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 – O mito de Abel e Caim e o surgimento da cidade bíblica



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4 – O mito de Abel e Caim e o surgimento da cidade bíblica 

 

 



Ruben George Oliven 


 

 

38 



 



4  –


–     O  MITO  DE  ABEL  E  CAI



O  MITO  DE  ABEL  E  CAI

O  MITO  DE  ABEL  E  CAI

O  MITO  DE  ABEL  E  CAIM  E  O  SURGIMENTO  DA 

M  E  O  SURGIMENTO  DA 

M  E  O  SURGIMENTO  DA 

M  E  O  SURGIMENTO  DA 

CIDADE BÍBLICA

CIDADE BÍBLICA

CIDADE BÍBLICA

CIDADE BÍBLICA        

 

 

39 



 

Coabitou o homem com Eva, sua mulher. Esta concebeu e deu à luz a 

Caim; então disse: Adquiri um varão com o auxílio do Senhor. 

Depois  deu  à  luz  a  Abel,  seu  irmão.  Abel  foi  pastor  de  ovelhas  e 

Caim, lavrador. 

Aconteceu que no fim de uns tempos trouxe  Caim do fruto da terra 

uma oferta ao Senhor. 

Abel, por sua vez, trouxe das primícias do seu rebanho, e da gordura 

deste. Agradou-se o Senhor de Abel e de sua oferta; ao passo que de 

Caim  e  de  sua  oferta  não  se  agradou.  Irou-se,  pois,  sobremaneira 

Caim, e descaiu-lhe o semblante. 

Então lhe disse o Senhor: Por que andas irado? E por que descaiu o 

teu semblante? 

Se  procederes  bem,  não  é  certo  que  serás  aceito?  Se  todavia, 

procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra 

ti, mas a ti cumpre dominá-lo. 

Disse  Caim  a  Abel,  seu  irmão:  Vamos  ao  campo.  Estando  eles  no 

campo,  sucedeu  que  se  levantou  Caim  contra  Abel,  seu  irmão  e  o 

matou. 

Disse o  Senhor a Caim:  Onde está  Abel, teu irmão? Ele respondeu: 

Não sei: acaso sou eu tutor de meu irmão? 

E disse Deus: Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da 

terra a mim. 

És  agora,  pois,  maldito  por  sobre  a  terra  cuja  boca  se  abriu  para 

receber de tuas mãos o sangue de teu irmão. 

Quando  lavrares  o  solo  não  te  dará  ele  a  sua  força;  serás  fugitivo 

errante pela terra. 

Então  disse  Caim  ao  Senhor:  É  tamanho  o  meu  castigo,  que  já  não 

posso suportá-lo. 

Eis  que  hoje  me  lanças  da  face  da  terra,  e  de  tua  presença  hei  de 

esconder-me;  serei  fugitivo  e  errante  pela  terra:  quem  comigo  se 

encontrar me matará. 

O Senhor, porém, lhe disse:  Assim qualquer que  matar a Caim será 

vingado sete vezes. E pôs o Senhor um sinal em Caim para que o não 

ferisse de morte quem quer que o encontrasse. 



 

 

40 



 

Retirou-se Caim da presença do Senhor e habitou na terra de Node, 

ao oriente do Éden. 

E coabitou Caim com sua mulher; ela concebeu e deu à luz a Enoque. 

Caim  edificou  uma  cidade  e  lhe  chamou  Enoque,  o  nome  de  seu 

filho.


a

 

 



4.1 - O aspecto histórico-social

 

Ao nível histórico-social, uma primeira análise poderia levar-nos 



a explicar o mito de Caim e Abel como um registro dos conflitos da 

antiga Palestina, entre pastores nômades e agricultores. 

Entretanto,  isto  não  explicaria  porque  Caim  não  foi  um  pastor 

nômade  e  portanto  propenso  a  roubar  e  assassinar  o  agricultor 

pacífico — mas um agricultor, enquanto Abel era o pastor. 

Outra explicação tenderia a interpretar o mito historicamente do 

seguinte modo: pastores famintos irrompem numa área de agricultura 

estável durante uma seca e são aceitos como hóspedes pagadores de 

tributos.  Posteriormente,  eles  exigem  uma  participação  no  governo. 

Sacrifícios  simultâneos  à  deidade  estatal  são  então  oferecidos  por 

ambas as partes. A oferenda do chefe dos pastores é preferida; com o 

que o chefe dos agricultores, auxiliado por seus parentes maternos o 

assassina.  Como  consequência,  os  agricultores  são  expulsos  e 

eventualmente fundam uma cidade-estado noutro lugar. 

Esta  situação  política  tem  sido  frequente  na  África  Oriental 

durante  séculos:  pastores  intrusos,  que  primeiro  aparecem  como 

suplicantes famintos, adquirem ascendência política, depois de terem 

despertado grave antagonismo por deixarem seus animais pisotearem 

as colheitas. 

Outra  explicação  considera  que  o  sinal  colocado  em  Caim 

provavelmente era o sinal totêmico de seu clã, e que de fato todo o 

                                                 

a

 GÊNESIS 4 : 1-17. In: BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. São Paulo, Paulinas, 1969. p. 



27-8. 

 

 



 

41 


 

episódio  encerra  uma  contenda  tribal  primitiva  pela  hegemonia  nas 

mais remotas eras da história do mundo. 

 

4.2 - A análise do mito 



Na  cosmogonia  bíblica,  o  surgimento  da  inteligência  humana 

está  diretamente  associado  à  noção  do  bem  e  do  mal,  à  prática  do 

pecado e à noção de responsabilidade. 

O  paraíso  representa  um  mundo  no  qual  os  homens  têm  todas 

suas necessidades atendidas e no qual inexistem conflitos. Homem e 

natureza vivem em perfeita harmonia. 

Apenas uma proibição e consequente tentação destoa do quadro 

geral:  a  árvore  do  bem  e  do  mal.  Toda  dádiva  do  ambiente 

paradisíaco está condicionada a não experimentar da árvore do bem e 

do  mal.  Esta  proibição,  entretanto,  não  exclui  a  possibilidade  de 

infringi-la.  Ao  contrário  de  outras  mitologias,  não  há  a  ideia  da 

predestinação. Enquanto na mitologia grega, Édipo está predestinado 

a matar seu pai e juntar-se com sua mãe (sendo todas suas tentativas 

de  impedir  a  profecia  do  oráculo, fracassadas),  na  mitologia  bíblica 

existe livre arbítrio. Há uma proibição, mas é o Homem que decidirá 

acatá-la ou não. 

A infração da proibição simboliza o começo da história humana. 

O Homem passa a ser conhecedor do bem e do mal. Sente vergonha 

(de estar despido) e aprende que sua ousadia em desafiar a autoridade 

divina será punida. À transgressão da norma corresponde a vergonha 

e o castigo. 

Este é  constituído  pela expulsão  do  Éden e  pelas  consequentes 

dificuldades  decorrentes  da  ruptura  entre  o  Homem  e  a  natureza: 

dores do parto, ganhar o pão de cada dia com o suor da face. 

Ao nível de transgressão e castigo, a punição recebida por Adão 

e  Eva,  embora  angustiante,  oferece  a  vantagem  de  expiar  uma 

eventual culpa. A expiação da culpa é um dos elementos-chaves de 

todo  castigo.  Com  o  castigo  o  infringido  (Deus,  a  sociedade,  o 




 

 

42 



 

prejudicado pela infração) pune o infrator, ao passo que este paga ao 

infringido por seu ato.

 

Entretanto,  com  Caim  verifica-se  uma  situação  sui  generis.  



castigo  que  recebe  é  muito  mais  vago  que  o  de  seus  pais.  Estes 

estavam atingidos pelo sentimento de vergonha; Caim é atingido pelo 

sentimento de culpa. 

Deus  o  responsabiliza  pelo  fratricídio.  Se  ao  Homem  é  dada  a 

possibilidade 

de 


escolher, 

esta 


vem 

acompanhada 

da 

responsabilidade que cada escolha acarreta. 



Adão  e  Eva  escolhem  comer  do  fruto  proibido  e  têm  de  arcar 

com as consequências que o conhecimento do bem e do mal trazem. 

Caim escolhe matar seu irmão e tem de responder por seu ato, 

mesmo  que  a  princípio  não  o  queira  ("Acaso  sou  eu  tutor  de  meu 

irmão?"). 

Adão  e  Eva  desconheciam  a  noção  do  bem  e  do  mal,  quando 

comeram do fruto proibido, não podendo portanto sentir-se culpados; 

Caim, entretanto, nasceu num mundo onde esta noção já existia. 

O  castigo  de  Caim  é  carregar  eternamente  a  culpa  de  seu  ato. 

Quando  Deus  lhe  comunica  que  é  maldito  na  terra  e  que  esta  não 

mais  lhe  dará  frutos,  sendo,  portanto,  fugitivo  e  errante,  Caim 

exclama: "É tamanho o meu castigo que já não posso suportá-lo". A 

punição que Deus lhe impôs é terrível justamente por dois motivos: 

1) não permitir a expiação do crime; 2) (por conseguinte) impedir sua 

reintegração na sociedade (será fugitivo e errante). 

E, diante da argumentação de Caim de que será morto por quem 

o  encontrar,  Deus  reforça  o  castigo:  coloca-lhe  um  sinal  (que  o 

diferencia  dos  outros  homens,  impedindo-o  de  esquecer  ou  ocultar 

seu crime) e determinando que quem o  matar (ser assassinado seria 

uma  forma  de  expiar  o  assassinato  por  ele  cometido)  será  vingado 

sete vezes. 

É neste clima que vem a surgir a primeira cidade bíblica. Caim 

depois da sentença a que foi condenado edifica uma cidade à qual dá 

o nome de seu filho Enoque. 

 

 

43 



 

A construção de uma cidade com o nome de seu filho pode ser 

interpretada  com  um  duplo  sentido  reparador  do  crime:  1)  a 

construção de algo para compensar a destruição de uma vida; 2) fazer 

renascer  a  Abel  nesta  construção,  dando-lhe  o  nome  de  seu  filho. 

Neste sentido, o filho representa o irmão mais moço que assassinou e 

ao qual restaura a vida simbolicamente. 

Também poder-se-ia ver no ato de Caim um modo de amenizar a 

maldição sobre ele lançada: já que não pode mais ser lavrador como 

antes, estabelece-se em algo no qual a terra não é o elemento central 

e no qual se encontra ao abrigo de possíveis ataques. 

Na  mitologia  bíblica,  a  primeira  cidade  nasce,  portanto,  como 

decorrência  de  um  crime,  mais  especificamente  de  um  fratricídio,  e 

possui um sentido reparador. 

O assassinato de Abel pode ser interpretado não somente como 

um  fratricídio,  mas  também,  indiretamente,  como  um  parricídio. 

Rejeitado pelo pai (simbolizado em Deus), que não se agradou de sua 

oferta,  Caim  resolve  matá-lo.  Na  impossibilidade  de  atingi-lo 

diretamente,  mata-o  de  modo  simbólico,  destruindo  seu  filho  Abel 

pelo qual fora preterido. 

É interessante ressaltar a raiz etimológica do nome Enoque. Em 

hebraico  a  raiz  triletral  da qual  é composto o  nome  é  a  mesma  que 

corresponde aos verbos (e substantivos que deles derivam) inaugurar 

e educar. Seria possível, levando o raciocínio mais além, estabelecer 

várias  suposições  com  base  nesta  semelhança  etimológica, 

principalmente se considerarmos que em hebraico a parte fixa de uma 

palavra  é  composta  por  sua  raiz  (geralmente  formada  por  três 

consoantes) em torno da qual é flexionada com vogais e consoantes 

complementares para formar substantivos, adjetivos, verbos etc. 

Ao  nível  do  mito  podemos  ainda  estabelecer  outras  suposições 

ou hipóteses. O livro de Gênesis fala de um outro Enoque, filho de 

Jerede,  cuja  ascendência  provém  de  Sete,  o  terceiro  filho  de  Adão. 

Este segundo Enoque foi pai de Matusalém, o homem que na Bíblia 

teve a vida mais longa (969 anos). Sobre este segundo Enoque diz a 

Bíblia: 

Todos os dias de Enoque foram trezentos e sessenta e cinco anos. 




 

 

44 



 

Andou  Enoque  com  Deus,  e  já  não  era,  porque  Deus  o  tomou  para 

si.

b

 



O relato bíblico "Andou Enoque com Deus, e já não era, porque 

Deus  o  tomou  para  si"  era  tradicionalmente  interpretado  com  o 

sentido de que não morrera mas fora transportado em vida para o céu 

por sua virtude. Muitos livros apocalípticos focalizam sua morte; os 

primeiros  cristãos  utilizavam-se  do  ponto  de  vista  aceito  sobre 

Enoque  para  explicar  a  imortalidade  de  Jesus.  Tal  argumento 

provocou reação entre os rabinos, alguns dos quais chegaram a negar 

a  virtude  de  Enoque.  Somente  após  os  cristãos  se  separarem 

completamente dos judeus foi que Enoque recuperou a popularidade 

na doutrina judaica; foi então identificado ao anjo Metraton, e surgiu 

toda  uma  literatura  mística  em  torno  de  sua  personalidade.  Alguns 

críticos  modernos  sustentam  que  os  365  anos  de  Enoque 

correspondem aos 365 dias do calendário babilônico e que a história 

de Enoque era, originalmente, um mito solar da Babilônia. 

 

Bibliografia Consultada 



1. BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. São Paulo, Paulinas, 1969. 

2. ENCICLOPÉDIA Judaica. Rio de Janeiro, Tradição, 1967. 

3. FREUD, Sigmund. Totem e Tabu. Rio de Janeiro, Delta, s. d. Escrito em 

1913. 


4. FROMM, Erich. Análise do Homem. Rio de Janeiro, Zahar, 1963. 

5. — . O Espírito da Liberdade. Rio de Janeiro, Zahar, 1967. 

6. GAVES, Robert & PATAI, Raphael. Hebrew myths: the book of genesis

New York, McGraw-Hill, 1966. 

7. SCHOLEM, Gershom G. Major trends in jewish mysticism. New York, 

Schocken, 1954. 

                                                 

b

 GÊNESIS 5: 23-4. In: BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. São Paulo, Paulinas, 1969. 



p.28 

 

 



45 

 

8. SIMS, Albert E. & DENT, George. Who's who in the Bible. New York, 



Philosophical Library, 1960. 

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