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parte..." E ela pareceu entender o sentido daquele gesto



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parte..." E ela pareceu entender o sentido daquele gesto. 
 
 
-Sim! sim! 
 
 
O marido sorriu e tornou à revista inglesa. Ela, encostada à trona, passava-lhe os dedos 
pelos cabelos, muito ao de leve e caladinha para não perturbá-lo. Ele ia lendo, lendo, lendo. 
Maria Benedita foi atenuando a carícia, retirando os dedos aos poucos, até que saiu da sala, 
onde Carlos Maria continuou a ler um estudo de Sir Charlen Little, M.P., sobre a famosa 
estatueta de Narciso, do Museu de Nápoles. 
 
 
CAPÍTULO CLXXIV 
 
 
 
QUANDO RUBIÃO foi à casa de D. Fernanda, à tardinha, ouviu do criado que não 
podia subir. A senhora estava incomodada; o senhor estava com ela; parece que esperavam o 
médico. O nosso amigo não teimou, e retirou-se. 
 
 
Era o contrário; era o senhor que estava doente, e a senhora que o acompanhava; mas 
o criado não podia trocar o recado que lhe deram. Outro criado desconfiou, é certo, que o 
doente fosse ele e não ela, porque o vira entrar abatido. Em cima, no quarto deles havia algum 
rumor de vozes, ora alto, ora baixo, com intervalos de silêncio. Uma criadinha, que subira pé 
ante pé, desceu dizendo que ouvira lastimar-se o amo; provavelmente a senhora estava 
pendida. Embaixo, um palavrear surdo, ouvidos compridos, conjeturas, notavam que de cima 
não pedissem água, qualquer remédio, um caldo, ao menos. A mesa posta, o criado 
engravatado, o cozinheiro orgulhoso e ansioso... Justamente, um dos melhores jantares! 
 
 
Que era? Teófilo tinha ainda o gesto abatido com que entrou; estava sentado em um 
canapé, sem colete, olhos fixos. Ao p dele, sentada também, segurando-lhe uma das mãos, D. 
Fernanda pedia-lhe que sossegasse, que não valia a pena. E inclinava-se para ver-lhe o rosto, 
chamava-o para si, queria que ele encostasse a cabeça ao ombro dela. 
 
 
-Deixa, deixa, murmurava o marido. 
 
 
-Não vale a pena, Teófilo! Pois agora um ministério... ? Valerá tanto um cargo de 
pouco tempo, cheio de desgostos, insultos, trabaIhos, para quê? Não é melhor a vida 
tranqüila? Vá que haja injustiça creio que sim, você tem serviços; mas será tamanha perda 
assim? Anda, querido, sossega; vamos jantar. 
 
 
Teófilo mordia os beiços, puxando uma das suíças. Não ouvira nada do que a mulher 
dissera, nem exortações, nem consolações. Ouvira as conversas da noite anterior e daquela 
manhã, as combinações políticas, os nomes lembrados, os recusados e os aceitos. Nenhuma 
combinação o incluiu, posto que ele falasse com muita gente acerca do verdadeiro aspecto da 
situação. Era ouvido com atenção, por uns, com impaciência por outros. Uma vez, os óculos 
do organizador pareceram interrogá-lo,-mas foi rápido o gesto e ilusório. Teófilo recompunha 
agora a agitação de tantas horas e lugares,- lembrava os que o olhavam de esguelha, os que 
sorriam, os que traziam a mesma cara que ele. Para o fim já não falava; as últimas esperanças 
estalavam-lhe nos olhos como lamparina de madrugada . Ouvira os nomes dos ministros, fora 
obrigado a achá-los bons; mas que força não lhe era precisa para articular alguma palavra! 


Receava que lhe descobrissem o abatimento ou despeito, e todos os seus esforços concluíam 
por acentuá-los ainda mais. Empalidecia, tremiam-lhe os dedos. 
 
 
CAPÍTULO CLXXV 
 
 
 
- ANDA, VAMOS JANTAR, repetiu D. Fernanda. 
 
 
Teófilo deu um golpe no joelho, com a mão aberta, e levantou-se, dizendo palavras 
soltas e raivosas, andando de um lado para outro, batendo o pé, ameaçando. D. Fernanda não 
pôde vencer a violência daquele novo acesso, esperou que fosse curto, e foi curto; Teófilo 
chegou-se a uma poltrona, sacudiu a cabeça e caiu outra vez prostrado. D. Fernanda pegou de 
uma cadeira e sentou-se ao pé dele. 
 
 
-Tens razão, Teófilo; mas é preciso ser homem. És moço e forte, tens ainda futuro, e 
talvez grande futuro. Quem sabe se, entrando agora no ministério, não perderias mais tarde? 
Entrarás em outro. Às vezes, o que parece desgraça é felicidade. 
 
 
Teófilo apertou-lhe a mão agradecido. 
 
 
-Ë perfídia, é intriga, murmurava ele, olhando para ela; eu conheço toda essa canalha. 
Se eu contasse a você tudo, tudo. . . Mas para quê? Prefiro esquecer... Não é por causa de uma 
miserável pasta que estou aborrecido, continuou ele depois de alguns instantes. Pastas não 
valem nada. Quem sabe trabalhar e tem talento pode zombar das pastas, e mostrar que é 
superior a elas. A maior parte dessa gente, Nanã não me chega aos calcanhares. Disso estou 
certo e eles também. Súcia de intrigantes! Onde acharão mais sinceridade, mais fidelidade, 
mais ardor para a luta? Quem trabalhou mais na imprensa, no tempo do ostracismo? 
Desculpam-se; dizem que os gabinetes já vêm organizados de S. Cristóvão... Ah! eu quisera 
falar ao Imperador! 
 
 
-Teófilo! 
 
 
-Eu diria ao Imperador"Senhor, Vossa Majestade não sabe o que é essa política de 
corredores, esses arranjos de camarilha. Vossa Majestade quer que os melhores trabalhem nos 
seus conselhos, mas os medíocres é que se arranjam. . . O merecimento fica para o lado." t o 
que lhe hei de dizer um dia; pode ser até que amanhã... 
 
 
Calou-se. Depois de longa pausa, ergueu-se e foi ao gabinete de trabalho, que ficava 
ao pé do quarto; a mulher acompanhou-o. Era já escuro, acendeu o bico de gás, e circulou 
pelo gabinete os olhos velados de melancolia. Havia ali quatro largas estantes cheias de livros, 
de relatórios, de orçamentos, de balanços do Tesouro. A secretária estava em ordem. Três 
armários altos, sem portas, guardavam os manuscritos, notas, lembranças, cálculos, 
apontamentos, tudo empilhado e rotulado metodicamente;-créditos extraordinários, créditos 
suplementares,-créditos de guerra,-créditos de marinha, -empréstimos de 1868,-estradas de 
ferro,-dívida interna, exercício de 61-62, de 62-63, de 63-64, etc. Era ali que trabalhava de 
manhã e de noite, somando, calculando, recolhendo o elementos dos seus discursos e 
pareceres, porque era membro de três comissões parlamentares, e trabalhava geralmente por si 
e pelos seis colegas; estes ouviam e assinavam. Um deles, quando os pareceres eram extensos, 
assinava-os sem ouvir. 


 
 
-Homem, você é mestre e basta, dizia-lhe, dê cá a pena. 
 
 
Tudo ali respirava atenção, cuidado, trabalho assíduo, meticuloso e útil. Da parede, em 
ganchos, pendiam os jornais da semana, que eram depois tirados, guardados e finalmente 
encadernados semestralmente, para consultas. Os discursos do deputado, impressos e 
brochados em 4.°, enfileiravam-se em uma estante. Nenhum quadro ou busto, adereço, nada 
para recrear, nada para admirar;-tudo seco, exato, administrativo. 
 
 
-De que vale tudo isto? perguntou Teófilo à mulher, após alguns instantes de 
contemplação triste. Horas cansadas, longas horas da noite até madrugada, às vezes. . . Não se 
dirá que este gabinete é de homem vadio; aqui trabalha-se. Você testemunha que eu trabalho. 
Tudo para quê? 
 
 
-Consola-te trabalhando, murmurou ela. 
 
 
Ele, acerbo 
 
 
-Ruim consolação! Não, não, acabo com isto, passo a ignorar tudo. Olha, na Câmara, 
todos me consultam, até os ministros- porque sabem que eu aplico-me deveras às cousas da 
administração. Que prêmio? Vir para cá, em maio, aplaudir os novos senhores? -Pois não 
aplaudas nada, disse-lhe mansamente a mulher. Queres fazer-me um obséquio? Vamos à 
Europa, em março ou abril, e voltemos daqui a um ano. Pede licença à Câmara, donde quer 
que estejamos,-de Varsóvia, por exemplo; tenho muita vontade de ir a Varsóvia, continuou 
sorrindo e fechando-lhe graciosamente a cara entre as mãos. Diga que sim; responda que é 
para eu escrever hoje  mesmo para o Rio Grande, o vapor sai amanhã. Está dito; vamos a 
Varsóvia? 
 
 
-Não brinques, Nanã, que isto não é objeto de brincadeira 
 
 
-Falo seriamente. Já há muito tempo que ando para propor a você uma viagem, a ver 
se descansa desta papelada infernal. É demais, Teófilo! Você mal se pode arranjar para uma 
visita. Passeio, é raro. Quase não conversa. Os nossos filhos apenas vêem seu pai porque aqui 
não se entra quando você trabalha. . .É preciso descansar; peço-lhe um ano de repouso. Olhe 
que sério. Vamos para a Europa em março. 
 
 
-Não pode ser, balbuciou ele. 
 
 
-Por que não? 
 
 
Não podia ser. Era convidá-lo a sair da própria pele. Política valia tudo. Que também 
houvesse política lá fora, sim; mas que tinha ele com ela? Teófilo não sabia nada do que ia 
por fora, exceto a nossa dívida em Londres, e meia dúzia de economistas. Contudo, agradeceu 
à mulher a intenção da proposta 
 
 
-Tu és boa. 
 
 
E um sentimento vago de esperança restituía à voz do deputado a brandura que 
perdera naquela grande crise moral. Os papéis sopravam-lhe animo. Toda aquela massa de 
estudos aparecia-lhe como a terra adubada e semeada aos olhos do lavrador. Não tardaria a 


grelar; o trabalho teria a recompensa; um dia. mais tarde ou mais cedo, o grelo brotaria e a 
árvore daria frutos. Era justamente o que a mulher havia dito por outras palavras diretas e 
próprias; mas só agora é que ele via a possibilidade da colheita. Lembrou-se das explosões de 
cólera, de indignação, de desespero, das queixas de há pouco, ficou vexado. Quis rir, fê-lo 
mal. Ao jantar e ao café entreteve-se com os filhos, que naquela noite recolheram-se mais 
tarde. Nuno, que já andava no colégio, onde ouvira falar da mudança de gabinete, disse ao pai 
que queria ser ministro. Teófilo ficou sério. 
 
 
-Meu filho, disse ele, escolhe outra cousa, menos ministro. 
 
 
-Diz que é bonito, papai; diz que anda de carro com soldado atrás. 
 
 
-Pois eu te dou um carro. 
 
 
-Papai já foi ministro? 
 
 
Teófilo tentou sorrir e olhou para a mulher, que aproveitou a ocasião para mandar 
deitar os filhos. 
 
 
-Já, já fui ministro, respondeu o pai beijando a testa ao Nuno; mas não quero mais, é 
muito feio, dá trabalho. Tu hás de ser capelão. 
 
 
-Que é capelão? 
 
 
-Capelão é cama, respondeu D. Fernanda; vai dormir, Nuno. 
 
 
CAPÍTULO CLXXVI 
 
 
 
Ao Almoço, no dia seguinte, Teófilo recebeu uma carta por uma ordenança. 
 
 
-Ordenança? 
 
 
-Sim, senhor, diz que vem da parte do Sr. presidente do conselho. 
 
 
Teófilo abriu a carta, com a mão trêmula. Que podia ser? Tinha lido nos jornais a 
relação dos novos ministros; o gabinete estava completo. Não havia divergência de nomes. 
Que podia ser? D. Fernanda, defronte do marido, procurava ler-lhe no rosto o texto da carta. 
Via uma claridade; percebeu que a boca sofreava um sorriso de satisfação,-de esperança, ao 
menos. 
 
 
-Diga que espere, ordenou Teófilo ao criado. 
 
 
Foi ao gabinete, e tornou minutos depois com a resposta. Sentou-se à mesa, calado, 
dando tempo a que o criado entregasse a carta à ordenança. Desta vez, como estava 
prevenido, ouviu as patas do cavalo, e logo depois a galope, rua fora e sentiu-se bem. 
 
 
-Lê, disse ele 
 


 
D. Fernanda leu a carta do presidente do conselho; era um pedido para ir falar-lhe às 
duas horas da tarde. 
 
 
-Mas então o ministério...? 
 
 
-Está completo, deu-se pressa em dizer o deputado; os ministros estão nomeados. 
 
 
Não acreditava de todo o que dizia. Imaginava alguma vaga da última hora, e a 
necessidade urgente de a preencher. 
 
 
-Há de ser alguma conferência política, ou talvez queira cor versar sobre o orçamento,-
ou incumbir-me algum estudo. 
 
 
Dizendo isto, para iludir a mulher, sentiu a probabilidade das hipóteses, e outra vez se 
abateu; mas três minutos depois, as borboletas da esperança volteavam diante dele, não duas, 
nem quatro, mas um turbilhão, que cegava o ar. 
 
 
CAPÍTULO CLXXVII 
 
 
 
D. FERNANDA esperou, cheia de ânsias, como se o ministério fosse para ela, e lhe 
viesse dar qualquer gosto, que não fosse amargo e complicado. Uma vez, porém, que 
satisfizesse o marido, tudo iria pelo melhor. Teófilo tornou às cinco horas e meia. Pelo 
aspecto reconheceu que vinha satisfeito. Correu a apertar-lhe as mãos. 
 
 
- Que há? 
 
 
- Pobre Nanã! Aí vamos com a trouxa às costas. O marquês pediu-me instantemente 
que aceitasse uma presidência de primeira ordem. Não podendo meter-me no gabinete, onde 
tinha lugar marcado desejava, queria e pedia que eu partilhasse a responsabilidade política e 
administrativa do governo, assumindo uma presidência Não podia, em nenhum caso, 
dispensar o meu prestígio (são palavras dele), e espera que na Câmara assuma o lugar de 
chefe de maioria. Que dizes? 
 
 
- Que arranjemos a trouxa, respondeu D. Fernanda. 
 
 
-Achas que podia recusar? 
 
 
-Não. 
 
 
-Não podia. Você sabe, não se podem negar serviços destes a um governo amigo; ou 
então deixa-se a política. Tratou-me muito bem o marquês; eu já sabia que era homem 
superior; mas que risonho e afável! não imaginas. Quer também que compareça a uma 
reunião, os ministros e alguns amigos, poucos, meia dúzia. Confiou-me já o programa do 
gabinete, em reserva... 
 
 
-Quando saímos? 
 


 
-Não sei; hei de estar com ele amanhã, à noite. A reunião é amanhã às oito horas. . . 
Mas não te parece que fiz bem, aceitando? 
 
 
-Decerto. 
 
 
-Sim, se recusasse censurar-me-iam, e com razão. Em política a primeira cousa que se 
perde é a liberdade. Agora você que se quisesse, podia ficar; daqui a cinco meses,-ou quatro, 
abrem-se as câmaras; mal terei tempo de chegar e olhar. 
 
 
CAPÍTULO CLXXVIII 
 
 
 
D. FERNANDA anuiu à proposta; não interrompia a educação do filho; era uma 
separação de quatro meses. Teófilo partiu daí a dias. Na manhã do dia do embarque, logo 
cedo, foi despedir-se do gabinete de trabalho. Deitou os últimos olhos aos livros, relatórios, 
orçamentos, manuscritos, a toda essa parte da família, que só tinha língua interesse para ele. 
Havia atado os papéis e os folhetos para que se não extraviassem e fez à mulher grandes 
recomendações. Parado no centro, circulou a vista pelas estantes, e dispersou a alma por todas 
elas. Despedia-se assim dos seus santos e amigos, com verdadeiras saudades. D. Fernanda, 
que estava ao pé dele, não viveu ali mais que os dez minutos da despedida. Teófilo viveu 
muitos anos. 
 
 
-Deixa estar, eu cuidarei deles, eu mesma os espanarei todos os dias. 
 
 
Teófilo deu-lhe um beijo... Outra mulher recebê-lo-ia triste, por ver que ele amava 
tanto os livros que parecia amá-los mais que a ela, Mas D. Fernanda sentiu-se venturosa. 
 
 
CAPÍTULO CLXXIX 
 
 
 
RUBIÃO, desde o dia da crise ministerial, não tornou a casa de D. Fernanda; nada 
soube, nem da presidência, nem do embarque de Teófilo. Vivia entre o cão e um criado, sem 
grandes crises, nem longos repousos. O criado fazia o serviço irregularmente, comia 
gratificações, e recebia, amiúde, o título de marquês. Ao demais, divertia-se. Quando lhe dava 
ao amo para conversar com as paredes, o criado corria a espiá-lo; assistia ao diálogo, porque o 
Rubião incumbia-se das palavras delas, respondendo como se houvessem feito alguma 
pergunta. De noite, ia à palestra com os amigos da vizinhança. 
 
 
-Como vai o gira? 
 
 
-O gira vai bem. Hoje convidou o cachorro para cantar; o cachorro ladrou muito, e ele 
gostou que se pelou, mas assim um gosto de figurão. Ele, quando está de pancada, parece que 
é como quem governa o mundo. Ainda ontem, almoçando, disse para mim"Marquês 
Raimundo... quero que tu..." e embrulhou o resto, que não entendi nada. No fim deu-me dez 
tostões. 
 
 
-Você guardou logo... 
 


 
-Ora! 
 
 
Quando Rubião voltava do delírio, toda aquela fantasmagoria palavrosa tornava-se, 
por instantes, uma tristeza calada. A consciência, onde ficavam rastos do estado anterior, 
forcejava por despegá-los de si. Era como a ascensão dolorosa que um homem fizesse do 
abismo, trepando pelas paredes, arrancando a pele, deixando as unhas, para chegar acima, 
para não tombar outra vez e perder-se. Ia então à vista dos amigos, uns novos, outros velhos, 
como a gente do major e a do Camacho, por exemplo. 
 
 
Este, desde algum tempo, era menos conversado. A mesma política não lhe dava 
matéria aos discursos de outrora. No escritório, quando via Rubião assomar à porta, fazia um 
gesto de impaciência, que sofreava logo; o outro notava essa mudança, e perdia-se em 
conjeturas, se lhe escapara alguma ofensa, por descuido ou se começava a aborrecê-lo. E para 
desfazer o tédio ou o ressentimento, falava macio, risonho, abrindo longas pausas respeitosas, 
à espera que ele dissesse qualquer cousa. Em vão apelava para o Marquês de Paraná, cujo 
retrato continuava a pender da parede; repetia os nomes que lhe ouvira,-o grande marquês! o 
estadista consumado! Camacho ia apoiando de cabeça, e escrevendo sem parar, consultando 
os autos e os praxistas, Lobão, Coelho da Rocha, citando, riscando, pedindo lh I desculpa. 
Tinha um libelo que dar naquele dia. Interrompia-se para ir à estante. 
 
-Com licença... 
 
 
Rubião arredava as pernas para deixá-lo passar, ele tirava um volume das Ordenações 
do Reino, e folheava, folheava, pulando adiante, voltando atrás, à toa, sem buscar nada, 
unicamente para o fim de despedir o importuno- mas o importuno ia ficando, por isso mesmo 
e entreolhavam-se disfarçados. Camacho tornava ao libelo. Para ler, sentado, inclinava-se 
muito à esquerda, donde lhe vinha a luz, dando as costas ao Rubião. 
 
 
-Aqui é escuro, aventurou Rubião um dia. 
 
 
E não ouviu resposta, tão atento parecia o advogado na leitura dos autos. Realmente, 
pode ser importunação, pensou o nosso amigo. Espreitava-lhe o rosto duro e sério o gesto 
com que pegava da pena; para continuar o interminável libelo. Vinte minutos mais de silêncio 
absoluto. No fim desse prazo, Rubião viu-o deixar a pena, retesar o busto, esticar os braços e 
passar as mãos pelos olhos. Disse-lhe com  interesse 
 
 
-Cansado, não? 
 
 
Camacho fez um gesto afirmativo, e preparou-se para continuar; então o nosso homem 
levantou-se e aproveitou o intervalo para dizer adeus. 
 
 
-Voltarei, quando estiver menos atarefado. 
 
 
Estendeu-lhe a mão; Camacho segurou-lha ao de leve, e tornou ao papel. Rubião 
desceu a escada, aturdido, magoado com a frieza do seu ilustre amigo. Que lhe teria feito? 
 
 
CAPÍTULO CLXXX 
 
 
 
DAQUELA VEZ, teve a fortuna de encontrar o Major Siqueira. 


 
 
-Ia agora mesmo à sua casa, disse-lhe; vai para lá? 
 
 
-Vou; mas já não estamos na mesma casa; mudamo-nos para os Cajueiros, Rua da 
Princesa... 
 
 
-Seja onde for, vamos. 
 
 
Rubião precisava de um pedaço de corda que o atasse à realidade porque o espírito 
sentia-se outra vez presa da vertigem. Entretanto, falou com tal acerto e propriedade, que o 
major o achou em pleno juízo, e disse-lhe 
 
 
-Sabe que tenho uma grande notícia que lhe dar? 
 
 
-Vamos a ela. 
 
 
-Há de ser quando chegarmos. 
 
 
Chegaram. Era uma casa assobradada; D. Tonica veio abrir-lhes a cancela. Trazia um 
vestido novo e brincos. 
 
 
-Olhe bem para ela, disse o major pegando na filha pelo queixo 
 
 
D. Tonica recuou envergonhada. 
 
 
-Estou olhando, respondeu Rubião. 
 
 
-Não se vê logo que é uma pessoa que vai casar? 
 
 
-Ah! parabéns! 
 
 
-É verdade, vai casar. Custou, mas acertou. Achou por aí um noivo, que a adora, como 
todos eles; eu, quando fui novo, adorei a minha defunta, que foi uma cousa nunca vista... Vai 
casar. Arranjou um noivo. Custou, mas acertou. Pessoa séria, meia-idade; vem aqui passar as 
noites. De manhã, quando passa para a repartição, creio que bate na janela, ou ela já o espera; 
eu finjo que não percebo. . . 
 
 
D. Tonica dizia com a cabeça que não, mas sorrindo de modo que parecia dizer que 
sim. Estava tão buliçosa! Nem se lembrava já que requestara o Rubião, que este fora uma das 
últimas, e por fim a última das suas esperanças. Tinham entrado na sala; D. Tonica foi à 
janela, voltou, cabeça alta, andando à toa, reconciliada com a vida. 
 
 
-Boa pessoa, repetiu o major, boa criatura... Tonica, vai buscar o retrato. . . Anda, vai 
buscar o teu noivo. . . 
 
 
D. Tonica foi buscar o retrato. Era uma fotografia- representava um homem de meia-
idade, cabelo curto, raro, olhando espantado para a gente, cara chupada, pescoço fino e paletó 
abotoado 
 
 
-Que lhe parece? 


 
 
-Muito bem. 
 
 
D. Tonica recebeu o retrato e fitou-o alguns instantes; mas, tirou logo os olhos, e 
deixou-se estar sentada, enquanto a imaginação saiu a esperar o Rodrigues. Chamava-se 
Rodrigues. Era mais baixo que ela,-cousa que o retrato não dava,-e empregado em uma 
repartição do Ministério da Guerra. Viúvo, com dous filhos, um que estava no batalhão dos 
menores, outro que era tuberculoso,-doze anos,-condenado à morte. Que importa? Era o 
noivo; todas as noites, ao recolher-se, D. Tonica ajoelhava-se ante a imagem de Nossa 
Senhora, sua madrinha, agradecia-lhe o favor e pedia-lhe que a fizesse feliz. Sonhava já com 
um filho; havia de chamar-se AIvaro. 
 
 
CAPÍTULO CLXXXI 
 
 
 
 
RUBIÃO escutou calado um discurso do major. O casamento era dali a mês e meio; o 
noivo tinha que perfazer os arranjos da casa, não era capitalista, vivia do ordenado e recorrera 
a empréstimos. A casa era a mesma e não exigia trastes novos nem ricos; mas há sempre 
algumas necessidades... Em suma, dali a mês e meio, ou pelo menos, cinco semanas, estariam 
unidos pelos santos laços do matrimônio. 
 
 
-E fico eu livre do trambolho, concluiu o major 
 
 
-Oh! protestou Rubião. 
 
 
A filha ria-se; estava acostumada às graças do pai, e tão disposta à alegria que nada a 
vexava; ainda mesmo que o pai se referisse aos seus quarenta anos passados não lhe daria 
grande golpe. Todas as noivas têm quinze anos. 
 
 
-Verá como ele há de procurá-la depois, com saudades, disse Rubião a D. Tonica. 
 
 
-Qual! Talvez eu me case também! 
 
 
Rubião levantou-se repentino, e deu alguns passos; o major não viu a expressão do 
rosto, não percebeu que o espírito do homem ia talvez descarrilhar, e que ele mesmo o 
pressentia. Disse-lhe que se sentasse, e contou-lhe os seus tempos de casado e de campanha. 
Quando chegou à narração da batalha de Monte-Caseros, com as marchas e contramarchas 
próprias do seu discurso, tinha diante de si Napoleão III. Calado a princípio, Rubião proferiu 
algumas palavras de aplauso, citou Solferino e Magenta, prometeu ao Siqueira uma 
condecoração. Pai e filha entreolharam-se; o major disse que vinha muita chuva. Com efeito, 
escurecera um pouco. Era melhor que Rubião fosse, antes de cair água; não trouxera guarda-
chuva, o dele era velho e único... 
 
 
-Aí vem o meu coche, redargüiu Rubião tranqüilamente. 
 
 
-Não vem, foi esperá-lo no Campo. Não vês daí o coche, Tonica? 
 


 
D. Tonica fez um gesto vago e sem vontade. Não queria mentir, mas tinha medo, e 
desejava que Rubião saísse. Da casa era impossível ver o Campo da Aclamação. Já então o 
pai pegava no Rubião pelo braço e o encaminhava para a porta. 
 
 
-Volte amanhã, depois, quando quiser. 
 
 
-Mas por que não hei de esperar aqui até que venha o coche? perguntou Rubião. A 
imperatriz não pode apanhar chuva... 
 
 
-A imperatriz já foi. 
 
 
-Fez mal. Eugênia fez muito mal. General... Para que há de o senhor ficar sempre em 
major? General, vi o retrato do seu genro; quero dar-lhe o meu. Mande às Tulherias. Onde 
está o coche? 
 
 
-Está no Campo, esperando. 
 
 
- Mande chamá-lo. 
 
 
D. Tonica, que estava à janela, disse para dentro 
 
 
-Lá vem Rodrigues. 
 
 
E tornou a olhar para a rua, inclinando-se, sorrindo, enquanto na sala o pai continuava 
a guiar o Rubião para a porta, sem violência, mas tenaz. Este parava, repreendia 
 
 
-General, sou seu imperador! 
 
 
-Decerto, mas acompanhe-me Vossa Majestade... 
 
 
Tinham chegado à porta; o major abriu a cancela, justamente quando o Rodrigues 
punha o pé na soleira. D. Tonica entrou para receber o noivo, mas a porta estava atravancada 
com o pai e Rubião. Rodrigues tirou o chapéu, mostrando o cabelo, áspero e grisalho; tinha 
nas faces chupadas umas pintinhas de sarda, mas o riso era bom e humilde,-mais humilde 
ainda que bom,-e, não obstante a trivialidade do gesto e da pessoa, era agradável. Os olhos 
não mostravam o espanto da fotografia; este efeito provinha da ênfase que ele pôs em todo o 
corpo, a fim de que o retrato saísse bonito. 
 
 
-Este senhor é o meu futuro genro, disse o major a Rubião Não é verdade que viu no 
Campo um coche e um esquadrão de cavalaria? perguntou ao Rodrigues, piscando um olho. 
 
 
-Parece que sim, senhor. 
 
 
-Pois então? continuou Siqueira, voltando-se para Rubião. Vá, vá, dobre a Rua de S. 
Lourenço, e caminhe direito para o Campo. Adeus, até amanhã. 
 
 
Rubião desceu três degraus,-eram cinco,-e parou diante do recém-chegado, fitou-o 
alguns instantes e declarou que estimava muito conhecê-lo, que fosse bom esposo e bom 
genro. Como se chamava? 
 


 
-João José Rodrigues. 
 
 
-Rodrigues. Hei de mandar-lhe uma fitinha aqui para a casaca. É o meu presente de 
núpcias. Lembre-me, Siqueira. 
 
 
Siqueira pegou-lhe no braço para fazê-lo descer os dous últimos degraus, e pô-lo na 
rua. 
 
 
-No Campo, dizes tu? 
 
 
-No Campo. 
 
 
-Adeus. 
 
 
Da rua, ainda Rubião olhou para as janelas, com os dedos no chapéu, a fim de 
cumprimentar D. Tonica; mas D. Tonica estava na sala, onde Rodrigues acabava de entrar, 
fresco e delicioso, como a primeira rosa de verão. 
 
 
CAPÍTULO CLXXXII 
 
 
 
RUBIÃO não cuidou mais do coche nem do esquadrão de cavalaria. Foi dar consigo 
abaixo, andou por várias ruas, até que subiu pela de S. José. Desde o paço imperial, vinha 
gesticulando e falando a alguém que supunha trazer pelo braço, e era a imperatriz. Eugênia ou 
Sofia? Ambas em uma só criatura,-ou antes a segunda com o nome da primeira. Homens que 
iam passando, paravam, do interior das lojas corria gente às portas. Uns riam-se, outros 
ficavam indiferentes; alguns, depois de verem o que era, desviavam os olhos para poupá-los à 
aflição que lhes dava o espetáculo do delírio. Uma turba de moleques acompanhava o Rubião, 
alguns tão próximos, que lhe ouviam as palavras. Crianças de toda a sorte vinham juntar-se ao 
grupo. Quando eles viram a curiosidade geral, entenderam dar voz à multidão, e começou a 
surriada 
 
 
-Ó gira! ó gira! 
 
 
Esse vozear chamou a atenção de outras pessoas, muitas janelas dos sobrados 
começaram a abrir-se, apareceram curiosos de ambos os sexos e todas as idades, um 
fotógrafo, um estofador, três e quatro figuras juntas, cabeças por cima de outras, todas 
inclinadas, espiando, acompanhando o homem, que falava à parede, com o seu gesto cheio de 
grandeza e de obséquio. 
 
 
-Ó gira! ó gira! berravam os vadios. 
 
 
Um deles muito menor que todos, apegava-se às calças de outro, taludo. Era já na Rua 
da Ajuda. Rubião continuava a não ouvir nada; mas, de uma vez que ouviu, supôs que eram 
aclamações, e fez uma cortesia de agradecimento. A surriada aumentava. No meio do rumor, 
distinguiu-se a voz de uma mulher à porta de uma colchoaria 
 
 
-Deolindo! vem para casa, Deolindo! 
 


 
Deolindo, a criança que se agarrava às calças da outra mais velha não obedeceu; pode 
ser que nem ouvisse, tamanha era a grita, e tal a alegria do pequerrucho, clamando com a 
vozinha miúda 
 
 
-Ó gira! ó gira! 
 
 
-Deolindo! 
 
 
Deolindo tratou de esconder-se entre os outros, para escapar às vistas da mãe que o 
chamava; esta, porém, correu ao grupo, e arrancou-o de lá. Em verdade, era pequeno demais 
para andar em tumultos de rua. 
 
 
- Mamãe, deixa eu ver... 
 
-Qual ver! anda! 
 
 
Meteu-o em casa, e ficou à porta, a olhar para a rua. Rubião estacara o passo; ela pôde 
vê-lo bem, com os seus gestos e palavras. o peito alto, e uma barretada que deu em volta. 
 
 
-Os malucos têm graça, às vezes, disse ela sorrindo a um vizinha. 
 
 
Os rapazes continuavam a bradar e a rir, e Rubião foi andando, com o mesmo coro 
atrás de si. Deolindo. à porta da loja vendo O grupo alongar-se, pedia chorosamente à mãe 
que o deixasse ir também, ou então que o levasse. Quando perdeu as esperanças, enfeixou 
todas as energias em um só gritozinho esganiçado 
 
 
-Ó gira! 
 
 
 
CAPÍTULO CLXXXIII 
 
 
 
 
A VIZINHA RIU-SE. A mãe riu-se também. Confessou que o filho era uma 
pestezinha, um endiabrado, que não sossegava; não podia perdê-lo de vista. Qualquer 
distração, estava na rua. E isto desde pequenino; tinha ainda dous anos, quando escapou de 
morrer embaixo de um carro, ali mesmo; esteve por um fio. Se não fosse um homem que 
passava, um senhor bem vestido, que acudiu depressa, até com perigo de vida estaria morto e 
bem morto. Nisto o marido, que vinha pela calçada oposta, atravessou a rua, e interrompeu a 
conversação. Trazia o cenho carregado, mal cumprimentou a vizinha, e entrou; a mulher foi 
ter com ele. Que era? O marido contou a surriada. 
 
 
-Passou por aqui, disse ela. 
 
 
-Não conheceste o homem? 
 
 
-Não. 
 
 
O marido cruzou os braços e ficou a olhar, fixo, calado. A mulher perguntou-lhe quem 
era. 


 
 
-É aquele homem que nos salvou o Deolindo da morte. 
 
 
A mulher estremeceu. 
 
 
-Viste bem? perguntou. 
 
 
-Perfeitamente. Se eu já o tinha encontrado outras vezes, mas então não estava assim. 
Coitado! E a molecada berrava atrás dele. Qual! não há polícia nesta terra. 
 
 
O que Ihe doía à mulher não era tanto o mal do homem, nem ainda a surriada; mas a 
parte que teve nesta o filho,-a mesma criança que o homem salvara da morte. Realmente, 
como podia o menino reconhecê-lo, nem saber que lhe devia a vida? Doía-lhe o encontro, a 
coincidência. Afinal, contentou-se de por todas as culpas em si. Se tivesse tido mais cuidado, 
o pequeno não havia saído, e não entraria na troça. Tremia de quando em quando, e estava 
inquieta. O marido pegou na cabeça do filho, e deu-lhe dous beijos. 
 
 
-Você viu a cena toda? perguntou à mulher. 
 
 
-Vi. 
 
 
-Eu ainda quis dar o braço ao homem, e trazê-lo para aqui, mas, tive vergonha; os 
moleques eram capazes de dar-me uma vaia. Desviei o rosto, porque ele podia conhecer-me. 
Coitado! Nota que não parecia ouvir nada, e seguia satisfeito, creio que até ria. . . Que triste 
cousa que é perder o juízo! 
 
 
A mulher pensava na travessura do filho; não a referiu ao marido, pediu à vizinha que 
não aludisse a ela, e, de noite, só pregou olho tarde. Metera-se-lhe em cabeça que, anos 
depois, o filho endoudecia, era castigado pela mesma troça, e que ela cuspia para o céu, 
indignada, blasfemando. 
 
 
CAPÍTULO CLXXXIV 
 
 
 
DUAS HORAS DEPOIS da cena da Rua da Ajuda chegou Rubião à casa de D. 
Fernanda. Os vadios foram-se dispersando, a pouco e pouco, e os claros não se preenchiam; 
os três últimos juntaram os seus adeuses em um berro único e formidável. Rubião continuou 
sozinho, mal percebido pelos moradores das casas, porque a gesticulação diminuía ou mudava 
de feitio. Não se dirigia à parede, à suposta imperatriz; mas era ainda imperador. Caminhava, 
parava, murmurava, sem grandes gestos, sonhando sempre, sempre, sempre, envolvido 
naquele véu, através do qual todas as cousas eram outras, contrárias e melhores; cada lampião 
tinha um aspecto de camarista, cada esquina uma feição de reposteiro. Rubião seguia direito à 
sala do trono, para receber um embaixador qualquer, mas o paço era interminável, cumpria 
atravessar muitas salas e galerias, verdade que sobre tapetes, -e por entre alabardeiros, altos e 
robustos. 
 
 
Das gentes que o viam e paravam na rua, ou se debruçavam das janelas, muitas 
suspendiam por instantes os seus pensamentos tristes ou enfastiados, as preocupações do dia. 
os tédios, os ressentimentos, este uma dívida, outro uma doença, desprezos de amor, vilanias 


de amigo. Cada miséria esquecia-se, o que era melhor que consolar-se; mas o esquecimento 
durava um relâmpago. Passado o enfermo, a realidade empolgava-os outra vez, as ruas eram 
ruas, porque os paços suntuosos iam com Rubião. E mais de um tinha pena do pobre-diabo; 
comparando as duas fortunas, mais de um agradecia ao céu a parte que lhe coube,-amarga, 
mas consciente. Preferiam o seu casebre real ao alcáçar fantasmagórico. 
 
 
CAPÍTULO CLXXXV 
 
 
 
RUBIÃO foi recolhido a uma casa de saúde. Palha esquecera a obrigação que Sofia 
lhe impôs, e Sofia não se lembrou mais da promessa feita à rio-grandense. Cuidavam ambos 
de outra casa, um palacete em Botafogo, cuja reconstrução estava prestes a acabar, e que eles 
queriam inaugurar, no inverno, quando as câmaras trabalhassem, e toda a gente houvesse 
descido de Petrópolis. Mas agora a promessa foi cumprida; Rubião deu entrada no 
estabelecimento, onde ficou ocupando uma sala e um quarto especiais, recomendado pelo Dr. 
Falcão e pelo Palha. Não resistiu a nada; acompanhou-os com satisfação, e entrou nos seus 
aposentos, como se os conhecesse desde muito. Quando eles se despediram, dizendo que já 
voltavam, Rubião convidou-os para uma revista militar, no sábado. 
 
 
-Pois sim, sábado, assentiu Falcão. 
 
 
-Sábado é bom dia. continuou Rubião. Não faltes, duque de Palha. 
 
 
-Não falto, disse o Palha andando. 
 
 
-Olha, mandar-te-ei um dos meus coches, novo em folha; é preciso que  tua mulher 
pouse o seu lindo corpo onde ninguém ainda ousou sentar-se.  Almofadas de damasco e 
veludo, arreios de prata e rodas de ouro; os  cavalos descendem do próprio cavalo que meu tio 
montava em Marengo.  Adeus, duque de Palha. 
 
 
CAPÍTULO CLXXXVI 
 
 
 
PARA MIM, é claro, saiu pensando o Dr. Falcão, aquele homem foi amante  da 
mulher deste sujeito." 
 
 
CAPÍTULO CLXXXVII 
 
 
 
LÁ FICOU O HOMEM. Quincas Borba tentara entrar na carruagem que levou  o 
amigo, e porfiou em acompanhá-la, correndo; foi necessária toda a força do  criado para 
agarrá-lo, contê-lo e trancá-lo em casa. Era a mesma situação de Barbacena; mas a vida, meu 
rico senhor, compõe-se rigorosamente de quatro  ou cinco situações, que as circunstâncias 
variam e multiplicam aos olhos. Rubião pediu instante mente que lhe mandassem o cão. D. 
Fernanda,  alcançado o consentimento do diretor, cuidou de satisfazer o desejo do  doente. 
Quis escrever a Sofia, mas foi ela própria ao Flamengo. 
 


 
CAPÍTULO CLXXXVIII 
 
 
 
- MANDO VER, é aqui perto, propôs Sofia. 
 
 
-Vamos nós mesmas. Que tem? Já pensei em uma cousa. Valera a pena  conservar a 
casa pronta e alugada, quando a cura pode prolongar-se? Melhor é  deixá-la, vender os trastes 
e apurar o que houver. 
 
Foram a pé do Flamengo à Rua do Príncipe, três a quatro minutos.  Raimundo estava 
na rua, mas viu gente à porta e veio abri-la. O interior da  casa tinha a feição do abandono, 
sem a fixidez e regularidade das cousas, que  parecem conservar um resto da vida 
interrompida; era o abandono do  desmazelo. Mas, por outro lado, o transtorno dos móveis da 
sala exprimia bem o delírio do morador, suas idéias tortas e confusas. 
 
 
-Ele foi muito rico? perguntou D. Fernanda a Sofia. 
 
 
-Tinha alguma cousa, respondeu esta, quando chegou de Minas; mas parece que 
estragou tudo. Olhe, levante o vestido que o chão parece que não  se varre há um século. 
 
 
Não era só o chão; os trastes tinham a crosta da incúria. Nem por isso o  criado 
explicava nada, olhava, escutava, e, baixinho, assobiava uma polca do  dia. Sofia não lhe 
perguntou pelo asseio; estava morta por fugir "daquela  imundíce", dizia a si mesma, e tinha 
vontade de indagar do cão, que era o  principal motivo da visita; mas, não queria mostrar 
interesse por ele nem pelo resto. A trivialidade daquilo tudo não lhe dizia nada ao espírito 
nem ao  coração; a lembrança do alienado não a ajudava a suportar o tempo. De si  para si 
achava a companheira singularmente romântica ou afetada. "Que  bobagem!" ia pensando, 
sem desconcertar o sorriso aprovador com que acudia a todas as observações de D. Fernanda. 
 
 
-Abra aquela janela, disse esta ao criado; tudo cheira a mofo. 
 
 
-Oh! insuportável! acudiu Sofia, respirando com asco. 
 
 
Mas, apesar da exclamação, D. Fernanda não se resolveu a sair. Sem que nenhuma 
recordação pessoal lhe viesse daquela miserável estancia, sentia-se presa de uma comoção 
particular e profunda, não a que dá a ruína das cousas. Aquele espetáculo não lhe trazia um 
tema de reflexões gerais, não lhe ensinava a fragilidade dos tempos, nem a tristeza do mundo, 
dizia-lhe tão-somente a moléstia de um homem, de um homem que ela mal conhecia, a quem 
falara algumas vezes. E ia ficando e olhando, sem pensar, sem deduzir, metida em si mesma, 
dolente e muda. Sofia não ousava articular nada, com receio de ser desagradável a tão 
conspícua dama. Tinham ambas os vestidos apanhados, para evitar a mácula da poeira; mas 
Sofia acrescentou a essa precaução a agitação viva, contínua e impaciente da ventarola, como 
pessoa que sufocasse naquela atmosfera. Chegou a tossir algumas vezes. 
 
 
-E o cachorro? perguntou D. Fernanda ao criado. 
 
 
-Está preso no quarto, lá dentro. 
 
 
-Vá buscá-lo. 
 


 
Quincas Borba apareceu. Magro, abatido, parou à porta da sala, estranhando as duas 
senhoras, mas sem latir; mal erguia os olhos apagados. Ia a dar meia-volta ao corpo na direção 
do interior da casa, quando D. Fernanda fez uns estalinhos com os dedos; ele parou, agitando 
a cauda. 
 
 
-Como é mesmo que se chama? perguntou D. Fernanda. 
 
 
-Quincas Borba, respondeu o criado, rindo com a voz arrastada. Tem nome de gente. 
Eh! Quincas Borba! vai lá! a senhora está chamando. 
 
 
-Quincas Borba! vem cá! Quincas Borba! repetiu D. Fernanda. 
 
 
Quincas Borba acudiu ao chamado, não pulando, nem alegre. D. Fernanda inclinou-se, 
perguntou-lhe pe]o amigo, se estava longe, se queria ir vê-lo. Assim mesmo inclinada, 
interrogava o criado sobre o trato do cão. 
 
 
-Agora come, sim, senhora; logo que meu amo foi embora, não queria comer nem 
beber; -eu até pensei que estivesse danado. 
 
 
-Come bem? 
 
 
-Come pouco. 
 
 
-Procura pelo senhor? 
 
 
-Parece que procura, respondeu Raimundo tapando o riso com a mão; mas eu tranquei 
ele no quarto, para não fugir. Já não chora; a princípio chorava muito, que até me acordava... 
Era preciso eu bater com um cacete na porta e gritar, para ele sossegar... 
 
 
D. Fernanda coçava a cabeça do animal. Era o primeiro afago depois de longos dias de 
solidão e desprezo. Quando D. Fernanda cessou de acariciá-lo, e levantou o corpo, ele ficou a 
olhar para ela, e ela para ele, tão fixos e tão profundos, que pareciam penetrar no íntimo um 
do outro. A simpatia universal, que era a alma desta senhora, esquecia toda a consideração 
humana diante daquela miséria obscura e prosaica, e estendia ao animal uma parte de si 
mesma, que o envolvia, que o fascinava, que o atava aos pés dela. Assim, a pena que lhe dava 
o delírio do senhor, dava-lhe agora o próprio cão, como se ambos representassem a mesma 
espécie. E sentindo que a sua presença levava ao animal uma sensação boa, não queria privá-
lo de benefício . 
 
 
-A senhora está-se enchendo de pulgas, observou Sofia. 
 
 
D. Fernanda não a ouviu. Continuou a mirar os olhos meigos e tristes do animal, até 
que este deixou cair a cabeça e entrou a farejar a sala. Sentira o cheiro do senhor. A porta da 
rua estava aberta; ele teria fugido por ela, se Raimundo não acudisse a prendê-lo. D. Fernanda 
deu algum dinheiro ao criado para que o fosse lavar e conduzir à casa de saúde, 
recomendando-lhe o maior cuidado, que o levasse ao colo, ou preso por um cordão. Nesta 

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