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Grande sertão: veredas 
O senhor tolere, isto é o sertão. [...] Lugar sertão se divulga: é onde os pastos 
carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de 
morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O 
Urucúia vem dos montões oestes. Mas, hoje, na beira dele, tudo há – fazendões de 
fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em 
mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses 
gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é 
questão de opiniães... O sertão está em toda parte. 
Do demo? Não gloso. Senhor pergunte aos moradores. Em falso receio, desfalam 
no nome dele – dizem só: o Que-Diga. Vote! Não... Quem muito se evita, se convive. [...] 



O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor 
vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por ele, 
retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? 
Viver é negócio muito perigoso...
Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem — ou é 
o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo 
nenhum. Nenhum! — é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco — é alta 
mercê que me faz: e pedir posso, encarecido. Este caso — por estúrdio que me vejam — 
é de minha certa importância. Tomara não fosse... Mas, não diga que o senhor, assisado e 
instruído, que acredita na pessoa dele?! Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe 
minha valia. Já sabia, esperava por ela — já o campo! Ah, a gente, na velhice, carece de 
ter uma aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi. 
Alguém devia de ver, então era eu mesmo, este vosso servidor. Fosse lhe contar... Bem, o 
diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças 
— eu digo. Pois não é o ditado: “menino — trem do diabo”? E nos usos, nas plantas, nas 
águas, na terra, no vento... Estrumes... O diabo na rua, no meio do redemunho... 
[...] o senhor acredita, acha fio de verdade nessa parlanda, de com o demônio se 
poder tratar pacto? Não, não é não? Sei que não há. Falava das favas. Mas gosto de toda 
boa confirmação. Vender sua própria alma... Invencionice falsa! E, alma, o que é? Alma 
tem de ser coisa interna supremada, muito mais do de dentro, e é só, do que um se pensa: 
ah, alma absoluta! Decisão de vender alma é afoitez vadia, fantasiado de momento, não 
tem a obediência legal. [...] Se tem alma, e tem, ela é de Deus estabelecida, nem que a 
pessoa queira ou não queira. Não é vendível. O senhor não acha? Me declare, franco, 
peço. Ah, lhe agradeço. Se vê que o senhor sabe muito, em ideia firme, além de ter carta 
de doutor. Lhe agradeço, por tanto. Sua companhia me dá altos prazeres. 
Em termos, gostava que morasse aqui, ou perto, era uma ajuda. Aqui não se tem 
convívio que instruir. Sertão. Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se 
forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso... 
(ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 
2001, pp. 23-41.) 




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