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partido, compreende a diferença?



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partido, compreende a diferença? 
 
 
-Compreendo. 
 
 
-Vai afrouxando, continuou Camacho apertando um charuto entre os dedos, antes de o 
acender; nós precisamos de acentuar os princípios, mas francamente, nobremente, dizendo a 
verdade. Creia que os chefes precisam ouvi-la a seus próprios amigos e aderentes. Nunca 
rejeitei a conciliação dos partidos, pugnei por ela; mas conciliação não é jogo de empulha. 
Para lhe dar um exemplo, na minha província a gente dos Pinheiros tem o apoio do governo, 
unicamente para me deslocar; e os meus correligionários da Corte, em vez de a combater, 
visto que o governo lhe dá força, que pensa que fazem? Dão também apoio aos Pinheiros. 
 
 
-Têm ao menos alguma influência os Pinheiros? 
 
 
-Nenhuma, respondeu Camacho fechando violentamente a caixa de fósforos que ia a 
abrir. Há um réu de polícia entre eles, e há outro que até foi aprendiz de barbeiro. Matriculou-
se, é verdade, na Faculdade do Recife, creio que em 1855, por morte do padrinho que lhe 


deixou alguma cousa, mas tal é o escândalo da carreira desse homem que, logo depois de 
receber o diploma de bacharel, entrou na assembléia provincial. É uma besta; é tão bacharel 
como eu sou papa. 
 
 
Entenderam-se sobre as modificações políticas da folha. Camacho lembrou ao Rubião 
que a candidatura deste naufragara por causa justamente da oposição dos chefes. De alguns, 
emendou logo. Rubião concordou; assim Iho tinha dito o amigo em tempo, e a lembrança 
avivou o ressentimento do desastre. Podia, devia estar na Câmara. Os tais é que o não 
quiseram; mas haviam de ver, pensava Rubião; tinham de amargar o mal feito. Deputado, 
senador, ministro, vê-lo-iam tudo, com olhos tortos e espantados. A cabeça de nosso amigo, 
tanto que o outro lhe pôs a faísca, foi ardendo de si mesma, não por ódio, nem inveja, mas de 
ambição ingênua, e cordial certeza, visão antecipada e deslumbrante das grandezas. Camacho 
estimou achá-lo de acordo. 
 
 
-A nossa gente é de igual opinião, disse ele. Creio que não faz mal uma pequena 
ameaça aos amigos. 
 
 
Nessa mesma noite, leu-lhe o artigo em que advertia o partido da conveniência de não 
ceder às perfídias do poder, apoiando em algumas províncias certa gente corrupta e sem valor. 
Eis aqui a conclusão: 
 
 
Os partidos devem ser unidos e disciplinados. Há quem pretenda (mirabile dictu!) que 
essa disciplina e união não podem ir ao ponto de rejeitar os benefícios que caem das mãos dos 
adversários. Risum teneatis! Quem pode proferir tal blasfêmia sem que lhe tremam as carnes? 
Mas suponhamos que assim seja, que a oposição possa, uma ou outra vez, fechar os olhos aos 
desmandos do governo, à postergação das leis, aos excessos da autoridade, à perversidade e 
aos sofismas. Ouid inde? Tais casos,-aliás raros,-só podiam ser admitidos quando 
favorecessem os elementos bons, não os maus. Cada partido tem os seus díscolos e sicofantas. 
É interesse dos nossos adversários ver-nos afrouxar, a troco da animação dada à parte corrupta 
do partido. Esta é a verdade; negá-lo é provocar-nos à guerra intestina, isto é, à dilaceração da 
alma nacional... Mas, não, as idéias não morrem; elas são o lábaro da justiça. Os vendilhões 
serão expulsos do templo; ficarão os crentes e os puros, os que põem acima dos interesses 
mesquinhos, locais e passageiros a vit6ria indefectível dos princípios. Tudo que não for isto 
ter-nos-á contra si. Alea jacta est. 
 
 
CAPÍTULO CXI 
 
 
 
RUBIÃO aplaudiu o artigo; achava-o excelente. Talvez pouco enérgico. Vendilhões, 
por exemplo, era bem dito; mas ficava melhor vis vendilhões. 
 
 
-Vis vendilhões? Há só um inconveniente, ponderou Camacho. É a repetição dos vv. 
Vis ven... Vis vendilhões; não sente que o som fica desagradável? 
 
 
-Mas lá em cima há vés vis... 
 
 
-Voe victis. Mas é uma frase latina. Podemos arranjar outra cousa; vis mercadores. 
 
 
-Vis mercadores é bom. 


 
 
-Contudo, mercadores não tem a força de vendilhões. 
 
 
-Então, por que não deixa vendilhões? Vis vendilhões é forte; ninguém repara no som. 
Olhe, eu nunca dou por isso. Gosto de energia. Vis vendilhões 
 
 
-Vis vendilhões, vis vendilhões, repetiu Camacho, à meia voz. Já estou achando 
melhor. Vis vendilhões. Aceito, concluiu emendando. E releu 
 
 
Os vis vendilhões serão expulsos do templo; ficarão os crentes e os puros, os que 
põem acima dos interesses mesquinhos, locais e passageiros a vitória. indefectível dos 
princípios. Tudo que não for isto ter-nos-á contra si. Alea Zacta est. 
 
 
-Muito bem! disse Rubião, sentindo-se algum tanto autor de artigo. 
 
 
-Parece-lhe bem? perguntou Camacho, sorrindo. Há pessoas que ainda me acham no 
estilo a frescura do meu tempo de estudante Não sei, não digo nada; a disposição, sim, é a 
mesma. Hei de castigá-los; havemos de castigá-los. 
 
 
CAPÍTULO CXII 
 
 
 
AQUI É QUE EU QUISERA ter dado a este livro o método de tantos outros,-velhos 
todos,-em que a matéria do capítulo era posta no sumário"De como aconteceu isto assim, e 
mais assim." Aí está Bernardim Ribeiro; aí estão outros livros gloriosos. Das línguas 
estranhas, sem querer subir a Cervantes nem a Rabelais, bastavam-me Fielding e Smollet, 
muitos capítulos dos quais só pelo sumário estão lidos. Pegai em Tom Jones, livro IV, cap. I, 
lede este título Contendo cinco folhas de pape. É claro, é simples, não engana a ninguém; são 
cinco folhas, mais nada, quem não quer não lê, e quem quer lê, para os últimos é que o autor 
concluiu obsequiosamente"E agora, sem mais prefácio, vamos ao seguinte capítulo". 
 
 
 
CAPÍTULO CXIII 
 
 
 
SE TAL FOSSE O MÉTODO deste livro, eis aqui um título que explicaria tudo"De 
como Rubião, satisfeito da emenda feita no artigo, tantas frases compôs e ruminou, que 
acabou por escrever todos os livros que lera". 
 
 
Lá haverá leitor a quem só isso não bastasse. Naturalmente, quereria toda a análise da 
operação mental do nosso homem, sem advertir que, para tanto, não chegariam as cinco folhas 
de papel de Fielding. Há um abismo entre a primeira frase de que Rubião era co-autor até a 
autoria de todas as obras lidas por ele; é certo que o que mais lhe custou foi ir da frase ao 
primeiro livro;-deste em diante a carreira fez-se rápida. Não importa; a análise seria ainda 
assim longa e fastiosa. O melhor de tudo deixar só isto; durante alguns minutos, Rubião se 
teve por autor de muitas obras alheias. 
 
 


CAPÍTULO CXIV 
 
 
 
AO CONTRÁRIO, não sei se o capítulo que se segue poderia estar todo no título. 
 
 
CAPÍTULO CXV 
 
 
 
RUBIÃO foi mantendo o propósito de não tornar a ver Sofia; pelo menos, não ia ao 
Flamengo. Viu-a um dia passar de carro, com uma das damas da comissão das Alagoas; ela 
inclinou-se risonha, dizendo-lhe adeus com a mão. Ele retribuiu o cumprimento, tirando o 
chapéu, com tal ou qual alvoroço, mas não ficou parado como lhe aconteceria dantes; apenas 
lançou um olhar ao carro que ia andando. Também ele foi andando,-e pensando no lance da 
carta , não compreendendo aquele gesto de mão, sem ódio nem vexame,-como se nada 
houvesse entre eles. Podia ser que o serviço da comissão e a companheira que levava 
explicassem a benevolência graciosa de Sofia; mas Rubião não cogitou desta hipótese. 
 
 
-Estará assim tão falta de brio? perguntava ele. Pois não se lembra da carta que achei, 
mandada por ela ao tal gamenho da Rua dos Inválidos? É muito; é demais. Parece um desafio, 
um modo de dizer que não faz caso, que escreverá todas as cartas que quiser. Que as escreva, 
mas gaste algum dinheiro em registrá-las no correio; é barato. . . 
 
 
Achou algum pico em si mesmo, e riu-se. Isto, e um homem que passou rasgando-lhe 
uma cortesia, tiraram-lhe o amargor das saudades, e ele esqueceu o assunto, para cuidar de 
outro, que o levava ao Banco do Brasil. 
 
 
Ao entrar no Banco esbarrou no sócio, que saiu. 
 
 
-Creio que vi agora D. Sofia, disse-lhe Rubião. 
 
 
-Onde? 
 
 
-Na Rua dos Ourives; ia de carro, com outra senhora, que não conheço. Como tem 
você passado? 
 
 
-Viu-a, e não se lembrou de nada, observou Palha, sem responder à pergunta. Não se 
lembrou que ela faz anos, quarta-feira, depois de amanhã. Não lhe peço que vá jantar, não 
ouso tanto, seria convidá-lo a aborrecer-se; mas uma xícara de chá bebe-se depressa. Faz-me 
esse favor? 
 
 
Rubião não respondeu logo. 
 
 
-Vou até jantar, disse finalmente. Quarta-feira? Conte comigo. Tinha-me esquecido, 
confesso; mas ando com tanta cousa na cabeça. Espere por mim daqui a meia hora, no 
armazém. 
 
 
Antes de meia hora estava lá, pedindo-lhe dous contos de réis. Palha já não resistia ao 
desmoronamento do capital; e, se uma ou outra vez, dizia alguma palavrinha frouxa, agora 
entregou-lhe o dinheiro com indiferença. Rubião não tornou à casa sem comprar um 


magnífico brilhante, que, na quarta-feira, enviou a Sofia, acompanhado, um bilhete de visita, e 
duas palavras de felicitação. 
 
 
Sofia estava só, no quarto de vestir, calçando os sapatos, quando a criada lhe entregou 
o pacote. Era o terceiro presente do dia;  a criada esperou que ela o abrisse para ver também o 
que era. Sofia ficou deslumbrada, quando abriu a caixa e deu com a rica jóia,  - uma bela 
pedra, no centro de um colar. Esperava alguma cousa bonita; mas, depois dos últimos 
sucessos, mal podia crer que ele fosse tão generoso. Batia-lhe o coração. 
 
 
-O portador está aí? 
 
 
-Já foi. Que bonito, minha ama! 
 
 
Sofia fechou a caixa, e acabou de calçar-se. Deteve-se algum tempo, sentada, sozinha, 
recordando cousas idas, e levantou-se pensando 
 
 
"Aquele homem adora-me". 
 
 
Tratou de vestir-se; mas, ao passar por diante do espelho, deixou-se estar alguns 
instantes. Comprazia-se na contemplação de si mesma, das suas ricas formas, dos braços nus 
de cima a baixo, dos próprios olhos contempladores. Fazia vinte e nove anos, achava que era a 
mesma dos vinte e cinco, e não se enganava. Cingido e apertado colete, diante do espelho, 
acomodou os seios com amor, e deixou espraiar-se o colo magnífico. Lembrou-se então de 
ver como lhe ficava o brilhante; tirou o colar e pô-lo ao pescoço. Perfeito. Voltou-se da 
esquerda para a direita e vice-versa, aproximou-se, afetou-se, aumentou a luz do camarim; 
perfeito. Fechou a jóia e guardou-a. 
 
 
"Aquele homem adora-me", repetiu. 
 
 
"Provavelmente, ele lá estará, pensou Rubião indo jantar ao Flamengo; duvido que 
tenha dado melhor presente que eu". 
 
 
Carlos Maria lá estava, efetivamente, conversando, entre uma das comissárias das 
Alagoas, e Maria Benedita. Poucos eram os convivas; houve propósito em escolher e limitar. 
Não estava ali o Major Siqueira, nem a filha, nem as senhoras e os homens que Rubião 
conheceu naquele outro jantar de Santa Teresa. Da comissão das Alagoas viam-se algumas 
damas; via-se mais o diretor do banco,- o da visita ao ministro,-com a senhora e as filhas,-
outro personagem bancário, um comerciante inglês, um deputado, um desembargador, um 
conselheiro, alguns capitalistas, e pouco mais. 
 
 
Posto que evidentemente gloriosa, Sofia esqueceu por um instante os outros, quando 
viu Rubião entrar na sala e caminhar para ela. Ou mudança, ou descostume, achou-lhe outro 
ar, passo firme, cabeça levantada, o avesso, em suma, do antigo gesto encolhido e diminuto. 
Sofia apertou-lhe a mão com força e sussurrou um agradecimento. A mesa fê-lo sentar ao pé 
de si, tendo do outro lado a presidente da comissão. Rubião olhava superiormente para tudo. 
A qualidade dos convivas não lhe produziu impressão, nem o ar cerimonioso, nem o luxo da 
mesa; nada disso o deslumbrou. O mesmo cuidado particular de Sofia, embora lhe fosse 
agradável, não o tonteava, como outrora. E da parte dela era mais apurada a atenção, e os 
olhos excepcionalmente meigos e serviçais. Rubião procurou Carlos Maria; lá estava entre as 


mesmas moças da sala,-Maria Benedita e a comissária das Alagoas. Verificou que só se 
ocupava com elas, não olhava para Sofia, nem esta para ele. 
 
 
"Talvez disfarcem", pensou. 
 
 
Pareceu-lhe, ao levantarem-se da mesa, que trocavam um olhar; mas o movimento 
geral da reunião podia iludi-lo, e Rubião não fez maior cabedal da observação. Sofia dera-se 
pressa em tomar-lhe o braço. De caminho, disse-lhe ela 
 
 
-Tenho esperado pelo senhor desde aquele dia, e nunca mais veio aqui. Era meu 
direito exigi-lo, para explicar-me. Logo falaremos. 
 
 
Rubião foi daí a pouco para o gabinete dos fumantes. Ouviu calado, com os olhos 
erradios. Quando os outros saíram. Rubião deixou-se estar só, meio reclinado em um sofá de 
couro, sem pensar. A imaginação é que fazia o seu ofício, um tanto pachorrenta, agora, -talvez 
porque ele tivesse comido muito. Lá fora iam entrando os convidados da noite; enchia-se a 
casa, crescia o burburinho da conversação, sem que o nosso amigo descesse dos seus belos 
sonhos. O próprio som do piano, que fez calar todos os rumores, não o atraiu à terra. Mas um 
farfalhar de sedas, entrando no gabinete, fê-lo erguer-se de golpe, acordado. 
 
 
-Aí está, disse Sofia, recolhe-se aqui para fugir ao aborrecimento; nem quer ouvir boa 
música. Pensei que tivesse ido embora. Vim ter com o senhor. 
 
 
E sem mais demora, porque não podia perder um minuto, referiu-lhe o que sabemos da 
carta achada no jardim de Botafogo; lembrou-lhe que, antes de a abrir, pedira-lhe que ele 
mesmo a abrisse e lesse. Que melhor prova de inocência? A palavra saía-lhe rápida, séria, 
digna e comovida. Ocasião houve em que os olhos se lhe tornaram úmidos; ela enxugou-os, e 
ficaram vermelhos. Rubião pegou-lhe na mão, e viu ainda uma lágrima,-uma pequena 
lágrima,-escorregar até o canto da boca. Jurou então que sim, acreditava em tudo. Que idéia 
aquela de chorar? Sofia enxugou ainda os olhos, e estendeu-lhe a mão agradecida. 
 
 
-Até já, disse ela. 
 
O piano continuava; Rubião notou-lhe esta circunstância. Enquanto ouviam tocar, não 
viriam ter com eles. 
 
 
-Mas eu é que não posso estar ausente tanto tempo, acudiu Sofia. Demais, tenho 
ordens que dar. Até já 
 
 
-Olhe, escute, insistiu Rubião. 
 
 
Sofia parou. 
 
 
-Escute; deixe-me dizer-lhe, e não sei se pela última vez... 
 
 
-Pela última vez? 
 
 
-Quem sabe? Pode ser que última. Importa-me pouco que esse homem viva ou não, 
mas posso achá-lo aqui alguma vez, e não me sinto disposto a brigar. 
 


 
-Há de encontrá-lo todos os dias. Cristiano ainda lhe não disse o que há? Vai casar 
com Maria Benedita 
 
 
Rubião deu um passo para trás. 
 
 
-Casam-se, continuou ela. O fato é de admirar porque surgiu quando menos 
contávamos com isto; -ou eram muito fingidos, ou foi cousa que lhes deu de repente. Casam-
se. Maria Benedita contou-me uma história, que me foi confirmada por outra pessoa; mas, 
afinal, a história é sempre a mesma. Gostaram um do outro, e adeus Casam-se brevemente. 
Quando ele falou a Cristiano, Cristiano respondeu que dependia de mim... Como se fosse mãe 
dela Consenti logo, e desejo que sejam felizes. Ele parece bom rapaz, ela é excelente criatura; 
hão de ser felizes, por força. E bom negócio, sabe? E1e está de posse de todos os bens do pai 
e da mãe. Maria Benedita não tem nada, em dinheiro; mas tem a educação que lhe dei. Há de 
lembrar-se que, quando veio para minha companhia, era um bicho-do-mato; não sabia quase 
nada; fui eu que a eduquei. Minha tia merecia tudo, e ela também. Pois, é verdade, casam-se 
muito breve. Não os viu hoje sempre juntos? Não há ainda participação oficial; mas os 
íntimos da família podem saber. 
 
 
Para quem tinha tanta pressa, eis aí um discurso demasiado comprido. Sofia deu por 
isso um pouco tarde; repetiu a Rubião que até logo, que fosse para a sala. O piano acabara; 
ouvia-se um burburinho discreto de aplauso e conversação. 
 
 
CAPÍTULO CXVI 
 
 
 
IAM CASAR? Mas como é então quê?... Maria Benedita, -era Maria Benedita que 
casava com Carlos Maria; mas então Carlos Maria... Compreendia agora; era tudo engano, 
confusão, o que parecia ser com uma pessoa era com outra, e aí está como a gente pode 
chegar à calúnia e ao crime 
 
 
Assim reflexionava Rubião, saindo para a sala de jantar, onde os copeiros adereçavam 
a mesa da ceia. E continuou, andando ao comprido da sala"-Ora vejam! E o Palha queria 
justamente casar-me com a prima, mal sabendo que o destino lhe guardava outro noivo. Não é 
feio rapaz; é muito mais bonito que ela. Ao pé de Sofia, Maria Benedita vale pouco ou nada; 
mas a simpatia é assim mesmo... Casam-se, e breve. . . Será de estrondo o casamento? Deve 
ser; o Palha vive agora um pouco melhor... -e Rubião lançava os olhos aos móveis , 
porcelanas, cristais, reposteiros.-Há de ser de estrondo. E depois o noivo é rico..." Rubião 
pensou na carruagem e nos cavalos que levaria; tinha visto uma parelha soberba, no Engenho 
Velho, dias antes, que estava mesmo ao pintar. Ia fazer a encomenda de outra assim, fosse por 
que preço; tinha também de presentear a noiva. Ao pensar nela viu-a entrar na sala. 
 
 
-Prima Sofia onde está? perguntou ela ao Rubião. 
 
 
-Não sei; esteve aqui há pouco 
 
 
E, como a visse disposta a ir adiante, pediu-lhe uma palavra, e que se não zangasse. 
Maria Benedita esperou; ele, sem hesitação, deu-lhe os parabéns. Sabia que ia casar. . . Maria 
Benedita ficou muito vermelha, e murmurou que não divulgasse nada. Não havia então 
nenhum criado ali; Rubião pegou-lhe na mão e fechou-a entre as suas. 


 
 
-Eu sou da casa, disse; a senhora merece ser feliz, e espero que seja. 
 
 
Um pouco assustada, Maria Benedita puxou a mão e libertou-a; mas, para o não 
aborrecer, sorriu. Não era preciso tanto; ele estava encantado. Sabemos que a moça não era 
bonita. Pois estava linda, à força de felicidade. A natureza parecia haver posto nela as suas 
mais finas idéias. Sorrindo igualmente, Rubião continuou: 
 
 
-Foi sua prima que me disse; recomendou-me segredo. Não direi nada antes do tempo. 
Mas que tem que diga à senhora? A senhora é boa e merece tudo. Não é preciso esconder os 
olhos; casar não é vergonha. Vamos lá; levante a cabeça e ria. 
 
 
Maria Benedita pôs nele os olhos radiantes. 
 
 
-Isso! aplaudiu Rubião. Que mal há em confessar-se a um amigo? Deixe-me dizer-lhe 
a verdade; creio que a senhora será feliz, mas admito que ele ainda será mais feliz. Não! Verá 
se não é verdade; ele mesmo lhe há de dizer o que sentir, e, se for sincero, a senhora 
reconhecerá que eu estou apenas profetizando. Bem sei que não tem balança para medir os 
sentimentos; enfim, o que eu quero dizer é que a senhora é uma linda e boa criatura. . . Vá, vá-
se embora; se não, fico dizendo verdades, e a senhora está corando muito... 
 
 
De fato, Maria Benedita corava de gosto, ouvindo a linguagem de Rubião. Em casa, 
achara aquiescência, nada mais. O próprio Carlos Maria não era assim terno; gostava dela 
com circunspecção. Falava-lhe da felicidade conjugal, como de uma taxa que ia receber do 
destino,-pagamento devido, integral e certo. Também não era preciso que a tratasse de outro 
modo, para que ela o adorasse sobre todas as cousas deste mundo. Rubião repetiu a despedida, 
e ficou a olhar para ela, como para uma filha. Viu-a ir assim, atravessar a sala, viva e 
satisfeita,-tão diversa do que achara em outros tempos, a desaparecer por uma das portas. Não 
pôde reter esta palavra 
 
 
-Linda e boa criatura! 
 
 
CAPÍTULO  CXVII 
 
 
 
A HISTÓRIA do casamento de Maria Benedita é curta; e, posto Sofia a ache vulgar, 
vale a pena dizê-la. Fique desde já admitido que, se não fosse a epidemia das Alagoas, talvez 
não chegasse a haver casamento; donde se conclui que as catástrofes são úteis, e até 
necessárias. Sobejam exemplos; mas basta um contozinho que ouvi em criança, e que aqui 
lhes dou em duas linhas. Era uma vez uma choupana que ardia na estrada; a dona,-um triste 
molambo de mulher,- chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Senão 
quando, indo a passar um homem ébrio, viu o incêndio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa 
era dela. 
 
 
-É minha, sim, meu senhor; é tudo o que eu possuía neste mundo. 
 
 
-Dá-me então licença que acenda ali o meu charuto? 
 


 
O padre que me contou isto certamente emendou o texto original, não é preciso estar 
embriagado para acender um charuto nas misérias alheias. Bom Padre Chagas!-Chamava-se 
Chagas.-Padre mais que bom, que assim me incutiste por muitos anos essa idéia consoladora, 
de que ninguém, em seu juízo, faz render o mal dos outros; não contando o respeito que 
aquele bêbado tinha ao princípio da propriedade,-a ponto de não acender o charuto sem pedir 
licença a dona das ruínas. Tudo idéias consoladoras. Bom Padre Chagas! 
 
 
CAPÍTULO CXVIII 
 
 
 
ADEUS, PADRE CHAGAS! VOU à história do casamento. Que Maria Benedita 
gostava de Carlos Maria, é cousa vista ou pressentida desde aquele baile da Rua dos Arcos, 
em que ele e Sofia valsaram tanto. Vimo-la na manhã seguinte, pronta a ir para a roça; a 
prima apaziguou-a com a promessa de que lhe estava arranjando um noivo. Maria Benedita 
cuidou que era o valsista da véspera, e ficou esperando. Não lhe confessou nada,-por 
vergonha, a princípio,-e depois por lhe não fazer perder o efeito da novidade, quando Sofia 
houvesse de descobrir o nome da pessoa . Se confessasse desde logo, podia acontecer também 
que a outra afrouxasse na tarefa, e lá se perdia a causa. Não façamos caso disto, são pequenos 
cálculos de moça. 
 
 
Sobreveio a epidemia das Alagoas. Sofia organizou a comissão, que trouxe novas 
relações à família Palha. Incluída entre as senhoras que formavam uma das subcomissões, 
Maria Benedita trabalhou com todas, mas granjeou em especial a estima de uma delas, D. 
Fernanda, esposa de um deputado. D. Fernanda tinha pouco mais de trinta anos, era jovial, 
expansiva, corada e robusta; nascera em Porto Alegre, casara com um bacharel das Alagoas, 
deputado agora por outra província, e, segundo corria, prestes a ser ministro de Estado. A 
naturalidade do marido foi o pretexto para metê-la na comissão; e bem acertado foi, porque 
ela pedia como quem manda, não tinha acanhamento nem admitia recusa. Carlos Maria, que 
era seu primo, foi visitá-la logo que ela chegou ao Rio de Janeiro. Achou-a mais formosa 
ainda que em 1865, último ano em que a vira, e talvez fosse verdadeconcluiu que o ar do Sul 
era feito para enrijar as pessoas, duplicar-lhe as graças, e prometeu ir lá acabar os seus dias. 
 
 
-Vamos para lá, que lhe arranjarei casamento, disse ela. Conheço uma moça de 
Pelotas, que é um bijou, e só casa com moço da Corte 
 
 
-Comigo, naturalmente? 
 
 
-Da Corte e de olhos grandes. Olhe que não estou brincando. É uma guasca de 
primeira ordem. Tenho aqui o retrato dela. 
 
 
D. Fernanda abriu o álbum e mostrou o retrato da pessoa. 
 
 
-Não é feia, concordou ele. 
 
 
-Só? 
 
 
-Sim, é bonita. 
 
 
-Onde é que você bota os seus chinelos velhos, primo? 


 
 
Carlos Maria sorriu sem responder; não gostou da expressão. Quis passar a outro 
assunto. Mas D. Fernanda tornou ao casamento da amiga de Pelotas. Mirava o retrato, coloria-
o de palavras, dizendo como eram os olhos, os cabelos, a tez; e depois fez uma pequena 
biografia de Sonora. Tinha este bonito nome. O padre que a batizou, hesitou em dar-lho, 
apesar do respeito e influência do pai da menina rico estancieiro; mas, afinal cedeu, 
considerando que as virtudes da pessoa podiam levar o nome ao rol dos santos. 
 
 
-Crê que ela vá ao rol dos santos? perguntou Carlos Maria. 
 
 
-Se casar com você, creio. 
 
 
-Não me explica nada; casando com o Diabo sucederá a mesma cousa, e com mais 
certeza, por causa do martírio. Santa Sonora, não é feio nome, responde bem ao sentido. Santa 
Sonora. . . Em todo caso, prima. .. 
 
 
-Você tem raça de judeu; cale-se, interrompeu ela. Recusa então a minha guasca? 
continuou indo pôr o álbum no seu lugar. 
 
 
-Não recuso; deixe-me ir indo com o meu celibato, que é meio caminho do céu. 
 
 
D. Fernanda soltou uma gargalhada. 
 
 
-Deus de misericórdia! Você acredita mesmo que vai para o céu? 
 
 
-Já cá estou, há vinte minutos. Pois que é esta sala, tranqüila fresca, tão longe da gente 
que anda lá fora? Aqui conversamos os dous, sem ouvir blasfêmias, sem aturar espíritos 
aleijados, tísicos, escrofulosos, insuportáveis, o próprio inferno, em suma. Aqui é o céu,- ou 
um pedaço do céu, uma vez que nós cabemos nele, vale pelo infinito. Conversamos de Santa 
Sonora, de S. Carlos Maria e de Santa Fernanda, que para contrastar com S. Gonçalo, fez-se 
casamenteira das moças. Onde é que há outro céu como este? 
 
 
-Em Pelotas. 
 
 
-Pelotas fica tão longe! suspirou ele estendendo as pernas e pondo os olhos no lustre 
da sala. 
 
 
-Está bom, é só a primeira investida; darei outras, até você acabar de querer. 
 
 
Carlos Maria sorriu e olhou para as borlas caídas do cordão de seda que ela trazia à 
cintura, atado por um laço frouxo; ou para ver as borlas, ou para notar a gentileza do corpo. 
Viu bem, ainda uma vez, que a prima era uma bela criatura. A plástica levou-lhe os olhos -o 
respeito os desviou; mas, não foi só a amizade que o fez demorar ainda ali, e o trouxe 
novamente àquela casa. Carlos Maria amava a conversação das mulheres, tanto quanto, em 
geral, aborrecia a dos homens. Achava os homens declamadores, grosseiros, cansativos, 
pesados, frívolos, chulos, triviais. As mulheres, ao contrário, não eram grosseiras, nem 
declamadoras, riem pesadas. A vaidade nelas ficava bem, e alguns defeitos não lhes iam mal; 
tinham, ao demais, a graça e a meiguice do sexo. Das mais insignificantes, pensava ele, há 
sempre alguma cousa que extrair. Quando as achava insípidas ou estúpidas, tinha para si que 
eram homens mal acabados. 


 
 
Entretanto, as relações de D. Fernanda e Maria Benedita iam-se estreitando. Esta, além 
de acanhada, anda triste por aquele tempo; foi justamente a disparidade de caráter e de 
situação que as prendeu uma à outra. D. Fernanda possuía, em larga escala, a qualidade da 
simpatia; amava os fracos e os tristes, pela necessidade de os fazer ledos e corajosos. 
Contavam-se dela muitos atos de piedade e dedicação. 
 
 
-A senhora que tem? perguntou ela um dia à amiguinha. Quase nunca ri, anda sempre 
com os olhos espantados, pensando.. 
 
 
Maria Benedita respondeu que não tinha nada, que era o seu modo; e sorria dizendo 
isto, por simples condescendência. Aludiu à perda da mãe, como uma das causas de suas 
melancolias. D. Fernanda entrou a levá-la a toda parte, a trazê-la para jantar, a dar-lhe lugar 
no camarote, se ia ao teatro, e graças a isso, e ao seu gênio galhofeiro, sacudiu da alma da 
moça os corvos aborrecidos que lá avoejavam. Costume e afeição depressa as fizeram íntimas. 
Não obstante, Maria Benedita continuou a calar o seu mistério. 
 
 
"Seja qual for o mistério, pensou um dia D. Fernanda, acho que o melhor é casá-la 
com o Carlos Maria; a Sonora que espere." 
 
 
 
-Você precisa casar, Maria Benedita, disse-lhe dali a dous dias, de manhã, na chácara, 
em Mata-Cavalos; Maria Benedita tinha ido ao teatro com ela e passara lá a noite.-Não quero 
estremecimentos; precisa casar e há de casar... Desde anteontem que estou para lhe dizer isto, 
mas estas cousas conversadas em sala ou na rua, não têm força. Aqui na chácara é diferente. E 
se você tem animo de trepar comigo um pedaço do morro, então é que ficaremos bem. 
Vamos? 
 
 
-Está fazendo calor. . . 
 
-É mais poético, menina. Ah! carioca sem sangue! Vocês só têm água nas veias. Pois 
fiquemos aqui neste banco. Sente-se, assim, eu fico aqui ao pé, armada para tudo. Casa ou 
morre. Não me replique Você não é feliz,-continuou mudando o tom; por mais que faça, eu 
vejo que você passa a vida sem gosto. Venha cá, diga-me com franqueza, tem inclinação a 
alguém? Se tem, confesse, que eu mando procurar a pessoa. 
 
 
-Não tenho. 
 
 
-Não? Pois é justamente o que nos serve. Não precisa pôr escritos no coração; conheço 
um bom inquilino. 
 
 
Maria Benedita voltou-se de todo para ela, com os lábios entreabertos e os olhos 
escancarados. Parecia recear da proposta ou ansiar por ela. D. Fernanda, não atinando com o 
verdadeiro estado da amiga, pegou-lhe na mão primeiro, e pediu que lhe dissesse tudo. De 
força que amava a alguém, era claro, via-se-lhe nos olhos, cumpria confessá-lo, instava, 
rogava, -intimaria, se preciso fosse. A mão de Maria Benedita esfriara, os olhos cavavam o 
chão, e, por alguns instantes, nenhuma delas disse nada. 
 
 
-Vamos, fale, repetiu D. Fernanda. 
 
 
-Não tenho que dizer. 
 


 
D. Fernanda fazia gestos de incredulidade, apertava-a cada vez mais, passou-lhe a mão 
pela cintura, e ligou-a muito a si; disse-lhe baixinho, dentro do ouvido, que era como se fosse 
sua própria mãe. E beijava-a na face, na orelha, na nuca, encostava-lhe a cabeça ao ombro, 
acarinhava-a com a outra mão. Tudo, tudo, queria saber tudo. Se o namorado estava na lua, 
mandaria buscá-lo à lua,-fosse onde fosse,-exceto no cemitério, mas, se estivesse no 
cemitério, dar-lhe-ia outro muito melhor, que faria esquecer o primeiro em pou-cos dias. 
Maria Benedita ouvia agitada, palpitante, não sabendo por onde escapasse,-prestes a dizer, e 
calando a tempo, como se defendesse o seu pudor. Não negava, não confessava- mas, como 
também não sorria, e tremia de comoção, era fácil adivinhar meia verdade, ao menos. 
 
 
-Mas então não sou sua amiga, não tem confiança em mim? Faça de conta que sou sua 
mãe. 
 
 
Maria Benedita pouco mais resistiu; gastara as forças e sentia a necessidade de revelar 
alguma cousa. D. Fernanda escutou-a comovida. O sol vinha já lambendo as cercanias do 
banco, não tardou que lhes trepasse aos sapatos, à barra dos vestidos e aos joelhos; mas 
nenhuma deu por ele. O amor as absorvia; a exposição de uma tinha para a outra um enlevo 
raro. Era uma paixão não sabida, não compartida, não adivinhada; paixão que ia perdendo de 
índole e de espécie para se converter em adoração pura. A princípio, quando ela via a pessoa 
amada, passava por dous estados mui diversos,-um que não podia definir, alvoroço, tonteira, 
pancadas no coração, quase um desmaio; o segundo era de contemplação. Agora era quase 
que só este. Tinha chorado muito, consigo, perdera noites e noites de saudades; pagou caro a 
ambição das suas esperanças. Mas não perderia nunca a certeza de que ele era superior a todos 
os demais homens; um ente divino, que, ainda não fazendo caso dela, mereceria sempre ser 
adorado. 
 
 
-Bem, disse D. Fernanda, quando a amiga se calou de todo. Vamos ao essencial, que é 
não ficar penando à toa. Não, queridinha, isto de adorar a um homem que não faz caso da 
gente, é poesia. Deixe-se de poesia. Olhe que só você perde no negócio, porque ele casa com 
outra, os anos passam, a paixão monta na garupa deles, e um dia, quando você menos pensar, 
acorda sem amor nem marido. E quem é esse bárbaro? 
 
 
-Isso não digo, respondeu Maria Benedita, levantando-se do banco. 
 
 
-Pois não diga, acudiu D. Fernanda, pegando-lhe nos pulsos e fazendo-a sentar nos 
seus joelhos. A questão principal casar;- não podendo ser com esse será com outro. 
 
 
-Não, não caso. 
 
 
-Só com ele? 
 
 
-Nem sei se com ele, respondeu Maria Benedita, depois de alguns instantes. Gosto 
dele, como gosto de Deus, que está no Céu. 
 
 
-Virgem Santíssima! Que blasfêmia! Duas blasfêmias, menina; a primeira é que não se 
deve amar a ninguém como a Deus,-a segunda é que um marido, ainda sendo mau, sempre é 
melhor que o melhor dos sonhos. 
 
 
CAPÍTULO CXIX 


 
 
 
"UM MARIDO, ainda mau, é sempre melhor que o melhor dos sonhos." A máxima 
não era idealista; Maria Benedita protestou contra ela. Pois não era melhor sonhar que chorar? 
Os sonhos acabam ou alteram-se, enquanto que os maus maridos podem viver muito.-.A 
senhora diz isso, concluiu Maria Benedita, porque Deus lhe destinou um anjo... Olhe, lá vem 
ele. 
 
 
-Deixe estar que há de ter também o seu anjo, conheço um magnífico para você; todos 
os anjos me procuram. 
 
 
Teófilo, marido de D. Fernanda, que as vira a distância, veio ter com elas; trazia na 
mão um diário amarrotado. Não saudou a hóspede; foi direito à mulher. 
 
 
-Você quer saber o que me fizeram, Nanã? disse ele com os dentes cerrados. Saiu hoje 
o meu discurso do dia 5. Veja esta frase eu tinha ditoNa dúvida abstém-te, é o conselho do 
sábio. E puseramNa dívida abstém-te... É insuportável! Nota que tratava-se justamente de um 
crédito do Ministério da Marinha, alegando-se no debate que muitas despesas estavam feitas. 
De modo que pode parecer chulice da minha parte; é como se aconselhasse o calote. Em todo 
caso, é disparate. 
 
 
-Mas você não leu as provas? 
 
 
-Li, mas o autor é o menos apto para as ler bem. Na dívida abstém-te, continuou ele 
com os olhos na folha. E bufando-Isto só com... 
 
Estava consternado. Era homem de talento, de gravidade e de trabalho; mas, naquele 
instante, todas as grandes obras, os mais temerosos problemas, as batalhas mais decisivas, as 
revoluções mais profundas, o sol e a lua, e todas as constelações, e todas as alimárias e todas 
as gerações humanas, valiam menos do que a troca de um u por um i. Maria Benedita olhava 
para ele sem entendê-lo. Cuidava padecer a maior tristura; mas ali estava outra tão grande 
como a sua, e muito mais aflitiva. Assim, a melancolia roaz de uma pobre criatura era tanto 
como um erro tipográfico. Teófilo, que só então deu por ela, estendeu-lhe a mão; estava fria. 
Ninguém finge as mãos frias; devia padecer deveras. Instantes depois, atirou a folha ao chão, 
com um gesto violento, e foi-se embora. 
 
 
-Mas, Teófilo, emenda-se amanhã, disse-lhe D. Fernanda, levantando-se. 
 
 
Teófilo, sem voltar atrás, deu de ombros, desesperado. A mulher correu a ele; a amiga 
seguiu-a espantada. Ficou só o banco, já agora livre delas, recebendo em cheio os raios do sol, 
que não ama nem faz discursos. D. Fernanda levou o marido para um gabinete, e, à força de 
beijos, consolou-o daquele golpe. Ao almoço, já ele sorria, ainda que de um sorriso pálido; a 
mulher, para desviá-lo da preocupação, aventou o plano de casar Maria Benedita, e havia de 
ser com um deputado, se existisse na Câmara algum solteiro, qualquer que fosse a opinião. 
Podia ser governista, oposicionista, ambas as cousas, ou nada,-contanto que fosse marido. 
Sobre este tema fez algumas reflexões, vivas, lépidas, que encheram o tempo e destinavam-se 
a matar a lembrança da troca de letras. Pia criatura! Teófilo, entendendo a mulher, ia-se 
fazendo alegre, e concordava na conveniência de casar Maria Benedita. 
 
 
-O pior, acudiu a mulher olhando para a alguém, cujo nome não quer dizer. 
 


 
-Nem é preciso, atalhou o marido enxugando os beiços; vê-se bem que ela gosta de teu 
primo. 
 
 
CAPÍTULO CXX 
 
 
 
No Domingo seguinte, D. Fernanda foi à igreja de Santo Antônio dos Pobres. Acabada 
a missa, viu surgir do movimento dos fiéis que se cumprimentavam entre si, ou saudavam o 
altar, nada menos que o primo, erecto, risonho, gravemente trajado, estendendo-lhe a mão. 
 
 
-Veio também à missa? perguntou espantada. 
 
 
-Vim. 
 
 
-Vem sempre? 
 
 
-Nem sempre, muitas vezes. 
 
 
-Francamente, não esperava tanta devoção em você. Os homens são, em geral, uns 
ímpios. Teófilo não pisa na igreja, a não ser para batizar os filhos. Você então é religioso? 
 
 
-Não posso responder com certeza; mas tenho horror à banalidade. que é dizer mal da 
religião. E basta; vim à missa, não vim confessar-me; agora vou conduzi-la a casa, e, se me 
oferecer almoço, almoçarei com vocês. Salvo se quiserem vir almoçar comigo; é nesta rua, 
como sabe. 
 
 
-Iria eu só, se pudesse ser. para lhe dar uma notícia muito comprida. 
 
 
-Vamos então devagar, disse Carlos Maria à porta da igreja, oferecendo-lhe o braço. E 
dous passos adiante-Notícia importante? 
 
 
-Importante e deliciosa. 
 
 
-Querem ver que Deus, sempre misericordioso, vai levar para si o nosso querido 
Teófilo, deixando aqui ao desamparo a mais gentil de todas as viúvas. . . Não precisa fazer 
essa cara, prima; deixe estar o braço. Vamos à notícia. Chegou a moça de Pelotas, aposto? 
 
 
-Não direi o que é, se você me não jurar ouvir seriamente. 
 
 
-Seriamente. 
 
 
D. Fernanda confessou-lhe que hesitava em casá-lo com a patrícia de Pelotas; não 
queria remorsos; descobrira aqui alguém que tinha ao primo um imenso amor. Carlos Maria 
sorriu, iniciou um gracejo, mas a notícia esporeou-lhe o espírito. Imenso amor? Imenso amor, 
paixão violenta, confirmou a prima, acrescentando que talvez a definição já não coubesse bem 
ao atual sentimento da pessoa. Agora era uma adoração quieta e calada. Tinha chorado por ele 
noites e noites, enquanto as esperanças lhe duraram... E D. Fernanda foi assim repetindo a 
confidência de Maria Benedita. Restava só o nome; Carlos Maria quis sabê-lo, ela negou-lho. 
Não podia revelá-lo. Para que dar-lhe o gosto de saber quem era que o adorava, se não corria 


ao encontro da alma dela? Melhor era deixá-lo no mistério. Já não chorava agora; modesta e 
desambiciosa, perdera as esperanças de ser amada, e com o tempo ficou apenas uma devota, 
mas uma devota sem-par, que nem sequer esperava ser ouvida ou agraciada um dia por um 
olhar benévolo do seu deus querido. 
 
 
-Prima, você... 
 
 
-Eu quê?... 
 
 
Carlos Maria concluiu dizendo que a advogada era digna da causa. Realmente, se essa 
moça o adorava a tal ponto, era justo e natural que a prima se interessasse por ela com tanto 
calor. Mas por que r, dizer o nome? 
 
 
-Agora não digo; pode ser que algum dia. . . Mas, você compreende que me custaria 
muito casá-lo com a minha patrícia, sabendo que outra pessoa o ama tanto. E daí bem pode 
ser que esta de cá não padeça muito, se o vir casado. Sim, senhor, parece absurdo, mas e 
preciso conhecê-la; digo que, uma vez que você seja feliz, é capaz de abençoar a bela rival. 
 
 
-Já não é romantismo, é misticismo, redargüiu Carlos Maria de pois de alguns passos, 
com os olhos no chão. Não está nas cordas do nosso tempo. Tem alguma prova de semelhante 
estado da alma. 
 
 
-Tenho... A sua casa é aquela, não? perguntou D. Fernanda parando. 
 
-É. 
 
 
-Bonito prédio, e sólido. 
 
 
-Muito sólido. 
 
 
-Uma, duas, três, quatro. . . Sete janelas. O salão vai de ponta a ponta? Bem bom para 
um baile. 
 
 
E andando 
 
 
-Eu, se tivesse aqui uma casa maior que a minha, daria um grande baile, antes de 
voltar para o Rio Grande. Gosto de festas Os meus dous filhos não me dão grande trabalho. A 
propósito, ande com vontade de meter o Lopo no colégio; onde acharei um bom colégio? 
 
 
Carlos Maria pensava na devota incógnita. Estava longe, muito longe do ensino e seus 
estabelecimentos. Que bom que era sentir-se um deus adorado, e adorado à maneira 
evangélica, metida a devota no aposento, fechada a porta, em secreto, não nas sinagogas, à 
vista de todos. "E teu pai que vê o que se passa em secreto te dará a paga" Oh! ele daria a 
paga, se soubesse quem era. Casada, seria? Não, não podia ser. não iria confessá-lo a 
ninguém; viúva ou solteira, antes solteira. Cheirava-lhe a solteira. Em que aposento se 
fechava para rezar, para evocá-lo, chorá-lo e abençoá-lo? Já nem teimava pelo nome; mas o 
aposento, ao menos. 
 
 
-Onde acharei um bom colégio? repetiu D. Fernanda. 
 


 
-Colégio? Não sei; estou pensando na desconhecida. Compreende bem que uma 
pessoa que me adora, em silêncio, sem esperanças, é objeto de alguma atenção. Alta ou baixa? 
 
 
-Maria Benedita. 
 
 
Carlos Maria estacou o passo. 
 
 
-Aquela moça?... Não é possível. Tenho-lhe falado muitas vezes, e nunca descobri 
nada. Achei-a sempre fria. Há de ser engano Ouviu-lhe o meu nome? 
 
 
- Não, por mais que lhe pedisse. Confessou o milagre, sem nomear o santo, mas que 
milagre! Gabe-se de ser adorado como ninguém... De quem é aquela casa? 
 
 
-Você costuma exagerar as cousas, prima, pode não ser tanto. Adorado como 
ninguém? E de que modo soube que era eu? 
 
 
-Teófilo foi o primeiro que descobriu- ela, dizendo-se-lhe isto ficou como uma 
pitanga. Negou-o ainda depois, comigo; e desde esse dia não voltou lá a casa. 
 
 
Tal foi o início dos amores. Carlos Maria folgou de se ver assim amado em silêncio, e 
toda a prevenção se converteu em simpatia. Começou a vê-la, saboreou a confusão da moça, 
os medos, a alegria, a modéstia, as atitudes quase implorativas, um composto de atos e 
sentimentos que eram a apoteose do homem amado. Tal foi o início, tal o desfecho. Assim os 
vimos, naquela noite dos anos de D. Sofia, a quem ele dissera antes cousas tão doces. São 
assim os homens; as águas que passam, e os ventos que rugem não são outra cousa. 
 
 
CAPÍTULO CXXI 
 
 
 
"BEM, VAI CASAR, tanto melhor! pensou Rubião. 
 
 
Entre aquela noite e o dia do casamento, Rubião apanhou no ar algumas olhadas de 
Sofia, suspeitas de tentação; Carlos Maria, se lhe correspondeu, foi antes por polidez que 
outra cousa. Rubião concluiu que o caso era fortuito; lembrava-se ainda da lágrima de Sofia, 
na noite dos anos, quando lhe explicou a história da carta. 
 
 
Oh! boa lágrima inesperada! Tu, que bastaste a persuadir um homem, podes não ser 
explicável a outros, e assim vai o mundo. Que importa que os olhos não fossem costumados 
ao choro, nem que a noite parecesse exaltar sentimentos mui diversos da melancolia? Rubião 
a viu cair; ainda agora a vê de memória. Mas a confiança de Rubião não vinha só da lágrima, 
vinha também da presente Sofia, que nunca fora tão solícita nem tão dada com ele. Parecia 
arrependida de todo o mal causado, prestes a saná-lo, ou por afeição tardia, ou pelo próprio 
malogro da primeira aventura. Há delitos virtuais, que dormem. Há óperas remissas na cabeça 
de um maestro, que só esperam os primeiros compassos da inspiração. 
 
 
CAPÍTULO CXXII 
 
 


 
"AINDA BEM que se casa!" repetiu o Rubião. 
 
 
Não se demorou o casamentotrês semanas. Na manhã do dia aprazado. Carlos Maria 
abriu os olhos com algum espanto. Era ele mesmo que ia casar? Não havia dúvida; mirou-se 
ao espelho, era ele. Relembrou os últimos dias, a marcha rápida dos sucessos, a realidade da 
afeição que tinha à noiva, e, enfim, a felicidade pura que lhe ia dar. Esta derradeira idéia 
enchia-o de grande e rara satisfação. Ia-as ruminando inda, a cavalo, no passeio habitual da 
manhã; desta vez escolhera o bairro do Engenho Velho. 
 
 
Posto se achasse costumado aos olhos admirativos, via agora em toda a gente um 
aspecto parecido com a notícia de que ele ia casar. As casuarinas de uma chácara, quietas 
antes que ele passasse por elas, disseram-lhe cousas mui particulares, que os levianos 
atribuiriam à aragem que passava também, mas que os sapientes reconheceriam ser nada 
menos que a linguagem nupcial das casuarinas. Pássaros saltavam de um lado para outro, 
pipilando um madrigal. Um casal de borboletas,-que os japões têm por símbolo da fidelidade, 
por observarem que, se pousam de flor em flor, andam quase sempre aos pares,-um casal 
delas acompanhou por muito tempo o passo do cavalo, indo pela cerca de uma chácara que 
beirava o caminho volteando aqui e ali, lépidas e amarelas. De envolta com isto, um ar fresco, 
céu azul, caras alegres de homens montados em burros, pescoços estendidos pela janela fora 
das diligências, para vê-lo e ao seu garbo de noivo. Certo, era difícil crer que todos aqueles 
gestos s atitudes da gente, dos bichos e das árvores, exprimissem outro sentimento que não 
fosse a homenagem nupcial da natureza. 
 
 
As borboletas perderam-se em uma das moitas mais densas da cerca. Seguiu-se outra 
chácara, despida de árvores, portão aberto e ao fundo, fronteando com o portão, uma casa 
velha, que encarquilhava os olhos sob a forma de cinco janelas de peitoril, cansadas de perder 
moradores. Também elas tinham visto bodas e festins; o século ainda as achou verdes de 
novidade e de esperança. 
 
 
Não cuideis que esse aspecto contristou a alma do cavaleiro. Ao contrário, ele possuía 
o dom particular de remoçar as ruínas e viver da vida primitiva das cousas. Gostou até de ver 
a casa velhusca desbotada, em contraste com as borboletas tão vivas de há pouco arou o 
cavalo; evocou as mulheres que por ali entraram, outras galas, outros rostos, outras maneiras. 
Porventura as próprias sombras das pessoas felizes e extintas vinham agora cumprimentá-lo 
também, dizendo-lhe pela boca invisível todos os nomes sublimes que pensavam dele. 
Chegou a ouvi-las e sorrir. Mas uma voz estrídula veio mesclar-se ao concerto;-um papagaio, 
em gaiola pendente da parede externa da casa"Papagaio real, para Portugal; quem passa? 
Currupá, papá. Grrr. . . Grrr. . ." As sombras fugiram, o cavalo foi andando, Carlos Maria 
aborrecia o papagaio, como aborrecia o macaco, duas contrafações da pessoa humana, dizia 
ele. 
 
 
"A felicidade que eu lhe der será assim também interrompida?" reflexionou andando. 
 
 
Cambaxirras voaram de um para outro lado da rua, e pousaram cantando a sua língua 
própria; foi uma reparação. Essa língua sem palavras era inteligível, dizia uma porção de 
cousas claras e belas. Carlos Maria chegou a ver naquilo um símbolo de si mesmo. Quando a 
mulher, aturdida dos papagaios do mundo, viesse caindo de fastio a ele a faria erguer aos 
trilos da passarada divina, que trazia em si idéias de ouro, ditas por uma voz de ouro. Oh! 
como a tornaria feliz! Já a antevia ajoelhada, com os braços postos nos seus joelhos, a cabeça 
nas mãos e os olhos nele, gratos, devotos, amorosos, tôda implorativa, toda nada. 


 
 
CAPÍTULO CXXIII 
 
 
 
ORA BEM, aquele quadro, na mesma hora em que aparecia aos olhos da imaginação 
do noivo, reproduzia-se no espírito da noiva, tal qual. 
 
 
Maria Benedita, posta à janela, fitando as ondas que se quebravam ao longe e na praia, 
via-se a si mesma, ajoelhada aos pés do marido, quieta, contrita, como à mesa da comunhão 
para receber a hóstia da felicidade. E dizia consigo"Oh! como ele me fará feliz!" Frase e 
pensamento eram outros, mas a atitude e a hora eram as mesmas. 
 
 
CAPÍTULO CXXIV 
 
 
 
 
CASARAM-SE; três meses depois foram para a Europa. Ao despedir-se deles, D. 
Fernanda estava tão alegre como se viesse recebê-los de volta; não chorava. O prazer de os 
ver felizes era maior que o desgosto da separação. 
 
 
-Você vai contente? perguntou a Maria Benedita, pela última vez, junto à amurada do 
paquete. 
 
 
-Oh! muito! 
 
 
A alma de D. Fernanda debruçou-se-lhe dos olhos, fresca, ingênua, cantando um 
trecho italiano,-porque a soberba guasca preferia a música italiana,-talvez esta ária da LuciaÓ 
bell'alma innamorata. Ou este pedaço do Barbeiro 
 
 
Ecco ridente in cielo 
 
 
Spunta la bela aurora. 
 
 
CAPÍTULO CXXV 
 
 
 
SOFIA não foi a bordo, adoeceu e mandou o marido. Não vão crer que era pesar nem 
dor; por ocasião do casamento, houve-se com grande discrição, cuidou do enxoval da noiva e 
despediu-se dela com muitos beijos chorados. Mas ir a bordo pareceu-lhe vergonha. Adoeceu; 
e, para não desmentir do pretexto, deixou-se estar no quarto. Pegou de um romance recente; 
fora-lhe dado pelo Rubião. Outras cousas ali lhe lembravam o mesmo homem, tetéias de toda 
a sorte, sem contar jóias guardadas. Finalmente, uma singular palavra que lhe ouvira, na noite 
do casamento da prima, até essa veio ali para o inventário das recordações do nosso amigo. 
 
 
-A senhora é já a rainha de todas, disse-lhe ele em voz baixa; espere que ainda a farei 
imperatriz. 
 


 
Sofia não pôde entender esta frase enigmática. Quis supor que era uma aliciação de 
grandeza para torná-la sua amante; mas excluiu tal intenção por demasiado vaidosa. Rubião, 
posto não fosse agora o mesmo homem encolhido e tímido de outros tempos, não se mostrava 
tão cheio de si que lhe pudesse atribuir tão alta presunção. Mas que era então a frase? Talvez 
um modo figurado de dizer que a amaria ainda mais. Sofia acreditava possível tudo. Não lhe 
faltavam galanteios, chegou a ouvir aquela declaração de Carlos Maria, provavelmente ouvira 
outras, a que deu somente a atenção da vaidade. E todas passaram; Rubião é que persistia. 
Tinha pausas, filhas de suspeitas; mas as suspeitas iam como vinham. 
 
 
"Ele merece ser amado", leu Sofia na página aberta do romance, quando ia continuar a 
leitura; fechou o livro, fechou os olhos, e perdeu-se em si mesma. A escrava que entrou daí a 
pouco, trazendo-lhe um caldo, supôs que a senhora dormia e retirou-se pé ante pé. 
 
 
CAPÍTULO CXXVI 
 
 
 
ENTRETANTO, Rubião e Palha desciam do paquete para a lancha e tornavam ao cais 
Pharoux. Vinham cuidosos e calados. Palha foi o primeiro que abriu a boca 
 
 
-Ando há tempos para dizer-lhe uma cousa importante, Rubião. 
 
 
 
CAPÍTULO CXXVII 
 
 
RUBIÃO ACORDOU. Era a primeira vez que ia a um paquete. Voltava com a alma 
cheia dos rumores de bordo, a lufa-lufa das gentes que entravam e saíam, nacionais, 
estrangeiros, estes de vária casta, franceses, ingleses, alemães, argentinos, italianos, uma 
confusão de línguas, um cafarnaum de chapéus, de malas, cordoalha, sofás, binóculos a 
tiracolo, homens que desciam ou subiam por escadas par dentro do navio, mulheres chorosas, 
outras curiosas, outras cheias de riso, e muitas que traziam de terra flores ou frutas,-tudo 
aspectos novos. Ao longe, a barra por onde tinha de ir o paquete. Para lá da barra, o mar 
imenso, o céu fechado e a solidão. Rubião renovou os sonhos do mundo antigo, criou uma 
Atlântida, sem nada saber da tradição. Não tendo noções de geografia, formava uma idéia 
confusa dos outros países, e a imaginação rodeava-os de um nimbo misterioso. Como não lhe 
custava viajar assim navegou de cor algum tempo, naquele vapor alto e comprido, sem enjôo, 
sem vagas, sem ventos, sem nuvens. 
 
 
CAPÍTULO CXXVIII 
 
 
 
-A MIM? perguntou Rubião depois de alguns segundos. 
 
 
-A você, confirmou o Palha. Devia tê-la dito há mais tempo, mas estas histórias de 
casamento, de comissão das Alagoas, etc., atrapalharam-me, e não tive ocasião; agora, porém, 
antes do almoço... Você almoça comigo. 
 
 
-Sim, mas que é? 


 
 
- Uma cousa importante. 
 
 
Dizendo isto, tirou um cigarro, abriu-o, desfiou o fumo com os dedos, enrolou a palha 
outra vez, e riscou um fósforo, mas o vento apagou o fósforo. Então pediu ao Rubião que lhe 
fizesse o favor de segurar o chapéu, para poder acender outro. Rubião obedeceu impaciente. 
Bem pode ser que o sócio, esticando a espera, quisesse justamente fazer-lhe crer que se 
tratava de um terremoto; a realidade viria a ser um benefício. Puxadas duas fumaças 
 
 
-Estou com meu plano de liquidar o negócio; convidaram-me aí para uma casa 
bancária, lugar de diretor, e creio que aceito. 
 
 
Rubião respirou. 
 
 
-Pois sim; liquidar já? 
 
 
-Não, lá para o fim do ano que vem. 
 
 
-E é preciso liquidar ? 
 
 
-Cá para mim, é. Se a história do banco não fosse segura, não me animaria a perder o 
certo pelo duvidoso; mas seguríssima. 
 
 
-Então no fim do ano que vem soltamos os laços que nos prendem . . . 
 
 
Palha tossiu. 
 
 
-Não, antes, no fim deste ano. 
 
 
Rubião não entendeu; mas o sócio explicou-lhe que era útil desligarem já a sociedade, 
a fim de que ele sozinho liquidasse a casa. O banco podia organizar-se mais cedo ou mais 
tarde; e para que sujeitar o outro às exigências da ocasião? Demais, o Dr. Camacho afirmava 
que, em breve, Rubião estaria na Câmara, e que a queda do ministério era certa. 
 
 
-Seja o que for, concluiu; é sempre melhor desligarmos a sociedade com tempo. Você 
não vive do comércio; entrou com o capital necessário ao negócio,-como podia dá-lo a outro 
ou guardá-lo. 
 
 
-Pois sim, não tenho dúvida, concordou o Rubião. 
 
 
E depois de alguns instantes 
 
 
-Mas diga-me uma cousa, essa proposta traz algum motivo oculto? é rompimento de 
pessoas, de amizade... Seja franco, diga tudo . 
 
 
-Que caraminhola é essa? redargüiu o Palha. Separação de amizade, de pessoas... Mas 
você está tonto. Isto é do balanço do mar. Pois eu, que tenho trabalhado tanto por você, eu que 
o faço amigo dos meus amigos, que o trato como um parente, como um irmão, havia de brigar 
à toa? Aquele mesmo casamento de Maria Benedita com o Carlos Maria devia ser com você, 
bem sabe, se não fosse a sua recusa. A gente pode romper um laço sem romper os outros. O 


contrário seria despropósito. Então todos os amigos de sociedade ou de família são sócios de 
comércio? E os que não forem comerciantes? 
 
 
Rubião achou excelente a razão, e quis abraçar o Palha. Este apertou-lhe a mão 
satisfeitíssimo; ia ver-se livre de um sócio, cuia prodigalidade crescente podia trazer-lhe 
algum perigo. A casa estava sólida; era fácil entregar ao Rubião a parte que lhe pertencesse, 
menos as dívidas pessoais e anteriores. Restavam ainda algumas daquelas que o Palha 
confessou à mulher, na noite de Santa Teresa, cap. L. Pouco tinha pago; geralmente era o 
Rubião que abanava as orelhas ao assunto. Um dia, o Palha, querendo dar-lhe à força algum 
dinheiro, repetiu o velho provérbio"Paga o que deves, vê o que te fica". Mas o Rubião, 
gracejando 
 
 
-Pois não pagues, e vê se te não fica ainda mais. 
 
 
-É boa! redargüiu o Palha rindo e guardando o dinheiro no bolso. 
 
 
CAPÍTULO CXXIX 
 
 
 
NÃO HAVIA BANCO, nem lugar de diretor, nem liquidação; mas como justificaria o 
Palha a proposta de separação, dizendo a pura verdade? Daí a invenção, tanto mais pronta, 
quanto o Palha tinha amor aos bancos, e morria por um. A carreira daquele homem era cada 
vez mais próspera e vistosa. O negócio corria-lhe largo; um dos motivos da separação era 
justamente não ter que dividir com outros os lucros futuros. Palha, além do mais, possuía 
ações de toda a parte, apólices de ouro do empréstimo Itaboraí, e fizera uns dous 
fornecimentos para a guerra, de sociedade com um poderoso, nos quais ganhou muito. Já 
trazia apalavrado um arquiteto para lhe construir um palacete. Vagamente pensava em 
baronia. 
 
 
CAPÍTULO CXXX 
 
 
 
-QUEM DRIA que a gente do Palha nos trataria deste modo? Já não valemos nada. 
Escusa de os defender... 
 
 
-Não defendo, estou explicando; há de ter havido confusão 
 
 
-Fazer anos, casar a prima, e nem um triste convite ao major, ao grande major, ao 
impagável major, ao velho amigo major. Eram os nomes que me davam; eu era impagável, 
amigo velho, grande outros nomes. Agora, nada, nem um triste convite, um recado de boca, 
ao menos, por um moleque"Nhanhã faz anos, ou casa prima, diz que a casa está às suas 
ordens, e que vão com luxo. Não iríamos; luxo não é para nós. Mas era alguma cousa, era 
recado, um moleque, ao impagável major... 
 
 
-Papai! 
 
 
Rubião, vendo a intervenção de D. Tonica, animou-se a defender longamente a família 
Palha. Era em casa do major, não já na Rua Dous de Dezembro, mas na dos Barbonos, 


modesto sobradinho. Rubião passava, ele estava à janela, e chamou-o. D. Tonica não teve 
tempo de sair da sala, para dar, ao menos, uma vista d'olhos ao espelho; mal pôde passar a 
mão pelo cabelo, compor o laço de fita ao pescoço e descer o vestido para cobrir os sapatos, 
que não eram novos. 
 
 
-Digo-lhe que pode ter havido confusão, insistiu Rubião; tudo anda por lá muito 
atrapalhado com esta comissão das Alagoas. 
 
 
- Lembra bem, interrompeu o Major Siqueira; por que não meteram minha filha na 
comissão das Alagoas? Qual! Há já muito que reparo nisto; antigamente não se fazia festa 
sem nós. Nós éramos a alma de tudo. De certo tempo para cá começou a mudança; entraram a 
receber-nos friamente, e o marido, se pode esquivar-se, não me cumprimenta. Isto começou 
há tempos ; mas antes disso sem nós é que não se fazia nada. Que está o senhor a falar de 
confusão? Pois se na véspera dos anos dela, já desconfiando que não nos convidariam, fui ter 
com ele ao armazém. Poucas palavras, disfarçava Afinal disse-lhe assim"Ontem, lá em casa, 
eu e Tonica estivemos discutindo sobre a data dos anos de D. Sofia; ela dizia que tinha 
passado, eu disse que não, que era hoje ou amanhã." Não me respondeu, fingiu que estava 
absorvido em uma conta, chamou o guarda-livros, e pediu explicações. Eu entendi o bicho, e 
repeti a história fez a mesma cousa. Saí. Ora o Palha, um pé-rapado! Já o envergonho. 
Antigamentemajor, um brinde. Eu fazia muitos brindes, tinha certo desembaraço. Jogávamos 
o voltarete. Agora está nas grandezas; anda com gente fina. Ah! vaidades deste mundo! Pois 
não vi outro dia a mulher dele, num coupé, com outra? A Sofia de coupé! Fingiu que me não 
via, mas arranjou os olhos de modo que percebesse se eu a via, se a admirava. Vaidades desta 
vida! Quem nunca comeu azeite, quando come se lambuza. 
 
 
-Perdão, mas os trabalhos da comissão exigem certo aparato 
 
 
-Sim, acudiu Siqueira, é por isso que minha filha não entrou na comissão; é para não 
estragar as carruagens. .. 
 
 
-Demais, o coupé podia ser da outra senhora que ia com ela. 
 
 
O major deu dous passos, com as mãos atrás, e parou diante de Rubião. 
 
 
- Da outra... ou do Padre Mendes. Como vai o padre? Boa vida, naturalmente. 
 
 
-Mas, papai, pode não haver nada, interrompeu D. Tonica. Ela sempre me trata bem, e 
quando estive doente no mês passado, mandou saber pelo moleque, duas vezes. 
 
 
-Pelo moleque! bradou o pai. Pelo moleque! Grande favor! "Moleque, vai ali à casa 
daquele reformado e pergunta-lhe se a filha tem passado melhor; não vou, porque estou 
lustrando as unhas!" Grande favor! Tu não lustras as unhas! tu trabalhas! tu és digna filha 
minha! pobre, mas honesta! 
 
 
Aqui o major chorou, mas suspendeu de repente as lagrimas. A filha, comovida, 
sentiu-se também vexada. Certo, a casa dizia a pobreza da família, poucas cadeiras, uma mesa 
redonda velha, um canapé gasto; nas paredes duas litografias encaixilhadas e em pinho 
pintado de preto, uma era o retrato do major em 1857, a outra representava o Veronês em 
Veneza, comprado na Rua do Senhor dos Passos. Mas o trabalho da filha transparecia em 
tudo; os móveis reluziam de asseio, a mesa tinha um pano de crivo, feito por ela, o canapé 


uma almofada. E era falso que D. Tonica não lustrasse as unhas; não teria o pó nem a 
camurça, mas acudia-lhes com um retalho de pano todas as manhãs. 
 
 
CAPÍTULO CXXXI 
 
 
 
RUBIÃO tratou-os com simpatia. Não continuou a defender a gente Palha, para não 
desesperar o major. Pouco depois, despediu-se, prometendo, sem convite, que lá iria jantar 
"um dia destes". 
 
 
-Jantar de pobre, acudiu o major; se puder avisar, avise. 
 
 
-Não quero banquetes; virei quando me der na cabeça. 
 
 
Despediu-se. D. Tonica, depois de ir até o patamar, sem chegar à frente por causa dos 
sapatos, foi à janela para vê-lo sair. 
 
 
 
CAPÍTULO CXXXII 
 
 
 
LOGO QUE RUBIÃO dobrou a esquina da Rua das Mangueiras, D. Tonica entrou e 
foi ao pai, que se estendera no canapé, para reler o velho Saint-Clair das Ilhas ou os 
Desterrados da ilha da Barra. Foi, o primeiro romance que conheceu; o exemplar tinha mais 
de vinte anos; era toda a biblioteca do pai e da filha. Siqueira abriu o primeiro volume, e 
deitou os olhos ao começo do cap. II, que já trazia de cor. Achava-lhe agora um sabor 

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