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Um gabinete em apuros 

 

 

Em 29 de junho de 1866, o jornal Correio Mercantil publicou 

um texto muito revelador, assinado com o pseudônimo Yanke, 

em que o autor oculto assinala uma dura situação vivenciada 

pelo gabinete Olinda, empossado em 12 de maio de 1865, e que 

esteve sempre cindido por grandes divergências. Era mais um 

dos gabinetes da liga progressista, iniciada no começo da 

década, entre conservadores moderados e liberais, e que sempre 

se viu marcada por uma dificuldade muito grande de 

solidificação. Divergências entre antigos conservadores e 

liberais, e também entre grupos diferentes dos próprios ex-

conservadores, minavam a possibilidade de uma coligação que 

fosse estável. 

O ministério presidido por Olinda foi denominado “o 

gabinete das águias”, segundo Joaquim Nabuco porque 

continha em sua formação quatro ex-presidentes de conselho: 

Olinda

4

 (presidente do conselho e ministro do Império), Ferraz



5

 

(Guerra), Nabuco de Araújo



6

 (Justiça) e Saraiva

7

 (Marinha, 



substituído em 27 de junho por Silveira Lobo). Além deles, 


EIDE SANDRA AZEVEDO ABREU 

                                                        

HISTÓRIA, São Paulo, 28 (2): 2009 

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compunham o ministério Dias de Carvalho

8

 (Fazenda, 



substituído em março de 1866 por Carrão

9

), Otaviano



10

 (nomeado 

para a pasta de Estrangeiros, mas declinou, sendo substituído 

por Saraiva) e Paula Sousa

11

 (Agricultura).



 12

 

Apesar do ministério 



ter colocado como programa apenas a debelação da guerra, não 

se propondo a reformas políticas,

13

 não logrou ensejar a união 



entre as frações dissidentes da liga progressista. 

O texto do jornal acima mencionado tratava de uma 

circunstância em que a situação do gabinete tinha se agravado 

muito, o que se expressava no fato de que  sofria oposição do 

seu próprio líder na Câmara, Tavares Bastos, que se opunha 

veementemente à política bancária que o ministro da fazenda, 

Carrão, visava implementar. Haveria um desentendimento entre 

o gabinete e a própria maioria que o tinha sustentado, no que 

concernia a essa “questão momentosa”. O título do texto é “A 

maioria e o gabinete não se entendem”, e traz detalhes do 

debate da Câmara que a transcrição oficial das falas, publicada 

nos Anais, não fornece:  

 

 

As explicações que o Sr. Tavares Bastos deu na sessão de 27 



deste mês, em relação à proposta do Sr. Ministro da fazenda, e 

depois o discurso que proferiu em relação ao orçamento do 

mesmo ministro, provam que há aí alguma coisa de incoerente, 

há o que quer que seja que demonstra grandes desinteligências 

entre a maioria e o gabinete. 

O Sr. Tavares Bastos esteve sempre em oposição ao Sr. Carrão 

quanto às idéias bancárias e financeiras; e fazendo dessas 

desinteligências motivos de recusa das comissões que examinam 

a referida proposta, pronunciou-se por tal forma que indicou 

perfeito desacordo com o ministro.  

O que significa isto? 

É na maioria que está plantada a discórdia; e essa maioria assim 

apartada do gabinete nos pontos capitais da questão 

momentosa, está em condições de governar? 

Respondam os REGENERADORES do sistema representativo. 

No discurso que em referência ao orçamento da fazenda o Sr. 

Tavares Bastos proferiu em muitas ocasiões mortificou ao Sr. 



 OS “ABUTRES” NA TURBULÊNCIA DAS “ÁGUIAS”:... 

HISTÓRIA, São Paulo, 28 (2): 2009 

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Carrão, e a ponto de, diversas vezes, entender-se ao ouvido com 



o Sr. Saraiva; e quando o Sr. Tavares Bastos falando do senado 

disse que era necessário – reformá-lo – porque não aceitava as 

inovações dos projetos liberais de S. Ex., o Sr. Carrão franziu a 

testa e rosnou  - que inconveniência! 

O que significa isto? 

Ainda mais, quando o Sr. Tavares Bastos falava o Sr. Ministro da 

agricultura

 

[Paula Sousa] ria-se e conversava alto, de maneira a 



interromper o orador, o qual ZANGANDO-SE, pediu que o 

deixassem falar. O que respondeu o ministro ninguém ouviu, ou 

não ouvimos; ouvimos porém, o Sr. Tavares Bastos enraivecido 

dizer – é desaforo! 

Que cordialidade entre os ministros e um membro da maioria! 

O que haverá aí? 

- Será o despacho próximo do TOMBAMENTO dos 

PORTENTOSOS desta situação MILAGROSA, em que os 

convertidos se preparam a novos ares e a novos climas? 

DICANT PADUANI. 

Não ficou nisto. Quando o Sr. Tavares Bastos justificava o seu 

projeto de liberdade de escravos, e tantas liberdades de 

palavras, o Sr. Carrão saiu, e foi ROSNANDO coisas que não 

entendemos. 

O que será isto? 

- Há coisas inexplicáveis às vezes... depois... depois todo mundo 

vem a saber. 

Entretanto, fala-se que o Sr. Tavares Bastos faz pressão no ânimo 

do Sr. Carrão para não satisfazer a um pedido do Sr. Senador 

Dantas;


14

 e como o negócio tem sido demorado, o Sr. Tavares 

Bastos está fazendo cócegas... 

........ Neste mundo há coisas ..... 

Sr. Carrão não se deixe lograr [?], faça justiça.

15

 



 

No dia seguinte, Tavares Bastos publica, no mesmo jornal, 

um artigo defendendo-se, e de modo a ocultar as divergências 

existentes na “situação”,  dizendo que o texto de Yanke era 

“falso”, e que não discursou para “hostilizar ao ministério”, mas 

sim com “a convicção formada no calmo estudo dos negócios”.

16

  

E obteve, em 1º de julho, uma defesa da sua atuação, por um 



autor de pseudônimo “um seu patrício”: 


EIDE SANDRA AZEVEDO ABREU 

                                                        

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Quem é que ignora as idéias do ilustre alagoano sobre finanças? 

S. Ex. é contra a tutela, e contra a degolação que se quer fazer às 

liberdades bancárias e das indústrias. Essas idéias S. Ex. não 

cede ao governo, pelo que o felicitamos com entusiasmo e 

franqueza.

17

 

 



Nos debates da Câmara dos deputados do ano de 1866, é 

possível visualizar com clareza a existência de diferenças entre 

Tavares Bastos, líder da maioria que apoiava o gabinete Olinda, 

e o ministro da fazenda, Carrão. Na atuação do deputado, fica 

nítido que ele se afina mais com Paula Sousa, ministro da 

Agricultura, que tinha idéias referentes à questão bancária bem 

diversas das de seu colega, que apresenta um projeto muito 

restritivo em relação ao banco do Brasil em abril,

18

 projeto esse 



que não é sequer debatido na Câmara.

 

 



No Correio Mercantil de um mês antes, já ficava claro que a 

atuação de Bastos sinalizava dissonâncias entre o ministério da 

fazenda e o deputado que deveria dar-lhe sustentação na 

Câmara. O comércio do Rio de Janeiro já vivia fazia tempo 

condições consideradas calamitosas do meio circulante, as quais 

faziam urgentes providências em relação à emissão de moeda. 

Depois de muitas dificuldades na sucessão de Dias de Carvalho

que pediu demissão do ministério da fazenda em março, em 

virtude principalmente dessa situação, Carrão ascendeu ao 

ministério, em 7 de março.

19

 

O gabinete Olinda viveu grandes dificuldades em toda a 



sessão de 1866. E, antes mesmo de iniciados os trabalhos da 

Câmara, havia boatos de demissão do ministério, e conflitos 

intensos entre o ministro da fazenda e a "praça de comércio", 

segundo artigos publicados no Correio Mercantil. Em 12 de 

fevereiro, Justus critica o envio, no dia anterior, pela praça de 

comércio, de um ofício ao ministro da fazenda, Dias de Carvalho, 

“a propósito da escassez” de trocos miúdos. O autor considera 

que teria sido melhor ter convocado um meeting, e vê nesse 

envio uma tentativa de colocar “a entidade governo” em 

descrédito, transformando a cadeira de ministro em “banco dos 




 OS “ABUTRES” NA TURBULÊNCIA DAS “ÁGUIAS”:... 

HISTÓRIA, São Paulo, 28 (2): 2009 

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réus, objeto de horror ou desprezo.”



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 Boatos havia de demissão 

somente  do  ministro  da  fazenda,  ou  de  queda  do  ministério 

inteiro, cuja desunião era denunciada todo o tempo: nos textos 

publicados a pedido no Correio, há a afirmação de que “um laço 

fatal” prende os ministros “uns aos outros”, segurando-os 

apesar da desarmonia,

21

 e de que o gabinete vive um “estado 



contínuo de dissolução”.

22

 



Na Câmara, na eleição da mesa, o ministério é humilhado, 

ao ter que aceitar oposicionistas no comando da casa legislativa. 

Teria ficado patente que o gabinete “vê-se coagido a aceitar 

homens necessariamente oposicionistas”.

23

 No dia 20 de março, 



Pompilio assinala a novidade representada por essa situação, 

num texto intitulado “O gabinete Olinda”: “A crise ministerial, 

os arrufos não se acabaram; a crise recrudesceu com a eleição da 

mesa da Câmara dos deputados. A capital presenciou o que 

nunca ali se viu.” O presidente e os dois vice-presidentes da 

mesa francamente declararam-se oposicionistas; com o que o 

ministério teria sido “flagelado, triturado”. Concluía o autor 

dizendo que “as pastas se acham vagas.”

 24

  

Em 22 de março, Tavares Bastos faz um discurso em que 



defende algumas idéias referentes à questão bancária,

25

 e entre 



amigos diz que não está certo de que tais idéias são as do 

ministro. O procedimento inusitado é sinalizado em texto 

publicado por Farthing, no Correio Mercantil, em 26 de março.

26

 



No dia 31, o mesmo autor comenta a idéia sugerida pelo jornal 




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