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#26188
Missa do galo


Missa do galo
Para Machado de Assis e demais 
autores de variações sobre esse conto.
Para Vera Tietzmann Silva, estudiosa 
do assunto. 
Lembro-me bem daquela noite de 2004. Eu trinta e cinco, ele dezessete anos. 
Natal. Nogueira combinara com seu colega de cursinho ir à missa do galo na Catedral 
Metropolitana, a fim de resgatar lembranças da infância em Catalão, rever Carolina, 
irmã desse colega, e cantar o nascer do sol no mundo dos adultos de verdade. 
Quem é Nogueira? Sobrinho de meu então marido; um menino simpático que 
viera do interior para prestar vestibular e ficara morando conosco provisoriamente. 
Nossa casa é antiga, do começo de Goiânia. Está situada na Rua 24, centro, quase em 
frente do Instituto Cultural José Mendonça Teles. Antes éramos eu, Meneses, uma 
doméstica e minha avó. A velha casa dorme tarde, nossos costumes são modernos. 
Geralmente eu e Meneses nos recolhíamos em horários diferentes. Também tínhamos 
interesses diferentes. Talvez interesses diferentes fosse eufemismo para casamento 
aberto ou para equilíbrio entre nossas concessões. 
Eu me chamo Conceição. Mas me tratam de Imaculada. Esse cognome me deixa 
bastante desconsertada. Sou extravagante literata, tenho fronte de anjo decaído, sorriso 
ambivalente, de Mona Lisa, pretensos encantamentos de Cleópatra, temperamento 
exaltado e olhos secos para grandes lágrimas. Considero-me uma mulher que sabe o 
que quer, de atitudes nada passivas. Capaz de amar e odiar com a mesma intensidade. 
Comigo: bateu, levou. Não embaçarei a mim mesma, diante de uma plateia de 
lantejoulas. Você acha, querido leitor, que uma jovem senhora com esse perfil poderia 
atender por Imaculada? 
Meneses me viu de olho comprido para Nogueira. Mesmo assim viajou um dia 
antes do Natal para o Jalapão, com meu primo Aquiles, de Brasília. Para mim é 
conveniente acreditar em tudo que marido diz. E no que dizem seus amigos também. 
Por isso, nunca pude entender parte do diálogo que tivemos, quando ele observou: 
__ Você não sabe como lá é lindo, paradisíaco. Não há poluição do silêncio. A 
gente só ouve a voz da natureza. Qualquer dia você vai comigo para conhecer, quem 
sabe até pescar... Cortei-lhe a palavra: 
__ Não quero saber de deserto e areia, onde Judas perdeu as botas, deitando e 
rolando na sem-vergonhice. 
E, na noite seguinte, de Natal, voltei a trabalhar em meu livro de poemas, Quarta 
dimensão, com a intenção de lançá-lo na 1ª Bienal do Livro de Goiás, em abril de
2005. Minha avó Inácia controlava o remoto entre Roberto Carlos e Pe. Marcelo Rossi, 
quando perguntou: 
__ Nogueira, que fará você até à hora da missa? 
__ Ah... folheio aqui Moreninha, de Macedo, o primeiro romance brasileiro 
(1844), cheio de lances passageiros e bem massa, na onda de meninas sonhadoras e 
frangotes de primeira viagem ou ingênuos como eu. 
__ Um rapaz estudioso como você deve alimentar-se bem. Terá fome, ao 
avançarem as horas. E, virando-se para a copa, solicitou: 
__ Marinete, traga, por gentileza, fatias de peru, queijo e pão integral. E também 


um copo com suco de frutas para Nogueira. Não demorou muito e o lanche foi todo 
devorado. 
Eu, Conceição Imaculada, estava ébria de mim mesma, em quatro dimensões, 
quando bateram onze horas no relógio de parede, tão velho quanto a casa. 
Acompanhando o ritmo das badaladas, ouvi, no corredor que dá para a sala da frente, 
os passos do estudante que se enfastiara da leitura, de consultas à internet e vinha na 
minha direção. Já pronto: calças jeans, blusa de moletom de algodão na mesma cor, 
tênis. E o celular do qual não se separa nem no banheiro. Notei na proximidade que 
estava desligado. 
__ Quantas horas deram? perguntou-me ele, puxando conversa, caminhando para 
o sofá. 
__ Onze. Tenha paciência. Fique frio. Ainda é cedo. E a Catedral está mesmo ali, 
além do próximo quarteirão. 
Ao anoitecer, eu já havia inaugurado meu vestido branco de renda. Nas costas 
um decote mal apanhado que chegava à cintura. Como ainda não tive filhos, mantenho 
a forma e aquele ar ofuscante da atriz Maria Fernanda Cândido. Coloquei duas gotas de 
Chanel atrás da orelha direita e sentei-me do lado esquerdo de Nogueira, no canapé. 
__ A senhora vai sair? perguntou-me ele. Negar seria afirmar? perguntei para 
mim mesma. 
__ Não tenho certeza, ainda, respondi-lhe. 
Nogueira fitou-me com olhar duvidoso, observando cada polegada resoluta de meu 
corpo. O galo-romanisco cantou pela primeira vez. Estranhei. Não deveria cantar à 
meia-noite? 
__ Imaculada, deve estar chegando a hora. Meu colega Felipe logo buzina, disse 
ele, com ar quase implume. 
__ Fale baixo, mais baixo. Ainda faltam quarenta minutos. Não o espere sozinho. 
Há o perigo de almas do outro mundo, fantasmas do cerrado. Curupiras correndo atrás 
de quem bota fogo no campo e destroi árvores podem invadir a cidade na madrugada. 
__ Quando entrei na sala, assustei a senhora, tia? 
__ Que é isso, meu garoto? Mas ... o que mesmo você pesquisava na internet? Já 
sei, era sobre o romance Mongólia, de Bernardo Carvalho, um dos indicados para o 
vestibular deste ano. E acrescentei: 
__ Você conhece A carne, de Júlio Ribeiro? 
__ Ouvi de relance alguma coisa sobre esse livro, quando o professor falou do 
realismo/naturalismo no Brasil. 
__ Pois é ... por causa de preconceitos provincianos esse naturalismo, como o d
carne, foi ou é considerado imoral. Comentei, molhando os lábios e enfiando os olhos 
bem dentro dos de Nogueira. O estudante enrubesceu-se, sem tirar as vistas de mim e 
pareceu-me até bonito. 
O relógio acaba de bater onze e meia. E cada segundo é um instante definitivo, 
creio que para ele e para mim. 
__ D. Conceição, vou esperar meu colega lá fora, na calçada. A senhora parece 
ter programa para esta noite, não quero jogar areia no seu ventilador.
__ Não, meu rapaz, ainda é cedo. Ou conversa de coroa aborrece? 
__ Que coroa que nada, tia Conceição. A senhora está bem enxuta, com tudo em 
cima. O galo-romanisco cantou pela segunda vez, supondo espantar demônios e 
serpentes da noite. 
Levantei-me sobre saltos de sandálias Gucci bordadas com cristais e, 
bamboleantemente, atravessei a sala. Postei-me junto à janela que dá para a rua, 
esbocei-lhe leve sorriso e deixei meus cabelos cobrirem metade do rosto. Acariciei 


alguns objetos e beijei fotos que ornavam o aparador. Voltei por outro ângulo e 
posicionei-me diante do espelho, com Nogueira de permeio, me comendo com os 
olhos. Passei as mãos pelas ancas, virei-me para a esquerda, para a direita. Olhei o 
decote atrás. Que vivência teria esse garoto? Seria virgem? Será que nunca ouvira 
missa do galo? Poderia perder essa? Vi que o vidro me refletia textualmente: de dentro 
para fora, de fora para dentro, eu mesma, sem solidão, transbordando sentimentos. 
__ Nogueira, todas as missas são iguais. 
__ Concordo, mas na Capital e na Catedral Metropolitana deve ser bem maneira, 
mais light que no interior, não? 
Pouco a pouco, sem querer mas querendo, fui me inclinando em sua direção, 
deixando à mostra meia taça de seios em cada lado do decote. E pude ver suas veias 
azuis delinearem mais claramente, intumescerem-se nos pulsos e palavras sem muito 
sentido saírem de sua boca, emendando assunto. Tinha olhos penetrantes e o nariz 
curvo, como se fizesse perguntas sem respostas. Nogueira se atrapalhava nos gestos, 
fechava o semblante e isso me enchia de gozo. 
__ Fale mais baixo, vovó já se recolheu e pode acordar. Sussurrei-lhe aos 
ouvidos, cruzando as pernas caprichadamente, mas sem vulgaridade. E continuei, 
tocando-lhe no braço: 
__ O quarto dela é longe, porém ela tem o sono leve e pode aparecer a qualquer 
momento. Diz que dormir é morrer; quer ficar bem viva e acordada o maior tempo 
possível. 
O livro de Honoré de Balzac A mulher abandonada e outros contos, estava sobre 
a mesa de mármore. Apontei-o para Nogueira: 
__ Gosta de contos? A falta de tempo nos empurra para narrativas curtas. Porém 
o conto que dá título a essa obra é longo, quase uma novela. Você já leu Balzac? 
__ Tô por fora, nunca ouvi falar sobre esse autor. É brasileiro? 
__ Não, é francês, do século XIX. Seu vasto painel literário está nA comédia 
humana. Ele se inspirava nos costumes parisienses da época e em pessoas da vida real. 
Coincidentemente nossas mãos se tocaram ao pegar A mulher abandonada sobre a 
mesa. Olhei para Nogueira com olhos pedintes, teimosos em não arredar de sua boca 
trêmula. 
__ Nossa! desliguei-me da hora e da missa, disse-me ele. 
__ Mais baixo, cochichando... Sussurrei-lhe, quase encostando os lábios no 
lóbulo de sua orelha esquerda. As pausas, os silêncios pareciam gritar para nos 
confundir as impressões. E não se espante, querida leitora, não mudarei de rumo. Nesse 
momento Nogueira, que era apenas simpático, transformara-se em Thiago Lacerda. Um 
cheiro quente de jambo maduro saiu de sua boca, meu coração bateu na garganta. 
Tremi de frio e calafrio, arrepiei-me toda e me recostei sobre seus ombros. Meu Deus! 
de onde vem o que sinto? Perguntei-me. O galo-romanisco cantou pela terceira vez. 
Meus olhos deslocaram-se para Meneses abraçado comigo, numa foto que 
pendia da parede em frente. Olhei para Nogueira com olhos compridos:
__ Esse pôster está ficando velho, manchado. 
__ É muito bonito, respondeu-me. E a senhora, minha tia, está com cara de santa 
nessa foto. Meu tio é que usa Jalapão como eufemismo para suas puladas de cerca. 
Uma voz ecoou lá fora: 
__ Nogueira, a missa do galo, do galo, do galo. Era Felipe no jardim da entrada. 
Ao se retirarem, me deram adeus com as mãos. 
__ Está levando a terceira chave? perguntei a Nogueira. 
__ Claro, tia. De manhã a gente se fala. 
O viúvo Rubião, nosso vizinho, com quem me casaria em segundas núpcias, em 


maio de 2005, chegou logo em seguida para levar-me ao Castro’s Park Hotel: Castro’s
Gold. Meneses falecera em acidente de carro na Rodovia Belém-Brasília, sobre ervas 
daninhas e pedregulhos, ao retornar das festas de Ano Novo (2005). Sabe quem morreu 
com ele? Rita Nava, olhos de espasmo (Gostaria de dizer outra palavra que rima com 
essa) e odor di femina, incorporados aos jogos de serpente. Informaram-me, no funeral,
que tinham um caso com rabiscos e contornos mais antigos que os desenhos rupestres 
do Piauí.
A virtude é lenta, preguiçosa, cheia de confiança. Não pega no pé. O prazer e a 
astúcia costumam ser mais rápidos, tensos ou dissimulados. Não era Rita quase uma 
filha para mim? Porém... há mais coisas no céu e na terra do que supomos em nossa 
rasa filosofia, não é Shakespeare? Nava fingia não querer querendo. E Meneses ficou 
ali, rondando sua casa , em seu dom-juanismo de raposa- macho. Na cola do objeto de 
desejo, babando,vendo se dava liga. Deu tanta que morreram juntos, no mesmo 
suspiro. Informaram-me no funeral. 
Agora o morto desdenha de mim, com sua capa de liberdade e sua franqueza de 
defunto. E tem plateia do lado de cá para aplaudi-lo. Parece que são mais de onze 
amigos. Parecer é coerente com a realidade de ser ? Graças a Deus esse homem não 
deixou filhos, não transmitiu a nenhuma criatura o legado das contradições e das 
safadezas humanas. 
Nogueira ainda fica com Carolina, irmã de Felipe, mas me visita, telefona e 
passa e-mails regularmente. Nos finais de semana ele (Nogueira) e eu viajamos numa 
van com nossa tribo fissurada por baladas. Pirenópolis, Piracanjuba, São Luís dos 
Montes Belos, ou cidades mais próximas de Goiânia. Rodopiamos até raiar o dia. 
Eu-narradora fecho a cortina da sala na primeira pessoa, dizendo que Rubião 
não é pobre nem louco. Fica me esperando. É um santo esse segundo marido! 
 
 
www.erciliamacedo.com.br
 
*Ercília Macedo-Eckel é membro da Academia 
Feminina de Letras e Artes de Goiás, sócia da 
União Brasileira de Escritores – GO e da 
Academia Petropolitana de Letras – RJ. Mestra 
em Letras e Linguística pela UFG. 

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