Microsoft Word Para alem da ego-historia


São Paulo, Unesp, v. 11, n. 1, p. 71-95, janeiro-junho, 2015



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São Paulo, Unesp, v. 11, n. 1, p. 71-95, janeiro-junho, 2015 

 

ISSN – 1808–1967

 

situações permitem a percepção de suas relações com a memória individual e coletiva e a 



identificação  dos  mecanismos  de  construção  e  legitimação  de  um  passado  apropriado  e 

compartilhado. 

O  relato  autobiográfico  não  oferece  somente  um  conjunto  de  informações  pontuais 

ou  gerais,  mas  também  revela  uma  forma  de  subjetivação  que  se  manifesta  como 

valorização das experiências vividas, rememoração do passado e uso do passado. 

Fentress  e  Wickham  (1992,  p.  8)  reconhecem  a  sensibilidade  de  Halbwachs  em 

perceber  “que  os  grupos  constroem  as  suas  próprias  imagens  do  mundo  estabelecendo 

uma versão acordada do passado e ao sublinhar que estas versões se estabelecem graças 

à  comunicação,  não  por  via  das  recordações  pessoais”,  e  salientam  a  importância  dessa 

dimensão social que é a “comemoração”, o ritual da memória que se vale do falar, escrever 

ou reencenar o passado, como instrumento de constituição de grupos.

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Ao acadêmico surgem os desafios de resgatar de forma criativa as dimensões que 

ultrapassam  os  limites  do  escrito  e  do racionalizado  verbalmente,  identificando  a  memória 

não somente pela sua dimensão de registro, mas também pela sua dinâmica de constante 

reelaboração  e  dos  significados  advindos  desse  processo,  que  se  manifestam  de  forma 

bastante contrastante na emoção, no sentimento, nas falas e nas imagens em relação com 

a fonte escrita. 

Fentress e Wickham (1992, p. 10) afirmam que o “[...] significado social da memória, 

a sua estrutura interna e o modo de transmissão não são afetados pela sua verdade”, mas 

pela  forma  como  conquistam  a  credibilidade  no  interior  dos  grupos  que  as  constroem,  de 

acordo  com  a  adequação  do  passado  ao  presente

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.  E  aqui  a  questão  do  relato 



autobiográfico ganha  uma  nova  dimensão,  a  saber,  a forma  como  se constrói,  em  termos 

retóricos,  o  auditório,  ou  seja,  o  conjunto  daqueles  que  o  orador quer  influenciar com  sua 

argumentação. 

Em relação ao memorial, o auditório não é um público leitor abstrato, mas também os 

pares,  os  profissionais  que  dividem  com  os  autores  certas  ocupações  similares,  os 

referenciais  teóricos  (convergentes  ou  divergentes),  redes  de  relações,  sentimentos  de 

pertença ou exclusão e identidades diversas. 

Se  a  diferenciação  desses  modelos  narrativos  não  possa  ser  pensada  a  partir  de 

uma  maior  ou  menor  factualidade/ficcionalidade,  com  certeza  remete  a  diferentes 

perspectivas  de  retrospecção/introspecção,  distanciamento  temporal  entre  o  vivido  e  o 

registrado, grau de minúcia descritiva, nível de inclusão do receptor e foco analítico.

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Uma  questão  importante  para  a  análise  dos  memoriais  se  refere  ao  modo  como 

alguns  elementos  clássicos  do  biografismo,  como  a  ordem  cronológica  na  vida  de  um 

personagem coerente e estável, dotado de “ações sem inércia” e “decisões sem incertezas”, 

que tensionam os limites do documental, que nem sempre é capaz de contemplar práticas 



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