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Grande sertão: veredas 
Até aquela ocasião, eu nunca tinha ouvido dizer de se parar apreciando, por prazer 
de enfeite, a vida mera deles pássaros, em seu começar e descomeçar dos voos e 
pousação. Aquilo era para se pegar a espingarda e caçar. Mas o Reinaldo gostava: “É 
formoso próprio...” – ele me ensinou. Do outro lado, tinha vargem e lagoas. P’ra e p’ra, 
os bandos de patos se cruzavam. –“Vigia como são esses...” Eu olhava e me sossegava 
mais. O sol dava dentro do rio, as ilhas estando claras. – “É aquele lá: lindo!” Era o 
manuelzinho-da-croa, sempre em casal, indo por cima da areia lisa, eles altas perninhas 
vermelhas, esteiadas muito atrás traseiras, desempinadinhos, peitudos, escrupulosos 
catando suas coisinhas para comer alimentação. Machozinho e fêmea – às vezes davam 
beijos de biquinquim – a galinholagem deles. – “É preciso olhar para esses com um todo 
carinho...” – o Reinaldo disse. Era. Mas o dito, assim, botava surpresa. E a macieza da 
voz, o bem-querer sem propósito, o caprichado ser – e tudo num homem-d’armas, brabo 
bem jagunço – eu não entendia! Dum outro, que eu ouvisse, eu pensava: frouxo, está aqui 
um que empulha e não culha. Mas, do Reinaldo, não. O que houve, foi um contente meu 
maior, de escutar aquelas palavras. Achando que eu podia gostar mais dele. Sempre me 
lembro. De todos, o pássaro mais bonito gentil que existe é mesmo o manuelzinho-da-
croa. [...] 
Estou contando ao senhor, que carece de um explicado. Pensar mal é fácil, porque 
esta vida é embrejada. A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir e desmisturar. A 
senvergonhicereina, tão leve e leve pertencidamente, que por primeiro não se crê no 
sincero sem maldade. Está certo, sei. Mas ponho minha fiança: homem muito homem que 
fui, e homem por mulheres! – nunca tive inclinação pra aos vícios desencontrados. Repilo 
o que, o sem preceito. Então – o senhor me perguntará – o que era aquilo? Ah, lei ladra, o 
poder da vida. Direitinho declaro o que, durante todo o tempo, sempre mais, às vezes 
menos, comigo se passou. Aquela mandante amizade. Eu não pensava em adiação 
nenhuma, de pior propósito. Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava. Diga o 
senhor: como um feitiço! Isso. Feito coisa feita. Era ele estar perto de mim, e nada me 
faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar por 
longe, e eu só nele pensava. E eu mesmo não o entendia então o que aquilo era? Sei que 
sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que. Aquela meiguice, desigual 
que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, 
quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços, que às vezes adivinhei 
insensatamente – tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. Muitos 
momentos.
(ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 
2001, pp. 159-163.) 


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