 
e 31% em estudos. Esses dados indicam que existe uma carga genética compartilhada entre 
irmãos  gêmeos  relacionada  a  tais  transtornos,  bem  como  fatores  epigenéticos  que  moderam 
sua expressão ou silenciamento. 
Por  serem  geneticamente  idênticos  a  nível  de  sequenciamento  do  DNA,  ao  mesmo 
tempo em que seus genes se expressam de forma diferente em função da epigenética, o estudo 
de casos de gêmeos monozigóticos em que somente um dos irmãos apresenta quadro de TEA 
pode ajudar a compreender que tipo de interação entre gene e ambiente estaria influenciando 
na  manifestação  ou  não  desses  quadros.  Aspectos  ambientais  compartilhados  e  não 
compartilhados vem sendo analisados para detectar possíveis fatores de risco e diferenças na 
morfologia  e  no  funcionamento  cerebral  desses  pares  também  tem  sido  sistematicamente 
documentadas  (Losh  et  al.,  2008;  Ronald  &  Hoekstra,  2011).  Entretanto,  os  mecanismos 
exatos que culminam na expressão genética do TEA ainda não foram descobertos. 
Pesquisas  de  sequenciamento  tiveram  sucesso  em  identificar  cerca  de  65  genes  que 
reúnem  evidências  de  influência  genética  no  TEA,  dentre  uma  estimativa  de  centenas  de 
genes candidatos (Krishnan et al., 2016), sendo que mutações em múltiplos genes explicam 
aproximadamente  1/3  dos  casos  (Homs  et  al.,  2016).  Pesquisas  em  epigenética  sobre 
metilação do DNA (modificações químicas que moderam a expressão gênica e fazem parte da 
herança  epigenética)  também  tem  ajudado  a  compreender  possíveis  efeitos  ambientais  que 
podem influenciar a manifestação desses transtornos (Loke, Hannan & Craig, 2015). 
Apesar de existirem possíveis vieses no diagnóstico do TEA entre meninos e meninas, 
conforme  discutido  anteriormente,  o  fato  de  que  mulheres  apresentam  proteções  biológicas 
contra  determinadas  variações  genéticas  e  menor  exposição  a  hormônios  envolvidos  na 


36
manifestação  do  TEA  (como  a  testosterona,  por  exemplo)  poderia  explicar  a  maior 
prevalência de tais transtornos em homens (Werling & Geschwind, 2013). 
Em suma, todas essas evidências permitem afirmar que existe um genótipo associado 
ao  autismo  que,  em  conjunto  com  interações  ambientais  e  possíveis  eventos  ao  acaso, 
manifesta-se  através  de  determinado  fenótipo  ou  endofenótipo,  no  caso,  traços  ou 
características comportamentais e cognitivas observáveis nos indivíduos diagnosticados com 
TEA.  De  acordo  com  estudos  recentes,  esses  traços  podem  ser  encontrados  em  grau 
subclínico  em  parentes  próximos  desses  indivíduos,  e  parecem  ter  distribuição  normal  na 
população geral (Constantino & Todd, 2003; Hoekstra et al., 2007; Ingersoll et al., 2011). 
Essa  manifestação  cognitiva  e  comportamental  em  grau  subclínico  de  traços  do 
autismo tornou-se conhecida como Broader Autism Phenotype (BAP), ou Fenótipo Ampliado 
do Autismo (FAA), conforme descrito por Piven et al. (1997), tendo sido objeto de diversas 
pesquisas na última década (Dawson et al., 2007; Losh et al., 2008; Virkud et al., 2009; de 
Jonge et al., 2015). 
Em um estudo com adultos, irmãos de indivíduos com TEA apresentaram mais traços 
de autismo do que o grupo controle, obtendo escores intermediários entre os pacientes com 
TEA  e  os  indivíduos  típicos  (Ruzich  et  al.,  2017).  Outro  estudo  indicou  que  há  duas 
categorias para irmãos de indivíduos com TEA, aqueles com poucos traços associados a esses 
transtornos (que são mais semelhantes aos controles), e aqueles com muitos traços associados 
(que  são  mais  semelhantes  aos  indivíduos  com  TEA)  (Ruzich  et  al.,  2016).  Bora,  Aydin, 
Sarac, Kadak & Kose (2017) também distinguiram duas categorias do FAA em parentes de 
pacientes  com  TEA,  aqueles  com  "baixo  escore"  e  "elevado  escore"  na  medida  utilizada,  a 
saber, o Autism Spectrum Quotient (AQ) (Baron-Cohen et al., 2001), sendo que a subescala de 
"comunicação" do referido instrumento foi a que melhor discriminou entre os grupos. 


37
Em  crianças,  há  evidências  de  que  a  Teoria  da  Mente  e  a  habilidade  empática  de 
irmãos de indivíduos com TEA tende a ser menos desenvolvida em relação a crianças típicas 
(Eyboglu,  Baykara  &  Eyuboglu,  2017).  Outro  estudo  com  adolescentes,  porém,  não 
identificou diferenças na performance em Teoria da Mente cognitiva em irmãos de pacientes 
com TEA (Holt et al., 2014). 
Na  população  geral,  há  evidências  de  que  os  homens  apresentam  mais  traços 
associados ao TEA do que mulheres, segundo um estudo realizado na Inglaterra que evolveu 
quase meio milhão de participantes, bem como indivíduos com ocupações na área de ciências 
exatas em relação a outras áreas, não tendo sido observadas, entretanto, diferenças associadas 
à  idade  ou  à  região  geográfica  dos  participantes  (Ruzich  et  al.,  2015).  Em  contrapartida, 
Ferrante (2016) analisou a expressão de traços de autismo em uma população universitária, e 
não  encontrou  diferenças  de  sexo.  Outros  estudos  são  necessários,  portanto,  para esclarecer 
essas divergências, sendo importante considerar possíveis vieses dos instrumentos utilizados. 
 



Compartilhe com seus amigos:
1   ...   9   10   11   12   13   14   15   16   ...   52


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal