Microsoft Word Para alem da ego-historia


São Paulo, Unesp, v. 11, n. 1, p. 71-95, janeiro-junho, 2015



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São Paulo, Unesp, v. 11, n. 1, p. 71-95, janeiro-junho, 2015 

 

ISSN – 1808–1967

 

O memorial acadêmico remete o acadêmico-autor-narrador a uma situação bastante 



particular ao situá-lo em uma escrita de si, mas que não é o gênero autobiográfico, nem o 

gênero  diarístico,  pois  embora  apresente  o  objetivo  de  dar  forma  a  uma  história  do  autor 

entre  um  fundo  histórico-cultural  e  uma  subjetividade  específica,  sua  proposta  estabelece 

um recorte no qual a dimensão pública e profissional ocupa uma centralidade. 

Queiroz (1991, p. 6) afirma que, no relato do narrador sobre sua trajetória, é possível 

delinear “[...] as relações com os membros de seu grupo, de sua profissão, de sua camada 

social,  de  sua  sociedade  global,  que  cabe  ao  pesquisador  desvendar.  Desta  forma,  o 

interesse  deste  último  está  em  captar  algo  que  ultrapassa  o  caráter  individual  do  que  é 

transmitido e que se insere nas coletividades a que o narrador pertence.” 

A  origem  desse  tipo  de  texto,  entendido  enquanto  um  relato  crítico  da  trajetória 

cultural  e  intelectual  do  indivíduo,  assim  como  de  suas  expectativas  profissionais  e 

acadêmicas,  é  uma  exigência  que  remonta  ao  Exposé  des  titres  et  travaux  scientifiques, 

característico da carreira acadêmica francesa. 

O  memorial,  como  qualquer  relato  de  memória,  se  estrutura  como  um  espaço  de 

afirmações e negações, do que se lembra e do que se esquece, do que se mostra e do que 

se  omite,  e  mesmo  que  seu  autor-narrador  possa  imaginar-se  como  representante  de 

interesses de classe, ator estratégico, figura do habitus, ator racional, ser histórico ou agente 

socializado,  entre  outras  possibilidades,  está  vinculado  a  relações  particulares  com  seu 

tempo e espaço de forma que sua narrativa não são simplesmente atos de resgate, mas de 

reconstrução do passado. 

Suas  confissões,  nem  próximas  de  Santo  Agostinho,  nem  de  Jean  Jacques 

Rousseau, não ambicionam funcionar como um dispositivo para substituir o olhar do outro 

como uma força disciplinadora de suas ações e pensamentos, assim como a exercida em 

uma  comunidade  pelo  olhar  do  outro,  ou  como  situação  catártica  que  revela  movimentos 

interiores da alma. 

O  autor-narrador  reorganiza  as  instâncias  dicotômicas  sujeito-objeto  por  meio  da 

inclusão  explícita  de  sua  persona como foco  de  análise,  na qual,  ao mesmo  tempo que  o 

sujeito produz uma manifestação discursiva em que se coloca em relação consigo mesmo, 

esta  é  mediada  pelas  exigências  de  contratualidade,  ou  seja,  as  expectativas  de  um 

discurso em primeira pessoa como relato crítico de sua trajetória cultural e intelectual, assim 

como de suas expectativas profissionais e acadêmicas. 

O autor-narrador pode utilizar-se das determinações e configurações normativas do 

discurso  acadêmico-científico  como  álibi  para  a  desconsideração  da  multiplicidade  de 

identidades e referências que se criam no espaço entre o vivido, o lembrado e o narrado e 

essa complexa vinculação do vivido não só à ação, mas também à percepção da vivência e 

de  seus  significados  e  múltiplas  interrelações,  ao  lembrado  e  às  construções  reais  ou 



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