Microsoft Word quincasborba rtf


partido do governo; mandou o cobrador ao diabo



Baixar 0.67 Mb.
Pdf preview
Página6/8
Encontro30.07.2021
Tamanho0.67 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8

partido do governo; mandou o cobrador ao diabo. 
 
 
CAPÍTULO CXXXVI 
 
 
 
O COBRADOR não foi ao diabo; recebeu o preço do semestre, e, como possuía a 
observação natural dos cobradores, resmungou na rua 
 
 
"Ora aqui está um homem que detesta a folha e paga. Quantos a adoram e não 
pagam!" 
 
 
CAPÍTULO CXXXVII 
 
 
 
MAS-oh lance da fortuna! oh eqüidade da natureza!-os desperdícios do nosso amigo, 
se não tinham remédio, tinham compensação. Já o tempo não passava por ele como por um 
vadio sem idéias. Rubião, à falta delas, tinha agora imaginação. Outrora vivia antes dos outros 
que de si, não achava equilíbrio interior, e o ócio esticava as horas, que não acabavam mais. 
Tudo ia mudando; agora a imaginação tendia a pousar um pouco. Sentado na loja do 
Bernardo. gastava toda uma manhã, sem que o tempo lhe trouxesse fadiga. nem a estreiteza da 
Rua do Ouvidor lhe tapasse o espaço. Repetiam se as visões deliciosas, como a das bodas 
(Cap. LXXXI) em termos a que a grandeza não tirava a graça. Houve quem o visse, mais de 
uma vez, saltar da cadeira e ir até à porta ver bem pelas costas alguma pessoa que passava. 
Conhecê-la-ia? Ou seria alguém que, casualmente, tinha as feições da criatura imaginária que 
ele estivera mirando? São perguntas demais para um só capítulo; basta dizer que uma dessas 
vezes nem passou ninguém, ele próprio reconheceu a ilusão, voltou para dentro, comprou uma 
tetéia de bronze para dar à filha do Camacho, que fazia anos, e ia casar em breve, e saiu. 
 
 
CAPÍTULO CXXXVIII 
 
 
 
E SOFIA? interroga impaciente a leitora, tal qual OrgonEt Tartufe? Ai, amiga minha, 
a resposta é naturalmente a mesma, -também ela comia bem, dormia largo e fofo,-cousas que, 
aliás, não impedem que uma pessoa ame, quando quer amar. Se esta última reflexão é o 
motivo secreto da vossa pergunta, deixai que vos diga que sois muito indiscreta, e que eu não 
me quero senão com dissimulados. 
 
 
Repito, comia bem, dormia largo e fofo. Chegara ao fim da comissão das Alagoas, 
com elogios da imprensa; a Atalaia chamou-lhe "o anjo da consolação". E não se pense que 
este nome a alegrou, posto que  a lisonjeasse; ao contrário, resumindo em Sofia toda a ação da 
caridade,  podia mortificar as novas amigas, e fazer-lhe perder em um dia o trabalho  de 


longos meses. Assim se explica o artigo que a mesma folha trouxe no  número seguinte, 
nomeando, particularizando e glorificando as outras  comissárias-"estrelas de primeira 
grandeza". 
 
 
Nem todas as relações subsistiram, mas a maior parte delas estavam  atadas, e não 
faltava à nossa dona o talento de ,as tornar definitivas. O  marido é que pecava por turbulento, 
excessivo, derramado, dando bem a ver  que o cumulavam de favores, que recebia finezas 
inesperadas e quase  imerecidas. Sofia, para emendá-lo, vexava-o com censuras e conselhos,  
rindo 
 
 
"Você esteve hoje insuportável; parecia um criado." 
 
 
"Cristiano, fique mais senhor de si, quando tivermos gente de fora, não se  ponha com 
os olhos fora da cara, saltando de um lado para outro, assim  com ar de criança que recebe 
doce..." 
 
 
Ele negava, explicava ou justificava-se; afinal, concluía que sim, que era  preciso não 
parecer estar abaixo dos obséquios; cortesia, afabilidade, mais  nada... 
 
 
-Justo, mas não vás cair no extremo oposto, acudiu Sofia; não vás ficar  casmurro... 
 
 
Palha era então as duas cousas; casmurro, a princípio frio, quase  desdenhoso; mas, ou 
a reflexão, ou o impulso inconsciente restituía ao  nosso homem a animação habitual, e com 
ela, segundo o momento, a  demasia e o estrépito. Sofia é que, em verdade, corrigia tudo. 
Observava,  imitava. Necessidade e vocação fizeram-lhe adquirir, aos poucos, o que não  
trouxera do nascimento nem da fortuna. Ao demais, estava naquela idade  média em que as 
mulheres inspiram igual confiança às sinhazinhas de vinte  e às sinhás de quarenta. Algumas 
morriam por ela; muitas a cumulavam de  louvores. 
 
 
Foi assim que a nossa amiga, pouco a pouco, espanou a atmosfera. Cortou  as relações 
antigas, familiares, algumas tão íntimas que dificilmente se  poderiam dissolver; mas a arte de 
receber sem calor, ouvir sem interesse e  despedir-se sem pesar, não era das suas menores 
prendas; e uma por uma, se  foram indo as pobres criaturas modestas, sem maneiras, nem 
vestidos, amizades de pequena monta, de pagodes caseiros, de hábitos singelos e sem  
elevação. Com os homens fazia exatamente o que o major contara, quando  eles a viam passar 
de carruagem,-que era sua,-entre parêntesis. A  diferença é que já nem os espreitava para 
saber se a viam. Acabara a  lua-de-mel da grandeza, agora torcia os olhos duramente para 
outro lado, conjurando, de um gesto definitivo, o perigo de alguma hesitação. Punha  assim os 
velhos amigos na obrigação de lhe não tirarem o chapéu. 
 
 
CAPÍTULO CXXXIX 
 
 
 
RUBIÃO ainda quis valer ao major, mas o ar de fastio com que Sofia o  interrompeu 
foi tal, que o nosso amigo preferiu perguntar-lhe se, não  chovendo na seguinte manhã, iriam 
sempre passear à Tijuca. 
 
 
-Já falei a Cristiano; disse-me que tem um negócio, que fique para domingo que vem. 
 


 
Rubião, depois de um instante 
 
 
-Vamos nós dous. Saímos cedo, passeamos, almoçamos lá, as três ou quatro horas 
estamos de volta... 
 
 
Sofia olhou para ele, com tamanha vontade de aceitar o convite que Rubião não 
esperou resposta verbal. 
 
 
-Está assentado, vamos, disse ele. 
 
 
-Não. 
 
 
-Como não? 
 
 
E repetiu a pergunta, porque Sofia não lhe quis explicar a negativa, aliás, tão óbvia. 
Obrigada a fazê-lo, ponderou que o ficaria com inveja, era capaz de adiar o negócio, só para ir 
também. Não queria atrapalhar os negócios dele, e podiam esperar oito dias. O olhar de Sofia 
acompanhava essa explicação, como um clarim acompanharia um padre-nosso. Vontade 
tinha, oh! se tinha vontade de ir na manhã seguinte, com Rubião, estrada acima, bem posta 
cavalo, não cismando à toa, nem poética, mas valente, fogo na ca toda deste mundo, 
galopando, trotando, parando. Lá no alto, d montaria algum tempo; tudo só, a cidade ao longe 
e o céu por cima. Encostada ao cavalo, penteando-lhe as crinas com os dedos, ouviria Rubião 
louvar-lhe a afouteza e o garbo. . . Chegou a sentir um beijo na nuca... 
 
 
CAPÍTULO CXL 
 
 
 
POIS QUE SE TRATA de cavalos não fica mal dizer que a imaginação de Sofia era 
agora um corcel brioso e petulante, capaz de galgar morros e desbaratar matos. Outra seria a 
comparação, se a ocasião fosse diferente; mas corcel é o que vai melhor. Traz a idéia do 
ímpeto, do sangue, da disparada, ao mesmo tempo que a da serenidade com que torna ao 
caminho reto, e por fim à cavalariça. 
 
 
CAPÍTULO CXLI 
 
 
 
-ESTÁ DITO, vamos amanhã, repetiu Rubião, que espreitava o rosto aceso de Sofia. 
 
 
Mas o corcel viera fatigado da carreira, e deixou-se estar sonolento na cavalariça. 
Sofia era já outra; passara a vertigem da empresa, o ardor sonhado, o gosto de subir com ele a 
estrada da Tijuca. Dizendo-lhe Rubião que pediria ao marido que a deixasse ir ao passeio, 
redargüiu sem alma. 
 
 
-Está tonto! Fica para o domingo que vem! 
 
 
E fixou os olhos no trabalho de linha que fazia,-frioleira é o nome,-enquanto Rubião 
voltava os seus para um trechozinho de jardim mofino, ao pé da saleta de trabalho onde 
estavam. Sofia, sentada no angulo da janela, ia meneando os dedos. Rubião viu em duas rosas 


vulgares uma festa imperial, e esqueceu a sala, a mulher e a si. Não se pode dizer, ao certo, 
que tempo estiveram assim calados, alheios e remotos um do outro. Foi uma criada que os 
despertou, trazendo-lhes café. Bebido o café, Rubião concertou as barbas, tirou o relógio e 
despediu-se. Sofia, que espreitava a saída, ficou satisfeita, mas encobriu o gosto com o 
espanto. 
 
 
-Já! 
 
 
-Devo estar com um sujeito antes das quatro horas, explicou Rubião. Estamos 
entendidos; passeio de amanhã gorado. Vou mandar desavisar os cavalos. Mas será certo no 
domingo que vem? 
 
 
-Certo, certo, não posso afirmar; mas resolvendo-se em tempo o Cristiano, creio que 
sim. Sabe que meu marido é o homem dos impedimentos. 
 
 
Sofia acompanhou-o até à porta, estendeu-lhe a mão indiferente, espondeu sorrindo 
alguma cousa chocha, tornou à salinha em que estivera,- ao mesmo angulo, da mesma janela. 
Não continuou logo o trabalho, pôs uma perna sobre outra, fazendo descer, por hábito, a saia 
do vestido, e lançou uma olhada ao jardim, onde as duas rosas tinham dado ao nosso amigo 
uma visão imperial. Sofia não viu mais que duas flores mudas. Fitou-as, não obstante, algum 
tempo; em seguida, pegou da frioleira, trabalhou um pouco, deteve-se outro pouco, deixando 
as mãos no regaço; e voltou à obra, outra vez, para tornar a deixá-la. De repente, levantou-se e 
atirou as linhas e a navette à cestinha de junco, onde guardava os seus pretextos de trabalho. A 
cesta era ainda uma lembrança de Rubião. 
 
 
-Que homem aborrecido! 
 
 
Dali foi encostar-se à janela, que dava para o jardim mofino, onde iam murchando as 
duas rosas vulgares. Rosas, quando recentes, im-portam-se pouco ou nada com as Góleras dos 
outros; mas, se definham, tudo lhes serve para vexar a alma humana. Quero crer que este 
costume nasce da brevidade da vida. "Para as rosas, escreveu alguém, o jardineiro é eterno." E 
que melhor maneira de ferir o eterno que mofar das suas iras? Eu passo, tu ficas; mas eu não 
fiz mais que florir e aromar, servi a donas e a donzelas, fui letra de amor, ornei a botoeira dos 
homens, ou expiro no próprio arbusto, e todas as mãos, e todos os olhos me trataram e me 
viram com admiração e afeto. Tu não, ó eterno; tu zangas-te, tu padeces, tu choras, tu 
afligeste! a tua eternidade não vale um só dos meus minutos. 
 
 
Assim, quando Sofia chegou à janela que dava para o jardim, ambas as rosas riram-se 
a pétalas despregadas. Uma delas disse que era bem feito! bem feito! bem feito! 
 
 
-Tens razão em te zangares, formosa criatura, acrescentou, mas há de ser contigo, não 
com ele. Ele que vale? Um triste homem sem encantos, pode ser que bom amigo, e talvez 
generoso, mas repugnante, não? E tu, requestada de outros, que demônio te leva a dar ouvidos 
a esse intruso da vida? Humilha-te, ó soberba criatura, porque és tu mesma a causa do teu 
mal. Tu juras esquecê-lo, e não o esqueces. E é preciso esquecê-lo? Não te basta fitá-lo, 
escutá-lo, para desprezá-lo? Esse homem não diz cousa nenhuma, ó singular criatura, e tu... 
 
 
-Não é tanto assim, interrompeu a outra rosa, com a voz irônica e descansada; ele diz 
alguma cousa, e di-la desde muito sem dessa prendê-la, nem trocá-la; é firme, esquece a dor, 
crê na esperança. Toda a sua vida amorosa é como o passeio à Tijuca, de que vocês 


conversavam há pouco"Fica para o domingo que vem!" Eia, piedade ao menos; sê piedosa, ó 
boníssima Sofia! Se hás de amar a alguém, fora do matrimônio, ama-o a ele, que te ama e é 
discreto Anda, arrepende-te do gesto de há pouco . Que mal te fez ele, e que culpa lhe cabe se 
és bonita? E quando haja culpa, a cesta é que a não tem, só porque ele a comprou, e menos 
ainda as linhas e a navette que tu mesma mandaste comprar pela criada. Tu és má, Sofia, és 
injusta... 
 
 
CAPÍTULO CXLII 
 
 
 
SOFIA deixou-se estar ouvindo, ouvindo... Interrogou outras plantas, e não lhe 
disseram cousa diferente. Há desses acertos maravilhosos Quem conhece o solo e o subsolo 
da vida, sabe muito bem que um trecho de muro, um banco, um tapete, um guarda-chuva, são 
ricos de idéias ou de sentimentos, quando nós também o somos, e que as reflexões de parceria 
entre os homens e as cousas compõem um dos mais interessantes fenômenos da terra. A 
expressão"Conversar com os seus botões", parecendo simples metáfora, é frase de sentido real 
e direto. Os botões operam sincronicamente conosco; formam uma espécie de senado, 
cômodo e barato, que vota sempre as nossas moções. 
 
 
CAPÍTULO CXLIII 
 
 
 
FEZ-SE O PASSEIO à Tijuca, sem outro incidente mais que uma queda do cavalo, ao 
descerem. Não foi Rubião que caiu, nem o Palha, mas a senhora deste, que vinha pensando 
em não sei que, e chicoteou o animal com raiva; ele espantou-se e deitou-a em terra. Sofia 
caiu com graça. Estava singularmente esbelta, vestida de amazona, corpinho tentador de 
justeza. Otelo exclamaria, se a visse"Oh! minha bela guerreira!" Rubião limitara-se a isto, ao 
começar o passeio"A senhora é um anjo!" 
 
 
CAPÍTULO CXLIV 
 
 
 
- FIQUEI COM O JOELHO dorido, disse ela entrando em casa e coxeando. 
 
 
-Deixa ver. 
 
 
No quarto de vestir, Sofia levantou o pé sobre um banquinho e mostrou ao marido o 
joelho pisado; inchara um pouco, muito pouco, mas tocando-lhe, fazia-a gemer. Palha, não 
querendo machucá-la. chegou-lhe a pontinha dos beiços apenas. 
 
 
-Fiquei descomposta quando caí? 
 
 
-Não. Pois com um vestido tão comprido. . . Mal se pôde ver o bico do pé. Não houve 
nada, acredita. 
 
 
-Jura que não? 
 


 
-Que desconfiada que você é, Sofia! Juro por tudo o que há mais sagrado, pela luz que 
me alumia, por Deus Nosso Senhor. Estás satisfeita? 
 
 
Sofia ia cobrindo o joelho. 
 
 
-Deixa ver outra vez. Creio que não será nada maior; bota um pouco de qualquer 
cousa. Manda perguntar à botica. 
 
 
-Está bom, deixa-me ir despir, disse ela forcejando por descer o vestido. 
 
 
Mas o Palha baixara os olhos do joelho até ao resto da perna onde pegava com o cano 
da bota. De feito, era um belo trecho da natureza. A meia de seda mostrava a perfeição do 
contorno. Palha, por graça, ia perguntando à mulher se machucara aqui, e mais aqui, e mais 
aqui, indicando os lugares com a mão que ia descendo. Se aparecesse um pedacinho desta 
obra-prima, o céu e as árvores ficariam assombrados, concluiu ele enquanto a mulher descia o 
vestido e tirava o pé do banco. 
 
 
-Pode ser. mas havia só o céu e as árvores, disse ela, havia também os olhos do 
Rubião. 
 
 
-Ora, o Rubião! S verdade; ele nunca mais teve aquelas tolices de Santa Teresa? 
 
 
-Nunca; mas, enfim, não me agradaria... Jura de verdade, Cristiano? 
 
 
-O que você quer é que eu vá subindo de sagrado em sagrado, até à cousa mais 
sagrada. Jurei por Deus; não bastou. Juro por você; está satisfeita? 
 
 
Pieguives de lascivo. Saiu finalmente do quarto da mulher e foi para o seu. Aquele 
pudor medroso e incrédulo de Sofia fazia-lhe bem. Mostrava que ela era sua, totalmente sua; 
mas, por isso mesmo que ele a possuía, considerava que era de grande senhor não se afligir 
com a vista casual e instantânea de um pedaço oculto do seu reino. E lastimava que o casual 
tivesse parado na ponta da bota. Era apenas a fronteira; as primeiras vilas do território, antes 
da cidade machucada pela queda, dariam idéia de uma civilização sublime e perfeita. E 
ensaboando-se, esfregando a cara, o colo e a cabeça na vasta bacia de prata, escovando-se, 
enxugando-se, aromando-se Palha imaginava o pasmo e a inveja da única testemunha do 
desastre, se este fosse menos incompleto. 
 
 
CAPÍTULO CXLV 
 
 
 
FOI POR ESSE TEMPO que Rubião pôs em espanto a todos os seus amigos. Na 
terça-feira seguinte ao domingo do passeio (era então janeiro de 1870) avisou a um barbeiro e 
cabeleireiro da Rua do Ouvidor que o mandasse barbear à casa, no outro dia. às nove horas da 
manhã. Lá foi um oficial francês, chamado Lucien, que entrou para o gabinete de Rubião, 
segundo as ordens dadas ao criado. 
 
 
-Uhm!... rosnou Quincas Borba, de cima dos joelhos do Rubião. 
 


 
Lucien cumprimentou o dono da casaeste, porém, não viu a cortesia, como não ouvira 
o sinal do Quincas Borba. Estava em uma longa cadeira de extensão, ermo do espírito, que 
rompera o tecto e se perdera no ar. A quantas léguas iria? Nem condor nem águia o poderia 
dizer. Em marcha para a lua,-não via cá embaixo mais que as felicidades perenes, chovidas 
sobre ele, desde o berço, onde o embalaram fadas, até à Praia de Botafogo, aonde elas o 
trouxeram por um chão de rosas e bogaris. Nenhum revés, nenhum malogro, nenhuma 
pobreza;-vida plácida, cosida de gozo, com rendas de supérfluo. Em marcha para a lua! 
 
 
O barbeiro relanceou os olhos pelo gabinete, onde fazia principal figura a secretária, e 
sobre ela os dous bustos de Napoleão e Luís Napoleão. Relativamente a este último, havia, 
ainda pendentes da parede, uma gravura ou litografia representando a Batalha de Sol ferino, e 
um retrato da imperatriz Eugênia. 
 
 
Rubião tinha nos pés um par de chinelas de damasco, bordadas a ouro; na cabeça, um 
gorro com borla de seda preta. Na boca um riso azul claro. 
 
 
CAPÍTULO CXLVI 
 
 
 
-SENHOR... 
 
 
Uhm! repetiu Quincas Borba, de pé nos joelhos do senhor. 
 
 
Rubião voltou a si e deu com o barbeiro. Conhecia-o por tê-lo visto ultimamente na 
loja; ergueu-se da cadeira. Quincas Borba latia como a defendê-lo contra o intruso. 
 
 
-Sossega! cala a boca! disse-lhe Rubião; e o cachorro foi, de orelha baixa, meter-se 
por trás da cesta de papéis. Durante esse tempo, Lucien desembrulhava os seus aparelhos. 
 
 
-O senhor vai perder uma bela barba, dizia ele em francês. Conheço pessoas que 
fizeram a mesma cousa, mas para servir a alguma dama. Tenho sido confidente de homens 
respeitáveis... 
 
 
-Justamente! interrompeu Rubião. 
 
 
Não entendera nada; posto soubesse algum francês, mal o compreendia lido,-como 
sabemos,- e não o entendia falado. Mas, fenômeno curioso, não respondeu por impostura; 
ouviu as palavras, como se fossem cumprimento ou aclamação; e, ainda mais curioso 
fenômeno, respondendo-lhe em português, cuidava falar francês. 
 
 
-Justamente! repetiu. Quero restituir a cara ao tipo anterior; é aquele. 
 
 
E, como apontasse para o busto de Napoleão III, respondeu-lhe o barbeiro pela nossa 
língua 
 
 
-Ah! o imperador! Bonito busto, em verdade. Obra fina. 0 senhor comprou isto aqui 
ou mandou vir de Paris? São magníficos. Lá está o primeiro, o grande; este era um gênio. Se 
não fosse a traição, oh! os traidores, vê o senhor? os- traidores são piores que as bombas de 
Orsini. 


 
 
-Orsini! um coitado! 
 
 
-Pagou caro. 
 
 
-Pagou o que devia. Mas não há bombas nem Orsini contra o destino de um grande 
homem, continuou Rubião. Quando a fortuna de uma nação põe na cabeça de um grande 
homem a coroa imperial, não há maldades que valham... Orsini! um bobo! 
 
 
Em poucos minutos, começou o barbeiro a deitar abaixo as barbas de Rubião, para lhe 
deixar somente a pera e os bigodes de Napoleão III; encarecia-lhe o trabalho; afirmava que 
era difícil compor exatamente uma cousa como a outra. E à medida que lhe cortava as barbas, 
ia-as gabando-Que lindos fios! Era um grande e honesto sacrifício que fazia, em verdade... 
 
 
-"Seu" barbeiro, você é pernóstico, interrompeu Rubião. Já lhe disse o que quero; 
ponha-me a cara como estava. Ali tem o busto para guiá-lo. 
 
 
-Sim, senhor, cumprirei as suas ordens, e verá que semelhança vai sair. 
 
 
E zás, zás, deu os últimos golpes às barbas de Rubião, e começou a rapar-lhe as faces 
e os queixos. Durou longo tempo a operação, o barbeiro ia tranqüilamente rapando, 
comparando, dividindo os olhos entre o busto e o homem. Às vezes, para melhor cotejá-los, 
recuava dous passos, olhava-os alternadamente, inclinava-se, pedia ao homem que se virasse 
de um lado ou de outro, e ia ver o lado correspondente do busto. 
 
 
-Vai bem? perguntava Rubião. 
 
 
Lucien pedia-lhe com um gesto que se calasse, e prosseguia. Recortou a pera, deixou 
os bigodes, e escanhoou à vontade, lentamente, amigamente, aborrecidamente, adivinhando 
com os dedos alguma pontinha imperceptível de cabelo no queixo ou na face. As vezes 
Rubião, cansado de estar a olhar para o tecto, enquanto o outro lhe aperfeiçoava os queixos, 
pedia para descansar. Descansando, apalpava o rosto e sentia pelo tacto a mudança. 
 
 
-Os bigodes é que não estão muito compridos, observava. 
 
 
-Falta arranjar-lhes as guiasaqui trago os ferrinhos para encurvá-los bem sobre o lábio, 
e depois faremos as guias. Ah! eu pre6ro compor dez trabalhos originais a uma só cópia. 
 
 
Volveram ainda dez minutos, antes que os bigodes e a pera fossem bem retocados. 
Enfim, pronto, Rubião deu um salto, correu ao espelho, no quarto, que ficava ao pé; era o 
outro, eram ambos, era ele mesmo, em suma. 
 
 
-Justamente! exclamou tornando ao gabinete, onde o barbeiro, tendo arrecadado os 
aparelhos, fazia festas ao Quincas Borba. 
 
 
E indo à secretária, abriu uma gaveta, tirou uma nota de vinte mil-réis, e deu-lha. 
 
 
-Não tenho troco, disse o outro. 
 


 
-Não precisa dar troco, acudiu Rubião com um gesto soberano; tire o que houver de 
pagar à casa, e o resto é seu. 
 
 
CAPÍTULO CXLVII 
 
 
 
FICANDO SÓ, Rubião atirou-se a uma poltrona, e viu passar muitas cousas 
suntuosas. Estava em Biarritz ou Compiègne, não se sabe bem; Compiègne, parece. Governou 
um grande Estado, ouviu ministros e embaixadores, dançou, jantou,-e assim outras ações 
narradas em correspondências de jornais, que ele lera e lhe ficaram de memória. Nem os 
ganidos de Quincas Borba logravam espertá-lo. Estava longe e alto. Compiègne era no 
caminho da lua. Em marcha para a lua! 
 
 
CAPÍTULO CXLVIII 
 
 
 
QUANDO DESCEU DA LUA, ouviu os ganidos do cachorro e sentiu frio nos 
queixos. Correu ao espelho e verificou que a diferença entre a cara barbada e a cara lisa era 
grande mas que, assim lisa, não Ihe ficava mal. Os comensais chegaram à mesma conclusão. 
 
 
- Está perfeitamente bem! Há muito que devia ter feito isso. Não é que as barbas 
grandes lhe tirassem a nobreza do rosto; mas, assim como está agora, tem o que tinha, e mais 
um tom moderno... 
 
 
-Moderno, repetiu o anfitrião. 
 
 
Fora, igual espanto. Todos achavam sinceramente que este outro aspecto lhe ia melhor 
que o anterior. Uma só pessoa, o Dr. Camacho, posto julgasse que os bigodes e a pera ficavam 
muito bem ao amigo, ponderou que era de bom aviso não alterar o rosto, verdadeiro espelho 
da alma, cuja firmeza e constância devia reproduzir 
 
 
-Não é por lhe falar de mim, concluiu; mas, nunca me há de ver a cara de outro modo. 
t uma necessidade moral da minha pessoa. Minha vida, sacrificada aos princípios,-porque eu 
nunca tentei conciliar princípios, mas homens,-minha vida, digo, uma imagem fiel da minha 
cara, e vice-versa. 
 
 
Rubião ouvia com seriedade, e acenava de cabeça que sim, que devia ser assim por 
força. Sentia-se então imperador dos franceses incógnito, de passeio; descendo à rua, voltou 
ao que era. Dante, que viu tantas cousas extraordinárias, afirma ter assistido no inferno ao 
castigo de um espírito florentino, que uma serpente de seis pés abraçou de tal modo, e tão 
confundidos ficaram, que afinal já se não podia distinguir bem se era um ente único, se dous. 
Rubião era ainda dous. Não se misturavam nele a própria pessoa com o imperador dos 
franceses. Revezavam-se; chegavam a esquecer-se um do outro. Quando era só Rubião, não 
passava do homem do costume Quando subia a imperador, era só imperador. Equilibravam-
se, um sem outro, ambos integrais. 
 
 
CAPÍTULO CXLIX 


 
 
 
-QUE MUDANÇA É ESSA? perguntou Sofia, quando ele lhe apareceu no fim da 
semana. 
 
 
-Vim saber do seu joelho; está bom? 
 
 
-Obrigada. 
 
 
Eram duas horas da tarde. Sofia acabava de vestir-se para sair quando a criada lhe fora 
dizer que estava ali Rubião,-tão mudado de cara que parecia outro. Desceu a vê-lo curiosa; 
achara-o na sala, de pé, lendo os cartões de visita. 
 
 
- Mas que mudança é essa? repetiu ela. 
 
 
Rubião, sem nenhum sentimento imperial. respondeu que supunha ficarem-lhe melhor 
os bigodes e a pera. 
 
 
-Ou estou mais feio? concluiu. 
 
 
-Está melhor, muito melhor. 
 
 
E Sofia disse consigo que talvez fosse ela a causa da mudança 
 
 
Sentou-se no sofá, e começou a enfiar os dedos nas luvas.. 
 
 
-Vai sair? 
 
 
-Vou, mas o carro ainda não veio. 
 
 
Caiu-lhe uma das luvas. Rubião inclinou-se para apanhá-la, ela fez a mesma cousa, 
ambos pegaram na luva, e teimando em levantá-la sucedeu que as caras encontraram-se no ar, 
o nariz dela bateu no dele; e as bocas ficaram intactas para rir, como riram. 
 
 
-Machuquei-a? 
 
 
-Não! eu é que lhe pergunto. .. 
 
 
E riram outra vez. Sofia calçou a luva, Rubião fitou-lhe um pé que se mexia 
disfarçadamente, até que o criado veio dizer que a carruagem chegara. Ergueram-se, e ainda 
uma vez riram. 
 
 
CAPÍTULO CL 
 
 
 
TESO, DESCOBERTO, o lacaio abriu a portinhola do coupé, quando Sofia assomou à 
porta. Rubião ofereceu a mão para ajudá-la a entrar, ela aceitou o obséquio e entrou. 
 
 
-Agora, até... 


 
 
Não pôde acabar a frase; Rubião entrara após ela e sentara-se-lhe ao lado; o lacaio 
fechou a portinhola, trepou à almofada, e o carro partiu. 
 
 
CAPÍTULO CLI 
 
 
 
TÃO RÁPIDO FOI TUDO, que Sofia perdeu a voz e o movimento; mas, ao cabo de 
alguns segundos 
 
 
-Que é isto?... Sr. Rubião, mande parar o carro. 
 
 
-Parar? Mas a senhora não me disse que ia sair e esperava por ele? 
 
 
-Não ia sair com o senhor. . . Não vê que. . . Mande parar. . . 
 
 
Desatinada, quis ordenar ao cocheiro que parasse; mas o receio de um possível 
escândalo fê-la deter-se a meio caminho. O coupé entrara na Rua Bela da Princesa. Sofia 
novamente pediu a Rubião que advertisse na inconveniência de irem assim, à vista de Deus e 
de todo mundo. Rubião respeitou o escrúpulo, e propôs que descessem as cortinas. 
 
 
-Eu acho que não faz mal que nos vejam, explicou Rubião; mas, fechando as cortinas, 
ninguém nos vê. Se quer? 
 
 
Sem aguardar resposta, desceu as cortinas de um e outro lado, e ficaram os dous a sós, 
porque, se de dentro podiam ver uma ou outra pessoa que passasse, de fora ninguém os via. 
Sós, completamente sós, como naquele dia em que às mesmas duas horas da tarde, em casa 
dela, Rubião lhe lançou em rosto os seus desesperos. Lá, ao menos, a moça estava livre; aqui, 
dentro do carro fechado, não podia calcular as conseqüências. 
 
 
Rubião, entretanto, acomodara as pernas e não dizia nada. 
 
 
 
CAPÍTULO CLII 
 
 
 
 
SOFIA ENCOLHERA- SE muito ao canto. Podia ser estranheza da situação, podia ser 
medo, mas era principalmente repugnância. Nunca esse homem lhe fez sentir tanta aversão, 
asco, ou outra cousa menos dura, se querem, mas que se reduzia à incompatibilidade,-como 
direi que não agrave os ouvidos?a incompatibilidade da epiderme. 
 
 
Onde iam os sonhos de há poucos dias? Ao simples convite de um passeio, a sós, à 
Tijuca, subiu com ele a montanha, a galope, desmontou, ouviu palavras de adoração, e sentiu 
um beijo na nuca. Onde iam essas imaginações? Onde iam os olhos fixos e grandes, as mãos 
amigas e longas, os pés inquietos, as palavras meigas e os ouvidos cheios de misericórdia? 
Tudo esqueceu, tudo desapareceu, agora que ambos se achavam deveras sós, insulados pelo 
carro e pelo escândalo. E os cavalos continuavam a andar, sacudindo as patas, arrastando 


lentamente o carro, pelas pedras da Rua Bela da Princesa. Que faria ela chegando ao Catete? 
Iria à cidade com ele? Pensou em seguir para a casa de alguma amiga, deixá-lo-ia dentro, diria 
ao cocheiro que se fosse embora. Contaria tudo ao marido. No meio daquela agonia, 
atravessaram-lhe o cérebro algumas memórias banais o estranhas à situação, como a notícia 
de um roubo de jóias lida de manhã nos jornais, a ventania da véspera, um chapéu. Afinal 
fixou-se em um só cuidado. Que lhe ia dizer o Rubião? Viu que ele continuava a olhar para a 
frente, calado, com o castão da bengala no queixo. Não lhe ficava mal a atitude, tranqüila, 
séria, quase indiferente; mas então para que se meteu no carro? Sofia quis romper o silêncio; 
por duas vezes moveu nervosamente as mãos; quase que a irritou a quietação do homem, cuja 
ação só podia ser explicada pela paixão antiga e violenta. Depois, imaginou que ele próprio 
estaria arrependido, e disse-lho em bons termos. 
 
 
-Não vejo que me possa arrepender de cousa nenhuma, acudiu ele, voltando-se. 
Quando a senhora disse que era mau irmos assim, à vista do público, abaixei as cortinas. Não 
concordei, mas obedeci 
 
 
-Chegamos ao Catete, atalhou ela; quer que o leve a casa? Não podemos ir juntos para 
a cidade. 
 
 
-Podemos andar à toa. 
 
 
-Como? 
 
 
-A toa, os cavalos vão andando e nós vamos conversando, sem que nos ouçam nem 
adivinhem... 
 
 
-Pelo amor de Deus! não me fale assim; deixe-me, saia do carro, ou eu saio aqui 
mesmo, e o senhor toma conta dele. Que que quer dizer? Bastam poucos minutos... Olhe, já 
dobramos para o lado da cidade; mande ir para Botafogo, vou deixá-lo à porta de casa . . . 
 
 
-Mas eu saí há pouco de casa, vou para a cidade. Que mal há em levar-me até lá? Se é 
para que não nos vejam, apeio-me, em qualquer lugar, -na Praia de Santa Luzia, por 
exemplo,-do lado do mar... 
 
 
-O melhor é descer aqui mesmo. 
 
 
-Mas por que não iremos até à cidade? 
 
 
-Não, não pode ser. Peço-lhe por tudo que lhe for mais sagrado! Não faça escândalo. 
vamos, diga-me o que é preciso para obter uma cousa tão simples? Quer que me ajoelhe aqui 
mesmo? 
 
 
Apesar da estreiteza do espaço, ia dobrando os joelhos; mas Rubião deu-se pressa em 
fazê-la sentar-se outra vez. 
 
 
 
-Não é preciso que se ajoelhe, disse com brandura. 
 
 
-Obrigada; peço-lhe então por Deus, por sua mãe, que está no céu... 
 


 
-Deve estar no céu, confirmou Rubião. Era uma santa senhora! As mães são sempre 
boas; mas daquela, ninguém que a conheceu poderá dizer outra cousa senão que era uma 
santa. E prendada, como pousas. Que dona de casa! Hóspedes, para ela, tanto fazia cinco 
como cinqüenta, era a mesma cousa, cuidava de tudo a tempo e a hora, e criou fama. Os 
escravos davam-lhe o nome de Sinhá Mãe, porque era realmente, mãe para todos. Deve estar 
no céu! 
 
 
-Bem, bem, atalhou Sofia. Pois faça-me isto por amor de sua mãe; faz? 
 
 
-Isto quê? 
 
 
-Apear-se aqui mesmo. 
 
 
-E ir a pé para a cidade? Não posso. É cisma sua; ninguém nos vê. E depois estes seus 
cavalos são magníficos. Já reparou como atiram as patas, lentamente, plás... plás... plás... 
plás... 
 
 
Cansada de pedir, Sofia calou-se, cruzou os braços e coseu-se ainda mais, se era 
possível, ao cantinho do carro. 
 
 
-Agora me lembro, pensou ela; mando parar à porta do armazém do Cristiano; digo-
lhe o modo por que este homem se introduziu no coupé, os pedidos que lhe fiz e as respostas 
que me deu. Antes isso que fazê-lo apear misteriosamente em qualquer rua. 
 
 
Entretanto, Rubião estava quieto. De vez em quando, volvia no dedo o anel de 
brilhante,-um solitário esplêndido. Não olhava para ela, não lhe dizia nem pedia nada. Iam 
como um casal de aborrecidos. Sofia começava a não entender que razão o teria levado a 
entrar no carro. Necessidade de transporte não podia ser. Vaidade, também não; fechara as 
cortinas, à sua primeira queixa de publicidade. Nenhuma palavra amorosa, uma alusão remota 
que fosse, a medo, cheia de veneração e súplica. Era um inexplicável, um monstro. 
 
 
CAPÍTULO CLIII 
 
 
 
-SOFIA... disse de repente Rubião; e continuou com pausa- Sofia, os dias passam, mas 
nenhum homem esquece a mulher que verdadeiramente gostou dele, ou então não merece o 
nome de homem. Os nossos amores não serão esquecidos nunca,-por mim, está claro, e estou 
certo que nem por ti. Tudo me deste, Sofia; a tua própria vida correu perigo. Verdade que eu 
te vingaria, minha bela. Se a vingança pode alegrar os mortos, terias o maior prazer possível. 
Felizmente, o meu destino protegeu-nos, e pudemos amar sem peias nem sangue... 
 
A moça olhava espantada. 
 
 
-Não te espantes, continuou ele; não nos vamos separar; não, não te falo de separação. 
Não me digas que morrerias; sei que havias de chorar muitas lágrimas. Eu não,-que não vim 
ao mundo para chorar,-mas nem por isso a minha dor seria menor; ao contrário, as dores 
guardadas no coração doem mais que as outras. Lágrimas são boas porque a pessoa desabafa. 
Querida amiga, falo-te assim, porque é preciso termos cautela; a nossa insaciável paixão pode 
esquecer esta necessidade. Temos facilitado muito, Sofia; como nascemos um para o outro, 
parece-nos que estamos casados, e facilitamos. Ouve, querida, ouve, alma da minha alma... A 


vida é bela! A vida é grande! a vida é sublime! Contigo, porém, que nome haverá que lhe 
possa dar? Lembras-te da nossa primeira entrevista? 
 
 
Rubião disse esta última palavra, querendo pegar-lhe na mão. Sofia recuou a tempo; 
estava desorientada, não entendia e tinha medo . A voz dele crescia, o cocheiro podia ouvir 
alguma cousa... uma suspeita a abaloutalvez o intento de Rubião fosse justamento fazer-se 
ouvir, para obrigá-la pelo terror,-ou então para que a abocanhassem. Teve ímpeto de atirar-se 
a ele, gritar que lhe acudissem, e salvar-se pelo escândalo. 
 
 
Ele baixinho, depois de curta pausa 
 
 
-A mim lembra-me, como se fosse ontem. Tu chegaste de carro, não era este; era um 
carro de praça, uma caleça. Desceste medrosa, com o véu pela cara; tremias como varas 
verdes... Mas os meus braços te ampararam... O sol daquele dia devia ter parado, como 
quando obedeceu a Josué... E contudo, minha flor, aquelas horas foram compridas como 
diabo, não sei por que; a rigor, deviam ser curtas. Era talvez porque a nossa paixão não 
acabava mais, não acabou, nem há de acabar nunca... 
 
 
Em compensação, não vimos mais o sol; ia caindo para o outro lado das montanhas 
quando minha Sofia, ainda medrosa, saiu para a rua, e pegou de outra caleça. Outra ou a 
mesma? Creio que foi a mesma. Não imaginas como fiquei; parecia tonto, beijei tudo em que 
havias tocado; cheguei a beijar a soleira da porta. Creio que já te contei isto. A soleira da 
porta. E estive quase a ir de rastos, beijar os degraus da escada. . . Não o fiz, recolhi-me, 
fechei-me para que se não perdesse o teu cheiro; violeta, se bem me recordo... 
 
 
Não, não era possível que o intuito de Rubião fosse fazer crer ao cocheiro uma 
aventura mentirosa. A voz era tão sumida que Sofia mal podia escutá-la mas, se lhe custava 
entender as palavras, não chegava a compreender o sentido delas. A que vinha aquela história 
não sucedida? Quem quer que a ouvisse, aceitaria tudo por verdade, tal era a nota sincera, a 
meiguice dos termos e a verossimilhança dos pormenores. E ele continuou suspirando as belas 
reminiscências . . . 
 
 
-Mas que caçoada é essa? atalhou finamente Sofia. 
 
 
Não lhe respondeu o nosso amigo;-tinha a imagem diante dos olhos, não ouviu a 
pergunta, e foi andando. Citou-lhe um concerto de Gottschalk. O divino pianista melodiava ao 
piano; eles ouviam, mas o demônio da música levou os olhos de um para outro, e ambos 
esqueceram o resto. Quando a música cessou, as palmas romperam, e eles acordaram. Ai 
tristes! acordaram com o olhar do Palha em cima deles, um olho de onça brava. Nessa noite 
cuidou que ele a matasse. 
 
-Senhor Rubião... 
 
 
-Napoleão, não; chama-me Luís. Sou o teu Luís, não é verdade, galante criatura? Teu, 
teu. .. Chama-me teu; o teu Luís, o teu querido Luís. Ai, se tu soubesses o gosto que me dás 
quando te ouço essas duas palavras"Meu Luís!" Tu és a minha Sofia,-a doce, a mimosa Sofia 
da minha alma. Não percamos estes momentos; vamos dizer nomes ternos- mas, baixo, 
baixinho, para que os malandros da almofada do carro não escutem. Para que há de haver 
cocheiros neste mundo? Se o carro andasse por si, a gente falava à vontade, e iria ao fim da 
Terra. 
 


 
Já então iam costeando o Passeio Público; Sofia não deu por isso. olhava fixamente 
para Rubião; não podia ser cálculo de perverso, nem lhe atribuía mofa. . . Delírio, sim, é o que 
era; tinha a sinceridade da palavra, como pessoa que vê ou viu realmente as coisas que relata. 
 
 
"É preciso pô-lo fora daqui", pensou a moça. E aparelhando-se de coragem-Onde 
estaremos nós? perguntou-lhe. É ocasião de separar-nos. Veja do lado de lá; onde estamos? 
Parece que é o convento; estamos no Largo da Ajuda. Diga ao cocheiro que pare; ou, se quer, 
pode apear-se no Largo da Carioca. Meu marido. . . 
 
 
-Vou nomeá-lo embaixador, disse Rubião. Ou senador, se quiser. Senador é melhor; 
ficam os dous aqui. Embaixador que fosse, não consentiria que tu o acompanhasses, e as más 
línguas... Tu sabes a oposição que sofro, as calúnias. . . Ah! ruim gente! Convento da Ajuda, 
disseste? Que tens tu com ele? Queres ser freira? 
 
 
-Não; digo que já passamos o convento da Ajuda. Vou deixá-lo no Largo da Carioca. 
Ou vamos até o armazém de meu marido? 
 
 
Sofia tornou a apegar-se ao segundo alvitre; não se faria suspeita ao cocheiro, provaria 
melhor a sua inocência ao Palha, narrando-lhe tudo, desde a entrada inesperada no carro até o 
delírio. E que delírio era esse? Sofia pensou que o motivo podia ser ela própria, e esta 
conjetura fê-la sorrir de piedade. 
 
 
-Para quê? disse Rubião. Vou apear-me aqui mesmo, é mais seguro. Para que há de ele 
desconfiar de nós e maltratar-te? Posso castigá-lo, mas sempre me ficaria o remorso do mal 
que ele te causaria. Não, linda flor amiga; o vento que se atrevesse a tocar em tua pessoa, 
acredita que eu mandaria pôr fora do espaço, como um vento indigno. Tu ainda não conheces 
bem o meu poder, Sofia; anda, confessa. 
 
 
Como Sofia não confessasse nada, Rubião chamou-lhe de bonita, e ofereceu-lhe o 
solitário que tinha no dedo; ela, porém, conquanto amasse as jóias e tivesse a intuição dos 
solitários, recusou medrosamente a oferta. 
 
 
-Compreendo o escrúpulo, disse ele; mas não perdes por isso, porque hás de receber 
outra pedra ainda mais bela, e pela mão de teu marido. Far-te-ei duquesa. Ouviste? O título é 
dado a ele, mas é que és a causa. Duque. . . Duque de quê? Vou ver um título bonito; ou então 
escolhe tu mesma, porque é para ti, não é para ele, é para ti, minha mimosa. Não é preciso 
escolher já, vai para casa e pensa. Não te vexes; manda-me dizer o que achares mais bonito, e 
faço lavrar imediatamente o decreto. Também podes fazer outra cousaescolhe, e diz-me no 
nosso primeiro encontro, no lugar do costume. Quero ser o primeiro que te chame duquesa. 
Querida duquesa... O decreto virá depois. Duquesa da minha alma! 
 
 
-Sim, sim, disse ela desvairadamente, mas avisemos o cocheiro que nos leve até a casa 
de Cristiano. 
 
 
-Não, apeio-me aqui... Pára! pára! 
 
 
Rubião ergueu as cortinas, e o lacaio veio abrir a portinhola. Sofia, para tirar toda a 
suspeita a este, pediu novamente ao Rubião que fosse com ela à casa do marido; disse-lhe que 
este precisava falar-lhe com urgência. Rubião olhou um pouco espantado para ela, para o 
lacaio e para a rua; e respondeu que não, que iria depois. 


 
 
CAPÍTULO CLIV 
 
 
 
 
APENAS SEPARADOS, deu-se em ambos um contraste. 
 
 
Rubião, na rua, voltou a cabeça para todos os lados, a realidade apossava-se dele e o 
delírio esvaía-se. Andava, estacava diante de uma loja, atravessava a rua, detinha um 
conhecido, pedia-lhe notícias e opiniões; esforço inconsciente para sacudir de si a 
personalidade emprestada. 
 
 
Ao contrário, Sofia, passado o susto e o espanto, mergulhou no devaneio; todas as 
referências e histórias mentirosas de Rubião como que lhe davam saudades,-saudades de 
quê?-"saudades do céu" que é o que dizia o Padre Bernardes do sentimento de um bom 
cristão. Nomes diversos relampejavam no azul daquela possibilidade Quanto pormenor 
interessante! Sofia reconstruiu a caleça velha, onde entrou rápida, donde desceu trêmula, para 
esgueirar-se pelo corredor dentro, subir a escada, e achar um homem,-que lhe disse os mimos 
mais apetitosos deste mundo, e os repetiu agora, ao pé dela, no carro mas não era, não podia 
ser o Rubião. Quem seria? Nomes diversos relampejavam no azul daquela possibilidade. 
 
 
 
CAPÍTULO CLV 
 
 
 
ESPALHOU-SE a nova da mania de Rubião . Alguns, não o encontrando nas horas do 
delírio, faziam experiências, a ver se era verdadeiro o boato; encaminhavam a conversação 
para os negócios de França do imperador. Rubião resvalava ao abismo, e convencia-os. 
 
 
CAPÍTULO CLVI 
 
 
 
PASSARAM-SE alguns meses, veio a guerra franco-prussiana, e as crises de Rubião 
tornaram-se mais agudas e menos espaçadas. Quando as malas da Europa chegavam cedo, 
Rubião saía de Botafogo, antes do almoço, e corria a esperar os jornais; comprava a 
Correspondência de Portugal, e ia lê-la no Carceler. Quaisquer que fossem as notícias dava-
lhes o sentido da vitória. Fazia a conta dos mortos e feridos, e achava sempre um grande saldo 
a seu favor. A queda de Napoleão III foi para ele a captura do rei Guilherme, a revolução de 4 
de setembro um banquete de bonapartistas. 
 
 
Em casa, os amigos do jantar não se metiam a dissuadi-lo. Também não confirmavam 
nada, por vergonha uns dos outros; sorriam e desconversavam. Todos, entretanto, tinham as 
suas patentes militares, o Marechal Torres, o Marechal Pio, o Marechal Ribeiro, e acudiam 
pelo título. Rubião via-os fardados; ordenava um reconhecimento, um ataque, e não era 
necessário que eles saíssem a obedecer; o cérebro do anfitrião cumpria tudo. Quando Rubião 
deixava o campo de batalha para tornar à mesa, esta era outra. Já sem prataria, quase sem 
porcelana nem cristais, ainda assim aparecia aos olhos de Rubião regiamente esplêndida. 


Pobres galinhas magras eram graduadas em faisões; picados triviais, assados de má morte 
traziam o sabor das mais finas iguarias da terra. Os comensais faziam algum reparo, entre si,-
ou ao cozinheiro,-mas Luculo ceava sempre com Luculo. Toda a mais casa, gasta pelo tempo 
e pela incúria, tapetes desbotados, mobílias truncadas e descompostas, cortinas enxovalhadas, 
nada tinha o seu atual aspecto, mas outro, lustroso e magnífico. E a linguagem era também 
diversa, rotunda e copiosa, e assim os pensamentos, alguns extraordinários , como os do 
finado amigo Quincas Borba,-teorias que ele não entendera, quando lhas ouvira outrora, em 
Barbacena, e que ora repetia com lucidez, com alma,- às vezes, empregando as mesmas frases 
do filósofo. Como explicar essa repetição do obscuro, esse conhecimento do inextricável, 
quando os pensamentos e as palavras pareciam ter ido com os ventos de outros dias? E por 
que todas essas reminiscências desapareciam com a volta da razão? 
 
 
CAPÍTULO CLVII 
 
 
 
 
A COMPAIXÃO DE SOFIA, - explicado o mal de Rubião pelo amor que ele lhe 
tinha,-era um sentimento médio, não simpatia pura nem egoísmo ferrenho, mas participando 
de ambos. Uma vez que evitasse alguma situação idêntica à do coupé, tudo ia bem. Nas horas 
em que Rubião estava lúcido, escutava-o e falava-lhe com interesse, -até porque a doença, 
dando-lhe audácia nos momentos de crise, dobrava-lhe a timidez nas horas normais. Não 
sorria, como o Palha, quando Rubião subia ao trono ou comandava um exército. Crendo-se 
autora do mal, perdoava-lho; a idéia de ter sido amada até à loucura, sagrava-lhe o homem. 
 
 
CAPÍTULO CLVIII 
 
 
 
-POR QUE NÃO O TRATAM? perguntou uma noite D. Fernanda, que ali o 
conhecera no ano anterior; pode ser que se cure. 
 
 
-Parece que não é cousa grave, acudiu o Palha; tem desses acessos, mas assim mansos, 
como viu, idéias de grandeza, que passam logo; e repare que, fora daquilo, conversa 
perfeitamente. Contudo, pode ser... Que acha V. Ex.a? 
 
 
Teófilo, o marido de D. Fernanda, responde que sim, que era possível. 
 
 
-Que fazia ele, ou que faz agora? continuou o deputado. 
 
 
-Nada, nem agora nem antes. Era rico,-mas gastador. Conhecemo-lo quando veio de 
Minas, e fomos, por assim dizer, o seu guia no Rio de Janeiro, aonde não voltara desde longos 
anos. Bom homem. Sempre com luxo, lembra-se? Mas, não há riqueza inesgotável, quando se 
entra pelo capital; foi o que ele fez. Hoje creio que tenha pouco... 
 
 
-Podia salvar-lhe esse pouco, fazendo-se nomear curador, enquanto ele se trata. Não 
sou médico, mas pode ser que esse amigo fique bom. 
 
 
-Não digo que não. Realmente, é pena. . . Dá-se com todos e presta seus serviços. Sabe 
que esteve para ser nosso parente? Pois não? Quis casar com Maria Benedita. 


 
 
-A propósito de Maria Benedita, interrompeu D. Fernanda, ia me esquecendo que 
trago uma carta dela para mostrar à senhora; recebi-a ontem. Já há de saber que, em breve, 
estão de volta? Está aqui. 
 
 
Entregou a carta a Sofia, que a abriu sem entusiasmo, e a leu com tédio. Era mais que 
uma vulgar carta transatlântica, era um depósito moral, uma confissão íntima e completa de 
pessoa feliz e agradecida. Contava os mais recentes episódios da viagem, desordenadamente, 
porque os viajantes eram sobrepostos a tudo, e as mais belas obras do homem ou da natureza 
valiam menos que os olhos que as miravam. Às vezes, um incidente de hospedaria ou de rua 
comia mais papel e trazia mais interesse que outros, pela razão de pôr em relevo as qualidades 
do marido. Maria Benedita amava tanto ou ainda mais que no primeiro dia. No fim, a medo 
em post scriptum, pedindo que o não dissesse a ninguém, confessava que era mãe. 
 
 
Sofia dobrou o papel, não já com tédio, senão com despeito, e por dous motivos que se 
contradizem; mas a contradição deste mundo. Cotejada aquela carta com as que recebera de 
Maria Benedita, dir-se-ia que ela era apenas uma conhecida, sem outro laço de sangue ou de 
afeto; e, contudo, não quereria ser confidente daquela felicidade cochichada do outro lado do 
oceano, cheia de minúcias, de adjetivos, de exclamações, do nome de Carlos Maria, dos olhos 
de Carlos Maria, dos ditos de Carlos Maria, finalmente do filho de Carlos Maria. Parecia 
acinte, e quase fazia crer na cumplicidade de D. Fernanda. 
 
 
Hábil, sabendo domar-se a tempo, Sofia dissimulou o despeito, e restituiu sorrindo a 
carta da prima. Quis dizer que, pelo texto, a felicidade de Maria Benedita devia estar intacta 
como a levara daqui, mas a voz não lhe passou da garganta. D. Fernanda é que se incumbiu da 
conclusão 
 
 
-Vê-se bem que é feliz? 
 
 
-Parece que sim. 
 
 
CAPÍTULO CLIX 
 
 
 
SE A MANHàSEGUINTE não fosse chuvosa, outra seria a disposição de Sofia. O 
sol nem sempre é oficial de boas idéias; mas, ao menos, permite sair, e a troca do espetáculo 
muda as sensações. Quando Sofia acordou, já a chuva caía grossa e contínua, e o céu e o mar 
era tudo um, tão baixas estavam as nuvens, tão espessa era a cerração. 
 
 
Tédio por dentro e por fora. Nada em que espraiasse a vista e descansasse a alma. 
Sofia meteu a alma em um caixão de cedro, encerrou o de cedro no caixão de chumbo do dia. 
E deixou-se estar sinceramente defunta. Não sabia que os defuntos pensam, que um enxame 
de noções novas vem substituir as velhas, e que eles saem criticando o mundo como os 
espectadores saem do teatro criticando a peça e os atores. A defunta sentiu que algumas 
noções e sensações continuavam a vida. Vinham de mistura, mas tinham um ponto de partida 
comum,-a carta da véspera e as recordações que lhe trouxe de Carlos Maria. 
 
 
Em verdade, cuidara ter arredado para longe essa figura aborrecida, e ei-la que 
reaparecia, que sorria, que a fitava, que lhe sussurrava ao ouvido as mesmas palavras do vadio 


egoísta e enfatuado, que a convidou um dia à valsa do adultério e a deixou sozinha no meio do 
salão. A volta dessa vinham outras; Maria Benedita, por exemplo, um caco de gente, que ela 
foi buscar à roça para lhe dar lustre de cidade, e que esqueceu todos os benefícios para só se 
lembrar das suas ambições. E D. Fernanda também, madrinha dos seus amores, que de caso 
pensado, trouxera na véspera a carta de Maria Benedita com o post scriptum confidencial. 
Não advertiu que o prazer da amiga bastava a explicar o esquecimento da parte reservada da 
carta; menos ainda indagou se a natureza moral de D. Fernanda comportava essa suposição. 
Vieram assim outras cogitações e imagens, e tornaram as primeiras, e todas se iam ligando e 
desligando. Entre elas, apareceu uma lembrança da véspera. O marido de D. Fernanda 
envolvera Sofia em um grande olhar de admiração. Ela, em verdade, estava nos seus melhores 
dias; o vestido sublinhava admiravelmente a gentileza do busto, o estreito da cintura e o 
relevo delicado das cadeiras;-era foulard, cor de palha. 
 
 
-Cor de palha, acentuou Sofia rindo, quando D. Fernanda o elogiou, pouco depois de 
entrar; cor de palha, como uma lembrança deste senhor. 
 
 
Não é fácil dissimular o prazer da lisonja; o marido sorriu cheio de vaidade, 
procurando ler nos olhos dos outros o efeito daquela prova minuciosa de amor. Teófilo 
elogiou também o vestido, mas era difícil mirá-lo sem mirar também o corpo da dona; dali, os 
olhos compridos que lhe deitou, sem concupiscência, é certo, e quase sem reincidência. Pois 
essa lembrança da véspera, um gesto sem convite, uma admiração sem desejo, veio meter-se 
de permeio agora, quando Sofia cuidava na maldade da outra. 
 
 
Carlos Maria Teófilo... Outros nomes relampejavam no céu daquela possibilidade, 
como ficou expresso no cap. CLIV. E vieram todos agora, porque a chuva continuando a cair 
o céu e o mar estavam ainda unidos pela mesma cerração. Vieram todos esses nomes, com os 
próprios sujeitos correspondentes, e até vieram sujeitos sem nomes,-os adventícios e 
ignorados,-que uma só vez passaram por ela, cantaram o hino da admiração e receberam o 
óbolo da boa vontade. Por que não reteve algum de tantos, para ouvi-lo cantar e enriquecê-lo? 
Não é que os óbulos enriqueçam a ninguém, mas há outras moedas de maior valia. Por que 
não reteve um de tantos nomes elegantes, e até egrégios? Essa pergunta sem palavras correu-
lhe assim pelas veias, pelos nervos, pelo cérebro, sem outra resposta mais que a agitação e a 
curiosidade. 
 
 
CAPÍTULO CLX 
 
 
 
NISTO, A CHUVA CESSOU um pouco, e um raio de sol logrou rompeu o nevoeiro,-
um desses raios úmidos que parecem vir de olhos que choraram. Sofia cuidou que ainda podia 
sair; estava inquieta por ver, por andar, por sacudir aquele torpor, e esperou que o sol varres 
se a chuva e tomasse conta do céu e da terra; mas o grande astro percebeu que a intenção dela 
era constituí-lo lanterna de Diógenes e disse ao raio úmido"Volta, volta ao meu seio, raio 
casto e virtuoso; não vás tu conduzi-la onde o seu desejo a quer levar. Que ame, se lhe parece; 
que responda aos bilhetes namorados,-se os recebe e não queima,-não lhe sirvas tu de archote, 
luz do meu seio, filho das minhas entranhas, raio, irmão dos meus raios. " 
 
 
E o raio obedeceu, recolhendo-se ao foco central, um pouco espantado do temor do 
sol, que tem visto tantas cousas ordinárias e extraordinárias. Então o véu de nuvens fez-se 
outra vez espesso, e mais escuro, e a chuva tornou a cair em grandes bátegas. 


 
 
 
CAPÍTULO CLXI 
 
 
 
SOFIA RESIGNOU-SE à reclusão. Já agora tinha a alma tão confusa e difusa como o 
espetáculo exterior. Todas as imagens e nomes perdiam-se no mesmo desejo de amar. t justo 
dizer que ela, quando regressava desses estados de consciência vagos e obscuros, tentava 
fugir-lhes e guiava o espírito para diverso assunto; mas sucedia-lhe como aos que têm sono e 
forcejam por velaros olhos fecham-se de cada vez que espertam, e tornam a espertar para se 
fecharem outra vez. Afinal, deixou a vista da chuva e do nevoeiro, estava cansada, e para 
repousar, foi abrir as folhas do último número da Revista dos Dous Mundos. Um dia. no 
melhor dos trabalhos da comissão das Alagoas, perguntara-lhe uma das elegantes do tempo, 
casada com um senador. 
 
 
-Está lendo o romance de Feuillet, na Revista dos Dous Mandos? 
 
 
-Estou, acudiu Sofia; é muito interessante. 
 
 
Não estava lendo, nem conhecia a Revista; mas, no dia seguinte pediu ao marido que a 
assinasse; leu o romance, leu os que saíram depois, e falava de todos os que lera ou ia lendo. 
Abertas as folhas daquele número, e acabada uma novela, Sofia recolheu-se ao quarto e 
atirou-se à cama. Passara mal a noite, não lhe custou pegar no sono,-profundo, largo e sem 
sonhos,-exceto para o fim, em que teve um pesadelo. Estava diante da mesma parede de 
cerração daquele dia, mas no mar, à proa de uma lancha, deitada de bruços, escrevendo com o 
dedo na água um nome-Carlos Maria. E as letras ficavam gravadas, e para maior nitidez, 
tinham os sulcos de espuma. Até aqui nada havia que atordoasse, a não ser o mistério; mas 
sabido que os mistérios dos sonhos parecem fatos naturais. Eis que a parede da cerração se 
rasga, e nada menos que o próprio dono do nome aparece aos olhos de Sofia, caminha para 
ela, toma-a nos braços e diz-lhe muitas palavras de ternura, análogas às que ela, alguns meses 
antes, ouvira ao Rubião. E não a afligiram, como as deste; ao contrário, escutou-as com 
prazer, meia caída para trás, como se desmaiasse. Já não era lancha, mas carruagem, onde ela 
se ia com o primo, mãos presas, namorada de uma linguagem de ouro e sândalo. Também 
aqui não há que aterre. O terror veio quando a carruagem parou, muitos vultos mascarados a 
cercaram, mataram o cocheiro, arrancaram as portinholas, apunhalaram Carlos Maria e 
deitaram o cadáver ao chão. Depois, um deles, que parecia ser o chefe de todos, tomou o lugar 
do defunto, tirou a máscara e disse a Sofia que se não assustasse, que ele a amava cem mil 
vezes mais que o outro. Logo em seguida, pegou-lhe nos pulsos e deu-lhe um beijo, mas um 
beijo úmido de sangue, cheirando a sangue. Sofia soltou um grito de horror e acordou. Tinha 
ao pé do leito o marido. 
 
 
-Que foi? perguntou ele. 
 
 
-Ah! respirou Sofia. Gritei, não gritei? 
 
 
Palha não respondeu nada; olhava à toa, pensava em negócios. Então um receio 
assaltou a mulher, se haveria efetivamente falado, murmurado alguma palavra, um nome 
qualquer,-o mesmo que escrevera na água. E logo, espreguiçando os braços para o ar, fê-los 


cair sobre os ombros do marido, cruzou as pontas dos dedos na nuca, e murmurou meio 
alegre, meio triste 
 
 
-Sonhei que estavam matando você. 
 
 
Palha ficou enternecido. Havê-la feito padecer por ele, ainda que em sonhos, encheu-o 
de piedade, mas de uma piedade gostosa, um sentimento particular, íntimo, profundo,-que o 
faria desejar outros pesadelos, para que o assassinassem aos olhos dela, e para que ela gritasse 
angustiada, convulsa, cheia de dor e de pavor. 
 
 
CAPÍTULO CLXII 
 
 
 
NO DIA SEGUINTE, o sol apareceu claro e quente, o céu límpido, e o ar fresco. Sofia 
meteu-se no carro e saiu a visitas e a passeio para desforrar-se da reclusão. Já o próprio dia lhe 
fez bem. Vestiu-se cantarolando. O trato das senhoras que a receberam em suas casas,- e das 
que achou na Rua do Ouvidor, a agitação externa, as notícias da sociedade, a boa feição de 
tanta gente fina e amiga, bastaram a espancar-lhe da alma os cuidados da véspera. 
 
 
CAPÍTULO CLXIII 
 
 
 
ASSIM, POIS, O que parecia vontade imperiosa reduzia-se a veleidade pura, e, com 
algumas horas de intervalo, todos os maus pensamentos se recolheram às suas alcovas. Se me 
perguntardes por algum remorso de Sofia, não sei que vos diga. Há uma escala de 
ressentimento e de reprovação. Não é só nas ações que a consciência passa gradualmente da 
novidade ao costume, e do temor à indiferença. Os simples pecados de pensamentos são 
sujeitos a essa mesma alteração, e o uso de cuidar nas cousas afeiçoa tanto a elas,-que, afinal, 
o espírito não as estranha, nem as repele. E nestes casos há sempre um refúgio moral na 
isenção exterior, que é, por outros termos mais explicativos, o corpo sem mácula. 
 
 
CAPÍTULO CLXIV 
 
 
 
UM SÓ INCIDENTE afligiu Sofia naquele dia puro e brilhante,-. um encontro com 
Rubião. Tinha entrado em uma livraria da rua do Ouvidor para comprar um romance; 
enquanto esperava o troco, viu entrar o amigo. Rapidamente voltou o rosto e percorreu com os 
olhos os livros da prateleira,-uns livros de anatomia e de estatística,-recebeu o dinheiro, 
guardou-o, e, de cabeça baixa, rápido como uma flecha, saiu à rua, e enfiou para cima. O 
sangue só lhe sossegou, quando a Rua dos Ourives ficou para trás. 
 
 
Dias depois, indo a entrar em casa de D. Fernanda, deu com ele no saguão. Cuidou 
que subisse, e dispôs-se a subir também, ainda que receosa; mas Rubião descia, apertaram-se 
as mãos familiarmente, e despediram-se até à tarde. 
 
 
-Ele vem aqui muitas vezes? perguntou Sofia a D. Fernanda depois de lhe contar o 
encontro no saguão. 


 
 
-Esta é a quarta vez, quarta ou quinta; mas só da segunda vez apareceu delirando. Das 
outras é como viu agora, sossegado, e até conversador. Há nele sempre alguma cousa que 
mostra não estar completamente bem. Não reparou nos olhos, um pouco vagos? É isso; no 
mais, conversa bem. Creia, D. Sofia; aquele homem pode sarar. Por que não faz com que seu 
marido tome isto a peito? 
 
 
-Cristiano tem projeto de o mandar examinar e tratar, mas, deixe estar que eu o 
apresso. 
 
 
-Pois sim. Ele parece ser muito amigo da senhora e do Sr. Palha 
 
 
"Ter-lhe-á dito alguma inconveniência no delírio, a meu respeito? pensou Sofia. 
Convirá revelar-lhe a verdade?" 
 
 
Concluiu que não; o próprio mal do Rubião explicaria as inconveniências. Prometeu 
que apressaria o marido, e nessa mesma tarde expôs o negócio ao Palha. É uma grande 
amolação, redargüiu este. E perguntou que interesse tinha D. Fernanda em tornar àquele 
negócio. Que o tratasse ela mesma! Era uma atrapalhação ter de cuidar do outro, de o 
acompanhar, e, provavelmente, de recolher e gerir algum resto de dinheiro que ainda 
houvesse, fazendo-se curador como dissera o Dr. Teófilo. Um aborrecimento de todos os 
diabos. 
 
 
-Já ando com grande carga sobre mim, Sofia. E depois como há de ser? Havemos de 
trazê-lo para casa? Parece que não. Metê-lo onde? Em alguma casa de saúde. . . Sim, mas se 
não puderem aceitá-lo? Não hei de mandá-lo para a Praia Vermelha... E as responsabilidades? 
Você prometeu que me falaria? 
 
 
- Prometi, e afirmei que você faria isto, respondeu Sofia sorrindo. Talvez não custe 
tanto como parece. 
 
 
Sofia insistiu ainda. A compaixão de D. Fernand a tinha-a impressionado muito; 
achou-lhe um quê distinto e nobre, e advertiu que se a outra, sem relações estreitas nem 
antigas com Rubião, assim se mostrava interessada, era de bom-tom não ser menos generosa 
 
 
CAPÍTULO CLXV 
 
 
 
TUDO SE FEZ sossegadamente. Palha alugou uma casinha na Rua do Príncipe, cerca 
do mar, onde meteu o nosso Rubião, alguns trastes, e o cachorro amigo. Rubião adotou a 
mudança sem desgosto, e, desde que lhe tornou o delírio, com entusiasmo. Estava nos seus 
paços de S. Cloud. 
 
 
Não sucedeu assim aos amigos da casa, que receberam a notícia da mudança como um 
decreto de exílio. Tudo na antiga habitação fazia parte deles, o jardim, a grade, os canteiros, 
os degraus de pedra, a enseada. Traziam tudo de cor. Era entrar, pendurar o chapéu, e ir 
esperar na sala. Tinham perdido a noção da casa alheia e do obséquio recebido. Depois, a 
vizinhança. Cada um daqueles amigos do Rubião estava afeito a ver as pessoas do lugar, as 
caras da manhã, e as da tarde, alguns chegavam a cumprimentá-las, como aos seus próprios 


vizinhos. Paciência! iriam agora para Babilônia, como os desterrados de Sião. Onde quer que 
estivesse o Eufrates, achariam salgueiros em que pendurassem as harpas saudosas,-ou 
propriamente, cabides em que pusessem os chapéus. A diferença entre eles e os profetas é 
que, ao cabo de uma semana, pegariam outra vez dos instrumentos, e os tangeriam com a 
mesma graça e força; cantariam os velhos hinos, tão novos como no primeiro dia. e Babel 
acabaria por ser a mesma Sião, perdida e resgatada. 
 
 
- O nosso amigo precisa de repouso por algum tempo, disse-lhes o Palha, em 
Botafogo, na véspera da mudança. Hão de ter reparado que não anda bom; tem suas horas de 
esquecimento, de transtorno, de confusão, vai tratar-se, por enquanto preciso que descanse. 
Arranjei-lhe uma casa pequena, mas pode ser que, ainda assim, passe para um 
estabelecimento de saúde. Ouviram atônitos. Um deles, o Pio, voltando a si mais depressa que 
os outros, respondeu que há mais tempo se devia ter feito aquilo; mas para fazê-lo, era preciso 
ter influência decisiva no mínimo de Rubião. 
 
 
- Muitas vezes lhe disse, por boas maneiras, que era indispensável consultar um 
médico, por me parecer que tinha alguma cousa no estômago. .. Era um modo de desviar o 
sentido, compreende? Mas ele respondia sempre, que não tinha nada, digeria bem... - Mas  
come menos, dizia-lhe eu; há dias em que não come quase nada; está mais magro, um pouco 
amarelo..." Compreende que não podia dizer-lhe a verdade. Cheguei a consultar um médico, 
meu amigo; mas o nosso bom Rubião não o quis receber. 
 
 
Os outros quatro iam confirmando de cabeça toda aquela invençãoera o mais que se 
lhes podia pedir e tudo o que lhes consentia o atordoamento do golpe. Acabaram perguntando 
o número da nova casa, para irem saber dele. Pobre amigo! Quando se arrancaram dali se 
despediram uns dos outros, deu-se um fenômeno com que não contavam; é que eles mesmos 
mal podiam separar-se. Não que os ligasse amizade nem estima; o próprio interesse os fazia 
antipáticos. Mas o costume de se verem todos os dias, ao almoço e ao jantar,- à mesma mesa, 
como que os tinha fundido uns nos outros; a necessidade os fez suportáveis, o tempo os 
tornou mutuamente precisos. Em resumo, eram os olhos de cada um que iam padecer com 
ausência das caras de uso, do gesto, das suíças, dos bigodes, da calva, dos sestros particulares, 
do modo de comer, de falar e o estar dos companheiros. Era mais que separação, era 
desarticulação. 
 
 
 
CAPÍTULO CLXVI 
 
 
 
Rubião notou que eles não o acompanharam à casa nova, e mandou-os chamarnenhum 
veio, e a ausência encheu de tristeza o nosso amigo,-durante as primeiras semanas. Era a 
família que o abandonava. Rubião procurou recordar se lhes fizera algum mal, por obra ou por 
palavra, e não achou nada. 
 
 
CAPÍTULO CLXVII 
 
 
 
-CONVERSEI com o homem; achei-lhe idéias delirantes. Conquanto não seja 
alienista, acho que pode ficar bom. . . Mas quer saber uma descoberta interessante? 


 
 
-Crê que fique bom? disse D. Fernanda, sem atender à pergunta do Dr. Falcão. 
 
 
Era deputado o Dr. Falcão, deputado e médico, amigo da casa, varão sabedor, céptico 
e frio. D. Fernanda tinha-lhe pedido o favor de examinar o Rubião, pouco depois que este se 
transportou para a casa da Rua do Príncipe. 
 
 
-Sim, creio que fique bom, desde que seja regularmente tratado. Pode ser que a doença 
não tenha antecedentes na família. Mande ver um especialista. Mas não quer saber a minha 
interessante descoberta? 
 
 
-Qual é? 
 
 
-Talvez tenha parte na moléstia uma pessoa sua conhecida, respondeu ele sorrindo. 
 
 
-Quem? 
 
 
-D. Sofia. 
 
 
-Como assim? 
 
 
-Ele falou-me dela com entusiasmo, disse-me que era a mais esplêndida mulher do 
mundo, e que a nomeara duquesa, por não poder nomeá-la imperatriz; mas que não 
brincassem com ele, que era capaz de fazer como o tio, divorciar-se e casar com ela. Concluí 
que terá tido paixão pela moça; e depois a intimidade, Sofia para aqui, Sofia para 
ali...Desculpe-me, mas eu creio que os dous se amaram . . . 
 
 
-Oh! não! 
 
 
- D. Fernanda, creio que se amaram. Que admira? Eu mal a conheço; a senhora parece 
que não a conhece há muito tempo nem viveu na intimidade dela. Pode ser que se tivessem 
amado, e que alguma paixão violenta. . . Suponhamos que ela o mandasse pôr fora de casa. . .  
verdade que tem a mania das grandezas; mas tudo se pode juntar... 
 
 
D. Fernanda não olhava para ele, vexada de lhe ouvir aquela suposição; evitava 
discuti-la pelo melindre do assunto. Achava a suspeita sem fundamento, absurda, 
inverossímil; não chegaria a crer naquele amor espúrio, ainda que o ouvisse ao próprio 
Rubião. Um desvairado, em suma. Quando o não fosse, é ainda provável que lhe não desse fé. 
Sim, não lhe daria fé. Não podia crer que Sofia houvesse amado aquele homem, não por ele, 
mas por ela, tão correta e pura. Era impossível . Quis defendê-la ; mas, apesar da intimidade 
do Dr . Falcão, recuou segunda vez do assunto, e repetiu a pergunta de há pouco 
 
 
-Parece-lhe então que ele pode ficar bom? 
 
 
-Pode, mas não basta o meu exame. A senhora sabe que, nestas cousas, é melhor um 
especialista. 
 
 
Pouco depois, saindo à rua, Falcão sorria da resistência de D. Fernanda em aceitar a 
sua hipótese. "Com certeza, houve alguma cousa, dizia ele consigo; boa cara, e, se não é um 
petimetre, é apessoado, e tem fogo nos olhos. Com certeza..." E repetia algumas frases de 


Rubião, evocava o gesto e a modulação terna da voz, e cada vez mais se lhe ia agravando a 
suspeita. "Com certeza..." Era já impossível que se não tivessem amado; a oposição de D. 
Fernanda parecia-lhe ingênua,-se não era antes um recurso para desconversar e não tocar na 
matéria. Havia de ser isso. . . 
 
 
Neste ponto, sem querer, o deputado estacou. Uma suspeita nova assaltara-lhe o 
espírito. Após alguns instantes rápidos, abanou a cabeça voluntariamente, como a desmentir-
se, como a achar-se absurdo, e foi andando. Mas a suspeita era teimosa, e a que ocupa deveras 
o interior do homem, não faz caso da cabeça nem dos seus gestos. "Quem sabe se D. Fernanda 
não suspirou também por ele? Essa dedicação não seria um prolongamento de amor, etc.?" E 
assim foram nascendo perguntas, que achavam no íntimo do Dr. Falcão resposta afirmativa. 
Resistiu ainda, era amigo da casa, tinha respeito a D. Fernanda, conhecia-a honesta; mas,-ia 
pensando,-bem podia ser que um sentimento oculto, recatado,-quem sabe até se provocado 
pela mesma paixão da outra...? Há dessas tentações. O contágio da lepra corrompe o mais 
puro sangue; um triste bacilo destrói o mais robusto organismo. 
 
 
Pouco a pouco, as veleidades de resistência foram cedendo à noção da possibilidade, 
da probabilidade e da certeza. Em verdade tinha notícia de algumas obras de caridade de D. 
Fernanda; mas aquele caso era novo. Essa dedicação especial a um homem que não era 
familiar da casa, nem velho amigo, nem parente, aderente, colega do marido, qualquer cousa 
que o fizesse partícipe da vida doméstica, pelas relações, pelo sangue ou pelo costume, não 
era explicável sem algum motivo secreto. Amor, seguramente curiosidade de mulher honesta, 
que pode descambar no vício e no remorso. Aquela teria recuado a tempo; fitou-lhe a simpatia 
mórbida. . . E daí, quem sabe? 
 
 
CAPÍTULO CLXVIII 
 
 
 
E DAÍ, QUEM SABE? repetiu o Dr. Falcão na manhã seguinte. A noite não apagara a 
desconfiança do homem. E daí, quem sabe? Sim, não seria só simpatia mórbida. Sem 
conhecer Shakespeare, ele emendou Hamlet "Há entre o céu e a terra, Horácio, muitas cousas 
mais do que sonha a vossa vã filantropia". Ali andou dedo de amor. E não chasqueava nem 
lastimava nada. Já disse que era céptico; mas, como era também discreto, não transmitiu a 
ninguém a sua conclusão. 
 
 
CAPÍTULO CLXIX 
 
 
 
A VOLTA DE CARLOS MARIA e da mulher interrompeu as preocupações de D. 
Fernanda, relativamente a Rubião. Esta foi a bordo recebê-los conduziu-os à Tijuca onde um 
velho amigo da família de Carlos Maria alugara e trastejara uma casa, por ordem dele. Sofia 
não foi a bordo, mandou o coupé esperá-los no cais Pharoux, mas D. Fernanda já ali tinha 
uma caleça, que os levou, e mais a ela e ao Palha. De tarde, Sofia foi visitar os recém-
chegados. 
 
 
D. Fernanda não cabia em si de contente. As cartas de Maria Benedita os davam por 
felizes; ela não pôde ler desde logo nos olhos e nas maneiras do casal a confirmação do 
escrito. Pareciam satisfeitos. Maria Benedita não reteve as lágrimas, quando abraçou a amiga 


nem esta as suas, e ambas se apertaram como duas irmãs de sangue. No dia seguinte, D. 
Fernanda perguntou a Maria Benedita se ela e o marido eram felizes, e, sabendo que sim, 
pegou-lhe nas mãos e fitou-a longamente sem achar palavra. Não logrou mais que repetiu a 
pergunta 
 
 
-Vocês são felizes? 
 
 
-Somos, respondia Maria Benedita. 
 
 
-Não sabe que bem me faz a sua resposta. Não é só porque eu teria remorsos, se vocês 
não tivessem a felicidade que eu imaginei dar-lhes, mas também porque é bem bom ver os 
outros felizes. Ele gosta de você como no primeiro dia? 
 
 
-Creio que mais, porque eu o adoro. 
 
 
D. Fernanda não entendeu esta palavra. Creio que mais, porque eu o adoro! Em 
verdade, a conclusão não parecia estar nas premissas; mas era o caso de emendar outra vez 
Hamlet"Há entre o céu e a terra, Horácio, muitas cousas mais do que sonha a vossa vã 
dialética." Maria Benedita começou a contar-lhe a viagem, a desfiar as suas impressões e 
reminiscências; e, como o marido viesse ter com elas, pouco depois, recorria à memória dele 
para preencher as lacunas. 
 
 
-Como foi, Carlos Maria? 
 
 
Carlos Maria lembrava, explicava, ou retificava, mas sem interesse quase impaciente. 
Adivinhara que Maria Benedita acabava de confiar à outra as suas venturas, e mal podia 
encobrir o efeito desagradável que isto lhe trazia. Para que dizer que era feliz com ele, se não 
podia ser outra cousa? E por que divulgar os seus carinhos e palavras, as suas misericórdias de 
deus grande e amigo? 
 
 
A volta ao Rio de Janeiro foi uma condescendência sua. Maria Benedita queria ter 
aqui o filho; o marido cedeu,-a custo, mas cedeu. A custo, por quê? É difícil explicá-lo, não 
menos que entendê-lo. Relativamente à maternidade, Carlos Maria tinha idéias pessoais e 
singulares, recônditas, não confiadas a ninguém. Achava impudica a natureza em fazer da 
gestação humana um fenômeno público, franco às vistas, crescente até ao aleijão, sugestivo 
até ao despeito. Daí vinha o desejo da solidão, do mistério e da ausência. Viveria de de boa 
mente os últimos tempos no interior de uma casa única, posta no alto de um morro, vedada ao 
mundo, donde a mulher baixasse um dia com o filho nos braços e a divindade nos olhos. 
 
 
Não fez sobre isto nenhuma proposta à mulher. Teria de discutir, e ele não gostava de 
discutir; preferia ceder. Maria Benedita tinha naturalmente o sentimento 
contrárioconsiderava-se a si mesma um templo divino e recatado, em que vivia um deus, filho 
de outro deus. A gestação ia cheia de tédios, de dores, de incômodos que ela ocultava o mais 
que podia ao marido; mas tudo isso dava maior preço à criaturinha futura. Acolhia o mal com 
resignação,-se não é que o agasalhava com alegria,- uma vez que era a condição da vinda do 
fruto. Fazia cordialmente o ofício da espécie. E repetia sem palavras a resposta de Maria de 
Nazaré"Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim a sua vontade". 
 
 
CAPÍTULO CLXX 


 
 
 
-VOCÊ QUE TEM? perguntou Maria Benedita ao marido, logo que ficaram sós. 
 
 
-Eu? Nada. Por quê? 
 
 
-Parecia estar aborrecido. 
 
 
-Não, não estava aborrecido. 
 
 
-Estava, sim, insistiu ela. 
 
 
Carlos Maria sorriu, sem responder. Maria Benedita já lhe conhecia esse sorriso 
especial, inexpressivo, sem ternura nem censura, superficial e pálido. Não teimou em querer 
saber, mordeu os beiços e retirou-se. 
 
 
No quarto, durante algum tempo, não cuidou de outra cousa que não fosse aquele 
sorriso descorado e mudo, sinal de algum aborrecimento, cuja culpa não podia ser senão ela. 
E percorria toda a conversação, todos os gestos que fizera, e não achava nada que explicasse a 
frieza, ou o que quer que era de Carlos Maria. Talvez ela se mostrasse excessiva nas palavras; 
era seu costume, se estava contente, pôr o coração nas mãos e distribuí-lo a amigos e a 
estranhos. Carlos Maria reprovava essa generosidade, porque dava um ar de sorte grande ao 
seu estado moral e doméstico, e porque lhe parecia banal e inferior. Maria Benedita 
recordava-se que, em Paris, na colônia brasileira, sentira mais de uma vez esse efeito de suas 
expansões, e reprimira-se. Mas D. Fernanda estaria no mesmo caso? Não era a autora da 
felicidade de ambos? Rejeitou essa hipótese, e tratou de ver outra. Não a achando,-voltou à 
primeira, e, segundo lhe sucedia sempre, deu razão ao marido. Em verdade, por mais íntima e 
grata que fosse, não devia contar à boa amiga as minúcias da vida; era leviandade sua... 
 
 
Náuseas vieram interrompê-la neste ponto das reflexões. A natureza lembrava-lhe uma 
razão de Estado,-a razão da espécie,- mais instante e superior aos tédios do marido. Ela cedeu 
à necessidade; mas, poucos minutos depois, estava ao p de Carlos Maria, contornando-lhe o 
pescoço com o braço direito. Ele, sentado, lia uma revista inglesa; pegou-lhe na mão, 
pendente sobre o peito e acabou a página. 
 
 
-Você me perdoa? perguntou a mulher, quando o viu fechar o folheto. Daqui em 
diante vou ser menos tagarela. 
 
 
Carlos Maria pegou-lhe nas duas mãos, sorrindo, e respondeu com a cabeça que sim. 
Foi como se lançasse uma onda de luz sobre ela a alegria penetrou-lhe a alma. Dir-se-ia que o 
próprio feto repercutiu a sensação e abençoou o pai. 
 
 
CAPÍTULO CLXXI 
 
 
 
- PERFEITAMENTE! Assim é que eu os quero ver! bradou uma voz do lado da 
varanda. 
 


 
Maria Benedita afastou-se rapidamente do marido. A varanda, que comunicava para a 
sala, por três portas, tinha uma destas aberta Dali viera a voz; dali espiava e ria a cabeça de 
Rubião. Era a primeira vez que o viam. Carlos Maria, sem se levantar, olhava para ele, sério, 
esperando. E a cabeça ria, com os seus fartos bigodes de ponta de agulha, mirando um e outro, 
e repetindo 
 
 
-Perfeitamente! Assim é que eu os quero ver! 
 
 
Rubião entrou, estendeu-lhes a mão, que eles receberam sem carinho, disse muitas 
frases de admiração e louvor a Maria Benedita, ela tão galante, ele tão galhardo; notou que 
ambos tivessem o nome de Maria, espécie de predestinação, e acabou noticiando a queda do 
ministério. 
 
 
-Caiu o ministério? perguntou involuntariamente Carlos Maria. 
 
 
-Não se fala em outra cousa na cidade. Vou abancar-me, sem pedir licença, já que não 
me oferecem cadeira, continuou ele, sentando-se, tirando a bengala que trazia debaixo do 
braço e firmando as mãos sobre ela. Pois é verdade, o ministério pediu demissão. Vou 
organizar outro. Há de entrar o Palha, o nosso Palha,-seu primo Palha, e o senhor também, se 
lhe dá gosto, será ministro. Preciso de um bom gabinete, todo gente amiga, e forte, capaz de 
dar a vida por mim. Hei de chamar o Morny, o Pio, o Camacho, o Rouher, o Major Siqueira. 
A senhora lembra-se do major? Creio que fica com a guerra; não conheço homem mais apto 
para os negócios militares. 
 
 
Maria Benedita, aborrecida e impaciente, andava pela sala, à espera que o marido 
mandasse alguma cousa; este disse-lhe com os olhos que se fosse embora; ela não aguardou 
outro gesto, pediu licença ao hóspede e retirou-se. Rubião, depois que ela saiu, elogiou-a 
novamente,-uma flor, disse ele; e emendou-se rindoduas flores creio que há ali duas flores. 
Nosso Senhor as abençoe! Carlos Maria estendeu-lhe a mão em ar de despedida. 
 
 
-Meu caro senhor... 
 
 
-Posso incluí-lo no ministério? perguntou Rubião. 
 
 
Não ouvindo resposta, entendeu que sim e prometeu-lhe uma boa pasta. O major iria 
para a guerra, e o Camacho para a justiça. Não os conhecia acaso? "Dous grandes homens, 
Camacho ainda maior que o outro". E obedecendo a Carlos Maria, que ia andando na direção 
da porta, Rubião retirava-se sem se sentir; mas não foi tão pronto. Na varanda, antes de descer 
os degraus, referiu vários fatos da guerra. Por exemplo, tinha restituído a Alemanha aos 
alemães; era bonito e político. Já havia dado Veneza aos italianos. Não precisava mais 
território; as províncias do Reno, sim, mas havia tempo de as ir buscar. 
 
 
-Meu caro senhor... insistiu Carlos Maria estendendo-lhe a mão. 
 
 
Despediu-o e fechou a porta; Rubião proferiu ainda algumas palavras e desceu os 
degraus. Maria Benedita, que os espreitava do fundo veio ter com o marido, reteve-o pela 
mão, e ficou a ver o Rubião que atravessava o jardim. Não ia direito, nem apressado, nem 
calado; detinha-se, gesticulava, apanhava um galho seco, vendo mil cousas no ar, mais 
galantes que a dona da casa, mais galhardas que o dono. Da vidraça miravam o nosso amigo, 


e, em certo lance grotesco Maria Benedita não pôde suster o riso; Carlos Maria, porém, 
olhava plácido. 
 
 
CAPÍTULO CLXXII 
 
 
 
 
-MAS SE A QUEDA do ministério é verdadeira. disse ela, sabe você quem está 
ministro? 
 
 
-Quem? perguntou Carlos Maria com os olhos. 
 
 
-Seu primo Teófilo. Nanã contou-me que ele andava com suas esperanças, e foi por 
isso que ficou este ano na Corte. Desconfiou, ou já se falava na saída do ministério; talvez 
desconfiasse. Não me lembra bem o que ela me disse; mas parece que entra. 
 
 
-Pode ser. 
 
 
-Olha, lá vai Rubião; parou, está olhando para cima, espera talvez a diligência ou o 
carro. Ele tinha carro. Lá vai andando... 
 
 
CAPÍTULO CLXXIII 
 
 
 
-Com que, O Teófilo está ministro! exclamou Carlos Maria. 
 
 
E, depois de um instante 
 
 
-Creio que dará um bom ministro. Você queria ver-me também ministro? 
 
 
-Se você gostasse, que remédio? 
 
 
-De maneira que, por teu voto, não o era? perguntou Carlos Maria. 
 
 
-Que hei de responder? pensou ela, escrutando o rosto do marido. 
 
 
Ele, rindo 
 
 
-Confessa que me adorarias, ainda que eu fosse uma simples ordenança de ministro. 
 
 
-Justamente! exclamou a moça, lançando-lhe os braços aos ombros. 
 
 
Carlos Maria afagou-lhe os cabelos, e murmurou sério-Bernadotte foi rei, e Bonaparte 
imperador. Você queria ser a rainha-mãe da Suécia? 
 
 
Maria Benedita não entendeu a pergunta nem ele a explicou. Para explicá-la seria 
mister dizer que possivelmente trazia ela no seio um Bernadotte; mas esta suposição 
significava um desejo, e o desejo uma confissão de inferioridade. Carlos Maria espalmou 


outra vez sobre a cabeça da mulher, com um gesto que parecia dizer tu escolheste a melhor 

Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal