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#24265
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Handebol 2022 JM JF
impureza! Deixou-se do viver que levara, desconheceu seus companheiros, suas amantes venais, 
suas insônias cheias de febre, quis apagar todo o gosto da existência, como o homem que perdeu 
uma fortuna inteira no jogo quer esquecer a realidade. 
E o homem pode esquecer tudo isto. Mas ele não era ainda feliz. As noites passava-as ao 
redor do palácio dela, via-a às vezes bela e descorada ao luar, no terraço deserto, ou distinguia 
suas formas na sombra que passava pelas cortinas da janela aberta de seu quarto iluminado. Nos 
bailes seguia com olhares de inveja aquele corpo que palpitava nas danças. No teatro, entre o 
arfar das ondas da harmonia, quando o êxtase boiava naquele ambiente balsâmico e luminoso, ele 
nada via senão ela — e só ela! E as horas de seu leito... suas horas de sono não, que mal as 
dormia, porque às vezes eram longas de impaciência e insônia, outras vezes eram curtas de 
sonhos ardentes! O pobre insano teve um dia uma idéia: era negra sim mas era a da ventura. O 
que fez não sei, nem o sabereis nunca. E depois bastante ébrio para vos sonhar, bastante louco 
para nos sonhos de fogo de seu delírio imaginar gozar-vos, foi profano assaz para roubar a um 
templo o cibório d’oiro mais puro. Esse homem... tende compaixão dele, que ele vos amara de 
joelhos... ó anjo, Eleonora... 
— Meu Deus! meu Deus! por que tanta infâmia, tanto lodo sobre mim? Ó minha Madona! 
por que maldissestes minha vida, por que deixastes cair na minha cabeça uma nódoa tão negra? 
As lágrimas, os soluços abafavam-lhe a voz. 
— Perdoai-me, senhora, aqui me tendes a vossos pés! tende pena de mim, que eu sofri 
muito, que vos amei, que vos amo muito! Compaixão! que serei vosso escravo, beijarei vossas 
plantas, ajoelhar-me-ei à noite à vossa porta, ouvirei vosso ressonar, vossas orações, vossos 
sonhos... e isso me bastará... Serei vosso escravo e vosso cão, deitar-me-ei a vossos pés quando 
estiverdes acordada, velarei com meu punhal quando a noite cair, e, se algum dia,. se algum dia 
vos me puderdes amar... então... então… 
— Oh! deixai-me! deixai-me!... 
— Eleonora! Eleonora! Perder noites e noites numa esperança! Alentá-la no peito como 
uma flor que murcha de frio, alentá-la, revive-la cada dia, para vela desfolhada sobre meu rosto! 
Absorver-me em amor e só ter irrisão e escárnio! Dizei antes ao pintor que rasgue sua Madona, 
ao escultor que despedace a sua estátua de mulher. 
Louca, pobre louca que sois! credes que um homem havia de encarnar um pensamento em 
sua alma, viver desse cancro, embeber-se da vitalidade da dor, para depois rasga-lo do seio? 
Credes que ele consentiria que se lhe pisasse no coração, que lhe arrancassem... a ele, poeta e 
amante! da coroa de ilusões as flores uma por uma, que pela noite da desgraça, ao amor insano de 
uma mãe lhe sufocassem sobre o seio a criatura de seu sangue, o filho de sua vida, a esperança de 
suas esperanças? 
— Oh! e não tereis vós também dó de mim? não sabei-lo? isto é infame! sou uma pobre 
mulher. De joelhos eu vos peco perdão se vos ofendi.... Eu vo-lo peço, deixai-me! que me 
importam vossos sonhos, vosso amor! 
Doía-me profundamente aquela dor: aquelas lágrimas me queimavam. Mas minha vontade 
fez-se rija e férrea como a fatalidade. 


24
— Que te importam meus sonhos, que te importam meus amores? Sim, tens razão! Que 
importa à água do deserto e à gazela do areal que o árabe tenha sede ou que o leão tenha fome? 
Mas a sede e a fome são fatais. O amor é como eles:— entendes-me agora? 
— Matai-me então! Não tereis um punhal! Uma punhalada pelo amor de Deus! Eu juro, eu 
vos abençoarei... 
— Morrer! e pensas no morrer! Insensata! Descer do leito morno do amor à pedra fria dos mortos! Nem sabes 
o que dizes. Sabes o que é essa palavra — morrer? É a duvida que afana a existência, é a duvida, o pressentimento 
que resfria a fronte do suicida, que lhe passa nos cabelos como um vento de inverno, e nos empalidece a cabeça 
como Hamlet! Morrer! é a cessação de todos os sonhos, de todas as palpitações do peito, de todas as esperanças! É 
estar peito a peito com nossos antigos amores e não senti-los! Doida! é um noivado medonho o do verme, um lençol 
bem negro o da mortalha! Não fales nisso: por que lembrar o coveiro junto ao leito da vida? Põe a mão no teu 
coração... bate... e bate com força, como o feto nas entranhas de sua mãe. Há aí dentro muita vida ainda, muito amor 
por amar, muito fogo por viver! Oh! se tu me quisesses amar! 
Ela escondeu a cabeça nas mãos e soluçou. 
— É impossível, eu não posso amar-vos! 
Eu disse-lhe: 
—Eleonora, ouve-me, deixo-te só, velarei contudo sobre ti daquela porta. Resolve-te, seja 
uma decisão firme sim, mas pensada. Lembra-te que hoje não poderás voltar ao mundo: o duque 
Maffio seria o primeiro que fugiria de ti, a torpeza do adultério senti-la-ia ele nas tuas faces, 
creria roçar na tua boca a umidade de um beijo de estranho. E ele te amaldiçoaria! Vê: além a 
maldição e o escárnio, a irrisão das outras mulheres, a zombaria vingativa daqueles que te 
amaram e que não amaste. Quando entrares, dir-se-a: hei-la! arrependeu-se! o marido... pobre 
dele! perdoou-a... As mães te esconderão suas filhas, as esposas honestas terão pejo de tocar-te... 
E aqui, Eleonora, aqui terás meu peito e meu amor, uma vida só para ti, um homem que só 
pensará em ti e sonhará sempre contigo, um homem cujo mundo serás tu, serão teus risos, teus 
olhares, teus amores: que se esquecerá de ontem e de amanhã para fazer, como um Deus, de ti a 
sua Eternidade. Pensa, Eleonora! se quisesses, partiríamos hoje; uma vida de venturas nos espera. 
Sou muito rico, bastante para adornar-te como uma rainha. Correremos a Europa, iremos ver a 
Franca com seu luxo, a Espanha, onde o clima convida ao amor, onde as tardes se embalsamam 
nos laranjais em flor, onde as campinas se aveludam e se matizam de mil flores, iremos à Itália, à 
tua pátria e, no teu céu azul, nas tuas noites límpidas, nos teus crepúsculos suavíssimos viver de 
novo ao sol meridional!… Se quiseres… Senão seria horrível… não sei o que aconteceria: mas 
quem entrasse neste quarto levaria os pés ensopados de sangue… 
Sai: duas horas depois voltei. 
— Pensaste, Eleonora?
Ela não respondeu. Estava deitada com o rosto entre as mãos. À minha voz ergueu-se. 
Havia um papel molhado de sues lágrimas sobre o leito. Estendi a mão para tome-lo, ela 
entregou-mo.
Eram uns versos meus. Olhei para a mesa, minha carteira de viagem, que eu trouxera do 
carro, estava aberta, os papéis eram revoltos. Os versos eram estes.
Claudius tirou do bolso um papel amarelado e amarrotado, atirou-o na mesa. Johann leu: 
Não me odeies, mulher, se no passado 
Nódoa sombria desbotou-me a vida, 
— É que os lábios queimei no vício ardente 
E de tudo descri com fronte erguida. 
A masc'ra de Don Juan queimou-me o rosto 
Na fria palidez do libertino: 


25
Desbotou-me esse olhar... e os lábios frios 
Ousam de maldizer do meu destino. 
Sim! longas noites no fervor do jogo 
Esperdicei febril e macilento 
E votei o porvir ao Deus do acaso 
E o amor profanei no esquecimento! 
Murchei no escárnio as coroas do poeta, 
Na ironia da glória e dos amores: 
Aos vapores do vinho, a noite insano 
Debrucei-me do jogo nos fervores! 
A flor da mocidade profanei-a 
Entre as águas lodosas do passado... 
No crânio a febre, a palidez nas faces, 
Só cria no sepulcro sossegado! 
E asas límpidas do anjo em colo impuro 
Mareei nos bafos da mulher vendida, 
Inda nos lábios me roxeia o selo 
Dos ósculos da perdida. 
E a mirra das canções nem mais vapora 
Em profanada taça eivada e negra: 
Mar de lodo passou-me ao rio d'alma, 
As níveas flores me estalou das bordas. 
Sonho de glórias!... só me passa a furto, 
Qual flor aberta a medo em chão de tumbas 
— Abatida e sem cheiro... 
O meu amor… o peito o silencia: 
Guardo-o bem fundo em sombras do sacrário. 
Onde ervaçal não se abastou nos ermos. 
Meu amor... foi visão de roupas brancas 
Da orgia à porta, fria e soluçando, 
Lâmpada santa erguida em leito infame, 
Vaso templário da taverna à mesa, 
Estrela d'alva refletindo pálida 
No tremedal do crime. 
Como o leproso das cidades velhas 
Sei me fugiras com horror aos beijos. 
Sei, no doido viver dos loucos anos 
As crenças desflorei em negra insânia... 
— Vestal, prostitui as formas virgens, 
Lancei eu próprio ao mar da c'roa as folhas, 
Troquei a rósea túnica da infância 


26
Pelo manto das orgias. 
Oh! não me ames sequer! Pois bem! um dia 
Talvez diga o Senhor ao podre Lázaro: 
Ergue-te aí do lupanar da morte, 
Revive ao fresco do viver mais puro! 
E viverei de novo: a mariposa 
Sacode as asas, estremece-as, brilha, 
Despindo a negra tez, a bava imunda 
Da larva desbotada. 
Então, mulher , acordarei do lodo, 
Onde Satã se pernoitou comigo, 
Onde inda morno perfumou seu molde 
Cetinosa nudez de formas níveas. 
E a loira meretriz nos seios brancos 
Deitou-me a fronte lívida, na insônia 
Quedou-me a febre da volúpia à sede 
Sobre os beijos vendidos. 
E então acordarei ao sol mais puro
Cheirosa a fronte às auras da esperança! 
Lavarei-me da fé nas águas d'oiro 
De Magdalena em lágrimas!... e ao anjo 
Talvez que Deus me de, curvado e mudo, 
Nos eflúvios do amor libar um beijo, 
Morrer nos lábios dele! 
Ela calou-se: chorava e gemia.
Acerquei-me dela, ajoelhei-me como ante Deus. 
— Eleonora, sim ou não? 
Ela voltou o rosto para o outro lado, quis falar... interrompia-se a cada sílaba. 
— Esperai, deixai que ore um pouco, a Madona talvez me perdoe. 
Esperava eu sempre. — Ela ajoelhou-se. 
— Agora... disse ela erguendo-se e me estendendo a sua mão. 
— Então? 
— Irei contigo. 
E desmaiou. 
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Aqui parou a historia de Claudius Hermann. 
Ele abaixou a cabeça na mesa, não falou mais. 
— Dormes, Claudius? Por Deus! ou esta bêbedo ou morto! 
Era Archibald que o interpelava: sacudia-o a toda a força. 
Claudius levantou um pouco a cabeça, estava macilento, tinha os olhos fundos numa 
sombra negra. 
— Deixai-me, amaldiçoados! deixai-me pelo céu ou pelo inferno! não vedes que tenho 
sono... sono e muito sono? 
— E a história, a historia? bradou Solfieri. 


27
— E a duquesa Eleonora? perguntou Archibald. 
— É verdade... a história. Parece-me que olvidei tudo isso. Parece que foi um sonho! 
— E a Duquesa? 
— A Duquesa?... Parece-me que ouvi esse nome alguma vez... Com os diabos, que me 
importa? 
Aí quis prosseguir, mas uma forca invencível o prendia. 
— A Duquesa… é verdade! Mas como esqueci tudo isso que não me lembro!… Tirai-me 
da cabeça esse peso… Bofé que encheram-me o crânio de chumbo derretido!…e ele batia na 
cabeça macilenta como um médico no peito do agonizante para encontrar um eco de vida. 
— Então? 
— Ah! ah! ah! gargalhou alguém que tinha ficado estranho a conversa. 
— Arnold ! cala-te! 
— Cala-te antes, Solfieri! eu contarei o fim da história. 
Era Arnold — o louro, que acordava. 
— Escutai vos todos, disse:
— Um dia Claudius entrou em casa. Encontrou o leito ensopado de sangue e num recanto 
escuro da alcova um doido abraçado com um cadáver. O cadáver era o de Eleonora, o doido nem 
o pudéreis conhecer tanto a agonia o desfigurara! Era uma cabeça hirta e desgrenhada, uma tez 
esverdeada, uns olhos fundos e baços onde o lume da insânia cintilava a furto, como a emanação 
luminosa dos pauis entre as trevas… 
Mas ele o conheceu... — era o Duque Maffio… 
Claudius soltou uma gargalhada. — Era sombria como a insânia, fria como a espada do 
anjo das trevas. Caiu ao chão, lívido e suarento como a agonia, inteiriçado como a morte... 
Estava ébrio como o defunto patriarca Noé, o primeiro amante da vinha, virgem 
desconhecida, até então e hoje prostituta de todas as bocas… ébrio como Noé, o primeiro 
borracho de que reza a história! Dormia pesado e fundo como o apóstolo S. Pedro no Horto das 
Oliveiras… O caso é que ambos tinham ceado à noite... 
Arnold estendeu a capa no chão e deitou-se sobre ela. 
Daí a alguns instances as seus roncos de barítono se mesclavam ao magno concerto dos 
roncos dos dormidos… 

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