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#24265
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Handebol 2022 JM JF
II 
 
SOLFIERI 
 
...Yet one kiss on your pale clay 
And those lips once so warm — my heart! my heart! 
Cain. Byron 
— Sabei-lo. Roma é a cidade do fanatismo e da perdição: na alcova do sacerdote dorme a 
gosto a amásia, no leito da vendida se pendura o Crucifixo lívido. É um requintar de gozo 
blasfemo que mescla o sacrilégio à convulsão do amor, o beijo lascivo à embriaguez da crença! 
— Era em Roma. Uma noite a lua ia bela como vai ela no verão pôr aquele céu morno, o 
fresco das águas se exalava como um suspiro do leito do Tibre. A noite ia bela. Eu passeava a sós 
pela ponte de... As luzes se apagaram uma por uma nos palácios, as ruas se fazias ermas, e a lua 
de sonolenta se escondia no leito de nuvens. Uma sombra de mulher apareceu numa janela 
solitária e escura. Era uma forma branca. — A face daquela mulher era como a de uma estátua 
pálida à lua. Pelas faces dela, como gotas de uma taça caída, rolavam fios de lágrimas. 
Eu me encostei a aresta de um palácio. A visão desapareceu no escuro da janela... e daí um 
canto se derramava. Não era só uma voz melodiosa: havia naquele cantar um como choro de 
frenesi, um como gemer de insânia: aquela voz era sombria como a do vento a noite nos 
cemitérios cantando a nênia das flores murchas da morte. 
Depois o canto calou-se. A mulher apareceu na porta. Parecia espreitar se havia alguém nas 
ruas. Não viu a ninguém: saiu. Eu segui-a. 
A noite ia cada vez mais alta: a lua sumira-se no céu, e a chuva caía as gotas pesadas: 
apenas eu sentia nas faces caírem-me grossas lágrimas de água, como sobre um túmulo prantos 
de órfão. 
Andamos longo tempo pelo labirinto das ruas: enfim ela parou: estávamos num campo. 


4
Aqui, ali, além eram cruzes que se erguiam de entre o ervaçal. Ela ajoelhou-se. Parecia 
soluçar: em torno dela passavam as aves da noite. 
Não sei se adormeci: sei apenas que quando amanheceu achei-me a sós no cemitério. 
Contudo a criatura pálida não fora uma ilusão: as urzes, as cicutas do campo-santo estavam 
quebradas junto a uma cruz. 
O frio da noite, aquele sono dormido à chuva, causaram-me uma febre. No meu delírio 
passava e repassava aquela brancura de mulher, gemiam aqueles soluços e todo aquele devaneio 
se perdia num canto suavíssimo... 
Um ano depois voltei a Roma. Nos beijos das mulheres nada me saciava: no sono da 
saciedade me vinha aquela visão... 
Uma noite, e após uma orgia, eu deixara dormida no leito dela a condessa Bárbara. Dei um 
último olhar àquela forma nua e adormecida com a febre nas faces e a lascívia nos lábios úmidos, 
gemendo ainda nos sonhos como na agonia voluptuosa do amor. Saí. Não sei se a noite era 
límpida ou negra; sei apenas que a cabeça me escaldava de embriaguez. As taças tinham ficado 
vazias na mesa: nos lábios daquela criatura eu bebera até a última gota o vinho do deleite... 
Quando dei acordo de mim estava num lugar escuro: as estrelas passavam seus raios 
brancos entre as vidraças de um templo. As luzes de quatro círios batiam num caixão entreaberto. 
Abri-o: era o de uma moça. Aquele branco da mortalha, as grinaldas da morte na fronte dela, 
naquela tez lívida e embaçada, o vidrento dos olhos mal apertados... Era uma defunta! ... e 
aqueles traços todos me lembraram uma idéia perdida. . — Era o anjo do cemitério? Cerrei as 
portas da igreja, que, ignoro por que, eu achara abertas. Tomei o cadáver nos meus braços para 
fora do caixão. Pesava como chumbo... 
Sabeis a historia de Maria Stuart degolada e o algoz, "do cadáver sem cabeça e o homem sem coração" como 
a conta Brantôme? — Foi uma idéia singular a que eu tive. Tomei-a no colo. Preguei-lhe mil beijos nos lábios. Ela 
era bela assim: rasguei-lhe o sudário, despi-lhe o véu e a capela como o noivo as despe a noiva. Era mesmo uma 
estátua: tão branca era ela. A luz dos tocheiros dava-lhe aquela palidez de âmbar que lustra os mármores antigos. O 
gozo foi fervoroso — cevei em perdição aquela vigília. A madrugada passava já frouxa nas janelas. Àquele calor de 
meu peito, à febre de meus lábios, à convulsão de meu amor, a donzela pálida parecia reanimar-se. Súbito abriu os 
olhos empanados. Luz sombria alumiou-os como a de uma estrela entre névoa, apertou-me em seus braços, um 
suspiro ondeou-lhe nos beiços azulados... Não era já a morte: era um desmaio. No aperto daquele abraço havia 
contudo alguma coisa de horrível. O leito de lájea onde eu passara uma hora de embriaguez me resfriava. Pude a 
custo soltar-me daquele aperto do peito dela... Nesse instante ela acordou… 
Nunca ouvistes falar da catalepsia? É um pesadelo horrível aquele que gira ao acordado que emparedam num 
sepulcro; sonho gelado em que sentem-se os membros tolhidos, e as faces banhadas de lágrimas alheias sem poder 
revelar a vida! 
A moça revivia a pouco e pouco. Ao acordar desmaiara. Embucei-me na capa e tomei-a nos 
braços coberta com seu sudário como uma criança. Ao aproximar-me da porta topei num corpo; 
abaixei-me, olhei: era algum coveiro do cemitério da igreja que aí dormira de ébrio, esquecido de 
fechar a porta . 
Saí. Ao passar a praça encontrei uma patrulha.
— Que levas aí? 
A noite era muito alta: talvez me cressem um ladrão. 
— É minha mulher que vai desmaiada... 
— Uma mulher!... Mas essa roupa branca e longa? Serás acaso roubador de cadáveres? 
Um guarda aproximou-se. Tocou-lhe a fronte: era fria. 
— É uma defunta... 
Cheguei meus lábios aos dela. Senti um bafejo morno. — Era a vida ainda. 
— Vede, disse eu. 
O guarda chegou-lhe os lábios: os beiços ásperos roçaram pelos da moça. Se eu sentisse o 
estalar de um beijo... o punhal já estava nu em minhas mãos frias... 


5
— Boa noite, moço: podes seguir, disse ele. 
Caminhei. — Estava cansado. Custava a carregar o meu fardo; e eu sentia que a moça ia 
despertar. Temeroso de que ouvissem-na gritar e acudissem, corri com mais esforço. 
Quando eu passei a porta ela acordou. O primeiro som que lhe saiu da boca foi um grito de 
medo... 
Mal eu fechara a porta, bateram nela. Era um bando de libertinos meus companheiros que 
voltavam da orgia. Reclamaram que abrisse. 
Fechei a moça no meu quarto, e abri. 
Meia hora depois eu os deixava na sala bebendo ainda. A turvação da embriaguez fez que 
não notassem minha ausência.
Quando entrei no quarto da moça vi-a erguida. Ria de um rir convulso como a insânia, e 
frio como a folha de uma espada. Trespassava de dor o ouvi-la. 
Dois dias e duas noites levou ela de febre assim... Não houve como sanar-lhe aquele delírio, 
nem o rir do frenesi. Morreu depois de duas noites e dois dias de delírio. 
A noite saí; fui ter com um estatuário que trabalhava perfeitamente em cera, e paguei-lhe 
uma estátua dessa virgem. 
Quando o escultor saiu, levantei os tijolos de mármore do meu quarto, e com as mãos cavei 
aí um túmulo. Tomei-a então pela última vez nos braços, apertei-a a meu peito muda e fria, 
beijei-a e cobri-a adormecida do sono eterno com o lençol de seu leito. Fechei-a no seu túmulo e 
estendi meu leito sobre ele. 
Um ano — noite a noite — dormi sobre as lajes que a cobriam. Um dia o estatuário me 
trouxe a sua obra. Paguei-lha e paguei o segredo... 
— Não te lembras, Bertram, de uma forma branca de mulher que entreviste pelo véu do 
meu cortinado? Não te lembras que eu te respondi que era uma virgem que dormia? 
— E quem era essa mulher, Solfieri? 
— Quem era? seu nome? 
— Quem se importa com uma palavra quando sente que o vinho lhe queima assaz os 
lábios? quem pergunta o nome da prostituta com quem dormia e que sentiu morrer a seus beijos, 
quando nem há dele mister por escrever-lho na lousa? 
Solfieri encheu uma taça e bebeu-a. Ia erguer-se da mesa quando um dos convivas tomou-o 
pelo braço. 
— Solfieri, não é um conto isso tudo? 
— Pelo inferno que não! por meu pai que era conde e bandido, por minha mãe que era a 
bela Messalina das ruas, pela perdição que não! Desde que eu próprio calquei aquela mulher com 
meus pés na sua cova de terra, eu vô-lo juro — guardei-lhe como amuleto a capela de defunta. 
Hei-la! 
Abriu a camisa, e viram-lhe ao pescoço uma grinalda de flores mirradas. 
—Vede-la murcha e seca como o crânio dela! 

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