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parte acudiu também Sofia, ordenando que a procurasse antes, em casa



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parte acudiu também Sofia, ordenando que a procurasse antes, em casa. 
 
 
CAPÍTULO CLXXXIX 


 
 
 
SAÍRAM. Sofia, antes de pôr o pé na rua, olhou para um e outro lado, espreitando se 
vinha alguém; felizmente, a rua estava deserta. Ao ver-se livre da pocilga, Sofia readquiriu o 
uso das boas palavras, a arte maviosa e delicada de captar os outros, e enfiou amorosamente o 
braço no de D. Fernanda. Falou-lhe de Rubião e da grande desgraça da loucura; assim 
também do palacete de Botafogo. Por que não ia com ela ver as obras? Era só lanchar um 
pouco, e partiriam imediatamente. 
 
 
CAPÍTULO CXC 
 
 
 
SOBREVEIO UM SUCESSO que distraiu D. Fernanda do Rubião; foi o nascimento 
de uma filha de Maria Benedita. Ela correu à Tijuca, encheu de beijos a mãe e a criança, deu a 
mão a beijar a Carlos Maria. 
 
 
-Sempre exuberante! exclamou o jovem pai, obedecendo. 
 
 
-Sempre secarrão! retorquiu ela. 
 
 
Apesar da resistência do primo, D. Fernanda acompanhou a convalescença de Maria 
Benedita, tão cordial, tão boa, tão alegrem, que era um encanto conservá-la em casa. A 
felicidade daqui fê-la esquecer a desgraça dacolá; mas, convalescida a recente mãe, D. 
Fernanda acudiu ao enfermo. 
 
 
CAPÍTULO CXCI 
 
 
 
"CONTO RESTITUÍ-LO à razão no fim de seis ou oito meses. Vai muito bem." 
 
 
D. Fernanda mandou a Sofia esta resposta do diretor da casa de saúde, e convidou-a a 
irem ver o enfermo, se achasse que não lhe ficava mal. "Que mal pode haver?" respondeu 
Sofia em um bilhete. "Mas eu é que não teria ânimo de vê-lo; foi tão nosso amigo, que não sei 
se poderia suportar a vista e a conversação do pobre homem. Mostrei a carta a Cristiano, que 
me declarou ter liquidado os bens do Sr. Rubião apurou três contos e duzentos." 
 
 
CAPÍTULO CXCIII 
 
 
 
SEIS MESES, oito meses passam depressa", reflexionou D. Fernanda. 
 
 
E eles vieram vindo, com os sucessos às costas, - a queda do ministério, a subida de 
outro em março, a volta do marido, a discussão da lei dos ingênuos, a morte do noivo de D. 
Tonica, três dias antes de casar. D. Tonica espremeu as últimas lágrimas, umas de amizade, 
outras de desesperança, e ficou com os olhos tão vermeIhos, que pareciam doentes. 
 


 
Teófilo, que merecera do novo gabinete a mesma confiança do antigo, teve parte 
copiosa nos debates da sessão parlamentar. Camacho declarou pela sua folha que a lei dos 
ingênuos absolvia a esterilidade e os crimes da situação. Em outubro, Sofia inaugurou os seus 
salões de Botafogo, com um baile, que foi o mais célebre do tempo. Estava deslumbrante. 
Ostentava, sem orgulho, todos os seus braços e espáduas. Ricas jóias; o colar era ainda um 
dos primeiros presentes do Rubião, tão certo que, neste gênero de atavios, as modas 
conservam se mais. Toda a gente admirava a gentileza daquela trintona fresca e robusta; 
alguns homens falavam (com pena) das suas virtudes conjugais, da profunda adoração que ela 
tinha ao marido. 
 
 
CAPÍTULO CXCIII 
 
 
 
NO DIA SEGUINTE ao baile, D. Fernanda acordou tarde. Foi ao gabinete do marido, 
que já devorara cinco ou seis jornais, escrevera dez cartas e retificava a posição de alguns 
livros nas estantes. 
 
 
-Recebi esta carta, há pouco, disse ele. 
 
 
D. Fernanda leu-a; era do diretor da casa de saúde; noticiava que Rubião, desde três 
dias, desaparecera, não tendo podido ser encontrado por mais esforços que houvessem 
empregado a polícia e ele. Tanto mais me espanta esta fuga", concluía a carta, "quanto que as 
melhoras eram grandes, e podia contar que, em dous meses, o poria inteiramente bom". 
 
 
D. Fernanda ficou consternada; alcançou do marido que escrevesse ao chefe de polícia 
e ao ministro da justiça, pedindo-lhes que ordenassem as mais severas pesquisas. Teófilo não 
tinha o menor interesse no achado nem na cura de Rubião; mas quis servir à mulher, cuja 
bondade conhecia, e, porventura, gostava de cartear-se com os homens da alta administração. 
 
 
CAPÍTULO CXCIV 
 
 
 
COMO ACHAR, porém, o nosso Rubião nem o cachorro, se ambos haviam partido 
para Barbacena? Oito dias antes, Rubião escrevera ao Palha que o procurasse; este acudiu à 
casa de saúde, viu que ele raciocinava claramente, sem a menor sombra de delírio. 
 
 
-Tive uma crise mental, disse-lhe Rubião; agora estou bom, perfeitamente bom. Peço-
lhe que me ponha fora daqui. Creio que o diretor não se oporá. Entretanto, como quero deixar 
algumas lembranças à gente que me tem servido, e servido também ao Quincas Borba, veja se 
me pode adiantar cem mil-réis. 
 
 
Palha abriu a carteira sem hesitação, e deu-lhe o dinheiro. 
 
 
-Vou tratar de o fazer sair, disse ele; mas, provavelmente são precisos alguns dias 
(estava em vésperas do baile); não se aflija por isso; daqui a uma semana está na rua. 
 
 
Antes de sair, consultou o diretor, que lhe deu boas notícias do enfermo. Uma semana 
é pouco, disse ele; para pô-lo bom, bom, preciso ainda uns dous meses. Palha confessou que o 


achara sãoem todo caso, mandava quem sabia, e se fossem necessários seis ou sete meses 
mais, não precipitasse a alta. 
 
 
 
CAPÍTULO CXCV 
 
 
 
RUBIÃO, logo que chegou a Barbacena e começou a subir a rua que ora se chama de 
Tiradentes, exclamou parando 
 
 
-Ao vencedor, as batatas! 
 
 
Tinhas-as esquecido de todo, a fórmula e a alegoria. De repente como se as sílabas 
houvessem ficado no ar, intactas, aguardando alguém que as pudesse entender, uniu-as, 
recompôs a fórmula, e proferiu-a com a mesma ênfase daquele dia em que a tomou por lei da 
vida e da verdade. Não se lembrava inteiramente da alegoria; mas, a palavra deu-lhe o sentido 
vago da luta e da vitória. 
 
 
Subiu, acompanhado do cão, e foi parar defronte da igreja. Ninguém lhe abriu a porta; 
não viu sombra de sacristão. Quincas Borba que não comia desde muitas horas, colava-se-lhe 
às pernas, cabisbaixo, esperando. Rubião voltou-se, e do alto da rua estendeu os olhos abaixo 
e ao longe. Era ela, era Barbacena; a velha cidade natal ia-se-lhe desentranhando das 
profundas camadas da memória. Era ela; aqui estava a igreja, ali a cadeia, acolá a farmácia, 
donde vinham os medicamentos para o outro Quincas Borba. Sabia que era ela, quando 
chegou, mas, à medida que os olhos se derramavam, as reminiscências vinham vindo, mais 
numerosas, em bando. Não via ninguém; uma janela, à esquerda, parecia ter alguém que 
espiava. Tudo o mais deserto. 
 
 
"Talvez não saibam que cheguei", pensou Rubião. 
 
 
CAPÍTULO CXCVI 
 
 
 
SÚBITO, RELAMPEJOU; as nuvens amontoavam-se às pressas. Relampejou mais 
forte, e estalou um trovão. Começou a chuviscar grosso. mais grosso, até que desabou a 
tempestade. Rubião, que aos primeiros pingos, deixara a igreja, foi andando rua abaixo, 
seguido sempre do cão, faminto e fiel, ambos tontos, debaixo do aguaceiro, sem destino, sem 
esperança de pouso ou de comida... A chuva batia-lhes sem misericórdia. Não podiam correr, 
porque Rubião temia escorregar e cair, e o cão não queria perdê-lo. A meia rua, acudiu à 
memória do Rubião a farmácia, voltou para trás, subindo contra o vento, que lhe dava de cara; 
mas, ao fim de vinte passos, varreu-se-lhe a idéia da cabeça; adeus, farmácia! adeus, pouso! Já 
se não lembrava do motivo que o fizera mudar de rumo, e desceu outra vez, e o cão atrás, sem 
entender nem fugir, um e outro alagados, confusos, ao som da trovoada rija e contínua. 
 
 
CAPÍTULO CXCVII 
 
 


 
VAGARAM sem destino. O estômago de Rubião interrogava, exclamava, intimava; 
por fortuna, o delírio vinha enganar a necessidade com os seus banquetes das Tulherias. 
Quincas Borba é que não tinha igual recurso. E toca a andar acima e abaixo. Rubião, de 
quando em quando, sentava-se no lajedo, e o cão trepava-lhe às pernas, para dormir a fome; 
achava as calcas molhadas, e descia; mas tornava logo a subir, tão frio era o ar da noite, já 
noite alta, já noite morta. Rubião passava-lhe as mãos por cima, resmungando algumas 
palavras magras. 
 
 
Se, apesar de tudo, Quincas Borba conseguia adormecer, acordava logo, porque 
Rubião levantava-se e punha-se outra vez a descer e subir ladeiras. Soprava um triste vento, 
que parecia faca, e dava arrepios aos dous vagabundos. Rubião andava devagar; o próprio 
cansaço não lhe permitia as grandes pernadas do princípio, quando a chuva caía em bátegas. 
As paradas eram agora mais freqüentes. O cão, morto de fome e de fadiga, não entendia 
aquela odisséia, ignorava o motivo, esquecera o lugar, não ouvia nada, senão as vozes surdas 
do senhor. Não podia ver as estrelas, que já então rutilavam, livres de nuvens. Rubião 
descobriu-as; chegara à porta da igreja, como quando entrou na cidade; acabava de sentar-se e 
deu com elas. Estavam tão bonitas, reconheceu que eram os lustres do grande salão e ordenou 
que os apagassem. Não pôde ver a execução da ordem; adormeceu ali mesmo, com o cão ao 
pé de si. Quando acordaram de manhã, estavam tão juntinhos que pareciam pegados. 
 
 
CAPÍTULO CXCVIII 
 
 
 
-Ao VENCEDOR, as batatas! exclamou Rubião quando deu com os olhos na rua, sem 
noite, sem água, beijada do sol. 
 
 
CAPÍTULO CXCIX 
 
 
 
FOI A COMADRE do Rubião, que o agasalhou e mais ao cachorro, vendo-os passar 
defronte da porta. Rubião conheceu-a, aceitou o abrigo e o almoço. 
 
 
-Mas que é isso, seu compadre? Como foi que chegou assim? Sua roupa está toda 
molhada. Vou dar-lhe umas calças de meu sobrinho. 
 
 
Rubião tinha febre. Comeu pouco e sem vontade. A comadre pediu-lhe contas da vida 
que passara na Corte, ao que ele respondeu que levaria muito tempo, e só a posteridade a 
acabaria. Os sobrinhos de seu sobrinho, concluiu ele magnificamente, que hão de ver-me em 
toda a minha glória. Começou, porém, um resumo. No fim de dez minutos, a comadre não 
entendia nada, tão desconcertados eram os fatos e os conceitos; mais cinco minutos, entrou a 
sentir medo. Quando os minutos chegaram a vinte, pediu licença e foi a uma vizinha dizer que 
Rubião parecia ter virado o juízo. Voltou com ela e um irmão, que se demorou pouco tempo e 
saiu a espalhar a nova. Vieram vindo outras pessoas, às duas e às quatro, e, antes de uma hora, 
muita gente espiava da rua. 
 
 
-Ao vencedor, as batatas! -- bradava Rubião aos curiosos. Aqui estou imperador! Ao 
vencedor, as batatas! 
 


 
Esta palavra obscura e incompleta era repetida na rua, examinada, sem que lhe dessem 
com o sentido. Alguns antigos desafetos do Rubião iam entrando, sem cerimônia, para gozá-
lo melhor; e diziam à comadre que não lhe convinha ficar com um doudo em casa, era 
perigoso; devia mandá-lo para a cadeia, até que a autoridade o remetesse para outra parte. 
Pessoa mais compassiva lembrou a conveniência de chamar o doutor. 
 
 
-Doutor para quê? acudiu um dos primeiros. Este homem está maluco. 
 
 
-Talvez seja delírio de febre; já viu como está quente? 
 
 
Angélica, animada por tantas pessoas, tomou-lhe o pulso, e achou-o febril. Mandou vir 
o médico,-o mesmo que tratara o finado Quincas Borba. Rubião conheceu-o também; e 
respondeu-lhe que não era nada. Capturara o rei da Prússia, não sabendo ainda se o mandaria 
fuzilar ou não; era certo, porém, que exigiria uma indenização pecuniária enorme, - cinco 
biliões de francos. 
 
 
-Ao vencedor, as batatas! concluiu rindo. 
 
 
CAPÍTULO CC 
 
 
 
POUCOS DIAS DEPOIS morreu... Não morreu súbdito nem vencido. Antes de 
principiar a agonia, que foi curta, pôs a coroa na cabeça, -uma coroa que não era, ao menos, 
um chapéu velho ou uma bacia, onde os espectadores palpassem a ilusão. Não, senhor; ele 
pegou em nada, levantou nada e cingiu nada; só ele via a insígnia imperial, pesada de ouro, 
rútila de brilhantes e outras pedras preciosas. O esforço que fizera para erguer meio corpo não 
durou muito; o corpo caiu outra vez; o rosto conservou porventura uma expressão gloriosa. 
 
 
-Guardem a minha coroa, murmurou. Ao vencedor... 
 
 
A cara ficou séria, porque a morte é séria; dous minutos de agonia um trejeito horrível, 
e estava assinada a abdicação. 
 
 
CAPÍTULO CCI 
 
 
 
QUERIA DIZER aqui o fim do Quincas Borba, que adoeceu também, ganiu 
infinitamente, fugiu desvairado em busca do dono, e amanheceu morto na rua, três dias 
depois. Mas, vendo a morte do cão narrada em capítulo especial, é provável que me perguntes 
se ele, se o seu defunto homônimo é que dá o título ao livro, e por que antes um que outro,-
questão prenhe de questões, que nos levariam longe... Eia! chora os dous recentes mortos, se 
tens lágrimas. Se só tens riso ri-te! E a mesma cousa. O Cruzeiro, que a linda Sofia não quis 
fitar como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos 
homens. 


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