Microsoft Word quincasborba rtf


particular, por motivo dos seus recentes desgostos



Baixar 0.67 Mb.
Pdf preview
Página5/8
Encontro30.07.2021
Tamanho0.67 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8

particular, por motivo dos seus recentes desgostos.  
 
 
Enchei bem os vossos copos, exclamou Saint-Clair, e betamos de uma vez; eis o 
brinde que vos proponho. A saúde dos bons e valentes oprimidos, e ao castigo dos seus 
opressores. Todos acompanharam Saint-Clair, e foi de roda a saúde. 
 
 
-Sabe de uma cousa, papai? Papai compra amanhã latas de conserva, ervilha, peixe, 
etc., e ficam guardadas. No dia em que ele aparecer para jantar, põe-se no fogo, é só aquecer, 
e daremos um jantarzinho melhor. 
 
 
-Mas eu só tenho o dinheiro do teu vestido. 
 
 
-O meu vestido? Compra-se no mês que vem, ou no outro E espero. 
 
 
-Mas não ficou ajustado? 
 
 
-Desajusta-se; eu espero. 
 
 
-E se não houver outro do mesmo preço? 
 
 
-Há de haver; eu espero, papai. 
 


 
CAPÍTULO CXXXIII 
 
 
 
AINDA NÃO DISSE, - porque os capítulos atropelam-se debaixo da pena,-mas aqui 
está um para dizer que, por aquele tempo, as relações de Rubião tinham crescido em número. 
Camacho pusera-o em contacto com muitos homens políticos, a comissão das Alagoas com 
várias senhoras, os bancos e companhias com pessoas do comércio e da praça, os teatros com 
alguns freqüentadores e a Rua do Ouvidor com toda a gente. Já então era um nome repetido. 
Conhecia-se o homem. Quando apareciam as barbas e o par de bigodes longos uma 
sobrecasaca bem justa, um peito largo, bengala de unicórnio, e um andar firme e senhor, 
dizia-se logo que era o Rubião -um ricaço de Minas. 
 
Tinham-lhe feito uma lenda. Diziam-no discípulo de um grande filósofo, que lhe 
legara imensos bens,-um, três, cinco mil contos. Estranhavam alguns que ele não tratasse 
nunca de filosofia, mas a lenda explicava esse silêncio pelo próprio método filosófico do 
mestre, que consistia em ensinar somente aos homens de boa vontade. Onde estavam esses 
discípulos? Iam à casa dele, todos os dias,- alguns duas vezes, de manhã e de tarde; e assim 
ficavam definidos os comensais. Não seriam discípulos, mas eram de boa vontade Roíam 
fome, à espera, e ouviam calados e risonhos os discursos do anfitrião. Entre os antigos e os 
novos, houve tal ou qual rivalidade que os primeiros acentuaram bem, mostrando maior 
intimidade dando ordens aos criados, pedindo charutos, indo ao interior, assobiando, etc. Mas 
o costume os fez suportáveis entre si, e todos acabaram na doce e comum confissão das 
qualidades do dono da casa. Ao cabo de algum tempo, também os novos lhe deviam dinheiro, 
ou em espécie,-ou em fiança no alfaiate, ou endosso de letras, que ele pagava às escondidas, 
para não vexar os devedores. 
 
 
Quincas Borba andava ao colo de todos. Davam estalinhos, para vê-lo saltar; alguns 
chegavam a beijar-lhe a testa; um deles, mais hábil, achou modo de o ter à mesa, ao jantar ou 
almoço, sobre as pernas, para lhe dar migalhas de pão. 
 
 
-Ah! isso não! protestou Rubião à primeira vez. 
 
 
- Que tem? retorquiu o comensal. Não há pessoas estranhas. 
 
 
Rubião refletiu um instante. 
 
 
-Verdade é que está aí dentro um grande homem, disse ele. 
 
 
- O filósofo, o outro Quincas Borba, continuou o conviva, circulando o olhar pelos 
novatos, para mostrar a intimidade das relações entre ele e Rubião; mas, não logrou sozinho a 
vantagem, porque os outros amigos da mesma era, repetiram, em coro 
 
 
- É verdade, o filósofo. 
 
 
E Rubião explicou aos novatos a alusão ao filósofo, e a razão do nome do cão, que 
todos lhe atribuíam. Quincas Borba (o defunto) foi descrito e narrado como um dos maiores 
homens do tempo,- superior aos seus patrícios. Grande filósofo, grande alma, grande amigo. E 
no fim, depois de algum silêncio, batendo com os dedos na borda da mesa, Rubião exclamou 
 
 
-Eu o faria ministro de Estado! 


 
 
Um dos convivas exclamou, sem convicção, por simples ofício 
 
 
-Oh! sem dúvida! 
 
 
Nenhum daqueles homens sabia, entretanto, o sacrifício que lhes fazia o Rubião. 
Recusava jantares, passeios, interrompia conversações aprazíveis, só para correr à casa e 
jantar com eles. Um dia achou meio de conciliar tudo. Não estando ele em casa às seis horas 
em ponto, os criados deviam pôr o jantar para os amigos. Houve protestos; não, senhor, 
esperariam at sete ou oito horas. Um jantar sem ele não tinha graça. 
 
-Mas é que não posso vir, explicou Rubião. 
 
 
Assim se cumpriu. Os convivas ajustaram bem os relógios pelos da casa de Botafogo. 
Davam seis horas, todos à mesa. Nos dous primeiros dias houve tal ou qual hesitação; mas os 
criados tinham ordens severas. As vezes, Rubião chegava pouco depois. Eram então risos, 
ditos, intrigas alegres. Um queria esperar, mas os outros... 0s outros desmentiam o primeiro; 
ao contrário, foi este que os arrastou, tal fome trazia,-a ponto que, se alguma cousa restava, 
eram os pratos. E Rubião ria com todos. 
 
 
CAPÍTULO CXXXIV 
 
 
 
FAZER UM CAPÍTULO só para dizer que, a princípio, os convivas, ausente o 
Rubião, fumavam os próprios charutos, depois do jantar,- parecerá frívolo aos frívolos; mas 
os considerados dirão que algum interesse haverá nesta circunstancia em aparência mínima. 
 
 
De fato, uma noite, um dos mais antigos lembrou-se de ir ao gabinete de Rubião; lá 
fora algumas vezes, ali se guardavam as caixas de charutos, não quatro nem cinco, mas vinte e 
trinta de várias fábricas e tamanhos, muitas abertas. Um criado (o espanhol) acendeu o gás. 
Os outros convivas seguiram o primeiro, escolheram charutos e os que ainda não conheciam o 
gabinete admiraram os móveis bem feitos e bem dispostos. A secretária captou as admirações 
gerais; era de ébano, um primor de talha, obra severa e forte. Uma novidade os esperavadous 
bustos de mármore, postos sobre ela, os dous Napoleões, o primeiro e o terceiro. 
 
 
-Quando veio isto? 
 
 
-Hoje ao meio-dia, respondeu o criado. 
 
 
Dous bustos magníficos. Ao pé do olhar aquilino do tio, perdia-se no vago o olhar 
cismático do sobrinho. Contou o criado que o amo, apenas recebidos e colocados os bustos, 
deixara-se estar grande espaço em admiração, tão deslembrado do mais, que ele pôde mirá-los 
também, sem admirá-los.-No me dicen nada estos dos pícaros, concluiu o criado fazendo um 
gesto largo e nobre. 
 
 
CAPÍTULO CXXXV 
 
 


 
RUBIÃO protegia largamente as letras. Livros que lhe eram dedicados, entravam para 
o prelo com a garantia de duzentos e trezentos exemplares. Tinha diplomas e diplomas de 
sociedades literárias. coreografias, pias, e era juntamente sócio de uma Congregação Católica 
e de um Grêmio Protestante, não se tendo lembrado de um quando lhe falaram do outro; o que 
fazia era pagar regularmente as mensalidades de ambos. Assinava jornais sem os ler. Um dia, 
ao pagar o semestre de um, que lhe haviam mandado, é que soube, pelo cobrador, que era do 

Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal