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A “questão bancária” na "guerra interna": um projeto para



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A “questão bancária” na "guerra interna": um projeto para 

"meia dúzia de homens" 

 

 

Na véspera da aprovação do voto de graças no senado, o 

ministro da Agricultura, Paula Sousa, apresentou na Câmara um 

projeto referente à questão bancária oposto ao que apresentara 

o ministro da fazenda, em abril, mas que ficou sem 

encaminhamento por conta da oposição de seus próprios 

correligionários, liderados por Tavares Bastos. O novo projeto 

elevava a emissão do Banco do Brasil até 8.000:000$000 (oito mil 

contos de réis) além do triplo do fundo disponível, e autorizava a 

emissão de até 4.000:000$000 (quatro mil contos de réis) em 

notas do tesouro dos valores de 1$000 (um mil réis), 2$000 (dois 

mil réis), 5$000 (cinco mil réis) e 10$000 (dez mil réis).

31

  

Esse projeto foi duramente combatido por liberais e 



conservadores,  na Câmara. E Paula Sousa admitiu a verdade da 

insinuação do conservador Junqueira, de que atenderia 

interesses particulares, de “meia dúzia de homens”, existentes 

na praça de comércio

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, dizendo que se tratava de “interesses 



muito legítimos”, de casas bancárias (entre as quais o banco 

Inglês) em dificuldades, por terem sido atingidas pela 

repercussão de uma crise que então acontecia na Europa, mas 

que até aquele momento tinham tido uma atuação muito 

regular.

33

  



O governo precisaria, de qualquer modo, segundo o 

ministro, fazer o redesconto de seus bilhetes, para “socorrer a 

praça em apuros”. Objeto de discussão poderia existir apenas na 

fonte da emissão, se o governo ou o banco, optando o ministro 

por esta última opção, em virtude de que a existência de um 

prazo para a sua conversibilidade a tornaria mais confiável.

34

 

A oposição liberal, na voz de Franco de Almeida,



35

 se opõe 

à emissão bancária, propondo que o governo redesconte os seus 

bilhetes com emissão própria,  preferível à do banco, segundo o 

deputado, porque a garantia do banco, lembrada pelo ministro, 

no fundo, seria o próprio governo.

36

 O deputado chega a enviar à 




EIDE SANDRA AZEVEDO ABREU 

                                                        

HISTÓRIA, São Paulo, 28 (2): 2009 

806 


mesa da Câmara uma emenda, autorizando o tesouro a emitir 

16.000:000$000 (dezesseis mil contos de réis) em notas para 

resgatar os seus bilhetes existentes na praça e no banco do 

Brasil.


37

 

Enquanto na Câmara o ministro da Agricultura, apoiado 



por uma atuação favorável de Tavares Bastos, defendia, em 13 

de junho, os “interesses legítimos muito especiais”

38

 de 


banqueiros particulares, que seriam favorecidos pelo projeto que 

pôs em discussão, e que recebeu a oposição intransigente de 

Franco de Almeida,

 39


   no Jornal do Commercio de 13 de junho 

também era muito atuante a oposição contra o projeto, que mais 

tarde viria a ser apontado como tendo sido sugerido ao governo 

por uma fração do próprio comércio

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 (26 de junho), ou mesmo 



"ditado" pelos “devedores do banco”. Em 15 de julho, 

“Comerciantes” assinam um artigo com esta última 

interpretação, monstrando-se indignados com o projeto Paula 

Sousa: 


 

 

Casos extraordinários estão sucedendo na nossa praça e nunca 



vistos em país algum. São hoje em dia os devedores do banco 

que lhe querem ditar a lei; forte desgraça! Vê-se por todas as 

ruas e praças gritarem contra o Sr. Ministro da fazenda, e 

também contra o Sr. de Jequitinhonha, e por quê? Por estes 

inteligentes funcionários quererem fazer benefícios ao país, e não 

se continuar a dar o dinheiro do estabelecimento a homens que 

estão completamente perdidos.

41

  



 

Quando o projeto ainda estava sendo debatido na Câmara, 

em 13 de junho,  alguém com o pseudônimo que está difícil de 

ler no microfilme do jornal, mas parece ser B. G., publicou um 

artigo intitulado “O povo e o governo”, em que afirma que a 

proposta de Paula Sousa significava uma “iniqüidade que não 

tem qualificação”, pois contemplava medidas propostas pela 

praça do Comércio, e viria a favorecer bancos e banqueiros, e 

“classes” já “privilegiadas”, ao mesmo tempo em que 



 OS “ABUTRES” NA TURBULÊNCIA DAS “ÁGUIAS”:... 

HISTÓRIA, São Paulo, 28 (2): 2009 

807 

prejudicaria a “maioria do povo”, que sofreria com a 



desvalorização das notas:  

 

 



Eu e como eu centenas de milhares de brasileiros, a imensa 

maioria da nação, tenho um rendimento certo e invariável, devido 

ao meu trabalho. A quebra de todos os bancos, banqueiros, de 

300 ou 400 comerciantes, de 100 ou 15000 lavradores não me 

daria, como à imensa maioria do povo, o menor prejuízo; por que 

[ilegível] obrigar a contribuir para que eles continuem a 

enriquecer e gozar as delícias da vida, fazendo-nos pagar mais 

caro tudo quanto precisamos comprar com os nossos 

vencimentos fixos? 

 

O autor finaliza o texto defendendo a emissão por parte do 



governo, que implicaria uma distribuição mais eqüitativa do 

prejuízo: 

 

 

Se o governo precisa de fundos para continuar a guerra, emita 



notas suas; será um empréstimo forçado, um imposto a que todo 

o Brasileiro se sujeitará [ilegível] queixar-se porque será 

distribuído com [?] e cada um contribuirá na razão das suas 

despesas.

42

 

 



No mesmo dia, “um pobre” argumenta de modo parecido: 

 

 



O que não queremos é uma emissão para, à custa dos pobres, de 

que fazemos parte, refazer a fortuna esbanjada dos perdulários 

da praça, fortuna que, à custa da sociedade e sem trabalho 

produtivo pelo país, já haviam adquirido por meio da agiotagem e 

da usura.

43

 



 

Um terceiro artigo prevê futura encampação, e a 

“bancarrota geral”: 

 

 




EIDE SANDRA AZEVEDO ABREU 

                                                        

HISTÓRIA, São Paulo, 28 (2): 2009 

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Se o tesouro necessita de dinheiro, faça o governo uma emissão, 

e não dê ao banco faculdade de emitir. Esta faculdade é o 

prelúdio de uma futura encampação [?]. 

Dizem alguns: é preciso salvar a praça. Isto é um erro.  

Em 1864 quis-se salvar a praça, e ficou ela em piores 

circunstâncias; entretanto o banco passou do duplo ao triplo da 

emissão.  

O banco agora emitirá 10.000.000$ para salvar a praça, que ficará 

mais endividada, em 1867 emitirá 20.000.000$000 para o mesmo 

fim; em 1868 uns 30.000.000$000 e assim por diante, até a praça 

arrebentar com o banco do Brasil, acarretando consigo a 

bancarrota geral, a ruína do país e de todos.

44

 

 



Havia um conflito entre acionistas e diretores do banco, 

como sinaliza o artigo “Banco do Brasil”, do “Cosmopolita”, em 

10 de junho de 1866. Propõe a mudança da diretoria, com a 

aquisição de diretores “com bom senso e conhecedores da 

praça”,  para que o banco volte “ao seu antigo estado”. Na 

exposição dos seus argumentos, o autor nos permite divisar 

conflitos que opunham inclusive a presidência do banco aos 

seus diretores: 

 

 

A atual diretoria não preenche tais condições, isto não é 



novidade para o público, porque está no conhecimento de todos. 

Os acionistas gritam contra a diretoria, o comércio sensato 

acompanha-os, e só os únicos que desejam sua conservação são 

aqueles que andam embrulhados em grande papelório, e que nos 

tem levado a este estado de coisas... 

Outra diretoria que não fosse esta, quando o presidente não quis 

assinar a ata e retirou-se, pediria imediatamente a sua demissão; 

mas aquilo é rendoso, e não há nada que os faça deixar os 

lugares, salvo se todos os acionistas se reunissem e os pusessem 

fora do estabelecimento, mesmo assim haviam de se agarrar de 

tal forma que com dificuldade sairiam.  

(...) 


De que servem reuniões, se nelas não se discute senão os 

interesses, sofra quem sofrer, porém que a bolsa fique cheia! 



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