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3.4.10. RELAÇÃO TÉCNICO-GINASTA 
 
 
Na GA a relação técnico-atleta é um assunto bastante relevante a ser discutido
pois ela é estabelecida a partir de tenra idade e, portanto, representando muitas vezes uma relação 
familiar, que desperta em alguns momentos diferentes sentimentos construídos durante anos de 
treinamento: carinho, respeito, obediência e, muitas vezes, submissão. 
Gervis e Dunn (2004) relatam que muitas vezes os técnicos podem ser 
percebidos pelas crianças como mais importantes que os próprios pais, sendo um significativo 
relacionamento criança-adulto na vida da criança. Assim como Lopes e Nunomura (2007) 
colocam, que os técnicos podem ser um dos principais fatores motivacionais do ginasta, mas por 
outro lado podem chegar ao ponto de humilharem seus ginastas nos treinamentos e deixar 
traumas para toda a vida (GERVIS; DUNN, 2004).  


 
 
283
Para perceber mais profundamente esta relação, partes dos depoimentos serão 
apresentados. Para dar início serão apresentados os técnicos que passaram pela carreira de cada 
ginasta, como um registro histórico da modalidade e como valorização pelo trabalho 
desenvolvido, afinal o estudo trata das melhores ginastas do Brasil de 1980 a 2004.  
Cláudia Magalhães fala de seu técnico Mário César de Carvalho como 
verdadeiro ídolo para ela. Considera-o como uma pessoa muito importante na sua carreira e nas 
suas conquistas, principalmente no aspecto motivacional, que fez despertar nela um imenso 
prazer pela modalidade. “Ele mandava a gente chamar de mestre, ele era um mestre e ele era 
mestre mesmo. A gente só chamava o Mario César de mestre. Ele era uma graça, era o pai da 
gente” (p.8).  
E Cláudia fala do envolvimento do técnico com os ginastas e da integração que 
construiu com a equipe:  
 
Era com muito amor que o Mario César treinava a gente. E era assim, ele levava a gente 
para a casa dele de vez em quando, às vezes eram os meninos, às vezes eram as meninas, 
às vezes era todo mundo, ele tinha um barco, depois ele mudou para a Barra, a gente ia 
dormir na casa dele, passar o final de semana. Dormia e fazia o “camão”, ele dizia o 
camão 76, 78, dependendo do ano e dormiam todas as meninas no chão juntas e os 
meninos no outro quarto. A gente treinava, era nossa família, uma família muito legal. 
(p.12) 
 
Cláudia Magalhães também teve outros técnicos, antes do professor Mário 
César e depois: 
 
O meu técnico Henrique, não me lembro o sobrenome dele, ele era muito simpático, 
muito bacana e dava muita motivação para gente. Até que um dia chegou o técnico novo, 
chegou o técnico novo na Gama Filho, o técnico Mario César de Carvalho. Ele na 
mesma hora montou lá, convidou as pessoas que ele queria, fez os testes e montou a 
equipe, ele era muito mais duro, bravo, e mais sério e ele chegou para fazer a melhor 
equipe que ele podia. Eu me motivei muito, adorei que a minha vida era ginástica, desde 
o primeiro dia em que comecei a fazer, o que mais me dava prazer na vida era treinar 
(p.1).  
 
Todos os esportes maravilhosos da Gama Filho se acabaram e a gente teve que ir 
embora. Fomos para o Flamengo, a maioria das meninas foi para o Flamengo. [...] Os 
técnicos eram o Sérgio Jatobá e a Lílian Carrascoza, a Lilian que era minha colega de 
equipe, mais nova que eu até. Ela tinha começado a dar treino, e ela me treinou. [...] E 
nossa colega deu treino para a gente junto com o Sérgio Jatobá. Ele já estava lá desde 
sempre, ele que treinou todos os atletas lá, ele era o técnico masculino e logo depois, 
quando a Luisinha (Luisa Parente) era pequena e começou aquele talento todo, ele 
passou a ser o técnico feminino, porque ela era a esperança do Brasil. [...] E eu treinando 
com a Lílian, no finalzinho da carreira, só sei que era muito gostoso também (p.7). 


 
 
284
 
Foto 43: Cláudia Magalhães e seu técnico Mário César de Carvalho em Moscou (1980) 
 
Tatiana Figueiredo passou por vários técnicos na sua trajetória como ginasta. 
Ela começou a GA em São Paulo, depois mudou-se em função dos trabalhos de seu pai para o 
Rio de Janeiro, onde treinou por mais cinco anos aproximadamente, treinou nos EUA, durante 
um ano e meio e voltou para o Rio de Janeiro em outro clube.  
 
Eu comecei em São Paulo, onde eu morava. Meu pai foi transferido para lá, na época. Eu 
comecei no clube Pinheiros. [...] Eu comecei lá com a Yumi Sawasato, no Pinheiros.  Eu 
fiz um ano lá de Ginástica. [...] Acho que foi mais ou menos um ano, um ano e meio. 
Depois vim para o Rio de Janeiro. A Yumi indicou a Berenice Arruda na época. Meu pai 
veio de volta para o Rio. Eu fui para o Tijuca Tênis Clube. Então eu comecei a participar 
de campeonato estadual, brasileiro (p.1).  
 
“Quando teve o Projeto Impacto aqui, a gente treinou com o técnico russo, com técnico 
chinês e com o técnico da Tchecoslováquia na época” (p.6) e quando finalizou o projeto a Tatiana 
Figueiredo não quis voltar para uma estrutura pior e conversou com seu pai para ir treinar nos 
EUA, onde treinou até a classificação para os JO de Los Angeles, no mundial pré-olímpico em 
1983.  
 
Acho que eu tinha treze anos. Eu fui morar nos Estados Unidos. Eu fiquei sozinha. Meu 
pai foi comigo, foi ver se estava tudo bem. Aí eu fiquei lá sozinha com outras atletas que 
também treinavam. Na época era o melhor centro lá. [...] Então tinha atletas dos Estados 
Unidos inteiro morando lá. Na casa do treinador mesmo, Dick Monvisiel (p.2).  


 
 
285
 
Depois de sua classificação para os JO, Tatiana retornou ao Brasil para 
preparar-se para os JO, no Clube de Regatas do Flamengo. “A treinadora foi a Lílian Carrascoza, 
ela que foi para a Olimpíada comigo (p.2).  
Depois dos JO, Tatiana retornou para os EUA para fazer universidade: 
 
Fui para a Olimpíada e depois competi em 85 o Mundial, no Canadá. Nesse Mundial eu 
conheci a Beck, que era uma treinadora americana em Oklahoma. Tinham uns atletas 
brasileiros lá também. Ela me convidou para fazer faculdade lá fora, e eu fui para lá de 
novo (risos) (p.2).  
 
Luisa Parente teve uma trajetória de técnicos e clubes diferente de Tatiana 
Figueiredo, pois toda a sua vida de ginasta ela representou o Clube de Regatas do Flamengo, 
tendo como principal técnica, que a levou para dois JO (Seul e Barcelona), Georgette Vidor, que 
sem grandes destaques anteriores, cresceu e aperfeiçoou-se juntamente com as conquistas de 
Luisa Parente, tornando-se uma das mais importantes técnicas do país, por formar ginastas para 
quatro JO (1988 a 2000). Sobre essa evolução juntas, Luisa fala sobre a preparação para os JO de 
1988: 
  
Eu estava com a Georgette que, a experiência dela internacional era a mesma que a 
minha praticamente, quer dizer, ela tinha tido um estágio na França muito tempo atrás 
com o Balé, depois conseguiu fazer com a Ginástica alguma coisa, mas ela é muito 
autodidata também. Pesquisava muito. E então foi treinando, foi treinando, e recebeu 
algumas dicas, então a gente foi (p.6).  
 
Mas apesar de Luisa Parente sempre ter sua carreira relacionada à técnica 
Georgette Vidor, ela teve outros técnicos que também colaboraram com a sua formação como 
ginasta: 
 
Depois que eu passei então para a equipe, passei a treinar diariamente. [...] Num dado 
momento, houve um descontentamento do grupo das meninas da minha faixa etária, com 
a professora que era muito rígida, a professora Vera. Porque ela beliscava a gente, ela 
exigia muito. E a gente estava cansada já e no fim então, a gente decidiu, um grupo de 
três ou quatro meninas, decidiu que não ia mais fazer ginástica olímpica, e que ia sair da 
Ginástica. Nós mesmas que decidimos. Porque a gente não agüentava mais a distinta 
professora. Eu tinha sete ou oito anos. Oito anos, talvez. E aí então o diretor da ginástica 
que era o Sérgio Jatobá, dispensou a professora e chamou uma nova professora. E nos 
foi comunicado isso: para a gente ir lá, voltar, conhecer a nova professora e ver se a 
gente gostava. Porque nós éramos realmente um grupo que além de ser muito unido, 
também era muito homogêneo, de meninas boazinhas (talentosas). Quando me falaram 


 
 
286
isso, achei que era a Berenice porque era uma das mais afamadas na época. [...] E 
quando a gente foi lá, era a Georgette que ia ser a nossa professora dali em diante (p.1-
2).  
Além do Sérgio Jatobá e da Georgette Vidor, tive também como técnica a Lílian 
Carrascosa, que me deu treino uma época. E o Anatoly Silevanov, que foi um russo que 
teve uma época no Brasil. Fora os estágios, eu treinei fora do Brasil duas vezes em 
Moscou e nos Estados Unidos com Bela Karolyi (p.17).  
 
 
 
Foto 44: Luisa e sua técnica Georgette Vidor [2003?] – 
www.ginasticaolimpica.com
  
 
 
Soraya Carvalho, primeira ginasta do período considerado de transição, também 
mudou algumas vezes de entidade e técnicos, tendo uma particularidade especial, pois seu 
próprio pai, Luciano Carvalho, foi seu técnico. Depois de discordar de outros técnicos que havia 
contratado para sua academia, ele mesmo sem experiência alguma na modalidade assumiu os 
treinamentos e treinou Soraya por mais de cinco anos, conquistando vários títulos, inclusive 
internacionais.  
 
E nesse período, treinei com meu pai durante cinco anos, eu me desenvolvi bastante. 
Apesar de meu pai não ter conhecimento de ginástica. Eu vivia fazendo estágios, ou ia 
para o Pinheiros, ou ia para o Centro Olímpico ali de São Paulo, ou ia para o Rio, ia para 
outros países. Quando ele viajava que tinha um campeonato sul-americano, a gente 
sempre acabava ficando mais uma semana para treinar com um treinador local. Assim, 
meu pai ia pegando informações, o treinador ia também dando umas dicas daqui, dali. 
Meu pai chamou para Brasília a Berenice Arruda
186
, a Andrea João
187
. Sempre para fazer 
estágios, sempre para trocar conhecimento, porque, afinal de contas, meu pai não tinha 
formação nenhuma em ginástica, porém era curioso. E a gente sabe que da ginástica, é 
                                                 
186
 Ex-técnica da seleção brasileira de GAF 
187
 Técnica do clube Fluminense/RJ na época.  


 
 
287
uma coisa assim, a grande maioria dos treinadores, eles vêm da ginástica. São ex-atletas, 
que estavam ali. Então uma pessoa que não tinha nada a ver com o ramo, entrar é uma 
coisa muito exótica, até digamos assim. Então foi assim. Eu treinei durante cinco anos, 
tive ótimos resultados, e comecei a ter convite de outros clubes (p.2).  
 
Outros técnicos também treinaram, por pouco tempo, Soraya Carvalho no início 
de sua carreira como ginasta. A primeira professora chamava-se Luciana
188
, e em seguida foram 
os técnicos Carlos Corbuti e Jaqueline Pires. Após esses técnicos e mais cinco anos com seu 
próprio pai, Soraya muda-se para São Paulo, onde fica por aproximadamente um ano:  
 
No Pinheiros, [...] infelizmente não foi uma experiência mesmo boa. Eu não lembro 
muito dos treinadores. Eu passei um período machucada, então eu lembro que eu ia 
muito para fisioterapia, eu treinava, mas eu não me dei bem com o Ulisses. Eu acho que 
esse é o ponto central. Eu não o reconhecia como meu treinador. É bem grave isso. Ele 
falava e tal, eu ia e fazia, eu era uma pessoa obediente lá, mas eu não tinha um 
entrosamento, não tinha um sentimento de carinho, de admiração por estar seguindo a 
pessoa. Então, foi uma coisa morna.  
[...] Aí acabou o Pan-americano eu voltei para São Paulo ainda, eu fiquei mais até o final 
do período lá. Voltei para Brasília e já no inicio de janeiro no ano seguinte eu já estava 
no Flamengo. Aí sim, lá eu me senti muito estimulada assim a treinar. Era uma equipe 
grande. Tinha a Georgette, ela era a melhor treinadora do Brasil. Eu tinha uma coisa 
assim... uma admiração, queria seguir ela, aquela turma inteira. Ainda era o ciclo da 
Luisa Parente. Então estavam as meninas novas que já foram inseridas nessa equipe. Já 
estavam os dois ciclos treinando juntos (p.6).  
                                                 
188
 Soraya não se lembra do sobrenome dessa professora. 


 
 
288
 
Foto 45: Soraya com seu pai/técnico Luciano Carvalho no Campenato Brasileiro de 1989 
 
 
“Até 94 eu tinha um técnico russo, a partir de 94 já veio o Casemiro Soares
189

Antes era o Anatoli. Vieram o Anatoli e o Vladimy, mas quem pegou mesmo, quem me treinou 
mais foi o Anatoli. Depois o Casemiro, o Casemiro com a Georgette”. (p.10).  
 
                                                 
189
 Técnico cubano, um dos maiores medalhistas de Cuba como ginasta, técnico de Clube de Regatas do Flamengo.  


 
 
289
 
Foto 46: Soraya Carvalho com a técnica Gerogette Vidor nos JO de 1996. 
 
 
Depois de Soraya Carvalho, a ginasta Daniele Hypólito, assim como suas 
antecessoras, teve Georgette Vidor como técnica principal na sua preparação para os JO.  
 
E em 95 eu fui para o Flamengo e foi ai que eu comecei mesmo um treinamento 
intensivo com a Georgette, que na época era a treinadora com que todo mundo queria 
treinar. Então eu me sentia privilegiada de poder estar tendo essa oportunidade. E 
quando ela me chamou para treinar no Flamengo, com ela, eu me senti mais privilegiada 
ainda. Porque eu ia treinar com a treinadora da Luisa Parente e meu sonho podia se 
realizar e não podia ser só um sonho de criança, podia ser um sonho realizado mesmo 
(p.6-7).  
 
Além de Georgette Vidor, outros técnicos colaboraram na formação de Daniele 
Hypólito, segundo a própria ginasta:  
 
Eu acho que o que foi determinante na minha carreira, primeiro a minha determinação de 
competir, de gostar de fazer o que eu faço. Segundo, eu acho que a Georgette foi uma 
pessoa... Georgette, Ricardo
190
 , Casemiro, o Ernesto Garcia 
191
(técnico cubano que 
também trabalhou no Flamengo com a Georgette Vidor), que são os treinadores que me 
deram toda a estrutura de base do início da minha carreira. Foram pessoas muito 
importantes para mim. A Patrícia Turina também, que foi a minha primeira treinadora 
em Santo André, assim, acho que foram pessoas muito importantes. E, passando essa 
fase que eu vim para a seleção permanente, já numa estrutura diferente, eu acho que o 
Oleg, a Iryna, a Nádia
192
 (p.14).    
                                                 
190
 Ricardo Pereira, atual técnico da equipe do Clube de Regatas do Flamengo e na época auxiliar técnico de 
Georgette Vidor.  
191
 Técnico cubano que também trabalhou no Clube de Regatas do Flamengo 
192
 Oleg e Nádia Ostapenko e Iryna Ilyashenko – técnicos ucranianos.  


 
 
290
 
Foto 47: Daniele com sua primeira técnica Patrícia Turina [199-] 
 
 
Foto 48: Daniele e Georgette Vidor - 2000 
 
Foto 49: Daniele e seu atual técnico Ricardo 
Pereira [199-] 
 
 


 
 
291
Da mesma geração e participante juntamente com Daniele Hypólito dos JO de 
Sidney (2000), Camila Comin passou por vários técnicos até chegar à estrutura da CBG em 1999, 
com os técnicos ucranianos orientando a seleção brasileira.   
 
Falando dos meus primeiros técnicos, minha primeira técnica mesmo foi a Deise, que ela 
está aí até hoje, ela era professora de escolinha, ela faz essa parte básica que é mostrar o 
que é ponta de pé e a Inara Marcondes foi a segunda quando eu comecei a aprender 
quipe, paradas, essa parte mais direcionada ao treinamento (p.5).  
Então quando eu mudei para essa outra escola de ginástica, que eu melhorei de nível, 
que era um segundo colégio particular. Eu comecei a treinar com o Rony, o Ronaldo 
Ferreira. Na escola paranaense e dentro da escola tinha uma escolinha de GO, que o 
Rony dava treino lá. O Rony e a Eliane Martins que começaram lá e foi quando eu 
mudei para lá com 10 anos. E com 10 anos que a professora falou aquilo
193
 para minha 
mãe e minha mãe ficou super chateada e quando veio um técnico russo para cá e não 
tinha onde ele ficar, meu pai falou que ele podia ficar na minha casa.  
Eu ia treinar, ele ia junto e ele ficava em casa. Ele me dava treino sábado e domingo. Ele 
ficava na minha casa e ele não falava nenhuma palavra em português, não fazia nada e 
quando a gente ia passear voltava de noite e ele: “Camila vamos treinar!”. Ele me 
forçava flexibilidade, me ensinava postura, mostrava vídeo de ginástica que ele tinha 
trazido das meninas russas e então isso foi me motivando cada vez mais a querer chegar 
em um nível alto. Acho que se eu não tivesse tido ele na minha casa, que eu teria 
desistido (p.2). 
 
A Iryna foi assim, no começo, no primeiro ano que ela chegou (1999), como eu treinei a 
vida inteira com brasileiro, então meio que eu domava o técnico, tipo o técnico era meu 
técnico, mas eu com jeito conseguia domar, eu conseguia “matar” os exercícios, eu 
conseguia disfarçar, eu conseguia fazer aquilo que eu gostava, e não aquilo que era para 
ser feito. Com a Iryna não, ela deu ordens, era assim, desse jeito para ser feito, se eram 
10, eram 10, não era nem oito e nem 12, eram 10, então tudo que ela passou para mim de 
ensinamento tanto de escolinha, de alto rendimento como ginasta, como aprender e 
como pegar, hoje em dia eu dedico a ela. Porque ela tem uma paciência, uma percepção 
de ginástica, que eu não tinha e que agora eu consigo ver (p.17).  
 
 
                                                 
193
 Falou que ela não tinha muito jeito para a GA e que desobedecia demais. Não gostava que a corrigisse.  


 
 
292
 
Foto 50: Camila com a técnica Iryna Ilyashenko - 2004 
 
 
“Então o técnico tem que ter uma visão muito grande para ser técnico. Não é 
qualquer um, e tem que treinar muito. O Oleg está há 50 anos no ginásio. Quem sou eu para 
discutir alguma coisa com ele? É muita experiência” (CAMILA COMIN, p.18). 
A última ginasta da geração de transição, Daiane dos Santos, não passou por 
muitos técnicos, pois fez sua iniciação ao treino com a professora Cleusa no CETE de Porto 
Alegre/RS por menos de um ano e já se transferiu para o Grêmio Náutico União, no qual treinou 
toda a sua carreira antes de ir para o Centro de Excelência treinar com a seleção brasileira na 
seleção permanente,como a mesma explica: “Eu fui para o União e fiquei treinando lá no União e 
comecei a treinar com a Máira Avruch, depois eu treinei com a Adriana e com o Eliseu Burtet 
que foram os meus técnicos até 2005, que eu fiquei junto com eles” (p.1).  
 
 
As pessoas perguntam: “Você acha que você foi feita pelo Oleg?”. Não! Ele me ajudou? 
Claro que ele me ajudou! Porque eu não posso nunca jogar fora o trabalho que foi feito 
pela Adriana. Imagina? Era diferente o Oleg me pegar... Eu entrei na Ginástica com onze 
anos. Porque a Cleuza me pegou, depois eu passei para a Adriana. Ele nunca ia me pegar 
com 11 anos! São pouquíssimos técnicos. Com doze na verdade. Na verdade eu entrei 
para o União com 12. Se fosse me pegar com doze anos! Ela (Adriana) sabe o quanto ela 
ouviu. “Nossa! Mas ela tem doze anos, ela está muito velha, ela não serve para fazer 
Ginástica!”, “Ela serve para fazer Atletismo!”. Eu ouvi muito isso. Ela ouviu muito isso. 
Então para a gente foi uma vitória eu estar aqui agora. Todos os resultados que eu tive, 
eu devo muito a ela. A ela e a ele, porque na verdade ela me fez e eu acho que ele fez foi 
a parte de lapidação. Arrumou muitas coisas. Tanto que quando eu fui para o Mundial, 
ele não entrou comigo. Quem entrou foi ela. Ele mandou ela entrar. Então ele tem essa 
noção. Isso que eu acho muito legal nele. Ele tem uma consciência do técnico que forma 
a ginasta. E ele gosta muito dela também. Então eu acho que foi tudo junto (p.12-13). 


 
 
293
 
Em 2000 eu estava treinando direto lá no União. Eu comecei a treinar aqui (Curitiba) 
mesmo em 2002. E nesse período todo, a gente continuou treinando, tudo lá. E mudar de 
técnico, eu acho que é difícil porque quando você pega quem já te conhece desde 
pequena, você tem uma abertura mais fácil. Às vezes você não precisa falar nada para 
ele. Já te conhece! Do olhar! [...] Então, é difícil porque quando o Oleg chegou, a gente 
sempre se deu muito bem. Sempre, eu e ele. Desde quando ele chegou. Mas no começo 
era difícil porque ele não falava a língua. Era difícil de se comunicar, meio no gesto, na 
mímica e tudo mais. E o jeito dele era mais fechado do que o dela (Adriana Alves). 
Porque brasileiro tem aquela coisa: abraça, beija, e ele não tinha esse contato. Hoje ele já 
tem! Usa na brincadeira de abraçar e beijar, porque eles não têm essa coisa. Europeus, 
eles são mais fechados mesmo. Então, estranhei um pouco no começo, mas logo já 
mudou. A gente sempre conversou muito assim, eu e ele. Teve uma relação, acho que eu 
sempre tive com todos os técnicos assim. Eu tive sempre uma relação boa, de amizade 
mesmo (p.8).  
 
 
 
 
Foto 51: Daiane e sua técnica Adriana Alves - 2002  
 
 
As ginastas da nova geração, Caroline Molinari, Ana Paula Rodrigues e Laís 
Souza, apresentam bastante semelhanças pois pertencem às ginastas da seleção brasileira que 
foram beneficiadas pela estrutura do Centro de Excelência, assim como Camila, Daiane e 
Daniele. Caroline e Ana Paula assemelham-se ainda mais, pois passaram pelos mesmos locais de 


 
 
294
treinamento e pelos mesmos técnicos na cidade de Curitiba, assim como Camila Comin. Caroline 
destaca, entre seus professores, o trabalho da técnica ucraniana Iryna Ilyashenko:  
 
Eu treinei com a professora Inara e nunca tive vontade de querer parar, sempre gostei e 
sempre fui fazendo. [...] No Positivo os técnicos eram: a Cristiane e a Inara junto, a 
Deise, o Jair, não me lembro assim direito, mas eram esses. Eu comecei com a Deise lá 
na praça, que fazia a base desde antes já. Foi com ela que eu comecei, depois eu treinei 
com a Cris, Deise, com a Inara, com o Jair também, o Robson, e depois que a gente 
mudou para Agipar, o treinador ficou o Rony, a Cris e ficou um tempinho a Inara e ela 
logo saiu. 
[...]Quando os ucranianos vieram, a Iryna veio antes, que aí assim, meio que deu aquele 
clique e eu comecei a melhorar muito rápido. De um ano para outro eu melhorei muita 
coisa, e eu comecei a apresentar mais resultados, já consegui entrar na seleção. Mas foi 
depois que a Iryna chegou. Então assim, eu digo que a Iryna é minha mãe na ginástica, 
porque todo mundo me ajudou, mas eu sei que ela fez uma parcela maior para mim. Foi 
mais importante! (p.1-2).  
 
Ana Paula Rodrigues, que passou pelos mesmos lugares destaca: 
 
Até chegar à Olimpíada foi um processo, porque tiveram várias etapas, várias 
competições. Havia só técnicos brasileiros, depois a Eliane Martins
194
 decidiu trazer um 
técnico da Ucrânia para começar a dar treino para nós. A gente começou a treinar com 
ele. Na verdade quem treinava com ele eram as meninas que iam para a Olimpíada de 
2000, em Sidney. Primeiro chegou esse técnico, depois chegou a Iryna. Não me lembro 
agora. É, primeiro foi ele, o Anatoly. É. Foi com ele que a gente começou, depois veio a 
Iryna. Então começou a treinar a Seleção para a Olimpíada de 2000. E nisso a gente 
fazia testes com ele também. Depois a Eliane fez uma seletiva para a seleção permanente 
aqui de Curitiba. Ela chamou várias meninas de vários Estados para fazer essa seletiva e 
eu entrei. Comecei a fazer parte da seleção. E a gente começou a treinar com a Iryna, em 
2000. Começou a treinar também com a seleção brasileira. O Anatoly foi embora, não 
me lembro muito bem. E a Eliane chamou o Oleg Ostapenko.  
As meninas foram para a Olimpíada de 2000, depois umas foram embora, e as que 
continuaram começaram a treinar com a gente. E começou a treinar só a seleção. A 
Eliane chamou a esposa do Oleg, a Nádia. Aí a gente começou a treinar com os 
ucranianos (p.1).  
 
Laís Souza, apesar de direcionar-se para o mesmo caminho das ginastas de sua 
geração, anteriomente aos técnicos ucranianos passou por diferentes lugares em Ribeirão 
Preto/SP, São Caetano do Sul/SP e Curitiba, e consequentemente, por diferentes técnicos.  
 
E logo que eu comecei a entrar no treinamento com elas, a gente foi para um outro lugar, 
no colégio Moura Lacerda também lá em Ribeirão. Que foi uma russa que começou a 
dar treino para a gente, a Tatiana.[...] Depois a gente foi para o COC
195
, que também foi 
um impulso assim. A gente conheceu o Roger, a Gisele. A Gisele também desde 
                                                 
194
 Coordenadora das seleções brasileiras permanentes de GAF, GAM e GR.  
195
 Colégio Oswaldo Cruz – Ribeirão Preto/SP 


 
 
295
pequena ela sempre estava lá apoiando a gente. [...] Quando eu fui para o COC eu devia 
ter uns nove, ia fazer nove anos. No COC, ficou sendo a Raquel e o Roger de técnicos. 
Devo ter ficado um ano ou dois anos no máximo lá.  
[...] Em São Caetano a estrutura não era muito melhor que no COC, nenhum aparelho de 
fora, não eram europeus, mas dava para treinar tranqüilo. O Roger também ajudou 
bastante. Era só o Roger e tinha uma auxiliar também, a Andréa (p.1-4). 
 
E finalmente, ao direcionar-se para Curitiba nos treinamentos com a seleção 
brasileira, Laís comenta: “Acho que a partir do momento que eu entrei na seleção, o que foi 
essencial para mim foi o Oleg. O Oleg e a mulher dele, a Nádia. É que técnico é uma coisa que 
você depende dele e ele depende de você. Porque você vai mostrar o trabalho que ele te passou” 
(p.12).  
O que é nítido nos depoimentos das ginastas que treinaram com os técnicos 
ucranianos, é a relevância deles para a evolução dos resultados internacionais do país na 
modalidade e a sua experiência. Camila Comin comenta que: “Eu acho que o que influenciou 
essa mudança toda entre os mundiais, com certeza foram os técnicos” (p.4) e ainda completa: 
“Então quatro anos com eles (ucranianos) parecem que são oito, é muito diferente o treino, o 
ritmo do treino, o objetivo do treinamento, a frieza com que eles trabalham com a gente” (p.2). 
Sobre esses técnicos, pode-se ainda mencionar outros depoimentos:  
 
Eu acho que essa mudança no ritmo de treino tem muito a ver com a chegada da Iryna 
sim. Eu acho que ela fez o começo do trabalho. Um trabalho diferente, do que a gente 
tinha feito no Brasil. O teste de treinamento deles é diferente, bem diferente do que a 
gente treinava já aqui. Eu acho que em relação aos ucranianos e os técnicos brasileiros, 
no nível do treino não tem muita diferença. Eu acho que às vezes é a maneira de 
explicar. Acho que isso faz a diferença, assim porque quanto ao treino não tem muita 
diferença: carga horária, como eu posso te falar, resistência para treino, preparação 
física. Até antes eu fazia mais preparação física do que eu faço agora, na verdade, 
quando eu treinava no clube. [...] Mas eu acho que é mais pela experiência que eles têm. 
Na parte de treinamento, de como você vai ensinar tal elemento, porque às vezes um 
técnico brasileiro não tem. Porque os técnicos brasileiros são muito novos ainda. Não 
que não tenham competência. Eu acho que competência todo mundo tem para ensinar, o 
brasileiro ou o estrangeiro. Mas o Oleg tem trinta e cinco anos de Ginástica. A minha 
técnica Adriana Alves não tem nem trinta e cinco anos de idade, o que dirá de Ginástica! 
Então eu acho que falta mesmo é como você vai ensinar um atleta a agir de tal forma. 
Esse elemento tem que começar a ser ensinado dessa forma. Então eu acho que às vezes 
esse é o diferencial deles. Desde a base! Eu acho que é como você pega na base e você 
vai formando o ginasta. (DAIANE DOS SANTOS, p.6).  
 
A presença do Oleg também ajudou. Com certeza! Com certeza! Eu acho que não só 
pelo nome que ele tem, mas acho que mais pela experiência que ele tem. De tudo. 
Porque ele teve “n” ginastas na União Soviética. O que ele tem de experiência, lá fora, 
são poucos não só ginastas que têm, poucos técnicos têm. Até técnicos brasileiros, não 
só os brasileiros. Os estrangeiros todos. É difícil você pegar um técnico que tenha uma 
bagagem que ele tem. O Arkaev tem a bagagem que ele tem. São pouquíssimos técnicos 


 
 
296
que você vai ver lá fora que tem toda experiência que ele tem (DAIANE DOS SANTOS, 
p.12). 
 
Os técnicos ucranianos dão mais autonomia do que os brasileiros. Hoje em dia o técnico 
acha que é técnico porque ele faz o suporte para o atleta. Errado! O técnico, como você 
não tem o olho para ver o que você está fazendo, corrigir, como se fosse um feedback, só 
corrigir e dar feedback externo. O interno é totalmente seu, o externo é só o técnico que 
faz, olha e diz que fez determinado erro e que pode melhorar em outra coisa. Não pode 
colocar a mão no atleta em momento algum, e o técnico só pode ajudar, eles falam, na 
preparação física, na flexibilidade que é uma força passiva, não é ativa, toda a força que 
o técnico tem que fazer a mais que o ginasta daí faz. No baixo nível (categorias de base) 
é bem ao contrário: ajuda o tempo inteiro, chega no alto nível não ajuda em nada. Aqui 
no Brasil é ao contrário, você faz tudo sozinha e chega no alto nível, ajuda tudo 
(CAMILA COMIN, p.11-12).  
 
Sobre a presença do Oleg no Mundial Pré-olímpico, se pesou, a gente, como atleta, a 
gente não tem essa análise. Mas é claro que eu acho que foi uma união de tudo. O Brasil 
já estava com uma ginástica diferente, e o Oleg e a Iryna são treinadores que colocam 
um status diferente. Colocaram um “status” diferente no país. E ele já vinha como 
treinador de três ou quatro campeãs olímpicas. Então, é diferente. Ele estava apostando 
em um outro país que não era o dele. Então isso colocou uma moral para a gente, 
totalmente diferente (DANIELE HYPÓLITO, p.11). 
 
O que eu acho que foi determinante para eu conseguir chegar numa Olimpíada, uma 
coisa muito importante, foi a Iryna. Eu não sei, todo mundo fala que eu “puxo o saco” 
dela, mas não é. Para mim ela ainda é um exemplo, porque quando ela chegou eu não 
sabia fazer nem “giro para frente”. Eu era muito fraca! Um ano depois eu já estava 
fazendo cubital, largada, então eu melhorei muito rápido. Não é que eu era uma ginasta 
fraca, eu não tinha sido explorada ainda em tudo o que eu podia fazer, acho que ela foi 
essencial para mim (CAROLINE MOLINARI, p.7). 
 
Mas senti muita diferença de quando não tinham os ucranianos e depois que eles 
estavam. Ah... É diferente no treinamento. Dos treinadores brasileiros e de fora. Cada 
um tem uma maneira, tipo quando o Oleg chegou, ele era bem bravo assim. Ele pegava 
nas meninas, na gente. E a Eliane falou: “Olha que aqui no Brasil é diferente. Aqui não 
pode pegar nas meninas. Nada”. Porque lá fora é normal, eles pegarem, brigarem assim. 
Então aqui é diferente. Daí ela falou para ele, e ele melhorou.   
Mas nossa, o Oleg eu acho que é um dos melhores treinadores do mundo mesmo. A 
técnica dele, os elementos que ele passa, tudo. Assim, foi bem diferente quando eles 
chegaram (ANA PAULA RODRIGUES, p.9-10). 
 
Mas com certeza eles foram um diferencial nesta evolução. Ah... com certeza, com 
certeza. Para mim sim. Pode ser que para algumas não, mas para mim foi muito. É a 
cobrança do treinador, do treino, do ginásio, como ele corrige. A hora que ele tem que 
dar uma bronca ou não. Então, teve vários pontinhos em que ele foi muito importante 
para mim e se não fosse aquilo não ia melhorar. Tudo por causa dessa tal base que ele 
sabe mesmo como que é o negócio (LAÍS SOUZA, p.11) 
 
A partir dos depoimentos é possível perceber a homogeneidade em relação à 
importância dos técnicos neste processo, tanto nos treinamentos como no ambiente competitivo, 


 
 
297
no qual sua presença impõe um peso à equipe e a coloca como destaque entre outras, passando a 
ser valorizada no contexto de elite da GAF.  
Além deste olhar para os depoimentos das ginastas em relação aos técnicos, é 
possível perceber através deles, a relação estabelecida entre técnico e ginasta, sendo construída 
por momentos bons e ruins, como muitas relações de muita convivência. 
 
E nas finais quem competia antes de mim, que era por sorteio, e ficava aquela mesma 
ordem nos quatro aparelhos, foi a campeã dos Jogos Olímpicos de Moscou, a Davidova, 
Elena Davidova. Nos quatro aparelhos de finais, ela acabava a série dela, campeã 
olímpica, todo mundo só focalizava nela, e depois dela era eu (risos), tem uma foto num 
jornal, ela está descendo uma escadinha e eu vou subindo toda feliz (risos). Eu nem me 
esquentava, era muito só felicidade (risos), e o nosso clima na Gama Filho era assim, 
muita motivação, muita alegria, muito amor, o técnico era um amor, era nosso paizão, 
ele era muito engraçado, era duro, mas com maior palhaçada (CLÁUDIA 
MAGALHÃES, p.5).  
 
Antigamente tinha essa coisa que o treinador era mais severo, era mais distante. Eu não 
sei se hoje em dia continua, mas eu acho que isso caiu um pouco até porque tinha essa 
coisa do Comunismo. Então a gente tinha até um pouco de medo dos treinadores, que eu 
acho que hoje em dia não tem mais isso. Eu tenho atletas e a minha relação com elas é 
totalmente diferente. Não sei. Então na época era assim. A gente tinha muito respeito e 
até um pouco de medo dos treinadores. Era aquela figura imponente e mais distante. Eu 
não falava nada, o treinador falava a gente abaixava a cabeça e pronto! Ponto final. Nem 
discutia (risos) (TATIANA FIGUEIREDO, p.6). 
 
 
Em relação aos meus técnicos... ah... Eu tenho boas recordações de todos os momentos. 
É uma cumplicidade muito grande. Grande parte do tempo da nossa vida a gente passa 
com eles. Então uma intimidade grande, assim você passa a ter até gostos musicais. Tem 
até trejeitos, umas coisas que você acha parecidas, outras você contesta. Então você 
também tem essa relação de crescimento (LUISA PARENTE, p.15). 
 
O treinador russo treinou comigo cinco anos, ficou em casa cinco anos. Era o Vladimir, 
o sobrenome eu não lembro, porque eu tinha 10 anos e foi até os 14 anos. Quatro anos 
ele morou na minha casa. Às vezes eu pensava: eu não agüento mais ginástica. Eu 
treinava lá no ginásio, chegava em casa às vezes ele ficava me forçando (flexibilidade), e 
ele não forçava de brincadeira, ele forçava para chorar e minha mãe via aquilo e ficava 
com dó de mim. Mas aos poucos ele foi melhorando, ele ficou como um pai.  
Quando eu fui para o Canadá agora, eu o encontrei. Ele ficou super feliz de me ver na 
Olimpíada e foi como se ele tivesse me treinado porque fui como uma filha e a gente 
chorou junto, foi super bacana (CAMILA COMIN, p.3). 
 
Hoje eu vejo as pessoas em família, essa coisa de pai agarrar e beijar, para mim não é 
tanto, porque dentro do ginásio não tem isso. Se você faz uma série com nota de partida 
dez e tira uma nota de nove e noventa, o técnico fala: muito bom (apático). Coisa que o 
brasileiro não faz, brasileiro já aplaude, já grita, já beija, fica uma semana, um ano 
comemorando. A Daiane voltou do mundial e era uma simples ginasta. A Daiane não era 
campeã mundial. Então isso que eles deixam bem claro para a gente. O que você é, 
enquanto você está lá, a partir do momento que você sai de lá você vira normal. 


 
 
298
Anônima! Eles não dão diferença, essa diferença que o brasileiro dá, ou você está lá ou 
você está aqui. Você pode ser a “top”, mas você está no mesmo nível, você treina no 
mesmo local, você tem as mesmas condições, você só vai brigar dentro da competição 
julgado por juízes, dentro do ginásio as condições são iguais, os técnicos são os mesmos. 
Essa condição de igualdade que eles dão para gente bem claro é que a gente não tinha. 
Quem distingue isso é quem coordena e quem instrui a gente (CAMILA COMIN, p.15-
16). 
 
A minha relação com os meus técnicos... Ah! Então com o Rony a minha relação foi 
sempre bem aberta, a gente era como amigo. Quando chegou a Iryna, o Oleg já era... 
Assim dentro do Ginásio o Oleg é treinador e tudo rígido. E fora ele é super diferente. 
Ele é um amigo assim, como se não fosse treinador. Mas acho que é certo. Não pode 
levar muita brincadeira. Mas a minha relação, acho que com a Iryna também sempre foi 
muito boa. No início foi difícil porque eles não falavam português. Eles começaram a ter 
aula de Português, a gente foi ensinando para eles também. Acho que essa parte de 
ensinar foi sendo mais amigo, conversando mais. Mas acho que a relação sempre foi boa 
assim. Nunca tive problema com nenhum (ANA PAULA RODRIGUES, p.10). 
 
Eu me dou bem com o treino deles. Ah... sim! Passa um tempo que você vai 
acostumando. Eu me dou bem com eles. O Oleg gosta bastante de mim, gosta bastante 
da Dai também. Ele sempre deu bastante atenção para a gente. Sempre falou, conversa, 
pergunta. Porque eles não são de perguntar muito, sabe? Mas ele pergunta: “ah... como 
que está seu pé? Como que está você?”, ele está sempre perguntando sim (LAÍS 
SOUZA, p. 11). 
 
Soraya Carvalho, mesmo com a frustração por não ter competido nos JO de 
Atlanta, o que acabou abalando a relação com sua técnica, ainda sentia um grande carinho por 
ela. Não permitiu que seus pais a processassem por algum possível erro de treinamento, pois 
apesar de tudo o que passaram juntas, ela não queria que nada de mal acontecesse com ela e ainda 
comenta: “eu não sei que cabeça que é formada assim, eu acho que falta, que faltou, acho que 
com muitas gerações, a formação das ginastas mesmo como pessoas” (p.15).  
Segundo Bortoleto (2004) a relação entre treinadores de ginastas, em sua 
pesquisa desenvolvida com atletas espanhóis: 
 
Vai se transformando gradativamente de uma forma inicial que poderia ser definida 
como ‘treinador-ginasta’, onde o primeiro ‘manda’ e o segundo se limita a obedecer e 
executar o que foi solicitado, para o predomínio de uma relação treinador-amigo com 
uma orientação mais ampla que extrapola os aspectos técnicos com forte componente 
psicológico de amizade e orientação pessoal, um modelo mais parecido a um ‘maestro’ 
ou um amigo (p.369). 
 
Na relação estabelecida com as ginastas brasileiras também se pode notar esses 
dois tipos de relação, sendo para algumas possível enxergar essa transformação de um tipo de 


 
 
299
relação para outra e, em outros casos, a primeira forma de se relacionar, mais voltada para uma 
total submissão, sem possibilidade de argumentação prevalece durante todos os anos de treino. 
Soraya Carvalho comenta ter alertado a comissão técnica várias vezes sobre sua 
dor, mas infelizmente não foi ouvida durante a sua preparação nos EUA. Não será possível, 
devido à gravidade do assunto, expor partes de seu depoimento neste caso, pois apenas um dos 
lados foi ouvido sobre a temática e, portanto outras pessoas estariam sendo expostas, a partir de 
um ponto de vista parcial a respeito do assunto. Mas nessa relação de submissão construída entre 
técnicos e ginastas durante anos, principalmente pelo início da modalidade ainda na infância, as 
ginastas desenvolvem um comportamento de respeito para com os técnicos mesmo que isso 
implique em desrespeito para consigo mesmas. Um fato que exemplifica essa questão é que 
muitos ginastas continuam treinando com fortes dores para não desobedecer seus técnicos. 
Bortoleto (2004, p.370) expõe sobre o assunto: “Em nenhuma oportunidade observamos um 
ginasta contestar ou discutir uma ordem dada por seu treinador” e remete-se a Zulaika (1989), 
que compara os ginastas aos militares: “Os ginastas não se atrevem a contestar uma ordem dada 
por um superior, neste caso seus treinadores. Os comentários críticos normalmente se reservam 
aos membros de mesma classe, ou seja, entre os ginastas”.       
Mas ainda assim, e não podendo generalizar qualquer atitude, é possível 
perceber também algumas atitudes pedagógicas interessantes de alguns técnicos, considerando a 
preparação de muitos anos das ginastas:  
 
Teve uma época no início da minha carreira que eu tinha medo de saltar, salto era um 
horror para mim, não conseguia correr com velocidade, tinha que ir bem devagar e, com 
isso, não dava para saltar direito. Não sei como, de repente eu aprendi a correr. Eu acho 
que eu saltava com o pé de impulsão errado, então era desconfortável e não me dava 
segurança, acho que um dia eu comecei a saltar com o outro pé. E engraçado, que em um 
ano meu técnico não deixou eu competir, naquele campeonato carioca e no nacional, eu 
perdi um ano porque eu tinha medo de salto e ele tinha muita confiança que eu tinha 
potencial, e eu ia ser uma ginasta completa e ele não queria que eu aparecesse em um 
campeonato fazendo saltinhos fracos, aqueles que passava carpadinho, eu vinha andando 
e fazia aquele salto, e aquilo ia queimar o meu filme. Ele queria que eu fizesse o “über” 
(reversão para frente), então ele me cortou do campeonato. Não para me castigar, mas 
para me proteger de eu ficar queimada logo, na idade que eu tinha que estava começando 
a fazer bem. Não sei foi daí que eu pensei, nunca mais vou passar por isso, vou saltar. Aí 
eu saltei e pronto, aprendi a saltar. Eu tinha muita força nas pernas, fortes, nunca tive 
problema de fazer salto. Era “mole” para mim, era problema psicológico que eu tinha. Aí 
era legal, eu curtia mais ainda. Passou esse trauma (CLÁUDIA MAGALHÃES, p.3). 
 


 
 
300
Neste acontecimento Cláudia Magalhães demonstra que possivelmente seu 
técnico estava mais preocupado com a ginasta do que com o resultado, pensando em sua carreira 
mais para frente, e não apenas naquele campeonato. Soraya Carvalho, em depoimento a seguir, 
também aborda a preocupação de seu técnico em contribuir para sua formação como ginasta, 
adquirindo experiência apenas e não cobrando resultados tão cedo. 
  
Sim, eu lidava bem com isso
196
 porque meu pai era assim, eu lembro dessa frase muito 
bem. Ele, no dia da competição, ele dizia: “olha, você vai lá e se você errar tudo, não 
tem problema. Para mim, eu quero que você vá, compita e você vai ganhar experiência e 
devagarinho você vai conseguir. Então, não tem problema nenhum.” Eu sempre competi 
muito tranqüila. Eu tinha a minha cobrança, nunca gostei de perder, de errar. Mas vindo 
do treinador eu não tinha. Só fui ter, quando eu fui treinar no Flamengo. Bem mais tarde. 
Nem com o Ulisses. Muito tranqüilo (SORAYA CARVALHO, p.4). 
 
No depoimento de Daniele Hypólito, é possível perceber a humildade e a 
generosidade de sua primeira técnica, indicando sua melhor ginasta para outro ginásio que 
poderia oferecer melhores condições para a carreira de Daniele. 
 
Eu fiquei no SESI de Santo André até 93, foi quando a Patrícia sentou, conversou 
comigo e falou: “olha Dani, você pode mais do que isso e aqui a gente não vai poder te 
dar estrutura. Você pode ser mais que uma atletazinha”. E aí eu fui para a Yashi para 
conhecer, para ver como eu ia me sentir lá (DANIELE HYPÓLITO, p.6).  
 
Soraya Carvalho destaca a preferência pelo técnico russo que a treinou por 
alguns anos, pela sabedoria em ensinar os exercícios: 
 
Eu tinha acho que muita habilidade mesmo. A partir do Anatóli, foi o Anatóli que me 
chamou mais para percepção corporal. Assim de: “ah sente seu corpo aqui, quando você 
sentir isso é hora de fazer tal coisa”. Então, foi daí que até eu refinei minha técnica, eu 
comecei a ser mais constante nas minhas competições, eu errava menos, essa questão de 
concentração foi tudo. O Anatóli foi muito importante como treinador. Enquanto os 
outros, todos os outros eram assim, você fez um duplo e caiu de cabeça: “vamos! Mais 
forte! Tá de corpo mole?”. Não tinha um orientação como: “olha você está na corveta 
assim, com esse erro, você jogou a cabeça”, não tinha muito essas coisas, de você 
desmembrar e mostrar exatamente onde você está. Então acho que foi a partir do Anatóli 
que eu tive mais isso. De entender o que estava acontecendo, entender o movimento e 
me sentir dentro daquele movimento, ser uma coisa mais constante. Então ele foi muito 
importante para mim (p.16).  
 
                                                 
196
 Competir em categorias acima. 


 
 
301
Ainda abordando as atitudes dos técnicos, a experiência das ginastas na sua 
carreira desportiva, sendo orientadas por diferentes técnicos, permite que possam sugerir ou 
considerar algumas atitudes que venham a colaborar no processo de formação de ginastas:  
 
Primeiramente, o técnico tem que conhecer a ginasta, saber mais ou menos o que ela 
pode, o que ela é capaz de fazer, o que ela não é. E ir passando devagarzinho para ela, 
passar um elemento é ensinar e você saber, estudar bem o elemento antes de passar 
porque se você passa de uma técnica, não errada mas, já diferente, ela vai fazer diferente 
e vai fazer meio que errado. Então, é sempre importante passar direito. Porque depois 
para corrigir sofre muito (LAÍS SOUZA, p.11) 
 
Laís Souza menciona em seu depoimento que teve muitas dificuldades com 
correções de técnicas erradas quando começou a treinar com os ucranianos, e por isso faz essa 
consideração.  
Devido à importância dos técnicos na vida das ginastas, muitas os consideram 
entre as principais influências nas suas carreiras e sugerem muitas vezes que eles saibam da 
carreira delas tanto quanto, ou mais, que suas próprias famílias. Daniele Hypólito fala de quem 
saberia contar sua história tão bem quanto ela ou melhor: “Primeiramente os meus irmãos, o 
Édson e o Diego. E a Georgette. Ela é uma pessoa que contaria até com mais detalhes do que eu a 
minha carreira como atleta” (p.15).  
Daiane, assim como Daniele, treinou muitos anos com a mesma técnica e fala 
em seu depoimento de quem saberia tanto quanto ela de sua carreira: “Acho que, se eu fosse falar 
assim, acho que eu colocaria minha mãe e eu acho que a Adri (Adriana Alves). Acho que as duas. 
Duas mães (risos) (p.22).  
E Camila Comin, que também fala de uma das suas primeiras técnicas e a atual 
coordenadora das seleções brasileiras na CBG:  
 
Eu acho que a Eliane Martins poderia falar bem sobre a minha vida esportiva, a pessoa 
que me conheceu desde onde eu era nada até onde eu sou hoje, é a única pessoa que me 
acompanhou 100% até em competições, desde a primeira competição, porque ela foi 
desde eu campeã infantil A até campeonato brasileiro, pan-americano mundial, tudo, até 
a Olimpíada.  Ela foi como uma segunda mãe, dentro do esporte ela é a pessoa que me 
conhece mais na vida esportiva (CAMILA COMIN, p. 23).  
 
Os técnicos destas ginastas, de uma forma geral, são valorizados por todas as 
ginastas nas suas conquistas, sendo que algumas ginastas os vêem como verdadeiros ídolos e 
outras, com certa decepção, em função de um olhar mais critico desenvolvido após o 


 
 
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encerramento da carreira, que permite analisar  o contexto com mais distanciamento. Mas mesmo 
estes, ainda assim são considerados com imenso carinho pelas ginastas. É uma relação de mais de 
dez anos juntos, construída diariamente, que deixa marcas para toda a vida. Daí a importância 
dessa relação ser bem construída, o que implica em grande responsabilidade para os adultos que 
estão envolvidos na formação de jovens atletas.  



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