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Historia do Trabalhoo velho o novo e o global
 

VI 

O  desenvolvimento  da  História  Global  do  Trabalho  terá  que  enfrentar  diversos 

obstáculos para florescer. Estes obstáculos incluem problemas práticos, tais como o fato de 

que em muitos países do Hemisfério Sul não há arquivos adequadamente climatizados.

11

  Eu 


não  quero  me  deter  nestas  questões  técnicas  agora  (ainda  que  possamos,  obviamente 

colocá-las  na  discussão),  quero  concentrar-me  nos  desafios  substanciais.  Porque  o  maior 

obstáculo que temos somos nós mesmos, com nossas teorias e interpretações tradicionais. 

Já  mencionei  as  duas  mais  importantes  armadilhas:  nacionalismo  metodológico  e 

eurocentrismo. 

                                                                  

11 

O exemplo do Instituto V.V. Giri National Labour, em Noida, na Índia mostra como é possível construir  um 



arquivo de bom funcionamento com recursos financeiros limitados. 


 

Revista Mundos do Trabalho, vol.1, n. 1, janeiro-junho de 2009. 

 

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HISTÓRIA DO TRABALHO: O VELHO, O NOVO E O GLOBAL 

Nacionalistas  metodológicos  são  vítimas  de  dois  erros  intelectuais  importantes. 

Primeiramente,  naturalizam  o  Estado  nacional.  Por  isso,  quero  dizer  que  consideram  o 

Estado-nação  uma  unidade  básica  de  análise  para  a  pesquisa  histórica.  Ainda  que 

reconheçam que os Estados nacionais apenas floresceram nos séculos XIX e XX, eles, mesmo 

assim,  ainda  interpretam  a  história  mais  antiga  como  a  pré-história  do  Estado-nação 

posterior e consideram processos trans-fronteiriços ou processos que subvertem fronteiras 

como  desvios  do  modelo  “puro”.  Estamos,  portanto,  lidando  com  uma  teleologia  que 

deveria  ser abandonada  radicalmente.  De  uma perspectiva  global,  a  existência  de  estados-

nação obviamente continua sendo um aspecto essencial do sistema mundial, mas este é um 

aspecto que precisa ser exaustivamente historicizado em conexão com aspectos sub, supra e 

trans-nacionais. Em segundo lugar, os nacionalistas metodológicos misturam sociedade com 

Estado  e  com  território  nacional.

12

  Isso  significa:  eles  pensam  que  as  sociedades  são 



geograficamente  idênticas  aos  estados  nacionais.  Os  Estados  Unidos  têm  sua  própria 

sociedade, o México tem sua própria sociedade, a China tem sua própria sociedade e assim 

por  diante.  Aqui,  também,  uma  abordagem  totalmente  nova  é  necessária.  Talvez 

devêssemos pensar mais profundamente sobre a sugestão de Micheal Mann de encarar as 

sociedades como “múltiplas redes sócio-espaciais de poder (ideológico, econômico, militar e 

político) que se sobrepõem e se interseccionam”. A implicação é que as “Sociedades não são 

unitárias.  Elas  não  são  sistemas  sociais  (fechados  ou  abertos);  não  são  totalidades.  Não 

encontramos nunca uma única sociedade delimitada no espaço geográfico ou social”.

13

 

Há  três  variantes  de  Eurocentrismo  que  devo  mencionar.  A  primeira  variante  é 



simplesmente  negligência:  atenção é dada  somente  para parte do mundo;  o  autor  assume 

que a história “do seu pedaço de mundo” pode ser escrita sem dar atenção ao restante. Esta 

atitude  é bem  evidente na distinção  popular entre  “Oeste”  e  o  “Resto”,

14

  mencionada  por 



Samuel  Huntington  e  outros.

15

  A  segunda  variante  é  claramente  preconceito:  os  autores 



levam em consideração conexões globais, mas, no entanto, acreditam que a Grande Europa 

(incluindo  América  do  Norte  e  Oceania)  “aponta  para  o  caminho”.  Este  eurocentrismo  é 

                                                                  

12

  Isso  não  significa  que  eles  eram  identificados  um  com  o  outro.  Em  vez  disso,  eles  freqüentemente 



funcionaram como counter-poles, como na Alemanha por volta de 1848, quando a concepção de “sociedade” 

era utilizada para mostrar oposição ao Estado. 

13

  Michael Mann. The Sources of Social Power. vol. I. Cambridge: Cambridge University Press, 1986,p. 1-2. 



14 

N.T. A expressão original do inglês contém um jogo de palavras entre “West” (oeste) e “Rest” (Resto). 

15 

O  inventor  desta  expressão  parece  ter  sido  o  diplomata  de  Singapura,  Kishore  Mahbubani.  Ver  seu  artigo: 



“The West and the Rest”. The National Interest, Summer, 1992, p. 3-13. 


 

Revista Mundos do Trabalho, vol.1, n. 1, janeiro-junho de 2009. 

ARTIGOS 

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especialmente  evidente entre teóricos  da  modernização.

16

  Robert Nisbet caracterizou esta 



abordagem ao desenvolvimento desta forma:

 

A Humanidade é comparada a uma vasta procissão, com todos, ou ao menos um grande 



número de povos feitos membros da procissão. [...] Naturalmente, a Europa Ocidental e 

seu  padrão  específico  de  valores  econômicos,  políticos,  morais  e  religiosos  adquiridos 

historicamente foi encarada como estando à frente, na vanguarda da procissão. Todos 

os outros povos, apesar de ricos em suas próprias civilizações, como a China e a Índia, 

foram vistos, por assim dizer, como “estágios” em uma procissão que os levaria também 

algum dia à completude de desenvolvimento que o sagrado Ocidente representava.

17

 

 



A  terceira  variante  consiste  em  crenças  empíricas.  Esta  variante  é  mais  difícil  de 

reconhecer  e  combater.  Estamos  lidando  aqui  com  pontos-de-vista  científicos  que 

aparentemente foram confirmados repetidas vezes por pesquisas. Eurocentristas empíricos 

fazem asserções porque pensam que tudo se resume a fatos. Acreditam, por exemplo, que 

os sindicatos são sempre mais eficientes quando se concentram em alguma forma de acordo 

coletivo.  Isso,  pensam  eles,  foi  provado  repetidas  vezes.  Historiadores  que  defendem  tal 

visão  negariam  enfaticamente  guardar  quaisquer  preconceitos  eurocêntricos,  e  muito 

poucos deles, de fato, guardam tais preconceitos. Como o Jim Blaut da maturidade escreveu: 

“o  eurocentrismo  [...]  é  algo  muito  complexo.  Podemos  banir  todos  os  significados 

valorativos  da  palavra,  todos  os  preconceitos,  e  ainda  o  teremos  como  um  conjunto  de 

                                                                  

16 


Leonard Binder. “The Natural History of Modernization Theory”. Comparative Studies in Society and History

28,  1  (January  1986),  p.  3-33.  Obviamente  essa  observação  também  é  aplicada  ao  marxismo  dominante,  que 

também possui uma teoria da modernização. 

17

  Robert Nisbet. “Ethnocentrism and the Comparative Method”. In: A.R. Desai (ed.). Essays on Modernization 




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