Microsoft Word Para alem da ego-historia


São Paulo, Unesp, v. 11, n. 1, p. 71-95, janeiro-junho, 2015



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São Paulo, Unesp, v. 11, n. 1, p. 71-95, janeiro-junho, 2015 

 

ISSN – 1808–1967

 

na qual o sujeito se coloca em relação consigo mesmo, englobando manifestações que se 



distribuem  temporalmente  do  epistolário  de  Sêneca  às  Confissões  de  Jean  Jacques 

Rousseau


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,  passando  pelas  meditações  estoicas  do  imperador  Marco  Aurélio  e  pelas 

Confissões  de  Santo  Agostinho,  entre  outros,  mantendo  suas  características  de  discurso 

construído na primeira pessoa, com ponto de vista totalizador e retrospectivo, no qual alguns 

eventos significam erro lamentável ou feliz conversão.

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Spengemann  (1980,  p.  32),  entende  que  são  as  Confissões,  de  Santo  Agostinho 

(398),  que  constituem  o  grande  modelo  da  autobiografia  ocidental  ao  já  apresentarem 

questões fundamentais do gênero como a reflexão sobre o autoconhecimento e a relação da 

memória  com  esse  processo,  pois  se  faziam  presentes  no  texto  agostiniano  as  formas 

consagradas  posteriormente,  como  escrita  de  si:  a  lembrança  histórica  de  si  mesmo,  a 

autoinvestigação filosófica e a autoexpressão poética.

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.  


Lejeune  (2008,  p.  65-66),  por  sua  vez,  afirma  que  Rousseau  estabeleceu  em 

Confissões  (1782)  aquelas que  seriam  as  diretrizes  narrativas  do gênero  autobiográfico:  a 

utilização  de  técnicas  romanescas  para  compartilhar  o  passado  e  de  mecanismos  da 

narrativa  pessoal  para  aproximação  com  o  leitor;  identifica  o  relato  de  seu  passado  como 

forma de ampliar o conhecimento a respeito de si; enfatiza os relatos de sua infância como 

gênese de sua personalidade e determina, assim, uma nova concepção do papel da infância 

na  trajetória  individual;  abordou  novas  dimensões  da  personalidade  ao  descrever 

experiências  consideradas  desprezíveis  ou  ridículas,  como  a  sexualidade;  e  estabeleceu 

conteúdos referenciais como a necessidade de justificar a produção de sua autobiografia, a 

diferença  entre  o  conhecimento  de  si  e  o  conhecimento  de  si  pelo  outro,  a  escritura 

autobiográfica como justificativa da vida, etc. 

Misch (1950) e Gusdorf (1991) discordam de enfoques classificatórios e afirmam que 

a  unidade  desse  gênero  não  está  relacionada  à  “forma”  em  que  se  apresentam,  mas  à 

perspectiva que reivindicam, de oferecer ao leitor um relato em que seja possível ter acesso 

à vida daquele que narra; de modo que identificam a gênese da autobiografia (ou da escrita 

autobiográfica) em antigas civilizações do Oriente Médio e sua manutenção na Idade Média.  

Misch  (1950)  entende  que  tais  relatos,  que  manifestam  uma  consciência  de  si, 

apresentam-se de diferentes formas ao longo do tempo justamente porque os referenciais 

culturais do lugar e período em que surgem são particulares e, portanto, em cada período 

toma forma diferenciada.

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A escrita funcionaria como um dispositivo de confissão, substituindo o olhar do outro, 



como  uma  força  disciplinadora  de  nossas  ações  e  pensamentos  que  nas  situações  de 

solidão tornaria possível revelar movimentos interiores da alma.

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Segundo Lejeune (2008, p. 48), o pacto autobiográfico pressupõe essa confluência 



entre  narrador  e  personagem,  quando  é  construído  um  "[...]  relato  retrospectivo  em  prosa 

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