Microsoft Word quincasborba rtf


particular, que corrigia as incoerências do vestido



Baixar 0.67 Mb.
Pdf preview
Página3/8
Encontro30.07.2021
Tamanho0.67 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8

particular, que corrigia as incoerências do vestido. 
 
 
Nascera na roça e gostava da roça. A roça era perto, Iguaçu. De longe em longe vinha 
à cidade, passar alguns dias; mas, ao cabo dos dous primeiros, já estava ansiosa por tornar a 
casa. A educação foi sumárialer, escrever, doutrina e algumas obras de agulha. Nos últimos 
tempos (ia em dezenove anos), Sofia apertou com ela para aprender piano; a tia consentiu; 
Maria Benedita veio para a casa da prima, e ali esteve uns dezoito dias. Não pôde mais; 
doeram-lhe as saudades da mãe e voltou para a roça, deixando consternado o professor, que 
anunciou nela, desde os primeiros dias, um grande talento musical. 
 
 
-Oh! sem dúvida, um grande talento! 
 
 
Maria Benedita riu-se quando a prima lhe contou isto, e nunca mais pôde ver a sério o 
homem. Às vezes, no meio de uma lição, deitava a rirSofia contraía as sobrancelhas, a modo 
de ralho, e o pobre homem perguntava o que era, e de si mesmo explicava que havia de ser 
alguma lembrança de moça, e continuava a lição. Nem piano nem francês,-outra lacuna, que 
Sofia mal podia desculpar. D. Maria Augusta não compreendia a consternação da sobrinha. 
Para que francês! A sobrinha dizia-lhe que era indispensável para conversar, para ir às lojas, 
para ler um romance. . . 
 
 
-Sempre fui feliz sem francês, respondia a velha; e os meia-línguas da roça são a 
mesma cousa; não vivem pior que os crioulos. 
 
 
Um dia acrescentou 
 
 
-Nem por isso lhe hão de faltar noivos. Pode casar, já lhe disse que pode casar quando 
quiser, que eu também casei; e at deixar-me na roça, sozinha, morrer como uma besta velha... 
 
 
-Mamãe! 
 
 
-Não tenha pena, é só aparecer o noivo. Em aparecendo vá com ele, e deixe-me ficar. 
Olha Maria José o que fez comigo? Vive lá pelo Ceará. 
 
 
-Mas se o marido é juiz de direito, ponderava Sofia. 
 
 
 
-Torto que seja! Para mim é a mesma cousa. Cá fica o frangalho da velha. Casa, Maria 
Benedita, casa depressa; eu morrerei com Deus. Não terei filhos, mas terei Nossa Senhora, 
que é mãe de todos. Casa, anda, casa! 
 
 
Toda essa rabugem era cálculo; tinha em mira arredar a filha do matrimônio, 
excitando-lhe o terror e a piedade. Quando menos, retardar-lho. Não creio que revelasse esse 
pecado ao professor, nem que chegasse a entendê-loera obra de um egoísmo idoso e 
melindroso. D. Maria Augusta fora longamente querida; a. mãe era douda por ela, o marido 
amou-a até o último dia com a mesma intensidade. Mortos ambos, todas as suas saudades 
filiais e matrimoniais foram postas na cabeça das duas filhas. 
 
 
Uma fugira-lhe, casando. Ameaçada da solidão, se a outra casasse também, D. Maria 
Augusta fazia tudo o que podia por evitar o desastre. 


 
 
 
CAPÍTULO LXV 
 
 
 
 
CURTA FOI A VISITA de Rubião. Às nove horas levantou-se ele discretamente, 
esperando qualquer palavra de Sofia, um pedido para que ficasse ainda algum tempo, que 
esperasse o marido que já vinha um espanto que fosseJá! mas nem isso. Sofia estendeu-lhe a 
mão, em que ele mal pôde tocar. Contudo, a moça, durante a visita, mostrou-se tão natural, 
tão sem azedume... Não teve seguramente os olhos longos e loquazes, como dantes; parecia 
até que não houvera nada nem bem nem mal, nem morangos, nem lua. Rubião tremia, não 
achava palavras, ela achava todas as que queria, e se era preciso olhar para ele, fazia-o 
direitamente, tranqüilamente. 
 
 
-Lembranças ao nosso Palha, murmurou ele de chapéu e bengala na mão. 
 
 
-Obrigada! Foi fazer uma visita; parece que ouço passos; há de ser ele. 
 
 
Não era ele, era Carlos Maria. Rubião ficou espantado de o ver ali, mas achou logo 
que a presença da fazendeira e da filha explicaria tudo; podia ser até que fossem aparentados. 
 
 
-Ia saindo, quando o senhor entrou, disse-lhe Rubião depois de o ver sentado ao pé de 
D. Maria Augusta. 
 
 
-Ah! respondeu o outro, olhando para o retrato de Sofia. 
 
 
Sofia foi até à porta despedir-se do Rubião; disse-lhe que o marido ficaria com pena de 
não estar em casa; mas que a visita era imperiosa. Negócios... Iria pedir-lhe desculpa. 
 
 
-Que desculpa? acudiu Rubião. 
 
 
Parece que quis dizer ainda alguma cousa; mas o aperto de mão de Sofia e a 
reverência que esta lhe fez deram-lhe o sinal de despedida. Rubião inclinou-se, atravessou o 
jardim, ouvindo a voz de Carlos Maria, na sala 
 
 
-Vou denunciar seu marido, minha senhora; é homem de muito mau gosto. 
 
 
Rubião parou. 
 
 
-Por quê? disse Sofia. 
 
 
-Tem este seu retrato na sala, continuou Carlos Maria; a senhora é muito mais bela, 
infinitamente mais bela que a pintura. Comparem, minhas senhoras. 
 
 
 
CAPÍTULO LXVI 
 


 
 
 
"COMO ELE DIZ aquelas cousas tão naturalmente! pensou Rubião, em casa, 
relembrando as palavras de Carlos Maria. Desfazer no retrato só para elogiar a pessoa! Note-
se que o retrato é muito parecido." 
 
 
CAPÍTULO LXVII 
 
 
 
DE MANHÃ, na cama, teve um sobressalto. O primeiro jornal que abriu foi a Atalaia. 
Leu o artigo editorial, uma correspondência e algumas notícias. De repente, deu com o seu 
nome. 
 
 
-Que é isto? Era o seu próprio nome impresso, rutilante, multiplicado, nada menos que 
uma notícia do caso da Rua da Ajuda. Depois do sobressalto, aborrecimento. Que diacho de 
idéia aquela de imprimir um fato particular, contado em confiança? Não quis ler nada; desde 
que percebeu o que era deitou a folha ao chão, e pegou em outra. Infelizmente, perdera a 
serenidade, lia por alto, pulava algumas linhas, não entendia outras, ou dava por si no fim de 
uma coluna sem saber como viera escorregando até ali. 
 
 
Ao levantar-se, sentou-se na poltrona, ao pé da cama, e pegou da Atalaia. Lançou os 
olhos pela notíciaera mais de uma coluna. Coluna e tanto para cousa tão diminuta! pensou 
consigo. E a fim de ver como é que Camacho enchera o papel, leu tudo, um pouso às pressas, 
vexado dos adjetivos e da descrição dramática do caso. 
 
 
-Foi bem feito! disse em voz alta. Quem me mandou ser linguarudo? 
 
 
Passou ao banho, vestiu-se, penteou-se, sem esquecer a bisbilhotice da folha, acanhado 
com a publicação de um negócio, que ele reputava mínimo, e ainda mais pelo encarecimento 
que lhe dera o escritor, como se tratasse de dizer bem ou mal em política. Ao café, pegou 
novamente na folha, para ler outras cousas, nomeações do governo, um assassinato em 
Garanhuns, meteorologia, até que a vista desastrada foi cair na notícia, e leu-a então com 
pausa. Aqui confessou Rubião que bem podia crer na sinceridade do escritor. O entusiasmo da 
linguagem explicava-se pela impressão que lhe ficou do fato; tal foi ela que lhe não permitiu 
ser mais sóbrio. Naturalmente é o que foi. Rubião recordou a sua entrada no escritório do 
Camacho, o modo por que falou; e daí tornou atrás, ao próprio ato. Estirado no gabinete, 
evocou a cenao menino, o carro, os cavalos, o grito, o salto que deu, levado de um ímpeto 
irresistível. - Agora mesmo não podia explicar o negócio; foi como se lhe tivesse passado uma 
sombra pelos olhos. . . Atirou-se à criança, e aos cavalos, cego e surdo, sem atender ao 
próprio risco... E podia ficar ali, embaixo dos animais, esmagado pelas rodas, morto ou ferido; 
ferido que fosse. . . Podia ou não podia? Era impossível negar que a situação foi grave... A 
prova é que os pais e a vizinhança. . . 
 
 
Rubião interrompeu as reflexões para ler ainda a notícia. Que era bem escrita, era. 
Trechos havia que releu com muita satisfação. O diabo do homem parecia ter assistido à cena. 
Que narração! que viveza de estilo! Alguns pontos estavam acrescentados,-confusão de 
memória,-mas o acréscimo não ficava mal. E certo orgulho que lhe notou ao repetir-lhe o 
nome? "O nosso amigo, o nosso distintíssimo amigo, o nosso valente amigo..." 
 


 
Ao almoço, riu-se de si mesmo; achou-se mortificado em demasia. Afinal, que tinha 
que o outro desse aos seus leitores uma notícia que era verdadeira, que era interessante, 
dramática,-e seguramente,- não vulgar? Saindo, recebeu alguns cumprimentos; Freitas 
chamou-lhe S. Vicente de Paula. E o nosso amigo sorria, agradecia, diminuía-se, não era nada 
 
 
-Nada? replicou alguém. Dê-me muitos desses nadas. Salvar uma criança com risco da 
própria vida... 
 
 
Rubião ia concordando, ouvindo, sorrindo; contava a cena a alguns curiosos, que a 
queriam da própria boca do autor. Certos ouvintes respondiam com proezas suas,- um que 
salvara uma lei um homem, outro uma menina, prestes a afogar-se no Boqueirão do Passeio, 
estando a tomar banho. Vinham também suicídios malogrados, por intervenção do ouvinte, 
que tomou a pistola ao infeliz. e fê-lo jurar. . . Cada gloriazinha oculta picava o ovo, e punha a 
cabeça de fora, olho aberto, sem penas, em volta da glória máxima do Rubião. Também teve 
invejosos, alguns que nem o conheciam, só por ouvi-lo louvar em voz alta. Rubião foi 
agradecer a notícia ao Camacho, não sem alguma censura pelo abuso de confiança, mas uma 
censura mole, ao canto da boca. Dali foi comprar uns tantos exemplares da folha para os 
amigos de Barbacena. Nenhuma outra transcreveu a notícia; ele, a conselho do Freitas, fê-la 
reimprimir nos a-pedidos do Jornal do Comércio, interlinhada. 
 
 
CAPÍTULO LXVIII 
 
 
 
MARIA BENEDITA consentiu finalmente em aprender francês e piano. Durante 
quatro dias a prima teimou com ela, a todas as horas, de tal arte e maneira, que a mãe da moça 
resolveu apressar a volta à fazenda, para evitar que ela acabasse aceitando. A filha resistiu 
muito; respondia que eram cousas supérfluas, que moça de roça não precisa de prendas da 
cidade. Uma noite, porém, estando ali Carlos Maria, pediu-lhe este que tocasse alguma cousa, 
Maria Benedita  fez-se vermelha. Sofia acudiu com uma mentira 
 
 
-Não lhe peça isso; ainda não tocou depois que veio. Diz que agora só toca para os 
roceiros. 
 
 
-Pois faça de conta que somos roceiros, insistiu o moço. 
 
 
Mas passou logo a outra cousa, ao baile da baronesa do Piauí (a mesma que o nosso 
amigo Rubião encontrou no escritório do Camacho), um baile esplêndido, oh! esplêndido! A 
baronesa prezava-o muito, disse ele. No dia seguinte, Maria Benedita 
 
declarou à prima que estava pronta a aprender piano e francês, rabeca e até russo, se quisesse. 
A dificuldade era vencer a mãe. Esta, quando soube da resolução da filha, pôs as mãos na 
cabeça. Que francês? que piano? Bradou que não, ou então que deixasse de ser sua filha; 
podia ficar, tocar, cantar, falar cabinda ou a língua do diabo que os levasse a todos. Palha é 
que a persuadiu finalmente; disse-lhe que, por mais supérfluas que lhe parecessem aquelas 
prendas, eram o mínimo dos adornos de uma educação de sala. 
 
 
- Mas eu criei minha filha na roça e para a roça, interrompeu a tia. 
 


 
-Para a roça? Quem sabe lá para que cria os filhos? Meu pai destinava-me a padre; é 
por isso que arranho algum latim. A senhora não há de viver sempre; os seus negócios andam 
atrapalhados. Pode acontecer, que Maria Benedita fique ao desamparo... Ao desamparo, não 
digo; enquanto vivermos somos todos uma só pessoa. Mas não é melhor prevenir? Podia ser 
até que, se lhe faltássemos todos. ela vivesse à larga, só com ensinar francês e piano. Basta 
que os saiba para estar em condições melhores. É bonita, como a senhora foi no seu tempo; e 
possui raras qualidades morais. Pode achar marido rico. Sabe a senhora se já tenho alguém em 
vista, pessoa séria? 
 
 
-Sim? Então ela vai aprender francês, piano e namoro? 
 
 
-Que namoro? Refiro-me a um pensamento íntimo, a um plano que me parece 
adequado à felicidade dela e de sua mãe. . . Pois eu havia... Ora, tia Augusta! 
 
 
Palha mostrou-se tão mortificado, que a tia deixou o tom áspero pelo tom seco. 
Resistiu ainda; mas a noite deu-lhe bons conselhos. O estado dos seus negócios, e a 
possibilidade de um genro abastado fizeram mais que outras razões. Os melhores genros da 
roça aliavam-se a outras fazendas, a famílias de representação e riqueza segura. Dous dias 
depois acharam um modus vivendi. Maria Benedita ficaria com a prima; iriam de quando em 
quando à roça, e a tia também viria à capital, para vê-las. Palha chegou a dizer que, logo que o 
estado da praça o permitisse, arranjaria meio de liquidar-lhe os negócios e transportá-la para 
aqui. Mas a isto a boa senhora abanou a cabeça. 
 
 
Não se pense que tudo isso foi tão fácil como aí fica escrito. Na prática, vieram os 
óbices, amofinações, saudades, rebeliões de Maria Benedita. Dezoito dias depois da volta da 
mãe à fazenda, quis ir visitá-la, e a prima acompanhou-a; estiveram lá uma semana. A mãe, 
dous meses depois, veio passar uns dias aqui. Sofia acostumava habilmente a prima às 
distrações da cidade, teatros, visitas, passeios, reuniões em casa, vestidos novos, chapéus 
lindos, jóias. Maria Benedita era mulher, posto que mulher esquisita, gostou de tais cousas, 
mas tinha para si que, logo que quisesse, podia arrebentar todos esses liames, e andar para a 
roça. A roça vinha ter com ela, às vezes, em sonho ou simples devaneio. Depois dos primeiros 
saraus, quando voltava para casa, não eram as sensações da noite que lhe enchiam a alma, 
eram as saudades de Iguaçu. Cresciam-lhe mais a certas horas do dia, quando a quietação da 
casa e da rua era completa. Então batia as asas para a varanda da velha casa, onde bebia café, 
ao pé da mãe; pensava na escravaria, nos móveis antigos, nas botinas chinelas que lhe 
mandara o padrinho, um fazendeiro rico de S. João d'EI-Rei,- e que lá ficaram em casa. Sofia 
não consentiu que ela as trouxesse. 
 
 
Os mestres de francês e piano eram homens sabedores do ofício. Sofia teve modo de 
dizer-lhes em particular que a prima vexava-se de aprender tão tarde, e pediu-lhes que não 
falassem nunca de tal discípula. Prometeram que sim; o de piano apenas referiu o pedido a 
alguns colegas d'arte, que lhe acharam graça, e contaram outras anedotas da clientela. O certo 
é que Maria Benedita aprendia com singular facilidade, estudava com afinco, quase todas as 
horas, a tal ponto que a mesma prima julgava acertado interrompê-la. 
 
 
-Descansa, filha de Deus! 
 
 
-Deixa recobrar o tempo perdido, respondia ela rindo. 
 


 
Então Sofia inventava passeios, à toa, para fazê-la descansar. Ora um bairro, ora outro. 
Em certas ruas, Maria Benedita não perdia tempolia as tabuletas francesas, e perguntava pelos 
substantivos novos que a prima, algumas vezes, não sabia dizer o que eram, tão estritamente 
adequado era o seu vocabulário às cousas do vestido, da sala e do galanteio. 
 
 
Mas não era só nessas disciplinas que Maria Benedita fazia progressos rápidos. A 
pessoa ajustara-se ao meio, mais depressa do que fariam crer o gosto natural e a vida da roça. 
Já competia com a outra, embora houvesse nesta um desgarre, e não sei que expressão 
particular que, para assim dizer, dava cor a todas as linhas e gestos da figura. Não obstante 
essa diferença, certo que a outra era vista e notada ao pé dela, de tal jeito que Sofia, que 
começara por louvá-la em toda a parte, não a deslouvava agora, mas ouvia calada as 
admirações. Falava bem;-mas, quando calava, era por muito tempo; dizia que eram os seus 
"calundus". Contradançava sem vida, que é a perfeição desse gênero de recreio; gostava muito 
de ver polcar e valsar. Sofia, imaginando que era por medo que a prima não valsava nem 
polcava, quis dar-lhe algumas lições em casa, sozinhas, com o marido ao piano; mas a prima 
recusava sempre. 
 
 
-Isso é ainda um bocadinho de casca da roça, disse-lhe uma vez Sofia. 
 
 
Maria Benedita sorriu de um modo tão particular, que a outra não insistiu. Não foi riso 
de vexame, nem de despeito, nem de desdém. Desdém, por quê? Contudo, é certo que o riso 
parecia vir de cima. Não menos o é que Sofia polcava e valsava com ardor, e ninguém se 
pendurava melhor do ombro do parceiro; Carlos Maria, que era raro dançar, só valsava com 
Sofia,- dous ou três giros, dizia ele;- Maria Benedita contou uma noite quinze minutos. 
 
 
CAPÍTULO LXIX 
 
 
 
OS QUINZE MINUTOS foram contados no relógio do Rubião, que estava ao pé da 
Maria Benedita, e a quem ela perguntou duas vezes que horas eram, no princípio e no fim da 
valsa. A própria moça inclinou-se para ver bem o ponteiro dos minutos. 
 
 
-Está com sono? perguntou Rubião. 
 
 
Maria Benedita olhou para ele de soslaio. Viu-lhe o rosto plácido sem intenção nem 
riso. 
 
 
-Não, respondeu; digo-lhe até que estou com medo que prima Sofia se lembre de ir 
cedo para casa. 
 
-Não vai cedo. Já acabou a desculpa de Santa Teresa, por causa da subida. A casa fica 
perto daqui. 
 
 
De fato, as duas moravam agora na Praia do Flamengo, e o baile era na Rua dos 
Arcos. 
 
 
É de saber que tinham decorrido oito meses desde o princípio do capítulo anterior, e 
muita cousa estava mudada. Rubião sócio do marido de Sofia, em uma casa de importação, à 
Rua da Alfândega, sob a firma Palha e Compª. Era o negócio que este ia propor-lhe, naquela 
noite, em que achou o Dr. Camacho na casa de Botafogo Apesar de fácil, Rubião recuou 


algum tempo. Pediam-lhe uns bons pares de contos de réis, não entendia de comércio, não lhe 
tinha inclinação. Demais, os gastos particulares eram já grandes; o capital precisava do 
regímen do bom juro e alguma poupança, a ver se recobrava as cores e as carnes primitivas. O 
regímen que lhe indicavam não era claro; Rubião não podia compreender os algarismos do 
Palha, cálculos de lucros, tabelas de preço, direitos da alfândega, nada; mas, a linguagem 
falada supria a escrita. Palha dizia cousas extraordinárias, aconselhava ao amigo que 
aproveitasse a ocasião para por o dinheiro a caminho, multiplicá-lo. Se tinha medo, era 
diferente; ele, Palha, faria o negócio com John Roberts, sócio que lei da Casa Wilkinson, 
fundada em 1844, cujo chefe voltou para a Inglaterra, e era agora membro do Parlamento. 
 
 
Rubião não cedeu logo; pediu prazo, cinco dias. Consigo era mais livre mas desta vez 
a liberdade só servia para atordoá-lo. Computou os dinheiros despendidos, avaliou os rombos 
feitos no cabedal, que lhe deixara o filósofo. Quincas Borba, que estava com ele no gabinete, 
deitado, levantou casualmente a cabeça e fitou-o. Rubião estremeceu; a suposição de que 
naquele Quincas Borba podia estar a alma do outro nunca se lhe varreu inteiramente do 
cérebro. Desta vez chegou a ver-lhe um tom de censura nos olhos; riu-se, era tolice; cachorro 
não podia ser homem. Insensivelmente, porém, abaixou a mão e coçou as orelhas ao animal, 
para captá-lo. 
 
 
Atrás dos motivos de recusa vieram outros contrários. E se o negócio rendesse? Se 
realmente lhe multiplicasse o que tinha? Acrescia que a posição era respeitável, e podia 
trazer-lhe vantagens na eleição, quando houvesse de propor-se ao Parlamento, como o velho 
chefe da Casa Wilkinson. Outra razão mais forte ainda era o receio de magoar o Palha, de 
parecer que lhe não confiava dinheiros, quando era certo que, dias antes, recebera parte da 
dívida antiga, e a outra parte restante devia ser-lhe restituída dentro de dous meses. 
 
 
Nenhum desses motivos era pretexto de outro; vinham de si mesmos. Sofia só 
apareceu no fim, sem deixar de estar nele, desde o princípio, idéia latente, inconsciente, uma 
das cousas últimas do ato, e a única dissimulada. Rubião abanou a cabeça para expedi-la, e 
levantou-se. Sofia (dona astuta!) recolheu-se à inconsciência do homem, respeitosa da 
liberdade moral, e deixou-o resolver por si mesmo que entraria de sócio com o marido, 
mediante certas cláusulas de segurança. Foi assim que se fez a sociedade comercial; assim é 
que Rubião legalizou a assiduidade das suas visitas. 
 
 
-Senhor Rubião, disse Maria Benedita depois de alguns segundos de silêncio, não lhe 
parece que minha prima é bem bonita? 
 
 
-Não desfazendo na senhora, acho. 
 
-Bonita e bem feita 
 
 
Rubião aceitou o complemento. Um e outro acompanharam com os olhos o par de 
valsistas, que passeava ao longo do salão. Sofia estava magnífica. Trajava de azul escuro, mui 
decotada, -pelas razões ditas no capítulo XXXV; os braços nus, cheios, com uns tons de ouro 
claro, ajustavam-se às espáduas e aos seios, tão acostumados ao gás do salão. Diadema de 
pérolas feitiças, tão bem acabadas, que iam de par com as duas pérolas naturais, que lhe 
ornavam as orelhas, e que Rubião lhe dera um dia. 
 
 
Ao lado dela, Carlos Maria não ficava mal. Era um rapaz galhardo, como sabemos, e 
trazia os mesmos olhos plácidos do almoço do Rubião. Não tinha as maneiras súbditas, nem 


as curvas reverentes dos outros rapazes; exprimia-se com a graça de um rei benévolo 
Entretanto, se, à primeira vista, parecia fazer apenas um obséquio àquela senhora, não é 
menos certo que ia desvanecido, por trazer ao lado a mais esbelta mulher da noite. Os dous 
sentimentos não se contradiziam; fundiam-se ambos na adoração que este moço tinha de si 
mesmo. Assim, o contacto de Sofia era para ele como a prosternação de uma devota. Não se 
admirava de nada. Se um dia acordasse imperador, só se admiraria da demora do ministério 
em vir cumprimentá-lo. 
 
 
-Vou descansar um pouco, disse Sofia. 
 
 
-Está cansada ou... aborrecida? perguntou-lhe o braceiro 
 
 
-Oh! cansada apenas! 
 
 
Carlos Maria, arrependido de haver suposto a outra hipótese, deu se pressa em 
eliminá-la. 
 
 
-Sim, creio; por que é que estaria aborrecida? Mas eu afirmo que é capaz de fazer-me 
o sacrifício de passear ainda algum tempo. Cinco minutos? 
 
 
-Cinco minutos. 
 
 
-Nem mais um que seja? Pela minha parte passearia a eternidade. 
 
 
Sofia abaixou a cabeça. 
 
 
-Com a senhora, note bem. 
 
 
Sofia deixou-se ir com os olhos no chão, sem contestar, sem concordar, sem 
agradecer, ao menos. Podia não ser mais que uma galanteria, e as galanterias é de uso que se 
agradeçam. Já lhe tinha ouvido outrora palavras análogas, dando-lhe a primazia entre as 
mulheres deste mundo. Deixou de as ouvir durante seis meses,-quatro que ele gastou em 
Petrópolis, dous em que lhe não apareceu. Ultimamente é que tornou a freqüentar a casa, a 
dizer-lhe finezas daquelas ora em particular, ora à vista de toda a gente. Deixou-se ir; e ambos 
foram andando calados, calados, calados,-até que ele rompeu o silêncio, notando-lhe que o 
mar defronte da casa dela batia com muita força, na noite anterior. 
 
 
-Passou lá? perguntou Sofia. 
 
-Estive lá; ia pelo Catete, já tarde, e lembrou-me descer à Praia do Flamengo. A noite 
era clara; fiquei cerca de uma hora, entre o mar e a sua casa. A senhora aposto que nem 
sonhava comigo? Entretanto, eu quase que ouvia a sua respiração. 
 
 
Sofia tentou sorrir; ele continuou 
 
 
-O mar batia com força, é verdade, mas o meu coração não batia menos rijamente--
com esta diferença que o mar estúpido, bate sem saber por que, e o meu coração sabe que 
batia pela senhora 
 
 
-Oh! murmurou Sofia. 
 


 
Com espanto? Com indignação? Com medo? São muitas perguntas a um tempo. Estou 
que a própria dama não poderia responder exatamente, tal foi o abalo que lhe trouxe a 
declaração do moço. Em todo caso, não foi com incredulidade. Não posso dizer mais senão 
que a exclamação saiu tão frouxa, tão abafada que ele mal pôde ouvi-la. Pela sua parte, Carlos 
Maria disfarçou bem, ante os olhos de toda a sala; nem antes, nem durante, nem depois das 
palavras mostrou no rosto a menor comoção; tinha até umas sombras de riso cáustico, um riso 
de seu uso, quando mofava de alguém, parecia ter dito um epigrama. Contudo, mais de um 
olho de mulher espreitava a alma de Sofia, estudava o gesto da moça, tal ou qual acanhado, e 
as pálpebras teimosamente caídas. 
 
 
-A senhora está perturbada, disse ele; disfarce com o leque. 
 
 
Sofia maquinalmente entrou a abanar-se e levantou os olhos. Viu que muitos outros a 
fitavam, e empalideceu. Os minutos iam correndo, com a mesma brevidade dos anos; os 
primeiros cinco e os segundos iam longe; estavam no décimo terceiro, atrás deste iam 
apontando as asas de outro, e mais outro. Sofia disse ao braceiro que queria sentar-se. 
 
 
-Vou deixá-la e retiro-me. 
 
 
-Não, disse ela precipitadamente. 
 
 
Depois, emendou-se 
 
 
-O baile está bonito. 
 
 
-Está, mas eu quero levar comigo a melhor recordação da noite. Qualquer outra 
palavra que ouça agora será como o coaxar das rãs depois do canto de um lindo pássaro, um 
dos seus pássaros lá de casa. Onde quer que a deixe? 
 
 
-Ao lado de minha prima. 
 
 
CAPÍTULO LXX 
 
 
 
 
RUBIÃO cedeu a cadeira, e acompanhou Carlos Maria, que atravessou a sala, e foi até 
o gabinete da entrada, onde estavam os sobretudos e uns dez homens conversando. Antes que 
o rapaz entrasse no gabinete, Rubião pegou-lhe do braço, familiarmente, para lhe perguntar 
alguma cousa,-fosse o que fosse,-mas, em verdade, para retê-lo consigo, e procurar sondá-lo. 
Começava a crer possível ou real uma idéia que o atormentava desde muitos dias. Agora, a 
conversação dilatada, os modos dela... 
 
 
Carlos Maria não tinha notícia da longa paixão do mineiro, guardada, mortificada, não 
se podendo confessar a ninguém, - esperando os benefícios do acaso,-contentando-se de 
pouco, da simples vista da pessoa, dormindo mal as noites, dando dinheiro para as operações 
mercantis... Que ele não tinha ciúmes do marido. Nunca a intimidade do casal lhe excitara os 
ódios contra o legítimo senhor. E lá iam meses e meses, sem alteração do sentimento, nem 
morte da esperança. Mas a possibilidade de um rival de fora veio atordoá-lo; aqui é que o 
ciúme trouxe ao nosso amigo uma dentada de sangue. 


 
 
-Que é? disse Carlos Maria voltando-se. 
 
 
Ao mesmo tempo entrou no gabinete, onde os dez homens, trata-vam de política, 
porque este baile,-ia-me esquecendo dizê-lo,- era dado cm casa de Camacho, a propósito dos 
anos da mulher. Quando os dous ali entraram, a conversação era geral, o assunto o mesmo, e 
todos falavam para todos,-um turbilhão de ditos, de pareceres, de afirmações diversas... Um, 
que era doutrinário, conseguiu dominar os outros, que se calaram por instantes, fumando. 
 
 
-Podem fazer tudo, disse o doutrinário, mas a punição moral é certa. As dívidas dos 
partidos pagam-se com juros até o último real; e até a última geração. Princípios não morrem; 
os partidos que o esquecem expiram no lodo e na ignomínia. 
 
 
Outro, meio calvo, não acreditava na punição moral, e dizia por que; mas um terceiro 
aludiu à demissão de uns coletores, e os espíritos, meio tontos com a doutrina, tomaram pé. 
Os coletores não tinham outra culpa, além da opinião; e nem ao menos se podia defender o 
ato com o merecimento dos substitutos. Um destes trazia às costas um desfalque, outro era 
cunhado de um tal Marques que dera um tiro de garrucha no delegado, em S. José dos 
Campos. . . E o novos tenentes-coronéis? Verdadeiros réus de polícia. 
 
 
-Já se vai embora? perguntou Rubião ao moço, quando o viu tirar o sobretudo dentre 
os outros. 
 
 
-Já; estou com sono. Ajude-me a enfiar esta manga. Estou com sono. 
 
 
-Mas ainda é cedo; fique. O nosso Camacho não deseja que os rapazes saiam; quem é 
que há de dançar com as moças? 
 
 
Carlos Maria replicou sorrindo que era pouco dado a danças. Valsara com D. Sofia, 
por ser mestra no ofício; senão, nem isso. Estava com sono; preferia a cama à orquestra. E 
estendeu-lhe a mão com benignidade; Rubião apertou-lha, meio incerto. 
 
 
Não sabia que pensasse. O fato de sair, de a deixar no baile, em vez de esperar para 
acompanhá-la à carruagem, como de outras vezes. . . Podia ser engano dele. . . E pensava, 
recordava a noite de Santa Teresa, quando ele ousou declarar à moça o que sentia pegando-lhe 
na bela mão delicada... O major interrompera-os; mas por que não insistiu ele mais tarde? 
Nem ela o maltratou, nem o marido percebera cousa nenhuma. . . Aqui voltava a idéia do 
possível rival; é certo que se retirara com sono, mas os modos dela. . . Rubião ia à porta do 
salão, para ver Sofia, depois chegava-se a um canto ou à mesa do voltarete, inquieto, 
aborrecido. 
 
 
 
CAPÍTULO LXXI 
 
 
 
 
EM CASA, ao despentear-se, Sofia falou daquele sarau como de uma cousa 
enfadonha. Bocejava, doíam-lhe as pernas. Palha discordava; era má disposição dela. Se Ihe 
doíam as pernas é porque dançara muito. Ao que retorquiu a mulher que, se não dançasse, 


teria morrido de tédio. E ia tirando os grampos, deitando-os num vaso de cristal os cabelos 
caíam-lhe aos poucos sobre os ombros, mal cobertos peia camisola de cambraia. Palha, por 
trás dela, disse-lhe que o Carlos Maria valsava muito bem. Sofia estremeceu; fitou-o no 
espelho, o rosto era plácido. Concordou que não valsava mal. 
 
 
-Não senhora, valsa muito bem. 
 
 
-Você louva os outros porque sabe que ninguém é capaz de o desbancar. Anda, meu 
vaidoso, já te conheço. 
 
 
Palha estendendo a mão e pegando-lhe no queixo, obrigou-a olhar para ele. Vaidoso 
por quê? por que é que ele era vaidoso? 
 
 
-Ai, gemeu Sofia; não me machuques. 
 
 
Palha beijou-lhe a espádua; ela sorriu, sem tédio, sem dor de cabeça, ao contrário 
daquela noite de Santa Teresa, em que relatou ao marido os atrevimentos do Rubião. É que os 
morros serão doentios, e as praias saudáveis. 
 
 
No dia seguinte, Sofia acordou cedo, ao som dos trilos da passarada de casa, que 
parecia dar-lhe um recado de alguém. Deixou-se estar na cama, e fechou os olhos para ver 
melhor. 
 
 
Ver melhor o quê? Não, seguramente, os morros doentios. A praia era outra cousa. 
Posta à janela, dali a meia hora, Sofia contemplava as ondas que vinham morrer defronte, e, 
ao longe, as que se levan-tavam e desfaziam à entrada da barra. A imaginosa dama pergun-
tava a si mesma se aquilo era a valsa das águas, e deixava-se ir por essa torrente abaixo, sem 
velas nem remos. Deu consigo olhando para a rua, ao pé do mar, como procurando os sinais 
do homem que ali estivera, na antevéspera, alta noite. . . Não juro, mas cuido que achou os 
sinais. Ao menos, é certo que cotejou o achado com o texto da conversação 
 
 
"A noite era clara; fiquei cerca de uma hora, entre o mar e a sua casa. A senhora 
aposto que nem sonhava comigo? Entretanto, eu quase que ouvia a sua respiração. O mar 
batia com força, é verdade, mas o meu coração não batia menos rijamente; com esta diferença 
que o mar é estúpido, bate sem saber por que, e o meu coração sabe que batia pela senhora." 
 
 
Sofia teve um calafrio, procurou esquecer o texto, mas o texto ia-se repetindo"A noite 
era clara..." 
 
 
 
CAPÍTULO LXXII 
 
 
 
 
ENTRE DUAS FRASES, sentiu que alguém lhe punha a mão no ombro; era o marido, 
que acabava de tomar café e ia para a cidade. Despediram-se afetuosamente; Cristiano 
recomendou-lhe Maria Benedita, que acordara muito aborrecida. 
 
 
-Já de pé! exclamou Sofia. 


 
 
-Quando eu desci, já a achei na sala de jantar. Acordou com a mania de ir para a roça; 
teve um sonho. . . não sei que. . . 
 
 
-Calundus! concluiu Sofia. 
 
 
E com os dedos hábeis e leves concertou a gravata ao marido, puxou-lhe a gola do 
fraque para diante, e despediram-se outra vez. Palha desceu e saiu; Sofia deixou-se estar à 
janela. Antes de dobrar a esquina, ele voltou a cabeça, e, na forma do costume, disseram 
adeus com a mão. 
 
 
 
CAPÍTULO LXXIII 
 
 
 
"A NOITE ERA CLARA; fiquei cerca de uma hora entre o mar e a sua casa. A 
senhora aposto que..." 
 
 
Quando Sofia pôde arrancar-se de todo à janela, o relógio de baixo batia nove horas. 
Zangada, arrependida, jurou a si mesma, pela alma da mãe, não pensar mais em semelhante 
episódio. Considerou que não valia nada; o erro foi deixar que o rapaz chegasse ao fim dos 
seus atrevimentos. Verdade é que, procedendo assim, evitou algum grande escândalo, porque 
ele era capaz de a acompanhar até a cadeira e dizer-lhe o resto ao pé de outras pessoas. E o 
resto repetia-se ainda uma vez na memória dela, como um trecho musical teimoso, as mesmas 
palavras, e a mesma voz"A noite era clara; fiquei cerca de uma hora...” 
 
 
CAPÍTULO LXXIV 
 
 
 
ENQUANTO ela repetia a declaração da véspera, Carlos Maria a os olhos, estirava os 
membros, e, antes de ir para o banho, vestir-se e dar um passeio a cavalo, reconstruiu a 
véspera. Tinha esse achava sempre nos sucessos do dia anterior algum fato, algum dito, 
alguma nota que lhe fazia bem. Aí é que o espírito se demorava; aí eram as estalagens do 
caminho, onde ele descavalgava, para beber vagarosamente um golpe d'água fresca. Se não 
havia sucesso desses,-ou se os havia só contrários, nem por isso as sensações eram 
desconfortativas; bastava-lhe o sabor de alguma palavra ele mesmo houvesse dito,-de algum 
gesto que fizesse, a contemplação subjetiva, o gosto de ter sentido viver,-para que a véspera 
não fosse um dia perdido. 
 
 
Na véspera figurava Sofia. Parece até que foi o principal da reconstrução, a fachada do 
edifício, larga e magnífica. Carlos Maria saboreou de memória toda a conversação da noite, 
mas, quando se lembrou da confissão de amor, sentiu-se bem e mal. Era um compromisso, um 
estorvo, uma obrigação; e, posto que o benefício corrigisse o tédio, o rapaz ficou entre uma e 
outra sensação, sem plano. Ao recordar-se da notícia que lhe deu de haver ido à Praia do 
Flamengo, na outra noite, não pôde suster o riso, porque não era verdade. ‘Nascera-lhe a idéia 
da própria conversação; mas nem lá foi nem pensara nisso. Afinal susteve o riso, e até 
arrependeu-se dele, o fato de haver mentido trouxe-lhe uma sensação de inferioridade que o 


abateu. Chegou a pensar em retificar o que dissera, logo que estivesse com Sofia, mas 
reconheceu que a emenda era pior que o soneto, e que há bonitos sonetos mentirosos. 
 
 
Depressa ergueu a alma. Viu de memória a sala, os homens, as mulheres, os leques 
impacientes, os bigodes despeitados, e estirou-se todo num banho de inveja e admiração. De 
inveja alheia, note bem; ele carecia desse sentimento ruim. A inveja e a admiração do; outros 
é que lhe davam ainda agora uma delícia íntima. A princesa do baile entregava-se-lhe. Definia 
assim a superioridade de Sofia, posto lhe conhecesse um defeito capital,-a educação. Achava 
que as maneiras polidas da moça vinham da imitação adulta, após o casamento, ou pouco 
antes, que ainda assim não subiam muito do meio em que vivia. 
 
 
CAPÍTULO LXXV 
 
 
 
 
OUTRAS MULHERES vieram ali,- as que o preferiam aos demais  homens no trato e 
na contemplação da pessoa. Se as requestava ou requestara todas? Não se sabe. Algumas, váé 
certo, porém, que se deleitava com todas elas. Tais havia de provada honestidade que 
folgavam de o trazer ao pé de si, para gostar o contacto de um belo homem, sem a realidade 
em o perigo da culpa,-como o especta-dor que se regala das paixões de Otelo, e sai do teatro 
com as mãos limpas da morte de Desdêmona. 
 
 
Vinham todas rodear o leito de Carlos Maria, tecendo-lhe a mesma grinalda. Nem 
todas seriam moças em flor; mas a distinção supria a juvenilidade. Carlos Maria recebia-as 
como um deus antigo devia receber, quieto no mármore, as lindas devotas e suas oferendas. 
No burburinho geral distinguia as vozes de todas,-não todas a um tempo,-mas às três e às 
quatro. 
 
 
A derradeira delas foi a da recente Sofia; escutou-a ainda namo-rado, mas sem o 
alvoroço do princípio, porque a lembrança das outras donas, pessoas de qualidade, diminuía 
agora a importância desta. Contudo, não podia negar que era mui atrativa e que valsava 
perfeitamente. Chegaria a amar com força? Nisto apareceu-lhe outra vez a mentira da praia . 
Levantou-se aborreci do da cama . 
 
 
"Que diabo me mandou dizer semelhante cousa?" 
 
 
Tornou a sentir o desejo de restabelecer a verdade- e desta vez mais seriamente que da 
outra. Mentir, pensava ele, era para os lacaios e seus congêneres. 
 
 
Daí a meia hora, trepava ao cavalo e saía de casa, que era na Rua dos Inválidos. Catete 
adiante, lembrou-se que a casa de Sofia era na Praia do Flamengo; nada mais natural que 
torcer a rédea, descer uma das ruas perpendiculares ao mar, e passar pela porta da valsista. 
Achá-la-ia talvez à janela; vê-la-ia corar, cumprimentá-lo. Tudo isto passou pela cabeça ao 
rapaz, em poucos segundos; chegou a dar um jeito à rédea, mas a alma,-não o cavalo,-a alma 
empinou; era ir muito depressa atrás dela. Deu outro jeito à rédea, e continuou o passeio. 
 
 
CAPÍTULO LXXVI 
 


 
 
MONTAVA BEM. Toda a gente que passava, ou estava às portas, não se fartava de 
mirar a postura do moço , o garbo , a tranqüilidade régia com que se deixava ir. Carlos 
Maria,-e este era o ponto em que cedia à multidão,-recolhia as admirações todas, por ínfimas 
que fossem. Para adorá-lo, todos os homens faziam parte da humanidade. 
 
 
CAPÍTULO LXXVII 
 
 
 
-JÁ DE PÉ! repetiu Sofia, ao ver a prima lendo os jornais. 
 
 
Maria Benedita teve um sobressalto, mas aquietou-se logo; dormira mal, e acordou 
cedo. Não estava para aquelas folias at tão tarde, disse ela; mas a outra replicou logo que era 
preciso acostumar-se, a vida do Rio de Janeiro não era a mesma da roça, dormir com as 
galinhas e acordar com os galos. Depois perguntou-lhe que impressões trouxera do baile; 
Maria Benedita levantou os ombros com indiferença, mas verbalmente respondeu que boas. 
As palavras saíam-lhe poucas e moles. Sofia, entretanto, ponderou-lhe que dançara muito, 
salvo polcas e valsas. E por que não havia de polcar e valsar também? A prima lançou-lhe uns 
olhos maus. 
 
 
-Não gosto. 
 
 
-Qual não gosta! É medo. 
 
 
-Medo? 
 
 
-Falta de costume, explicou Sofia. 
 
 
-Não gosto que um homem me aperte o corpo ao seu corpo, e ande comigo, assim, à 
vista dos outros. Tenho vexame. 
 
 
Sofia tornou-se séria; não se defendeu nem continuou, falou da roça, perguntou se era 
certo o que lhe dissera Cristiano, que ela queria ir para casa. Então a prima, que folheava os 
jornais, à toa, respondeu animadamente que sim; não podia viver sem a mãe. 
 
 
-Mas por quê? Você não estava tão contente conosco? 
 
 
Maria Benedita não disse nada; passeou os olhos em um dos jornais, como se 
procurasse alguma notícia, trincando o beiço, trêmula, inquieta. Sofia teimou em querer saber 
a causa daquela mudança repentina; pegou-lhe nas mãos, achou-as frias. 
 
 
-Você precisa casar, disse finalmente. Tenho já um noivo. 
 
 
Era Rubião; o Palha queria acabar por aí, casando o sócio com a prima; tudo ficava em 
casa, dizia ele à mulher. Esta tomou a si guiar o negócio. Acudia-lhe agora a promessa; tinha 
um noivo pronto. 
 
 
-Quem? perguntou Maria Benedita. 
 


 
-Uma pessoa. 
 
 
Crê-lo-eis, pósteros? Sofia não pôde soltar o nome de Rubião. Já uma vez, dissera ao 
marido havê-lo proposto, e era mentira. Agora indo a propô-lo deveras, o nome não lhe saiu 
da boca. Ciúmes? Seria singular que esta mulher, que não tinha amor àquele homem, não 
quisesse dá-lo de noivo à prima, mas a natureza é capaz de tudo, amigo e senhor. Inventou o 
ciúme de Otelo e o do cavaleiro Desgrieux, podia inventar este outro de uma pessoa que não 
quer ceder o que não quer possuir. 
 
 
 
-Mas quem? repetiu Maria Benedita. 
 
 
-Direi depois, deixe-me arranjar as cousas, respondeu Sofia, e mudou de conversa. 
 
 
Maria Benedita trocou de rosto, a boca encheu-se-lhe de riso, um riso de alegria e de 
esperança. Os olhos agradeceram a promessa, e disseram palavras que ninguém podia ouvir 
nem entender, palavras obscuras 
 
 
-Gosta de valsar; é o que é. 
 
 
Gosta de valsar quem? Provavelmente a outra. Tinha valsado tanto na véspera, com o 
mesmo Carlos Maria, que bem se poderia achar na dança um pretexto; Maria Benedita 
concluía agora que era o próprio e único motivo. Conversaram muito nos intervalos, é certo, 
mas naturalmente era dela que falavam, uma vez que a prima tinha a peito casá-la e só lhe 
pedia que deixasse arranjar as cousas. Talvez ele a achasse feia, ou sem graça. Uma vez, 
porém, que a prima queria arranjar as cousas... Tudo isso diziam os olhos gaios da menina. 
 
 
CAPÍTULO LXXVIII 
 
 
 
 
RUBIÃO é que não perdeu a suspeita assim tão facilmente. Pensou em falar a Carlos 
Maria, interrogá-lo, e chegou a ir à Rua dos Inválidos, no dia seguinte, três vezes; não o 
encontrando, mudou de parecer. Encerrou-se por alguns dias; o Major Siqueira arrancou-o à 
solidão. Ia participar-lhe que se mudara para a Rua Dous de Dezembro. Gostou muito da casa 
do nosso amigo, das alfaias, do luxo, de todas as minúcias, ouros e bambinelas. Sobre este 
assunto discorreu longamente, relembrando alguns móveis antigos. Parou de repente, para 
dizer que o achava aborrecido; era natural, faltava-lhe ali um complemento. 
 
 
-O senhor é feliz, mas falta-lhe aqui uma cousa; falta-lhe mulher. O senhor precisa 
casar. Case-se, e diga que eu o engano. 
 
 
Rubião lembrou-se de Santa Teresa,-daquela famosa noite da conversação com Sofia, 
- e sentiu correr-lhe um frio pelas costas; mas a voz do major não tinha nenhum sarcasmo. 
Tão pouco era animada de interesse. A filha estava ainda qual a deixamos no capítulo XLIII, 
com a diferença que os quarenta anos vieram. Quarentona, solteirona. Gemeu-os consigo, 
logo de manhã, no dia em que os completou; não pôs fita nem rosa no cabelo. Nenhuma festa; 
tão somente um discurso do pai, ao almoço, lembrando-lhe a vida de criança, anedotas da mãe 
e da avó, um dominó de baile de máscaras, um batizado de 1848, a solitária de um Coronel 


Clodomiro, várias cousas assim de mistura, para entreter as horas. D. Tonica mal podia ouvi-
lo; metida em si mesma, ia roendo o pão da solitude moral, ao passo que se arrependia dos 
últimos esforços empregados na busca de um marido. Quarenta anos; era tempo de parar. 
 
 
Nada disso lembrava agora ao major. Era sinceroachou que a casa de Rubião não tinha 
alma. E repetiu, ao despedir-se 
 
 
-Case-se, e diga que eu o engano. 
 
 
 
CAPÍTULO LXXIX 
 
 
 
-E POR QUE NÃO? perguntou uma voz, depois que o major saiu. 
 
 
Rubião, apavorado, olhou em volta de si; viu apenas o cachorro, parado, olhando para 
ele. Era tão absurdo crer que a pergunta viria do próprio Quincas Borba,-ou antes do outro 
Quincas Borba, cujo espírito estivesse no corpo deste, que o nosso amigo sorriu com desdém, 
mas, ao mesmo tempo, executando o gesto do capítulo XLIX, estendeu a mão, e coçou 
amorosamente as orelhas e a nuca do cachorro,- ato próprio a dar satisfação ao possível 
espírito do finado. 
 
 
Era assim que o nosso amigo se desdobrava, sem público, diante de si mesmo. 
 
 
CAPÍTULO LXXX 
 
 
 
 
MAS A VOZ repetiu-E por que não?-Sim; por que não havia de casar, continuou ele 
raciocinando. Mataria a paixão que o ia comendo aos poucos, sem esperança nem consolação. 
Demais, era a porta de um mistério. Casar, sim, casar logo e bem. 
 
 
Estava ao portão, quando esta idéia começou a abotoar; foi dali para dentro, subindo 
os degraus de pedra, abrindo a porta, sem consciência de nada. Ao fechar a porta, é que um 
pulo do Quincas Borba, que o viera acompanhando, fê-lo dar por si. Onde ficara o major? 
Quis descer para vê-lo, mas advertiu a tempo que acabava de o acompanhar até à rua. As 
pernas tinham feito tudo; elas é que o levaram por si mesmas, direitas, lúcidas, sem tropeço, 
para que ficasse à cabeça tão-somente a tarefa de pensar. Boas pernas! pernas a muletas 
naturais do espírito! 
 
 
Santas pernas! Elas o levaram ainda ao canapé, estenderam-se com ele, devagarinho, 
enquanto o espírito trabalhava a idéia do casamento. Era um modo de fugir a Sofia; podia ser 
ainda mais. 
 
 
Sim, podia ser também um modo de restituir à vida a unidade que perdera, com a troca 
do meio e da fortuna; mas esta consideração não era propriamente filha do espírito nem das 
pernas, mas de outra causa, que ele não distinguia bem nem mal, como a aranha. Que sabe a 
aranha a respeito de Mozart? Nada; entretanto, ouve com prazer uma sonata do mestre. O 


gato, que nunca leu Kant talvez um animal metafísico. Em verdade, o casamento podia ser o 
laço da unidade perdida. Rubião sentia-se disperso; os próprio amigos de trânsito, que ele 
amava tanto, que o cortejavam tanto, davam-lhe à vida um aspecto de viagem, em que a 
língua mudasse com as cidades, ora espanhol, ora turco. Sofia contribuía para esse e era tão 
diversa de si mesma, ora isto, ora aquilo, que os dias iam passando sem acordo fixo, nem 
desengano perpétuo. 
 
 
Rubião não tinha que fazer; para matar os dias longos e vazios, ia às sessões do júri, à 
Camara dos Deputados, à passagem dos batalhões, dava grandes passeios, fazia visitas 
desnecessárias, à noite, ou ia aos teatros, sem prazer. A casa era ainda um bom repouso ao 
espírito, com o seu luxo rutilante e os sonhos que vagavam no ar. Ultimamente, ocupava-se 
muito em ler; lia romances, mas só os históricos de Dumas pai, ou os contemporâneos de 
Feuillet, estes com dificuldade, por não conhecer bem a língua original. Dos primeiros 
sobravam traduções. Arriscava-se a algum mais, se lhe achava o principal dos outros, uma 
sociedade fidalga e régia. Aquelas cenas da corte de França, inventadas pelo maravilhoso 
Dumas, e os seus nobres espadachins e aventureiros, as condessas e os duques de Feuillet, 
metidos em estufas ricas, todos eles com palavras mui compostas polidas, altivas ou 
graciosas, faziam-lhe passar o tempo às carreiras Quase sempre, acabava com o livro caído e 
os olhos no ar, pensando. Talvez algum velho marquês defunto lhe repetisse anedotas de 
outras eras. 
 
 
 
CAPÍTULO LXXXI 
 
 
 
 
ANTES DE CUIDAR da noiva, cuidou do casamento. Naquele dia e nos outros, 
compôs de cabeça as pompas matrimoniais, os coches,-se ainda os houvesse antigos e ricos, 
quais ele via gravados nos livros de usos passados. Oh! grandes e soberbos coches! Como ele 
gostava de ir esperar o Imperador nos dias de grande gala, à porta do paço da cidade, para ver 
chegar o préstito imperial, especialmente o coche de Sua Majestade, vastas proporções, fortes 
molas, finas e velhas pinturas, quatro ou cinco parelhas guiadas por um cocheiro grave e 
digno! Outros vinham, menores em grandeza, mas ainda assim tão grandes que enchiam os 
olhos. 
 
 
Um desses outros, ou ainda algum menor, podia servir-lhe às bodas, se toda a 
sociedade não estivesse já nivelada pelo vulgar coupé. Mas enfim, iria de coupé; imaginava-o 
forrado magnificamente, de quê? De uma fazenda que não fosse comum, que ele mesmo não 
dis-tinguia, por ora; mas que daria ao veículo o ar que não tinha. Parelha rara. Cocheiro 
fardado de ouro. Oh! mas um ouro nunca visto. Con-vidados de primeira ordem, generais, 
diplomatas, senadores, um ou dous ministros, muitas sumidades do comércio, e as damas, as 
grandes dunas? Rubião nomeava-as de cabeça; via-as entrar, ele no alto da escada de um 
palácio, com o olhar perdido por aquele tapete abaixo, - elas atravessando o saguão, subindo 
os degraus com os seus sapatinhos de cotim, breves e leves,-a princípio, poucas,-depois mais, 
e ainda mais. Carruagens após carruagens. . . Lá vinham os condes de Tal, um varão guapo e 
uma singular dama. . . "Caro amigo, aqui estamos", dir-lhe-ia o conde, no alto; e, mais tarde, a 
condessa"Se-nhor Rubião, a festa é esplêndida. .." 
 


 
De repente, o internúncio. . . Sim, esquecera-se que o internúncio devia casá-los; lá 
estaria ele com as suas meias roxas de monsenhor, e os grandes olhos napolitanos, em 
conversação com o ministro da Rússia. Os lustres de cristal e ouro alumiando os mais belos 
colos da cidade, casacas direitas, outras curvas ouvindo os leques que se abriam e fechavam, 
dragonas e diademas, a orquestra dando sinal para uma valsa. Então os braços negros, em 
angulo, iam buscar os braços nus, enluvados até o cotovelo, e os pares saíam girando pela 
sala, cinco, sete, dez, doze, vinte pares. Ceia esplêndida. Cristais da Boêmia, louça da 
Hungria, vasos de Sèvres, criadagem lesta e fardada, com as iniciais do Rubião na gola. 
 
 
CAPÍTULO LXXXII 
 
 
 
 
ESSES SONHOS iam e vinham. Que misterioso Próspero transformava assim uma 
ilha banal em mascarada sublime? "Vai, Ariel, traze aqui os teus companheiros, para que eu 
mostre a este jovem casal alguns feitiços da minha feitiçaria ." As palavras seriam as mesmas 
da comé-dia; a ilha é que era outra, a ilha e a mascarada. Aquela era a própria cabeça do nosso 
amigo; esta não se compunha de deusas nem de versos, mas de gente humana e prosa de sala. 
Mais rica era. Não esqueçamos que o Próspero de Shakespeare era um duque de Milão; e eis 
aí, talvez, por que se meteu na ilha do nosso amigo. 
 
 
Em verdade, as noivas que apareciam ao lado do Rubião, naqueles sonhos de bodas, 
eram sempre titulares. Os nomes eram os mais sonoros e fáceis da nossa nobiliarquia. Eis aqui 
a explicaçãopoucas semanas antes, Rubião apanhou um almanaque de Laemmert, e en-trando 
a folheá-lo, deu com o capítulo dos titulares. Se ele sabia de alguns, estava longe de os 
conhecer a todos. Comprou um almanaque, e lia-o muitas vezes, deixando escorregar os olhos 
por ali abaixo, desde os marqueses até os barões, voltava atrás, repetia os nomes bonitos, 
trazia a muitos de cor. As vezes, pegava da pena e de uma olha de papel, escolhia um título 
moderno ou antigo, e escrevia-o repetidamente, como se fosse o próprio dono e assinasse 
alguma cousa 
 
 
Marquês de Barbacena 
 
Marquês de Barbacena 
 
Marquês de Barbacena 
 
Marquês de Barbacena 
 
Marquês de Barbacena 
 
Marquês de Barbacena 
 
 
 
 
Ia assim, até o fim da lauda, variando a letra, ora grossa, ora miúda, caída para trás, em 
pé, de todos os feitios. Quando acabava a folha, pegava nela, e comparava as assinaturas; 
deixava o papel e perdia-se no ar. Daí a jerarquia das noivas. O pior é que todas traziam a cara 


de Sofia;-podiam parecer-se nos primeiros instantes com alguma vizinha, ou com a moça que 
ele cumprimentara, à tarde na rua, podiam começar muito magras ou gordas;-mas não 
tardavam em mudar de figura, encher ou desbastar o corpo, e sobre isto vinha rutilar o rosto 
da bela Sofia, com os seus mesmos olhos amotinados ou quietos. Não havia fugir, ainda 
casando? Rubião chegou a pensar na morte do Palha; foi em certo dia, ao sair da casa dele 
tendo-lhe ouvido a ela uma porção de cousas bonitas e vagas. Grande foi a sensação de 
ventura, posto que ele repelisse logo a idéia, como um ruim agouro. Dias depois, trocadas as 
maneiras, tornava ele definitivamente aos seus planos. Mais de uma vez, era o próprio Palha 
que o acordava daqueles sonhos conjugais. 
 
 
-Tem onde ir hoje à noite? 
 
 
-Não. 
 
 
-Pegue lá uma entrada para o Teatro Lírico, camarote n° 8,  primeira ordem à 
esquerda. 
 
 
Rubião chegava mais cedo, ia esperar por eles, e dava o braço a Sofia. Se ela estava de 
bom humor, a noite era das melhores mundo. Se não, era um martírio, para repetir as próprias 
palavras dele, ao cão, um dia 
 
 
-Vim ontem de um martírio, meu pobre amigo. 
 
 
-Case-se, e diga que eu o engano, latiu-lhe Quincas Borba. 
 
 
-Sim, meu pobre amigo, acudiu ele pegando-lhe nas patas dianteiras e colocando-as 
sobre os joelhos. Você tem razão; precisa uma boa amiga que lhe dê cuidados que não posso 
ou não sei dar. Quincas Borba, você ainda se lembra do nosso Quincas Borba? Bom amigo 
meu, grande amigo, eu também fui amigo dele, dous grandes amigos. Se fosse vivo, seria o 
padrinho do meu casamento, levantaria os brindes,- ao menos, o de honra, aos noivos;-e seria 
por copo de ouro e diamantes, que eu lhe mandaria fazer de propósito... Grande Quincas 
Borba! 
 
 
E o espírito de Rubião pairava sobre o abismo. 
 
 
CAPÍTULO LXXXIII 
 
 
 
UM DIA, como houvesse saído mais cedo de casa, e não soubesse onde passar a 
primeira hora, caminhou para o armazém. Desde uma semana que não ia à Praia do 
Flamengo, por haver Sofia entrado em um dos seus períodos de sequidão. Achou a Palha de 
luto; morrera a tia da mulher, D. Maria Augusta, na fazenda; a notícia chegara na antevéspera, 
à tarde. 
 
 
-A mãe daquela mocinha? 
 
 
-Justo. 
 


 
Palha falou da defunta com muitos encarecimentos; depois contou a dor de Maria 
Benedita; estava que metia pena. Perguntou-lhe por que é que não ia ao Flamengo, logo à 
noite, para ajudá-los a distraí-la? Rubião prometeu ir. 
 
 
-Vá, é favor que nos faz; a pobre pequena vale tudo. Não imagina que primor ali está. 
Boa educação, muito severa; e quanto a prendas de sociedade, se não as teve em criança, 
ressarciu o tempo perdido com rapidez extraordinária. Sofia é a mestra. E dona de casa? Isso, 
meu amigo, não sei se em tal idade se achará pessoa tão completa. Já agora fica conosco. Tem 
uma irmã, Maria José, casada com um juiz de direito, no Ceará; tem também o padrinho, em 
S. João d'EI-Rei. A defunta fazia-lhe muitos elogios; não creio que ele a mande buscar, mas 
ainda que mande, não a dou. Já agora é nossa. Não há de ser pelo que o padrinho lhe quiser 
deixar em testamento que nos desfaremos dela. Aqui ficará, concluiu tirando com o dedo um 
pouco de poeira da gola do Rubião. 
 
 
Rubião agradeceu. Depois, como estavam no escritório, ao fundo, olhou por entre as 
grades, e viu entrar uns fardos no armazém. Perguntou que traziam. 
 
 
-São uns morins ingleses. 
 
 
-Morins ingleses, repetiu Rubião, com indiferença. 
 
 
-A propósito, sabe que a Casa Morais e Cunha paga a todos os credores, 
integralmente? 
 
 
Rubião não sabia nada, nem se a casa existia, nem se eles eram credores dela; ouviu a 
notícia respondeu que estimava muito, e dispôs-se a ir embora. Mas o sócio reteve-o ainda 
alguns instantes. Esta-va alegre agora; parecia que não lhe morrera ninguém. Voltou a tratar 
de Maria Benedita. Tinha intenção de casá-la bem; nem ela era moça de dar lérias a pelintras, 
nem se deixava ir por fantasias tolas; era ajuizada, merecia um bom esposo, pessoa séria. 
 
 
-Sim, senhor, ia dizendo Rubião. 
 
 
-Olhe, murmurou de repente o Sócio; não se admire do que lhe vou dizer. Creio que 
você é que casa com ela. 
 
 
-Eu? acudiu Rubião, espantado. Não, senhor. E em seguida, para atenuar o efeito da 
recusa. Não nego que seja moça digna e perfeita; mas... por ora... não penso em casar... 
 
 
-Ninguém lhe diz que seja amanhã ou depois; casamento não é cousa que se 
improvise. O que eu digo é que tenho cá um palpite. São cousas; palpites. Sofia nunca lhe 
contou este meu palpite? 
 
 
-Nunca. 
 
 
-É esquisito, disse-me que lhe falara uma vez, ou duas, não me lembro bem. 
 
 
-Pode ser, sou muito distraído. Que queriam casar-me com a moça? 
 
 
-Não, que eu tinha um palpite. Mas, deixemos isto. Demos tempo ao tempo. 
 


 
-Adeus. 
 
 
-Adeus, vá cedo. 
 
 
CAPÍTULO LXXXIV 
 
 
 
COM QUE ENTÃO, Sofia queria casá-lo? saiu pensando o Rubiãoera naturalmente o 
processo mais expedito para descartar-se dele. Casá-lo, fazê-lo seu primo. Rubião palmilhou 
muita rua, antes que chegasse a esta outra hipótese-talvez Sofia não se houvesse esquecido, 
mas mentisse de propósito ao marido para não dar andamento ao projeto. Neste caso o 
sentimento era outro. Esta explicação pareceu-lhe lógicaa alma voltou à serenidade anterior. 
 
 
CAPÍTULO LXXXV 
 
 
 
 
MAS NÃO HÁ SERENIDADE moral que corte uma polegada sequer às abas do 
tempo, quando a pessoa não tem maneira de o fazer mais curto. Ao contrário, a ânsia de ir ao 
Flamengo, à noite, vinha tornar as horas mais arrastadas. Era cedo, cedo para tudo, para ir à 
Rua do Ouvidor, para voltar a Botafogo. O Dr. Camacho estava em Vassouras defendendo um 
réu no júri. Não havia divertimento algum público, festa nem sermão. Nada. Rubião, 
profundamente aborrecido, trocava as pernas, à toa, lendo as tabuletas, ou detendo-se ao 
simples incidente de um atropelo de carros. Em Minas, não se aborrecia tanto, por quê? Não 
achou solução ao enigma, uma vez que o Rio de Janeiro tinha mais em que se distrair, e que o 
distraía deveras mas havia aqui horas de um tédio mortal. 
 
 
Felizmente, há um deus para os enojados. Acudiu à memória de Rubião que o Freitas,-
aquele Freitas tão alegre,-estava gravemente enfermo; Rubião chamou um tílburi e foi visitá-
lo à Praia Formosa, onde morava. Gastou ali perto de duas horas, conversando com o doente; 
este adormeceu, ele despediu-se da mãe,-um caco de velha,-e à porta antes de sair 
 
 
-A senhora há de ter tido seus apertos de dinheiro, disse Rubião e, vendo-a morder o 
beiço e baixar os olhosNão se envergonhe; necessidade aflige, mas não envergonha. Eu o que 
queria era que a senhora aceitasse alguma cousa, que lhe vou deixar para acudira despesa, 
pagará um dia, se puder... 
 
 
Tinha aberto a carteira, tirou seis notas de vinte mil-réis, fez um  bolo de todas elas, e 
deixou-lho na mão. Abriu a porta e saiu. A velha, espantada, nem teve alma para agradecer; 
só ao rodar do tílburi, é que correu à janela, mas já não podia ver o benfeitor. 
 
 
 
CAPÍTULO LXXXVI 
 
 
 
TUDO AQUILO SAIU tão espontaneamente ao Rubião, que ele só teve tempo de 
refletir, depois que o tílburi começou a andar. Parece que chegou a levantar a cortina do 


postigo; a velha ia entrando; viu-lhe ainda o resto do braço. Rubião sentiu toda a vantagem de 
não estar inválido. Reclinou-se, desabafou o peito com um grande suspiro e olhou para a 
praia; logo depois inclinou-se. Na vinda, mal pudera vê-la. 
 
 
-Vossa Senhoria está gostando, disse-lhe o cocheiro contente com o bom freguês que 
tinha. 
 
 
-Acho bonito. 
 
 
-Nunca veio aqui? 
 
 
-Creio que vim, há muitos anos, quando estive no Rio de Janeiro pela primeira vez. 
Que eu sou de Minas. . . Pare, moço. 
 
 
O cocheiro fez parar o cavaloRubião desceu, e disse-lhe que fosse andando devagar. 
 
 
Em verdade, era curioso. Aquelas grandes braçadas de mato, bro-tando do lodo, e 
postas ali ao pé da cara do Rubião, davam-lhe vontade de ir ter com elas. Tão perto da rua! 
Rubião nem sentia o sol. Esquecera o doente e a mãe do doente. Assim sim, - dizia ele 
consigo,-fosse o mar todo uma cousa daquele feitio, alastrado de terras e verduras, e valia a 
pena navegar. Para lá daquilo ficava a Praia dos Lázaros e a de S. Cristóvão. Uma pernada 
apenas. 
 
 
-Praia Formosa, murmurou ele; bem posto nome. 
 
 
Entretanto, a praia ia mudando de aspecto. Dobrava para o Saco do Alferes, vinham as 
casas edificadas do lado do mar. De quando em quando, não eram casas, mas canoas, 
encalhadas no lodo, ou em terra, fundo para o ar. Ao pé de uma dessas canoas, viu meninos 
brincando em camisa e descalços, em volta de um homem que estava de barriga para baixo. 
Todos eles riam; um ria mais que os outros porque não acabava de fixar o pé do homem no 
chão. Era um pequerrucho de três anos; agarrava-se-lhe à perna e ia-a estendendo até nivelá-la 
com o chão, mas o homem fazia um gesto e levava pelo ar o pé e o menino. 
 
 
Rubião deteve-se alguns minutos diante daquilo. O sujeito, vendo-se objeto de 
atenção, redobrou o esforço no brincoperdeu a naturalidade. Os outros meninos mais idosos 
detiveram-se a olhar espantados. Mas Rubião não distinguia nada; via tudo confusamente. Foi 
ainda a pé durante largo tempo; passou o Saco do Alferes, passou a Gamboa, parou diante do 
cemitério dos ingleses, com os seus velhos sepulcros trepados pelo morro, e afinal chegou à 
Saúde. Viu ruas esguias, outras em ladeira, casas apinhadas ao longe e no alto dos morros, 
becos, muita casa antiga, algumas do tempo do reis comidas, gretadas, estripadas, o cais 
encardido e a vida lá dentro E tudo isso lhe dava uma sensação de nostalgia... Nostalgia do 
farrapo, da vida escassa, acalcanhada e sem vexame. Mas durou pouco; o feiticeiro que 
andava nele transformou tudo. Era tão bom não ser pobre! 
 
 
 
 
CAPÍTULO LXXXVII 
 
 


 
 
RUBIÃO chegou ao fim da Rua da Saúde. Ia à toa com os olhos espraiados e 
desatentos. Rente com ele, passou uma mulher, não bonita, nem singela sem elegância, antes 
pobre que remediada, mas fresca de feições, contaria vinte e cinco anos, e levava pela mão um 
menino. Este atrapalhou-se nas pernas do Rubião. 
 
 
-Que é isso, nhonhô? disse a moça, puxando o filho pelo braço. 
 
 
Rubião inclinara-se ao pequeno, para ampará-lo. 
 
 
-Muito obrigada, desculpe, disse ela sorrindo- e cumprimentou-o. Rubião tirou o 
chapéu, sorriu também. A visão da família apoderou-se dele outra vez.-"Case-se e diga que eu 
o engano!" Parou, olhou para trás, viu ir a moça, tique-tique, e o menino ao pé dela, 
amiudando as perninhas, para ajustar-se ao passo da mãe. Depois, foi andando lentamente, 
pensando em várias mulheres que podia escolher muito bem, para executar, a quatro mãos, a 
sonata conjugal, música séria, regular e clássica. Chegou a pensar na filha do major e que 
apenas sabia umas velhas mazurcas. De repente, ouvia a guitarra do pecado, tangida pelos 
dedos de Sofia, que o deliciavam, que o estonteavam, a um tempo; e lá se ia toda a castidade 
do plano anterior. Teimava novamente, forcejava por trocar as composições; pensava na moça 
da Saúde, modos tão bonitos, criancinha pela mão... 
 
 
 
CAPÍTULO LXXXVIII 
 
 
 
 
A VISTA DO TÍLBURI fez-lhe lembrar o doente da Praia Formosa. 
 
 
-Pobre Freitas! suspirou. 
 
 
Logo depois, pensou também no dinheiro que deixara à mãe do enfermo, e achou que 
fizera bem. Talvez a idéia de haver dado uma ou duas notas demais esvoaçou por alguns 
segundos no cérebro do nosso amigo; ele a sacudiu depressa, não sem se zangar consigo e 
para esquecê-la de todo, exclamou ainda em voz alta 
 
 
-Boa velha! pobre velha! 
 
 
 
CAPÍTULO LXXXIX 
 
 
 
 
COMO A IDÉIA tornasse ainda, Rubião atirou-se depressa ao tílburi, entrou e sentou-
se, falando ao cocheiro, para fugir a si mesmo. 
 
 
-Dei uma caminhada grande; mas, sim, senhor, isto aqui é bonito, é curioso; aquelas 
praias, aquelas ruas, é diferente dos outro; bairros. Gosto disto. Hei de vir mais vezes. 
 


 
O cocheiro sorriu para si de um modo tão particular, que o nosso Rubião desconfiou. 
Não atinava com o motivo do riso; talvez lhe houvesse escapado alguma palavra que no Rio 
de Janeiro tivesse mau sentido, mas repetiu-as e não descobriu nada; eram todas usadas e 
comuns. Entretanto, o cocheiro sorria ainda, com o mesmo ar d princípio, meio subserviente, 
meio velhaco. Rubião esteve a pique de o interrogar, mas recuou a tempo. Foi o outro que 
reatou a conversação. 
 
 
-Vossa Senhoria está então muito admirado do bairro? disse ele. Há de deixar que eu 
não acredite, sem se zangar, que não para ofender a Vossa Senhoria, nem eu sou pessoa que 
agrave um freguês sério; mas não creio que esteja admirado do bairro. 
 
 
-Por quê? aventurou Rubião. 
 
 
O cocheiro meneou a cabeça para um e outro lado, e insistiu em não crer,-não porque 
o bairro não fosse digno de apreço, mas porque naturalmente já o conhecia muito. Rubião 
ratificou a primeira afirmação; tinha ido ali muitos anos antes, quando esteve da outra vez no 
Rio de Janeiro, mas não se lembrava de nada. E o cocheiro ria; e, à medida que o freguês ia 
demonstrando, ele ia fi-cando mais familiar, fazia negativas com o nariz, com os beiços, com 
a mão. 
 
 
-Já sei disso, concluiu ele. Nem eu sou homem que não veja as cousas. Vossa Senhoria 
pensa que não vi a maneira por que olhou para aquela moça que passou ainda agora? Basta só 
isso para mostrar que Vossa Senhoria tem faro e gosta. . . 
 
 
Rubião, lisonjeado, sorriu um pouco; mas emendou-se logo: 
 
 
-Que moça? 
 
 
-Que lhe dizia eu? redargüiu o homem. Vossa Senhoria é fino, e faz muito bem; mas 
eu sou pessoa de segredo, e cá o carro tem servido para estas idas e vindas. Não há muitos 
dias trouxe um belo moço, muito bem vestido, pessoa fina, -já se sabe, negócio de rabo de 
saia. 
 
 
-Mas eu... interrompeu Rubião. 
 
 
Mal podia conter-se; a suposição agradava-lhe; o cocheiro cuidou que ele dissimulava 
a culpa. 
 
 
-Olhe, eu bem digo,-continuou ele; tal qual o moço da Rua dos Inválidos. Vossa 
Senhoria pode ficar descansado; não digo nada; cá estou para outras. Então, quer que eu 
acredite que é por gosto que uma pessoa, que tem carro às ordens, vem andando a pé desde a 
Praia Formosa até aqui? Vossa Senhoria veio ao lugar marcado, a pessoa não veio... 
 
 
-Que pessoa? Fui ver um doente, um amigo que está para morrer. 
 
 
-Tal qual o moço da Rua dos Inválidos, repetiu o homem. Esse veio ver uma 
costureira da mulher, como se fosse casado. . . 
 
 
-Da Rua dos Inválidos? perguntou Rubião, que só agora atentava no nome da rua. 
 


 
-Não digo mais nada, acudiu o cocheiro. Era da Rua dos Inválidos, bonito, um moço 
de bigodes e olhos grandes, muito grandes. Oh! eu também se fosse mulher, era capaz de 
apaixonar-me por ele... Ela não sei donde era, nem diria ainda que soubesse; sei só que era um 
peixão. 
 
 
E vendo que o freguês o escutava com os olhos arregalados 
 
 
-Oh! Vossa Senhoria não imagina! Era de boa altura, bonito corpo, a cara meia coberta 
por um véu, cousa papa-fina. A gente, por ser pobre, não deixa de apreciar o que é bom. 
 
 
-Mas... como foi? murmurou Rubião. 
 
 
-Ora, como foi! Ele chegou como Vossa Senhoria, no meu tílburi, apeou-se e entrou 
numa casa de rótula; disse que ia ver a costureira da mulher. Como eu não lhe perguntei nada, 
e ele tinha vindo calado toda a viagem, muito cheio de si, compreendi logo a finura. Agora, 
podia ser verdade, porque é mesmo uma costureira que mora na casa da Rua da Harmonia. . . 
 
 
-Da Harmonia? repetiu Rubião. 
 
 
-Mau! Vossa Senhoria está arrancando o meu segredo; mudemos de assunto; não digo 
mais nada. 
 
 
Rubião olhava atônito para o homem, que de fato se calou por dous ou três minutos, 
mas logo depois continuou 
 
 
-Também não há muita cousa mais. O moço entrou; eu fiquei esperando, meia hora 
depois vi um vulto de mulher, ao longe, e desconfiei logo que ia para lá. Meu dito, meu feito; 
ela veio, veio, devagar, olhando disfarçadamente para todos os lados; ao passar pela casa, não 
lhe digo nada, nem precisou bater; foi como nas mágicas, a rótula abriu-se por si, e ela enfiou 
por ali dentro. Se eu já conheço isto. Em que é que Vossa Senhoria quer que a gente ganhe 
cobrinhos mais? O preço da tabela mal dá para comer; é precise fazer estes ganchos. 
 
 
CAPÍTULO XC 
 
 
 
"NÃO, NÃO PODIA ser ela", refletiu Rubião, em casa, vestindo-se de preto. 
 
 
Desde que chegara, não pensou em outra cousa que não fosse o caso contado pelo 
cocheiro do tílburi. Tentou esquecê-lo, arranjando papéis, ou lendo, ou dando estalinhos com 
os dedos para ver pular o Quincas Borba; mas a visão perseguia-o. Dizia-lhe a razão que há 
muitas senhoras de boa figura, e nada provava que a da Rua da Harmonia fosse ela; mas o 
bom efeito era curto. Daí a pouco, desenhava-se ao longe, cabisbaixa, vagarosa, uma pessoa, 
que era nem mais nem menos a própria Sofia, e andava, e entrava de repente pela porta de 
uma casa, que se fechava logo... A visão foi tal, em certa ocasião, que o nosso amigo ficou a 
olhar para a parede, como se ali estivesse a rótula da Rua da Harmonia. De imaginação, fez 
uma série de ações-bateu, entrou, lançou a mão ao gasnate da costureira, e pediu-lhe a 
verdade ou a vida. A pobre mulher, ameaçada da morte, confessou tudo; levou-o a ver a 
dama, que era outra, não era Sofia. Quando Rubião voltou a si, sentiu-se vexado 
 


 
"Não, não podia ser ela." 
 
 
Vestiu o colete, e foi abotoá-lo diante de uma das janelas, que dava para os fundos, no 
momento em que uma caravana de formigas ia passando pelo peitoril. Quantas vira passar 
outrora! Mas, desta vez, nunca soube como, pegou de uma toalha, deu dous golpes, atropelou 
as tristes formigas, matando uma porção delas. Talvez alguma lhe pareceu "boa figura e 
bonita de corpo". Logo depois arrependeu-se do ato; e realmente, que tinham as formigas com 
as suas suspeitas? Felizmente, começou a cantar uma cigarra, com tal propriedade e 
significação, que o nosso amigo parou no quarto botão do colete. Sôôôô.. . fia, fia, fia, fia, fia, 
fia. . . Sôôôô. . . fia, fia, fia, fia, fia... 
 
 
 
Oh! precaução sublime e piedosa da natureza, que põe uma cigarra viva ao pé de vinte 
formigas mortas, para compensá-las. Essa reflexão é do leitor. Do Rubião não pode ser. Nem 
era capaz de aproximar as cousas, e concluir delas-nem o faria agora que está a chegar ao 
último botão do colete, todo ouvidos, todo cigarra . 
 
 
Pobres formigas mortas! Ide agora ao vosso Homero gaulês, que vos pague a fama; a 
cigarra é que se ri, emendando o texto 
 
 
Vous marchiez? J'en suis fort aise. 
 
 
Eh bien! mourez maintenant. 
 
 
 
CAPÍTULO XCI 
 
 
 
Soou A CAMPAINHA de jantar; Rubião compôs o rosto, para que os seus habituados 
(tinha sempre quatro ou cinco) não percebessem nada. Achou-os na sala de visitas, 
conversando, à espera; ergueram-se todos, foram apertar-lhe a mão, alvoroçadamente. Rubião 
teve aqui um impulso inexplicável,-dar-lhes a mão a beijar. Reteve-se a tempo, espantado de 
si próprio. 
 
 
CAPÍTULO XCII 
 
 
 
DE NOITE, correu à Praia do Flamengo. Não pôde falar a Maria Be-nedita, que estava 
em cima, no quarto, com duas moças da vizinhança, amigas dela. Sofia veio recebê-lo à porta, 
e levou-o para o gabinete, onde duas costureiras faziam os vestidos de luto. O marido acabava 
de chegar; ainda não descera. 
 
 
-Sente-se aqui, disse ela. 
 
 
Tomou conta dele; estava divina. As palavras saíam-lhe carinhosas e graves, 
entrecortadas de sorrisos amigos e honestos. Falou-lhe da tia, da prima, do tempo, dos 
criados, dos espetáculos, da falta d'água, de uma multidão de cousas diversas vulgares ou não, 
mas que pas-sando pela boca da moça, mudavam de natureza e de aspecto. Rubião ouvia 


fascinado. Ela, para não estar vadia, ia cosendo uns folhos; e, quando a conversação fazia 
pausa, Rubião era pouco para comer-lhe as mãos ágeis, que pareciam brincar com a agulha. 
 
 
-Sabe que estou formando uma comissão de senhoras? perguntou ela. 
 
 
-Não sabia; para quê? 
 
 
-Não leu a notícia daquela epidemia numa cidade das Alagoas? 
 
 
Contou-lhe haver ficado tão penalizada, que resolveu logo orga-nizar uma comissão 
de senhoras, para pedir esmolas. A morte da tia interrompeu os primeiros passos; mas ia 
continuar, passada a missa do sétimo dia. E perguntou que lhe parecia. 
 
 
-Parece-me bem. Não há homens na comissão? 
 
 
-Há só senhoras. Os homens apenas dão dinheiro, concluiu rindo. 
 
 
Rubião, de cabeça, subscreveu logo uma quantia grossa, para obri-gar os que viessem 
depois. Era tudo verdade. Era também verdade que a comissão ia pôr em evidência a pessoa 
de Sofia, e dar-lhe um empurrão para cima. As senhoras escolhidas não eram da roda da nossa 
dama, e só uma a cumprimentava; mas, por intermédio de certa viúva, que brilhara entre 1840 
e 1850, e conservava do seu tempo as saudades e o apuro, conseguira que todas entrassem 
naquela obra de caridade. Desde alguns dias não pensara em outra cousa. Às vezes, à noite, 
antes do chá, parecia dormir na cadeira de balanço; não dormia, fechava os olhos para 
considerar-se a si mesma, no meio das companheiras, pessoas de qualidade. Compreende-se 
que este fosse o assunto principal da conversação; mas, Sofia tornava de quando em quando 
ao presente amigo. Por que é que ele fazia fugidas tão longas, oito, dez, quinze dias, e mais? 
Rubião respondeu que por nada, mas tão comovido, que uma das costureiras bateu no pé da 
outra. Daí em diante, ainda quando o silêncio era largo, cortado apenas pelo som das agulhas 
no merinó, das tesouradas, dos rasgados, uma e outra não perdiam de vista a pessoa do nosso 
amigo, com os olhos fisgados na dona da casa. 
 
 
Veio uma visita de pêsames, -um homem, diretor de banco. Foram chamar logo o 
Palha, que desceu a recebê-lo. Sofia pediu licença ao Rubião, por alguns segundos, ia ver 
Maria Benedita. 
 
 
CAPÍTULO XCIII 
 
 
 
RUBIÃO, ficando só com as duas mulheres, entrou a andar de um lado para outro, 
abafando os passos, para não incomodar ninguém Da sala vinha uma ou outra palavra do 
Palha"Em todo o caso, pode crer..."-"Nem a administração de um banco cousa de 
brincadeira..." -"Positivamente..." O diretor falava pouco, seco e baixo. 
 
 
Uma das costureiras dobrou a costura, arrecadou apressadamente retalhos, tesouras, 
carretéis de linha, de retrós. Era tarde; ia-se embora. 
 
 
-Dondon, espera um bocado que eu vou também. 
 


 
-Não, não posso. O senhor faz favor de dizer que horas são? 
 
 
-São oito e meia, respondeu Rubião. 
 
 
-Jesus! é muito tarde. 
 
 
Rubião, para dizer alguma cousa, perguntou-lhe por que não esperava, como a outra 
pedia. 
 
-Só espero D. Sofia, acudiu Dondon com respeito, mas o senhor sabe onde é que esta 
mora? Mora na Rua do Passeio. E eu vou dar com os ossos na Rua da Harmonia. Olha que 
daqui à Rua da Harmonia é um estirão. 
 
 
CAPÍTULO XCIV 
 
 
 
SOFIA DESCEU LOGO, achou Rubião transtornado, fugindo com os olhos. 
Perguntou-lhe o que era; ele respondeu que nada, dor de cabeça. Dondon saiu, o diretor do 
banco despedia-se; Palha agradecia-lhe a fineza, estimava-lhe a saúde. Onde estava o chapéu? 
Achou-o; deu-lhe também o sobretudo; e, parecendo que ele procurava outra cousa, perguntou 
se era a bengala. 
 
 
-Não, senhor, é o guarda-chuva. Creio que é este; é este. Adeus 
 
 
-Ainda uma vez, obrigado, muito obrigado, disse o Palha. Ponha o seu chapéu, está 
úmido, não faça cerimônias. Obrigado, muito obrigado, concluiu apertando-lhe a mão nas 
suas, e curvado em ângulo. 
 
 
Voltando ao gabinete, deu com o sócio, que teimava em sair. Instou também, disse-lhe 
que tomasse uma xícara de chá, que lhe passava logo; Rubião recusou tudo. 
 
 
-A sua mão está fria, observou a moça ao Rubião, apertando-lha; por que não espera? 
Água de melissa é muito bom. Vou buscar. 
 
 
Rubião deteve-a; não era preciso, conhecia aqueles achaques, curavam-se com sono. 
Palha quis mandar vir um tílburi; mas o outro acudiu dizendo que o ar da noite lhe faria bem, 
e que no Catete acharia condução. 
 
 
 
CAPÍTULO XCV 
 
 
 
 
"VOU AGARRÁ-LA ANTES de chegar ao Catete", disse Rubião subindo pela Rua do 
Príncipe. 
 
 
Calculou que a costureira teria ido por ali. Ao longe, descobriu alguns vultos de um e 
outro lado; um deles pareceu-lhe de mulher. Há de ser ela, pensou; e picou o passo. Entende-
se naturalmente que levava a cabeça atordoadaRua da Harmonia, costureira, uma dama e 


todas as rótulas abertas. Não admira que, fora de si, e andando rápido, desse um encontrão em 
certo homem que ia devagar, cabisbaixo. Nem lhe pediu desculpa; alargou o passo, vendo que 
a mulher também andava depressa. 
 
 
 
CAPÍTULO XCVI 
 
 
 
E o HOMEM empurrado, apenas sentiu o empurrão. Caminhava absorto, mas 
contente, espraiando a alma, desabafado de cuidados e fastios. Era o diretor de banco, o que 
acabava de fazer a visita de pêsames ao Palha. Sentiu o empurrão, e não se zangou; concertou 
o sobretudo e a alma, e lá foi andando tranqüilamente. 
 
 
Convém dizer, para explicar a indiferença do homem, que ele tivera, no espaço de uma 
hora, comoções opostas. Fora primeiro à casa de um ministro de Estado, tratar do 
requerimento de um irmão. O ministro, que acabava de jantar, fumava calado e pacífico. O 
diretor expôs atrapalhadamente o negócio, tornando atrás, saltando adiante, ligando e 
desligando as frases. Mal sentado, para não perder a linha do respeito, trazia na boca um 
sorriso constante e venerador; e curvava-se, pedia desculpas. O ministro fez algumas 
perguntas; ele, animado, deu respostas longas, extremamente longas, e acabou entregando um 
memorial. Depois ergueu-se, agradeceu, apertou a mão ao ministro, este acompanhou-o até à 
varanda. Aí fez o diretor duas cortesias,-uma em cheio, antes de descer a escada,-outra em 
vão, já embaixo, no jardim; em vez do ministro, viu só a porta de vidro fosco, e na varanda, 
pendente do tecto, o lampião de gás. Enterrou o chapéu, e saiu. Saiu humilhado, vexado de si 
mesmo. Não era o negócio que o afligia , mas os cumprimentos que fez, as desculpas que 
pediu, as atitudes subalternas, um rosário de atos sem proveito. Foi assim que chegou à casa 
do Palha. 
 
 
Em dez minutos, tinha a alma espantada e restituída a si mesma, tais foram as mesuras 
do dono da casa, os apoiados de cabeça, e um raio de sorriso perene, não contando 
oferecimentos de chá e charutos O diretor fez-se então severo, superior, frio, poucas palavras; 
chegou a arregaçar com desdém a venta esquerda, a propósito de uma idéia do Palha, que a 
recolheu logo, concordando que era absurda. Copiou do ministro o gesto lento. Saindo, não 
foram dele as cortesias, mas do dono da casa. 
 
 
Estava outro, quando chegou à rua, daí o andar sossegado e satisfeito, o espraiar da 
alma devolvida a si própria, e a indiferença com que recebeu o embate do Rubião. Lá se ia a 
memória dos seus rapapés; agora o que ele rumina saborosamente são os rapapés de Cristiano 
Palha. 
 
 
 
CAPÍTULO XCVII 
 
 
 
QUANDO RUBIÃO chegou à esquina do Catete a costureira conversava com um 
homem, que a esperara, e que lhe deu logo depois o braço; viu-os ir ambos, conjugalmente, 
para o lado da Glória. Casados? amigos? Perderam-se na primeira dobra da rua, enquanto 


Rubião ficou parado, recordando as palavras do cocheiro, a rótula moço de bigodes, a senhora 
de bonito corpo, a Rua da Harmonia Rua da Harmonia; ela dissera Rua da Harmonia. 
 
 
Deitou-se tarde. Parte do tempo esteve à janela, matutando, charuto aceso, sem acabar 
de explicar aquele negócio. Dondon era por força a terceira nos amores; devia ser, tinha olhos 
sonsos, pensou Rubião. 
 
 
"Amanhã vou lá, saio mais cedo, vou esperá-la na esquina, dou-lhe cem mil-réis, 
duzentos, quinhentos; ela há de confessar-me tudo." 
 
 
Quando cansou, olhou para o céu; lá estava o Cruzeiro. . . Oh!; ela houvesse 
consentido em fitar o Cruzeiro! Outra teria sido a vida de ambos. A constelação pareceu 
confirmar este modo de sentir, fulgurando extraordinariamente; e Rubião quedou-se a mirá-la, 
a com por mil cenas lindas e namoradas,-a viver do que podia ter sido. Quando a alma se 
fartou de amores nunca desabrochados, acudiu à mente do nosso amigo que o Cruzeiro não 
era só uma constelação era também uma ordem honorífica. Daqui passou a outra série de 
pensamentos. Achou genial a idéia de fazer do Cruzeiro uma distinção nacional e privilegiada. 
Já tinha visto a venera ao peito de alguns servidores públicos. Era bela, mas principalmente 
rara. 
 
 
-Tanto melhor! disse ele em voz alta. 
 
 
Era perto de duas horas quando saiu da janela; fechou-a e foi meter-se na cama, 
dormiu logo; acordou ao som da voz do criado espanhol, que lhe trazia um bilhete. 
 
 
 
CAPÍTULO XCVIII 
 
 
 
 
RUBIÃO sentou-se na cama estremunhado, não reparou na letra de sobrescrito; abriu 
o bilhete, e leu 
 
 
 
 
Ficamos ontem muito inquietos, depois que o senhor saiu. Cristiano não vai lá agora, 
porque acordou tarde, e tem de ir ao inspetor da alfândega. Mande-nos dizer se passou 
melhor. Lembranças de Maria Benedita e da 
 
 
Sua amiga e obrigada 
 
 
SOFIA. 
 
 
-Diga ao portador que espere. 
 
 
Daí a vinte minutos a resposta chegou à mão do moleque que trouxera o bilhete; foi o 
próprio Rubião que lha entregou, perguntando-lhe como tinham passado as senhoras. Soube 
que bem; deu-lhe dez tostões, recomendando-lhe que, quando precisasse algum dinheiro, 
viesse procurá-lo. O rapaz, espantado, arregalou os olhos e prometeu tudo. 


 
 
-Adeus! disse-lhe benevolamente o Rubião. 
 
 
E ficou parado, enquanto o portador descia os pousos degraus. Indo este a meio do 
jardim, ouviu bradar 
 
 
-Espera! 
 
 
Voltou para acudir ao chamado; Rubião já tinha descido os degraus; foram um ao 
outro, e pararam, calados. Correram dous minutos, sem que Rubião abrisse a boca. Afinal, 
perguntou alguma cousa,-se as senhoras tinham passado bem. Era a mesma pergunta de há 
pouso; o criado confirmou a resposta. Depois, Rubião deixou vagar os olhos pelo jardim. As 
rosas e as margaridas estavam lindas e frescas, alguns cravos desabrochavam, outras flores e 
folhagens, begônias e trepadeiras, todo esse pequeno mundo parecia estender os olhos 
invisíveis ao Rubião, e bradar-lhe 
 
 
-Alma sem vigor, acaba de uma vez com o teu desejo; colhe-nos, manda-nos... 
 
 
-Bem, disse finalmente Rubião lembranças às senhoras. Não se esqueça do que lhe 
disse; precisando de mim, venha cá. 
 
 
Guardou a carta? 
 
 
-Está aqui, sim, senhor. 
 
 
-É melhor metê-la no bolso, mas olhe não machuque. 
 
 
-Não machuco, não, senhor, retorquiu o criado acomodando a carta. 
 
 
 
CAPÍTULO XCIX 
 
 
 
 
SAIU O MOLEQUE; Rubião ficou passeando no jardim, com as mãos nos bolsos do 
chambre, e os olhos nas flores. Que tinha que mandasse algumas? Era um presente natural, e 
até de obrigação para pagar uma cortesia com outra. Fez mal; correu ao portão, mas já o 
moleque ia longe; Rubião advertiu que o luto excluía as lembranças alegres, e ficou tranqüilo. 
 
 
Senão quando, ao recomeçar o passeio, viu uma carta ao pé de um canteiro. Inclinou-
se, apanhou-a, leu o sobrescrito... A letra era dela, tão-só dela; comparou-a com a do bilhete 
que recebera; era a mesma. O nome era o do diaboCarlos Maria. 
 
 
"Sim, foi isso, pensou ele ao cabo de alguns minutos, o portador da minha carta trouxe 
esta, e deixou-a cair." 
 
 
E, mirando a carta, de um e outro lado, perguntava-lhe pelo conteúdo. Oh! o conteúdo! 
Que iria ali escrito dentro daquele papel homicida? Perversidade, luxúria, toda a linguagem do 
mal e da demência, resumidas em duas ou três linhas. Ergueu-a ante os olhos, para ver se 


podia ler alguma palavra; o papel era grosso; não se podia ler nada. Ao lembrar-se que o 
portador, dando por falta da carta, soltaria a procurá-la, meteu-a atrapalhadamente no bolso, e 
correu para dentro. 
 
 
Em casa, tirou-a e mirou-a outra vez; as mãos hesitavam, reproduzindo o estado da 
consciência. Se abrisse a carta, saberia tudo.  Lida e queimada, ninguém mais conheceria o 
texto, ao passo que ele teria acabado por uma vez com essa terrível fascinação que o fazia 
penar ao pé daquele abismo de opróbrios. . . Não sou eu que o digo, é ele; ele é que junta esse 
e outros nomes ruins, ele o que pára no meio da sala, com os olhos no tapete, em cuja trama 
figura um turco indolente, cachimbo na boca, olhando para o Bósforo...Devia ser o Bósforo. 
 
 
- Infernal carta! rosnou surdamente, repetindo uma frase ouvida no teatro, semanas 
antes; frase esquecida, que vinha agora exprimir a analogia moral do espetáculo e do 
espectador. 
 
 
Teve ímpetos de abri-la; era só um gesto, um ato, ninguém o via os quadros da parede 
estavam quietos, indiferentes, o turco do tapete continuava a fumar e a olhar para o Bósforo. 
Contudo, sentia escrúpulos; a carta, posto que achada no jardim, não lhe pertencia, mas ao 
outro. Era como se fosse um embrulho de dinheiro; não devolveria o dinheiro ao dono? 
Despeitado, meteu-a outra vez no bolso Entre mandar a carta ao destinatário e entregá-la a 
Sofia, adotou afinal o segundo alvitre; tinha a vantagem de poder ler a verdade nas feições da 
própria autora. 
 
 
"Digo-lhe que achei uma carta, assim e assim, pensou Rubião e antes de lhe dar a 
carta, vejo bem na cara dela, se fica aterrada ou não. Talvez empalideça; então ameaço-a, 
falo-lhe da Rua da Harmonia; juro-lhe que estou disposto a gastar trezentos, oitocentos, mil 
contos, dous mil, trinta mil contos, se tanto for preciso para estrangular o infame..." 
 
 
 
CAPÍTULO C 
 
 
 
 
NENHUM DOS HABITUADOS da casa compareceu ao almoço. Rubião esperou 
ainda uns dez minutos, chegou a mandar um criado ao portão, a ver se vinha alguém. 
Ninguém; teve de almoçar sozinho.  Em geral, não podia suportar as refeições solitárias, 
estava tão afeito à linguagem dos amigos, às observações, às graças, não menos que aos 
respeitos e considerações, que comer só era o mesmo que não comer nada. Agora, porém, era 
como um Saul que precisasse de algum Davi, para expelir o espírito maligno que se metera 
nele. 
 
 
Já queria mal ao portador da carta, porque a deixara cair; ignorarera um benefício. E 
depois, a consciência vacilava,-ia da entrega da carta à recusa e à guarda indefinida. Rubião 
tinha medo de saber ora queria, ora não queria ler nada no rosto de Sofia. O desejo de saber 
tudo era, em resumo, a esperança de descobrir que não havia nada. 
 
 
Davi apareceu enfim, entre o queijo e o café, na pessoa do Dr. Camacho, que voltara 
de Vassouras, na véspera, à noite. 
 


 
Como o Davi da Escritura, trazia um jumento carregado de pães, um cântaro de vinho 
e uni cabrito. Deixara gravemente enfermo um deputado que estava em Vassouras e preparou 
a candidatura do Rubião, escrevendo às influências de Minas. Foi o que Ihe disse aos 
primeiros golos de café. 
 
 
-Candidato, eu? 
 
 
-Pois então quem? 
 
 
Camacho demonstrou que não podia haver melhor. Tinha serviços em Minas, não 
tinha? 
 
 
-Alguns. 
 
 
-Aqui os tem de grande relevância. Mantendo comigo o órgão dos princípios, tem 
recebido solidariamente os golpes que me dão, além dos sacrifícios que todos fazemos pelo 
lado pecuniário. Sobre isto, não me diga nada. Digo-lhe que hei de fazer o que puder. Demais, 
o senhor é a melhor solução da divergência. 
 
 
-Divergência? 
 
 
-Sim, o Dr. Hermenegildo, de Catas-Altas, e o Coronel Romualdo; dizem que ambos, 
em caso de vaga, querem apresentar-se; é dividir os votos... 
 
 
-Seguramente; mas teimam? 
 
 
-Creio que não teimarão, quando eu lhes mandar daqui confir-mação dos chefes, 
porque foi uma das cousas que me lançaram à cara, é que eu não tinha poderes; confessei que, 
para aquele caso imprevisto, não; mas que possuía a confiança dos chefes, os quais me 
aprovariam. Creia que está feito. Então que pensa? Pensa que trabalho aqui sacrificando 
tempo e dinheiro, e algum talento, para não valer a um amigo, que tantas provas tem dado de 
fidelidade aos princípios? Oh! isso não. Hão de ouvir-me, e adotar o que lhes pro-ponho. 
 
 
Rubião, comovido, fez ainda outras perguntas acerca da luta e da vitória, se eram 
precisas despesas já, ou carta de recomendação e pedido, e como é que se havia de ter notícia 
freqüente do enfermo, etc. Camacho respondia a tudo; mas recomendava-lhe cautela. Em 
política, disse ele, uma cousa de nada desvia o curso da campanha e dá a vitória ao adversário. 
Contudo, ainda que não saísse vencedor, tinha Rubião a vantagem de ficar com o seu nome 
sufragado; e o precedente contava-se por um serviço. 
 
 
-Firmeza e paciência, concluiu. 
 
 
E logo em seguida 
 
 
-Eu próprio que sou, senão um exemplo de paciência e firmeza? A minha província 
está entregue a um grupo de bandidos; não há outro nome para a gente dos Pinheiros; e além 
disso (digo-lhe isto com dor e em particular) tenho amigos que me intrigam, uns ganhadores, 
que querem ver se o partido me repele e se me tomam o lugar. . . Uns biltres! Ah! meu caro 
Rubião, isto de política pode ser comparado à paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo; não falta 
nada, nem o discípulo que nega, nem o discípulo que vende. Coroa de espinhos, bofetadas, 


madeiro, e afinal morre-se na cruz das idéias, pregado pelos cravos da inveja, da calúnia e da 
ingratidão. . . 
 
 
Esta frase, caída no calor da conversa, pareceu-lhe digna de um artigo- reteve-a de 
memória; antes de dormir, escreveu-a em uma tira de papel. Mas, na ocasião da conversa, 
enquanto a repetia con-sigo para fixá-la, Rubião dizia que se animasse, que ele era homem 
para grandes campanhas. E não fugisse de caretas. 
 
 
-De caretas? Seguramente que não. Nem de papões verdadeiros, se os há. Cá os 
espero! Que se acautelem no dia em que subirmos! Hão de pagar tudo. Ouça-me este 
conselhoem política, não se per doa nem se esquece nada. Quem fez uma, paga; creia que a 
vingança é um prazer, continuou sorrindo- há muita delícia. .. Enfim, conta dos os males e os 
bens da política, os bens ainda são superiores. Há ingratos, mas os ingratos demitem-se, 
prendem-se, perseguem-se 
 
 
Rubião ouvia subjugado. Camacho impunha; faiscavam-lhe os olhos. Os anátemas 
brotavam-lhe como da boca de Isaías, as palmas do triunfo verdejavam-lhe nas mãos. Cada 
gesto parecia um princípios. Quando abria os braços, ferindo o ar, era como se desdobrasse 
um programa inteiro. Ia-se embriagando de esperanças, e tinha o vinho alegre. De uma vez, 
parou diante de Rubião 
 
 
-Vamos lá, deputado; ensaie um discurso, pedindo o encerra mento da discussãoSr. 
Presidente... Vamos, diga comigoSr. Presidente... peço a V. Ex.a... 
 
 
Rubião interrompeu-o, erguendo-se; teve uma espécie de vertigem. Via-se na Câmara, 
entrando para prestar juramento, todos os deputados de pé; e teve um calafrio. O passo era 
difícil. Contudo, atravessou a sala, subiu à mesa da presidência, prestou o juramento de 
estilo... Talvez a voz lhe fraqueasse na ocasião... 
 
 
CAPÍTULO CI 
 
 
 
FOI NESSE ESTADO que o veio achar a notícia da morte do Freitas Chorou uma 
lágrima às escondidas; tomou a si custear as despesas do enterro, e acompanhou o defunto, na 
tarde seguinte, ao cemitério A velha mãe do finado, quando o viu entrar na sala, quis ajoelhar-
se aos pés dele; Rubião abraçou-a a tempo de impedir-lhe o gesto. Esse ato do nosso amigo 
fez grande impressão nos convidados. Um deles veio apertar-lhe a mão; depois a um canto, 
baixinho, contou-lhe a injustiça da demissão que recebera, dias antes; demissão acintosa, por 
causa de intrigas... 
 
 
-Imagine V. Ex.a que aquilo é (com perdão da palavra) um covil de patifes... 
 
 
Chegou a hora de sair o enterro; as despedidas da mãe foram dolorosas; beijos, 
soluços, exclamações, tudo de mistura, e lancinante. As mulheres não conseguiram arrancá-la 
dali- foram precisos dous homens e o emprego de força; ela gritava e teimava por tornar ao 
cadávermeu filho! meu pobre filho! 
 
 
-Um escândalo! insistia o demitido. O próprio ministro dizem que não gostou do ato; 
mas V. Ex.a sabe, para não desmoralizar o diretor . . . 


 
 
-Pan... pan... pan... soavam os martelos surdamente, pregando o caixão. 
 
 
Rubião acedeu ao pedido que lhe faziam de pegar em uma das argolas, e deixou o 
demitido. Fora, alguma gente parada; os vizinhos, às janelas, debruçavam-se uns sobre os 
outros, com os olhos cheios daquela curiosidade que a morte inspira aos vivos. Ao demais, 
havia o coupé do Rubião, que se destacava das caleças velhas Já se falava muito daquele 
amigo do finado, e a presença confirmou a notícia. O defunto era agora apreciado com certa 
consideração. 
 
 
No cemitério, não se contentou Rubião com deitar a pá de terra, ato em que foi 
primeiro, por solicitação de todos- esperou que os coveiros enchessem a cova com as suas 
grandes pás do ofício. Tinha os olhos úmidos; acabou, saiu, ladeado pelos outros, e, à porta, 
com uma só chapelada para a direita e para a esquerda, saudou a todas as cabeças descobertas 
e curvas. Ao entrar no coupé, ainda ouviu estas palavras, a meia voz 
 
 
-Parece que é senador ou desembargador, ou cousa assim... 
 
 
CAPÍTULO CII 
 
 
 
ERA NOITE entrada. Rubião vinha por ali abaixo, recordando o pobre-diabo que 
enterrara, quando, na Rua de S. Cristóvão, cruzou com outro coupé, que levava duas 
ordenanças atrás. Era um ministro que ia para o despacho imperial. Rubião pôs a cabeça de 
fora, recolheu-a e ficou a ouvir os cavalos das ordenanças, tão iguaizinhos, tão distintos, 
apesar do estrépito dos outros animais. Era tal a tensão do espírito do nosso amigo, que ainda 
os ouvia, quando já a distância não permitia audiência. Catrapus... catrapus... catrapus... 
 
 
CAPÍTULO CIII 
 
 
 
AO SÉTIMO DIA da morte de D. Maria Augusta, rezou-se a missa de uso, em São 
Francisco de Paula; Rubião lá foi, lá viu Carlos Maria. Tanto bastou para precipitar a 
devolução da carta; três dias depois, meteu-a no bolso e correu ao Flamengo. Eram duas horas 
da tarde. Maria Benedita fora visitar as amigas da vizinhança, que a tinham acompanhando 
nos primeiros dias de aflição; Sofia estava só, vestida para sair. 
 
 
-Mas, não importa, disse ela convidando-o a sentar-se; fico ou saio mais tarde. 
 
 
Rubião retorquiu que a demora era curta; vinha dar-lhe um papel. 
 
 
-Em todo caso, sente-se; também se pode dar um papel sentado. 
 
 
Estava tão bonita, que ele hesitou em dizer-lhe as palavras duras que trazia de cor. O 
luto ia-lhe muito bem, e o vestido parecia uma luva. Sentada, via-se-lhe metade do pé, sapato 
raso, meia de seda cousas todas que pediam misericórdia e perdão. Quanto à espada daquela 
bainha,-assim chama à alma um velho autor,-parecia não ter gume nem campanhas; era uma 


ingênua faca de marfim. Rubião esteve a pique de fraquear; a primeira palavra arrastou as 
outras. 
 
 
-Que papel? perguntou Sofia. 
 
 
-Um papel que suponho grave, respondeu ele contendo-se;- não se recorda ou não sabe 
que perdeu uma carta? 
 
 
-Não. 
 
 
-Costuma escrever cartas? 
 
 
-Tenho escrito algumas; mas, não me lembra se grave. Deixe ver. 
 
 
Rubião tinha os olhos desvairados. Não disse nem fez nada. Levan-tou-se para sair, 
não saiu. Depois de alguns instantes de silêncio e inquietação, continuou sem raiva 
 
 
-Não é segredo para a senhora que lhe quero bem. A senhora sabe disto, e não me 
despede, nem me aceita, anima-me com os seus bonitos modos. Não me esqueci ainda de 
Santa Teresa, nem da nossa viagem no trem de ferro, quando vínhamos os dous com seu 
marido no meio. Lembra-se? Foi a minha desgraça aquela viagem; desde aquele dia a senhora 
me prendeu. A senhora é má tem gênio de cobra; que mal lhe fiz eu? Vá que não goste de 
mim; mas, podia desenganar-me logo... 
 
 
-Cale-se, vem gente, interrompeu Sofia erguendo-se também olhando para o lado da 
porta. 
 
 
Não vinha ninguém; entretanto, podiam ouvi-lo, porque a voz do Rubião ia aquecendo 
e crescendo. Cresceu ainda mais. Já não pleiteava esperanças; abria e despejava a alma. 
 
 
-Não me importa que ouçam, bradou ele; podem ouvir-me; agora digo tudo, a senhora 
bota-me para fora e tudo acaba. Não, não se pode fazer sofrer assim um homem.. . 
 
 
-Cale-se, pelo amor de Deus! 
 
 
-Qual Deus! Ouça-me o resto, porque eu estou disposto a na. guardar nada... 
 
 
Desatinada, receando deveras que algum criado ouvisse, Sofia levantou a mão e tapou-
lhe a boca. Ao contacto daquela epiderme querida, Rubião perdeu a voz. Sofia retirou a mão, 
e dispôs-se a deixar a sala; mas, chegando à porta, parou. Rubião caminhara até à janela, para 
convalescer da explosão. 
 
 
CAPÍTULO CIV 
 
 
 
 
SOFIA, depois de estar alguns segundos à escuta, tornou à sala, e foi sentar-se com 
grande rumor de saias, na otomana de cetim azul, compra de poucos dias. Rubião voltou-se, e 


deu com ela, abanando repreensivamente a cabeça. Antes que ele falasse, Sofia pôs o dedo na 
boca, pedindo-lhe silêncio; depois chamou com a mão; Rubião e obedeceu. 
 
 
-Sente-se naquela cadeira, disse ela; e continuou, depois de o ver sentadoTenho razão 
para zangar-me com o senhor; não faço, por que sei que e bom, e estou que é sincero, 
arrependa-se do que me disse, e tudo lhe será perdoado. 
 
 
Sofia bateu com o leque no lado direito do vestido para o abaixar e compor; depois 
levantou os braços sacudindo as pulseiras de vidro preto; finalmente, pousou-os sobre os 
joelhos, e, abrindo e fechando as varetas do leque, aguardou a resposta. Ao contrário do que 
esperava, Rubião abanou a cabeça negativamente. 
 
 
-Não tenho de que me arrepender, disse ele; e prefiro que me não perdoe. A senhora 
ficará cá dentro, quer queira, quer não; podia mentir, mas que é que rende a mentira? A 
senhora é que não tem sido sincera comigo, porque me tem enganado... 
 
 
Sofia retesou o busto. 
 
 
- ...Não se zangue; não desejo ofendê-la; mas, deixe-me dizer que a senhora é que me 
tem enganado, e muito, e sem compaixão. Que ame a seu marido, vá; perdoava-lhe; mas que... 
 
 
- Mas quê? repetiu ela espantada. 
 
 
Rubião meteu a mão no bolso, tirou a carta, e entregou-lha. Sofia, ao ler o nome de 
Carlos Maria, ficou sem pinga de sangue; ele viu-lhe a palidez. Dominando-se logo, 
perguntou o que era, que queria dizer essa carta. 
 
 
-A letra é sua. 
 
 
-É minha. Mas que diria eu aqui dentro? continuou tranqüila. Quem lhe deu isto? 
 
 
Rubião quis referir o achado; mas entendeu ter alcançado o bastante; cortejou-a para 
sair. 
 
 
-Perdão, disse ela, abra o senhor mesmo a carta. 
 
 
-Não tenho mais nada a fazer aqui. 
 
 
-Fique, abra a carta, aqui a tem; leia tudo, dizia a moça pegando-lhe na manga; mas, 
Rubião puxou violentamente o braço, foi buscar o chapéu, e saiu. Sofia, com medo dos 
criados, deixou-se ficar na sala. 
 
CAPÍTULO CV 
 
 
TÃO NERVOSA esteve durante os primeiros instantes, que não cuidou da carta. 
Afinal, virou-a de um lado para outro, sem adivinhar o conteúdo; mas, pouco a pouso, já 
senhora de si, lembrou-se que devia ser a circular da comissão das Alagoas. 
 
 
Rasgou a sobrecartaera a circular. Como é que semelhante papel fora ter às mãos dele? 
E donde lhe vinha a suspeita? De si mesmo ou de fora? Correria algum boato? Foi ter com o 


criado que levara a circular a Carlos Maria e perguntou-lhe se a entregara. Soube que não. 
Quando o criado chegou à Rua dos Inválidos, não achou o papel no bolso, e, com medo, não 
dissera nada à ama. 
 
 
Sofia tornou à sala, disposta a não sair. Recolheu a carta e a sobrecarta, para mostrá-
las a Rubião, a fim de que ele visse bem que não era nada; mas, provavelmente, suporia a 
substituição do papel. Maldito homem! murmurou. E começou a andar à toa. 
 
 
Uma revoada de memórias entrou na alma de Sofia. A imagem de Carlos Maria veio 
postar-se ante ela, com os seus grandes olhos de espectro querido e aborrecido. Sofia quis 
arredá-lo, mas não pôde; ele acompanhava-a de um lado para outro, sem perder o tom esbelto 
e másculo, sem o ar de riso sublime. Às vezes, via-o inclinar-se, articulando as mesmas 
palavras de certa noite de baile, que lhe custaram a ela horas de insônia, dias de esperança, até 
que se perderam na irrealidade. Nunca Sofia compreendera o malogro daquela aven-tura. O 
homem parecia querer-lhe deveras, e ninguém o obrigava a declará-lo tão atrevidamente, nem 
a passar-lhe pelas janelas, alta noite, segundo lhe ouviu. Recordou ainda outros encontros, 
palavras furtadas, olhos cálidos e compridos, e não chegava a entender que toda essa paixão 
acabasse em nada. Provavelmente, não haveria nenhuma; puro galanteio;-quando muito, um 
modo de apurar as suas forcas atrativas... Natureza de pelintra, de cínico, de fútil. 
 
 
Que lhe importava o mistério? Era um sujeito fútil. Cresceu-lhe o nojo e o desdém. 
Chegou a rir-se dele; podia encará-lo sem remorsos. E foi andando por ali fora, vingando-se 
do bobo,-chamava-lhe bobo,-e fitando no ar os olhos de imaculada. Em verdade, era ocupar-
se demais com tal assunto; começou a maldizer do Rubião que evocara semelhante homem do 
esquecimento, por causa daquela triste circular... Depois, tornou às primeiras lembranças, às 
palavras de Carlos Maria. Se todos a achavam bela, por que não o acharia ele, que lho disse? 
Talvez o tivesse a seus pés, se não se houvesse mostrado tão agradecida, tão rasteira... 
 
 
De repente, a criada, que estava na outra sala, ouvindo rumor de alguma cousa que se 
quebrava, correu à de visitas, e viu a ama, sozinha, de pé. 
 
 
-Não é nada, disse-lhe esta. 
 
 
-Pareceu-me que ouvi... 
 
 
-Foi aquele boneco que caiu; apanhe os cacos. 
 
 
-O chinês! exclamou a criada. 
 
 
De feito, era um mandarim de porcelana, pobre-diabo que estava muito quieto, em 
cima de uma estante. Sofia achou-se com ele entre os dedos, sem saber como, nem desde 
quando; ao cuidar na sua voluntária humilhação, teve um impulso, -parece que raiva de si 
mesma,-e deu com o boneco em terra. Pobre mandarim! não lhe valeu ser de porcelana; não 
lhe valeu sequer ser dado pelo Palha. 
 
 
-Mas, minha ama, como é que o chinês... 
 
 
-Vá-se embora! 
 


 
Sofia recordou todo o seu proceder diante de Carlos Maria, as aquiescências fáceis, os 
perdões antecipados, os olhos com que o buscava, os apertos de mão tão fortes... Era isso; 
tinha-se-lhe lançado aos pés. Depois, o sentimento foi mudando. Apesar de tudo, era natural 
que ele gostasse dela, e a conformidade moral de ambos não traria o abandono de um. Talvez 
a culpa fosse outra. Escavou razões possíveis, algum gesto duro e frio, alguma falta de 
atenção para com ele; lembrou-se que, uma vez, por medo de o receber sozinha, mandou dizer 
que não estava em casa. Sim, podia ser isso. Carlos Maria era orgulhoso; a menor desfeita 
pungia-o. Soube que era mentira...Essa era a culpa. 
 
 
CAPÍTULO CVI 
 
 
 
...OU, MAIS PROPRIAMENTE, capítulo em que o leitor, desorientado, não pode 
combinar as tristezas de Sofia com a anedota do cocheiro. E pergunta confuso-Então a 
entrevista da Rua da Harmonia Sofia, Carlos Maria, esse chocalho de rimas sonoras e 
delinqüentes é tudo calúnia? Calúnia do leitor e do Rubião, não do pobre cocheiro que não 
proferiu nomes, não chegou sequer a contar uma anedota verdadeira. É o que terias visto, se 
lesses com pausa. Sim, desgraçado adverte bem que era inverossímil que um homem, indo a 
uma aventura daquelas, fizesse parar o tílburi diante da casa pactuada. Seria pôr uma 
testemunha ao crime. Há entre o céu e a terra muitas mais ruas do que sonha a tua filosofia,-
ruas transversais, onde o tilburi podia ficar esperando. 
 
 
-Bem; o cocheiro não soube compor. Mas que interesse tinha em inventar a anedota? 
 
 
Conduzira Rubião a uma casa, onde o nosso amigo ficou quase duas horas, sem o 
despedir; viu-o sair, entrar no tílburi, descer logo e vir a pé, ordenando-lhe que o 
acompanhasse. Concluiu que era ótimo freguês; mas, ainda assim não se lembrou de inventar 
nada. Passou, porém, uma senhora com um menino,-a da Rua da Saúde, -e Rubião quedou-se 
a olhar para ela com vistas de amor e melancolia. Aqui é que o cocheiro o teve por lassivo, 
além de pródigo, e encomendou-lhe as suas prendas. Se falou em Rua da Harmonia foi por 
sugestão do bairro donde vinham; e, se disse que trouxera um moço da Rua dos Inválidos, é 
que naturalmente transportara de lá algum, na véspera,-talvez o próprio Carlos Maria,-ou 
porque lá morasse, ou porque lá tivesse a cocheira,-qualquer outra circunstância que lhe 
ajudou a invenção, como as reminiscências do dia servem de matéria aos sonhos da noite. 
Nem todos os cocheiros são imaginativos. Já é muito concertar farrapos da realidade. 
 
 
Resta só a coincidência de morar na Rua da Harmonia uma das costureiras do luto. 
Aqui, sim, parece um propósito do acaso. Mas a culpa é da costureira- não lhe faltaria casa 
mais para o centro da cidade, se quisesse deixar a agulha e o marido. Ao contrário disso, ama-
os sobre todas as cousas deste mundo. Não era razão para que eu cortasse o episódio, ou 
interrompesse o livro. 
 
 
CAPÍTULO CVII 
 
 
 
 
DAS REPLEXÕES de Sofia é que não há que explicar. Todas tinham o pé na verdade. 
Era certo e certíssimo que Carlos Maria não correspondera às primeiras esperanças,-nem às 


segundas e terceiras,- porque as houve em quadras diversas, ainda que menos verdes e bastas. 
Quanto à causa disso, vimos que Sofia, à míngua de uma, atribuiu-lhe sucessivamente três. 
Não chegou a pensar em alguns amores que ele porventura trouxesse e lhe tornassem 
insípidos quaisquer outros. Seria uma quarta causa, e talvez a verdadeira. 
 
 
CAPÍTULO CVIII 
 
 
 
DURANTE alguns meses, Rubião deixou de ir ao Flamengo. Não foi resolução fácil 
de cumprir. Custou-lhe muita hesitação, muito arrependimento; mais de uma vez chegou a 
sair com o propósito de visitar Sofia e pedir-lhe perdão. De quê? Não sabia; mas queria ser 
perdoado. Em todas as tentativas desse gênero, a lembrança de Carlos Maria fazia-o recuar. 
De certo ponto em diante, foi o próprio lapso de tempo que o tolheu; era esquisito aparecer lá 
um dia. como um triste filho pródigo, unicamente para suplicar o calor dos belos olhos da 
dona da casa. Ia ao armazém, visitar o Palha; este, ao fim de cinco semanas, reprochou-lhe a 
ausência; e, passados dous meses, perguntou-lhe se era formal propósito. 
 
 
-Tenho tido muito que fazer, acudiu Rubião; esses negócios políticos tomam todo o 
tempo a uma pessoa. Vou lá domingo. 
 
 
Sofia aparelhou-se para recebê-lo. Espiaria a ocasião de lhe dizer o que era a carta, 
jurando por todas as cousas santas, para que ele visse que a verdade não era contra ela. Planos 
perdidos; Rubião não compareceu. Veia outro domingo, vieram outros domingos... Não 
obstante, Sofia remeteu-lhe um dia a subscrição para as Alagoas; ele assinou cinco contos de 
réis. 
 
 
-É muito, disse-lhe o sócio, no armazém, quando ele lhe foi levar o papel. 
 
 
-Não dou menos. 
 
 
-Mas olhe que pode dar muito, sem dar tanto. Parece-lhe então que esta subscrição é 
feita entre meia dúzia de pessoas? Anda nas mãos de muitas senhoras e de alguns homens; 
está nos mostradores das lojas, na Praça do Comércio, etc. Assine menos. 
 
 
-Como, se está escrito? 
 
 
-Deste 5 pode-se fazer muito bem um 3. Três contos já é uma boa assinatura. Há 
maiores, m as são de pessoas obrigadas pelo cargo ou pelos milhões; o Bonfim, por exemplo, 
assinou dez contos. 
 
 
Rubião não pôde reter um risinho irônico; abanou a cabeça, e não recuou dos cinco 
contos. Só emendaria, escrevendo o algarismo 1 atrás,-quinze contos,-mais que o Bonfim. 
 
 
-Seguramente, que pode dar cinco, dez ou quinze contos, tornou o Palha; mas o seu 
capital precisa cautelas, você está entrando muito por ele. .. Repare que já lhe rende menos. 
 
 
Palha era agora o depositário dos títulos de Rubião (ações, apólices, escrituras) que 
estavam fechados na burra do armazém. Cobrava-lhe os juros, os dividendos e os aluguéis de 
três casas, que Ihe fizera comprar algum tempo antes, a vil preço, e que Ihe rendiam muito. 


Guardava também uma porção de moedas de ouro, porque Rubião tinha a mania de as 
colecionar, para a contemplação. Conhecia, mais que o dono, a soma total dos bens, e assistia 
aos rombos feitos na caravela, sem temporal, mar de leite. Três contos bastavam, insistiu ele; 
e provou a sinceridade pelo fato de ser justamente marido da fundadora da comissão. Mas o 
Rubião não desistiu dos cinco, aproveitou a ocasião para pedir-lhe mais dez; precisava de dez 
contos. Palha coçou a cabeça. 
 
 
-Você desculpe, disse-lhe ao cabo de alguns instantes, mas para que é que os quer? 
Não está certo que vai perdê-los, ou arriscá-los, ao menos? 
 
 
Rubião riu da objeção. 
 
 
-Se eu estivesse certo de que os perdia, não vinha buscá-los Pode ser arriscado, mas 
não é sem arriscar que se ganha. Preciso deles para um negócio,-quero dizer, três negócios. 
Dous são empréstimos seguros, e não passam de um conto e quinhentos. Os oito contos e 
quinhentos são para uma empresa. Por que abana a cabeça, se não sabe de que se trata? 
 
 
-Por isso mesmo. Se você me consultasse, se me dissesse que empresa e que pessoas 
eram, eu veria logo se podia arriscar-se; e receio muito que nada preste, a não ser o dinheiro 
que se perder. Lembra-se das ações daquela Companhia União dos Capitais Honestos? Disse-
lhe logo que este título era enfático, um modo de embair a gente, e dar emprego a sujeitos 
necessitados. Você não quis crer, e caiu. As ações estão por baixo, e já este semestre não há 
dividendos 
 
 
-Pois venda justamente essas ações; contento-me com o sólido. 
 
 
Ou então dê-me da caixa da nossa casa. . . Passo logo por aqui, se você quiser,-ou 
mande-me lá a Botafogo. Caucione umas apóli-ces, se lhe parecer melhor... 
 
 
-Não, não faço nada, não dou os dez contos, atalhou fogosa-mente o Palha. Basta de 
ceder a tudo; o meu dever é resistir. Emprés-timos seguros? Que empréstimos são esses? Não 
vê que Ihe levam o dinheiro, e não lhe pagam as dívidas? Sujeitos que vão ao ponto de jantar 
diariamente com o próprio credor, como um tal Carneiro, que lá tenho visto. Dos outros não 
sei se Ihe devem também; é possível que sim. Vejo que é demais. Falo-lhe por ser amigo; não 
dirá algum dia que não foi avisado em tempo. De que há de viver, se estragar o que possui? A 
nossa casa pode cair. 
 
 
-Não cai, acudiu o Rubião. 
 
 
-Pode cair; tudo pode cair. Eu vi cair o banqueiro Souto, em 1864. 
 
Rubião remoía os conselhos do sócio, não por serem bons nem prováveis, mas por 
achar neles uma intenção maviosa, revestida de forma crua. Agradeceu-os de coração, mas 
rejeitou-os; precisava dos dez contos. Podia ter mais tento, dali em diante, e afirmava-lhe que 
seria menos fácil. De resto, possuía de sobra, tinha dinheiro para dar e vender. . . 
 
 
-Para vender só emendou o Palha. 
 
 
E, depois de um instante 
 


 
-Bem, agora é tarde, amanhã levo-lhe os dez contos. E por que os não há de ir buscar 
lá à nossa casa ao Flamengo? Que mal lhe fizemos nós? Ou que lhe fizeram elas? porque a 
zanga parece ser com elas, visto que o vejo aqui. Que foi, para castigá-las? concluiu rindo. 
 
 
Rubião desviou os olhos do sócio, cuja palavra Ihe parecia afiada de ironia,-como de 
pessoa que soubesse tudo, e risse dele. Quando lhos tornou, viu o mesmo semblante 
interrogativo, e respondeu 
 
 
 
-Não me fizeram nada; lá irei amanhã à noite. 
 
 
-Vá jantar. 
 
 
-Jantar, não posso, tenho uns amigos em casa; vou de noite. E querendo rir-Não as 
castigue, que não me fizeram nada. 
 
 
-Alguém o possui, refletiu Palha logo que ele saiu; alguém, por inveja às nossas 
relações.. . Também pode ser que Sofia lhe fizesse alguma para arredá-lo de casa. .. 
 
 
Rubião assomou outra vez à porta; não tivera tempo de chegar à esquina. Voltava para 
dizer que, precisando do dinheiro cedo, viria buscá-lo ao armazém; de noite iria então visitá-
los. Precisava do dinheiro até às duas horas da tarde. 
 
 
 
CAPÍTULO CIX 
 
 
 
NESSA NOITE, Rubião sonhou com Sofia e Maria Benedita. Viu-as num grande 
terreiro, apenas vestidas de saia, costas inteiramente des-pidas; o marido de Sofia, armado de 
um azorrague de cinco pontas de couro, rematando em bicos de ferro, castigava-as 
despiedadamente. Elas gritavam, pediam misericórdia, torciam-se, alagadas em  sangue, as 
carnes caíam-lhes aos bocados. Agora, por que razão Sofia era a imperatriz Eugênia, e Maria 
Benedita uma aia sua, é o que na sei dizer com exatidão. "São sonhos, sonhos, Penseroso!" 
exclamava um personagem do nosso Alvares de Azevedo. Mas eu prefiro a reflexão do velho 
Polonius, acabando de ouvir uma fala tresloucada de Hamlet"Desvario embora, lá tem seu 
método". Também há me todo aqui, nessa mistura de Sofia e Eugênia; e ainda há método no 
que se lhe seguiu, e que parece mais extravagante. 
 
 
Sim, Rubião, indignado, mandou logo cessar o castigo, enforcar o Palha e recolher as 
vítimas. Uma delas, Sofia, aceitou um lugar na carruagem aberta que esperava pelo Rubião, e 
lá foram a galope, ela garrida e sã, ele glorioso e dominador. Os cavalos, que eram dous a 
saída, eram daí a pouco, oito, quatro belas parelhas. Ruas e janelas cheias de gente, flores 
chovendo em cima deles, aclamações.. Rubião sentiu que era o imperador Luís Napoleão; o 
cachorro ia no carro aos pés de Sofia... 
 
 
Tudo acabou sem fim, nem fracasso. Rubião abriu os olhos; talvez alguma pulga o 
mordeu; qualquer cousa"Sonhos, sonhos, Pense roso!" Ainda agora prefiro o dito de Polonius 
"Desvario embora, lá tem seu método!" 
 


 
 
CAPÍTULO CX 
 
 
 
RUBIÃO fez os dous empréstimos e o negócio. O negócio era um Empresa 
Melhoradora dos Embarques e Desembarques no Porto do Rio de Janeiro. Um dos 
empréstimos tinha por fim pagar certa conta atrasada de papel da Atalaia, dívida urgente. A 
folha estava ameaçada de parar. 
 
 
-Perfeitamente, disse Camacho, quando Rubião lhe foi levar o dinheiro à casa. Muito 
obrigado. Veja você como, por uma miséria desta ordem, podia emudecer o nosso órgão. São 
os espinhos naturais da carreira. O povo não está educado; não reconhece, não apóia os que 
trabalham por ele, os que descem à arena todos os dias em defesa das liberdades 
constitucionais. Imagine que, de momento, não dispúnhamos deste dinheiro, tudo estava 
perdido, cada um ia para os seus negócios, e os princípios ficavam sem o seu leal expositor. 
 
 
-Nunca! protestou Rubião 
 
 
-Tem razão; redobraremos de esforços. A Atalaia será como o Anteu da fábula. De 
cada vez que cair, erguer-se-á com mais vida. 
 
 
Dito isto, Camacho mirou o maço de notas. Um conto e duzentos não? perguntou; e 
meteu-o no bolso do fraque. Continuou a dizer que estavam seguros agora, a folha ia de vento 
em popa. Tinha certas reformas materiais em vista; foi ainda mais longe. 
 
 
-Precisamos desenvolver o programa, dar um empurrão aos correligionários, atacá-los, 
se for preciso... 
 
 
-Como? 
 
 
-Ora, como? atacando. Atacar é um modo de dizer; corrigir. É evidente que o órgão do 
partido está afrouxando. Chamo órgão do partido, porque a nossa folha é órgão das idéias do 

Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal