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Foto 41: Camila e Daniele (collant pretos) nos JO de Sydnei (2000)



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Foto 41: Camila e Daniele (collant pretos) nos JO de Sydnei (2000) 
 
em Atenas, na primeira Olimpíada competindo mesmo, acho que foi muito legal, 
porque a gente estava com uma equipe. Era uma equipe forte. A equipe era forte. A 
gente estava entre os melhores do mundo. As doze melhores do mundo. E ainda estava 
em oitavo! A gente era a oitava equipe melhor do mundo, então a gente não podia 
mostrar qualquer coisa. Tinha que mostrar mais coisa boa. Sem contar que ter ido para 
Atenas com a equipe e tinha mais eu ainda que podia ser campeã olímpica de solo. Tudo 


 
 
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isso! Então acho que foi uma coisa que aconteceu muito rápido. Que a gente falou: 
“Tudo aconteceu muito rápido!”. Eu acho. Pelo menos para mim, eu acho. Se você for 
contar, eu tenho doze anos de Ginástica. Treze, treze anos. Treze agora! Treze anos de 
Ginástica. A Dani tem dezoito anos de Ginástica! A Camila fez dezoito também, 
dezenove anos! Então para mim tudo tem acontecido muito rápido. A evolução foi legal 
porque eu peguei o começo, onde não tinha nada na Ginástica. Não tinha. E agora que 
tem praticamente tudo. A gente tem patrocínio, tem um lugar bom de treinamento, tem 
uma preparação realmente com condições.  
Foi bem bacana em Atenas, mas foi bem intenso. Foi uma etapa, assim da minha vida 
muito tensa. Porque tinha aquela expectativa, expectativa de milhões de pessoas ao 
mesmo tempo. Então foi uma coisa que foi bem estressante. O meu foco estava todo alí. 
Em Atenas, no Solo principalmente que era o meu aparelho mais forte. Não que eu 
treinasse mais Solo, mas o foco principal estava no Solo. Mas foi difícil.  
Eu acho que faltou maturidade! Que o fato de eu crescer na Ginástica, é a maturidade 
que você tem. De você saber lidar com tudo isso. É difícil de você saber lidar com a 
pressão, é difícil de você sabe lidar, tudo alí na mão. Porque naquele momento eu tinha 
tudo na mão. Era aquela coisa, se você não errar você vai ser campeã olímpica. Era 
aquela coisa... E foi um passinho a mais que não deu. Não foi nem a força que faltou , 
foi a força que foi demais! Então acho que a maturidade que você vai ganhando aos 
poucos. Só que isso não adianta! Você vai ganhando nas competições. Só você 
competindo uma vez lá que você vai ganhando isso. Você não tem como passar de uma 
pessoa para outra (DAIANE DOS SANTOS, p.13-14).   
 
Da geração de pioneiras para a geração de transição, já é possível perceber 
diferenças relacionadas à pressão para uma boa competição, principalmente pela possibilidade de 
maior expressão existente já na geração de transição. Nas pioneiras havia uma certa 
despreocupação com a classificação a ser atingida, tanto que a própria Cláudia Magalhães não se 
lembra exatamente qual a sua classificação final nos JO, algo talvez inimaginável para uma 
ginasta da geração de transição que sabe onde quer e onde precisa chegar, pois já há um peso de 
uma cobrança de maior responsabilidade com o próprio país que espera algo mais delas. Na 
geração de pioneiras, Tatiana Figueiredo relata que após a sua classificação para os JO, voltou ao 
Brasil para preparar-se no último ano devido aos treinamentos nos EUA serem muito fortes, o 
que pode demonstrar que o principal e mais difícil era a classificação em si. Estando classificada, 
o objetivo era representar bem, mas sem grandes perspectivas, participar apenas. Luisa Parente 
também ao abordar o assunto do excesso de peso conquistado na vila olímpica, mostra certa 
despreocupação com uma possível queda de rendimento, não estando tão motivada como para 
Seul. Participar era a maior conquista até aquele momento.  
Na nova geração de ginastas, o início em JO já é com uma grande pressão de 
conquistar algo, de estar entre os melhores, diferentemente da geração anterior que viveu o 
processo de transição da participação de ginastas individuais brasileiras em JO sem chances de 


 
 
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medalhas, para uma equipe com chances concretas de classificação e disputas de medalhas de 
finais individuais.   
 
Lá em Atenas eu fiquei com fratura por estresse na canela, então eu estava muito ruim, 
não conseguia pisar direito no chão. Eu estava fazendo fisioterapia, tomando remédio, 
cápsula de cálcio para tentar recuperar, só que eu tinha muita dor. Isso ninguém sabe, as 
pessoas nunca vêem esse lado e você começa a ficar super saturada: “está chegando” e 
você está com dor e você começa a ficar desesperada. Mas tinha que treinar do mesmo 
jeito, tinha que agüentar dor. Então têm muitas dessas coisas que ginasta tem que passar. 
A gente ficou duas semanas treinando em Atenas e já foi a competição.  
A competição lá para mim não foi muito boa, porque eu competi na trave apenas, eu fui 
muito mal, eu não gostei. Eu fazia 10 séries cravadas (sem quedas e desequilíbrios) todo 
dia e chegou na hora eu fazer aquilo?! Eu não gostei nem um pouquinho. Aquela 
porcaria! Eu caí duas ou três vezes da trave, porque eu fiquei extremamente nervosa, 
apavorada, eu tinha uns tiques nervosos na hora da competição e era uma coisa 
inexplicável, porque eu fazia 10 séries sem mexer no treino, tudo cravado. Com a perna 
machucada eu fazia, treinava. Mas acontece, igual a Dái, errou o solo na final, todo 
mundo está sujeito a isso! 
Depois a gente ficou bem chateada porque a gente treinou tanto, tanto e foi por muito 
pouco que a gente não conseguiu ganhar, foi 0,10
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. Então a gente ficou pensando: “...se 
a Carol tivesse feito paralela, mesmo que ela caísse a gente tinha conseguido”. Isso é 
verdade, porque mesmo com queda minha paralela era melhor do que da Daiane ou da 
Laís, mas isso foi uma estratégia que os treinadores tentaram e infelizmente não deu. Às 
vezes até a gente brinca, eu falo para a Iryna: “está vendo, se eu tivesse ido, a gente tinha 
se classificado”. Ela fala: ai Molinari! (CAROLINE MOLINARI, p.5-6).  
 
E lá eu também competi super bem. Fiz os quatros aparelhos, eu fiquei em vigésimo 
sexto. Foi um resultado super bom. Entrou a Dani (Daniele Hypólito) e a Camila 
(Comin). Eu fiquei acho que uma classificação atrás da Camila. Então por ser minha 
primeira Olimpíada assim, acho que foi um resultado super bom (ANA PAULA 
RODRIGUES, p.3). 
 
Na competição eu fui bem melhor que nos treinamentos porque nos treinamentos é muita 
pressão e todo mundo ali te olhando. Dá um nervoso. É diferente. No começo foi difícil, 
mas depois a gente se habituou. A gente conversava sobre essa pressão toda, porque é 
difícil você estar ali, você tem que treinar bem, porque sempre tem um árbitro te 
olhando, um treinador te olhando. E você não pode chorar, não pode fazer cara feia. Era 
mais difícil. Vai chorar, e a nossa coordenadora estava ali olhando e se chorasse ou 
fizesse cara feia ela falava. A gente sabia que não podia. 
Não fiquei tão nervosa quanto eu achei. Que como dizem, a Iryna e todo mundo fala que 
eu sou, pareço a mais calma das meninas. Então eu sempre iniciava o aparelho, porque 
eu era a mais calma e fazia assim mais tranqüila. Não tinha tanto problema. Então, a 
gente começou na Trave. Eu fui a primeira. Então, eu estava muito nervosa porque 
aquele ginásio imenso, tanta gente te olhando. Dá um nervoso, mas eu fui muito bem. 
Competi. Não caí. Na Trave eu tive só uma ligação que eu não fiz, mas eu não errei. No 
Solo eu fui bem, na Paralela foi o meu melhor aparelho, eu fiz uma série perfeita 
digamos. Não errei nada e fiz tudo que tinha que fazer. E como era o meu melhor 
aparelho, foi muito bom para equipe. E Salto também fui bem, não errei nada. Então 
como foi nossa primeira Olimpíada, e a nossa equipe estava bem forte assim, bem 
                                                 
184
 Por 0,10 pontos o Brasil não se classificou entre as oito melhores equipes para disputar a final por equipes, ficou 
em 9º. lugar 


 
 
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preparada, acho que a gente deu o nosso máximo. Não teve nenhum erro grave. Então 
eles (os técnicos) ficaram normais. Falaram com a gente que a gente competiu super bem 
e como as outras equipes estavam mais fortes, não deu para ir para a final. Não foi dessa 
vez (ANA PAULA RODRIGUES, p.8-9).  
 
Eu acho que eu poderia ter feito melhor lá, mas pela primeira vez assim, eu, como 
sempre a mais nova da equipe, foi normal para mim. Gostei bastante. Eu sou bem 
tranqüila assim para competir. Às vezes eu posso ficar com cara de nervosa, mas estou 
tranqüila, sei me controlar, mesmo na hora de subir na trave assim, na paralela. 
 
Agora, para assistir a Daiane não. Quando você está fora da competição é um 
nervosismo, nossa! Eu quase morri. E tanto que quando a gente viu a nota da Dái assim, 
eu não sabia se ria ou se eu chorava, se eu abraçava as meninas, se a gente saía correndo 
para ver a Dái. Nossa! Eu fico muito mais nervosa fora, do que lá. Porque lá você sabe o 
que você vai fazer, sei lá, se errar, errou, já era, vai fazendo. Agora, quando você está 
fora e torcendo, é diferente (LAÍS SOUZA, p.7).  
 
 
 
Foto 42: Delegação brasileira nos JO de Atenas (2004) 
 
 
A pressão de fazer parte de uma das melhores equipes do mundo traz uma 
ansiedade muitas vezes descontrolada, como menciona Caroline Molinari, que acabou se 
descontrolando no momento da prova. Ana Paula também aborda a questão de ser observada por 
outras equipes, pelos árbitros, pois passam a ser ginastas importantes, de destaque na competição.  
Outra situação que todas as ginastas que participaram dos JO de Atenas 
mencionam, é a pressão sobre Daiane dos Santos, ginasta que disputava uma medalha individual 
na prova de Solo, até então nunca tentado antes em JO. Situação totalmente distante de Cláudia 
Magalhães, que menciona sua tranqüilidade e divertimento na competição, sem deixar de cumprir 
seu papel, mas com uma responsabilidade menor pelo nível da GA do país naquele momento.  A 


 
 
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mídia começa a dar mais atenção à GA, a partir dos JO de Seul, com Luisa Parente, que 
menciona que a imprensa interessava-se em saber e transmitir imagens da modalidade.  
 
Na competição em Seul, o ginásio lotado, todo mundo acompanhando e valorizando 
todos os atletas que estavam lá. E a imprensa, lembro da imprensa brasileira também 
assim querendo acompanhar cada momento. Ainda eu me recordo agora. Os vídeos você 
vê alguns comentários, ainda com muito despreparo, desconhecimento. Não se tinha essa 
coisa de comentário específico que hoje se tem. Porque realmente, é muita informação 
para cada esporte. Mas eles estavam já reconhecendo esse esporte. Mexe muito com a 
emoção, que o povo brasileiro principalmente adora acompanhar e torcer. Então isso foi 
maravilhoso.(p.15) 
 
Nos depoimentos ficam claras as expressões de relativo deslumbramento com 
os JO, fruto do sonho desta participação tão valorizada em nossa sociedade. Medina e Sánchez 
(2003), citados por Bortoleto (2004, p.378), expõem esta valorização: “Se trata de uma condição 
indispensável para poder começar um longo caminho até a realização do mito desportivo da 
vitória, da fama, da transformação em ídolo e, como conseqüência, a eternização de sua pessoa”.  
Fica claro este deslumbramento nos depoimentos de muitas ginastas da 
pesquisa que mencionam mais detalhes sobre o local, os entretenimentos da vila olímpica, do que 
a própria competição ou desempenho durante a mesma. E isso acontece em diferentes gerações:  
 
Sobre a Olimpíada, eu estava bem, não tinha nada de mais, nenhum machucado, estava 
ótima. Era uma festa, eram as coisas mais lindas do mundo, tudo eram flores. Em 
Moscou eu nunca vi tanta flor na minha vida, tudo decorado com aquele verão de flores, 
as pessoas pareciam que não sofriam nada, sorridentes, lindas, felizes, davam tchauzinho 
para todo mundo, eu estava no paraíso. Depois começaram as minhas folguinhas de 
poucas horas para passear na vila olímpica e comprar coisas e aqueles bichinhos 
“Misha” (mascote dos Jogos Olímpicos de Moscou – um urso) e era tudo tênis Mizuno. 
Tinha blusa, tinha a rota da tocha olímpica em todos os paises, e tudo o que era “Misha” 
a gente podia comprar blusas, todas essas coisas bonitinhas, e eu não tinha preocupação 
nenhuma não. Tinha que se concentrar porque na hora de treinar eu só treinava, treinava, 
e fazia festa também (CLÁUDIA MAGALHÃES, p.15).  
 
Na Olimpíada foi muito bacana. Porque foi a realização do meu sonho. Que você 
buscou, que eu busquei a vida inteira. Apesar de todas as dificuldades, foi muito bacana. 
É pena que naquela época também não tivesse muita condição. O COB não tinha muitos 
recursos. Então eles só queriam mandar os atletas que tivessem chance de medalhas. Eu 
tive até que fazer uma avaliação antes. A Berenice avaliou, ganhei média 9,50 e eles me 
mandaram, mas não mandaram técnico. (TATIANA FIGUEIREDO, p.5) 
 
Em Barcelona já tendo participado de Seul também eu acho que, pelo fato de ser uma 
cidade da Espanha, o ambiente, o clima mais verão. Não era frio. Em frente à praia, um 
clima maravilhoso! Cidade lindíssima para sediar os jogos. Tudo muito bacana, muito 
festivo. Então foi assim um ambiente muito, muito bacana também. Com alto nível já de 


 
 
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estrutura também. Isso te dava um ‘status’ assim, de realmente: Poxa! Atleta! Essa 
importância (LUISA PARENTE, p.16).  
 
Passamos a mesma pressão juntas. Quando foi decidido que eu iria, eu não acreditava, eu 
não acreditava que era eu que estava indo. A viagem de Sidney desde o embarque até eu 
chegar no momento da competição, para mim era um sonho, tudo pra mim era lindo, 
tudo pra mim era um mar de rosas. A vila olímpica para mim era um lugar inesquecível, 
os atletas que passavam por mim e ficavam babando, sabe aquela criança que ganha o 
primeiro brinquedo, para mim tudo o que eu tinha passado de ruim, de chorar no treino 
de dor passou, apagou, foi tipo como uma borracha. Sabe quando você treina e fala: 
aquele técnico é chato, aquele técnico é isso, é bravo, para mim não tinha nada, para 
mim zerou, fez um balanço da minha vida. Competir ali foi um alívio. Como acabei, 
posso começar tudo de novo do zero que eu já realizei o que eu queria, foi o meu auge, 
foi a Olimpíada de Sidney  (CAMILA COMIN, p.9).   
 
Nesta minha primeira Olimpíada era tudo novidade, é uma coisa que eu lembro mais da 
primeira Olimpíada do que de Atenas em si, porque eu acho que, era a primeira 
Olimpíada, eu era conhecida como a mascote do Brasil, então, acabei conhecendo muita 
gente por causa disso, porque todo mundo queria saber quem era a mascote, eu era muito 
pequenininha, eu tinha completado... melhor presente do que esse foi completar 16 anos 
estando na Olimpíada. [...] Então, claro! Atenas foi tão marcante quanto Sydney, foi, 
porque foi minha segunda Olimpíada. Mas acho que não foi tão marcante e eu não fiquei 
tão assim abobada como eu fiquei em Sydney (DANIELE HYPÓLITO, p.9-12).  
 
Ah... Acho que a Olimpíada é uma competição que todo mundo espera acontecer. E 
quando a gente chegou lá. Nossa! Lá é tudo diferente. É muito bonito. É parecido com o 
Pan-americano, mas não é tão grande, tão organizado assim como a Olimpíada. A gente 
chegou, ficou num apartamento a equipe do Brasil da Ginástica: as meninas, a treinadora 
e a Eliane num quarto. É um refeitório para todo mundo e então a gente vê todos os 
países, todos os esportes, é uma coisa muito diferente. Foto toda hora! Máquina na mão! 
Tem shopping lá, lojinhas, é muito legal (ANA PAULA RODRIGUES, p.8).  
 
Três ginastas não relataram esse deslumbramento das anteriores: Soraya 
Carvalho, por motivos já mencionados anteriormente; Caroline Molinari, possivelmente por não 
ter conseguido o desempenho que desejava no único aparelho em que competiu e com fratura por 
estresse na perna; e Laís Souza, que revela que as outras ginastas que já tinham participado em 
outros JO anteciparam tantos acontecimentos, que ela estava com uma expectativa maior: “A 
gente chegou lá em Atenas mesmo e não foi aquela coisa: Nossa! Foi normal para mim. Mas a 
gente estava bem empolgada também, sempre unidas. A gente dava muita risada de qualquer 
coisa” (p.7). 
Esse deslumbramento talvez seja um fator inevitável para diferentes países, 
com diferentes atletas e modalidades, mas possivelmente para um país que não possui uma 
classificação significativa no quadro geral de medalhas, seja algo com um simbolismo de 
inatingível, de heróico, de poder, maior do que para outros países, que podem tratar os JO como 


 
 
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algo mais possível, talvez mais comum, com reais chances de disputa de medalhas. O que talvez 
aumente esse deslumbramento seja a questão de um atleta, de um país que é uma potência 
mundial desportiva, ter sido preparado com todas as condições adequadas para disputar uma 
medalha, e para um atleta brasileiro, as condições de todo o processo de sua formação desportiva, 
provavelmente não foram as mais ideais para chegar aos JO e, no entanto, ele conseguiu se 
classificar mesmo assim. Esta situação de estar entre os melhores do desporto pode colaborar 
para esse deslumbramento de atletas em geral, o que pode gerar uma perda do foco competitivo.  
O Instituto Inglês de Desporto (English Institute of Sport) desenvolve um 
trabalho psicológico com os atletas em potencial para JO, chamados de “elite learners”, 
preparando-os para as pressões de um campeonato internacional importante, visando a uma 
preparação psicológica para os JO de Londres (2012), quando os atletas ingleses competirão em 
seu próprio país com uma pressão maior do que em qualquer outra Olimpíada. O Instituto 
desenvolve cursos com os técnicos e atletas, sugerindo a implementação de situações de pressão 
nos próprios treinamentos.  
Esse tipo de treinamento é também mencionado por algumas ginastas, dado 
pelos técnicos ucranianos. Consiste em realizar suas séries algumas vezes sem aquecimento para 
serem avaliadas, ou em dias que os técnicos estão mais frios e exigem mais, como um teatro 
algumas vezes para que as ginasta sintam uma pressão maior e os técnicos percebam como elas 
reagem nessas situações. Camila comenta em seu depoimento sobre essa preparação: 
 
Em Atenas, quando eu peguei final (individual geral) olímpica, eu me senti. Porque 
quatro anos, são quatro anos. Então quatro anos com eles (ucranianos) parecem que são 
oito, é muito diferente o treino, o ritmo do treino, o objetivo do treinamento, a frieza 
com que eles trabalham com a gente. É uma frieza que também foi mudando em quatro 
anos. Se você me perguntar se eu mudei, de quando eu era pequena para hoje, eu mudei 
totalmente, eu não sou mais a mesma pessoa, nem a postura, disciplina, 
responsabilidade, como agir perto das pessoas, conceito de vida, de pessoa, de trabalhar, 
de como você por a pessoa no limite. De estressar a pessoa até a pessoa falar: chega! 
Não passa daqui! Eu sei qual é o meu limite, eu sei que eu estou aqui, mas eu posso ir 
até aqui, que eu sei que eu posso ir além dos meus conhecimentos físicos. Eu acho que 
posso agüentar tanto! Não! Eu posso agüentar um pouco mais, mas esse mais... essa 
distância de uma dupla e meia (mortal com giro no eixo longitudinal) para uma tripla, é 
meio giro, mas esse meio giro...é meio giro. É esse limite que aprendi a ver, não só no 
pessoal, no estudo, no trabalho, nas pessoas, em casa (CAMILA COMIN, p.15). 
 


 
 
279
O Instituto Inglês de Desporto possui também um programa chamado PRIDE 
(Personal Responsibility in Developing Excellence
185
), no qual atletas que já encerraram suas 
carreiras desportivas, que já viveram essas situações de pressão em outros JO e souberam lidar 
com elas saindo-se vitoriosos, tentam passar suas experiências para os atletas em formação para 
os JO, com o propósito de prepará-los para diferentes situações vividas nesses ambientes, num 
processo chamado de “mentoring”, como um aconselhamento. Essa preparação é desenvolvida 
pelo psicólogo de performance do Instituo Inglês de Desporto, Pete Linsay. O mesmo trabalho de 
“mentoring” foi desenvolvido com atletas canadenses medalhistas olímpicos na preparação para 
os JO de inverno e foi considerado pelos atletas de grande auxílio para a concentração, o foco na 
competição (MACNEILL, 2007).  
De certa forma, o não-deslumbramento de Laís Souza, pode ter acontecido pelo 
processo de aconselhamento das ginastas que já haviam participado dos JO de Sidney e que, sem 
esse propósito, mas de uma forma espontânea, podem ter desenvolvido esse processo de 
aconselhamento, antecipando o que ela encontraria nos JO. 
Alguns depoimentos explicam detalhes sobre seus treinamentos nos JO ou na 
preparação para eles, assim como Cláudia Magalhães nos JO de Moscou: “O treinamento não era 
forte, era tranqüilo, era só de leve, só testando aparelho, conhecendo as passadas e medindo onde 
começa o salto e onde começa a entrada” (p.15). Outras ginastas também abordam o assunto: 
 
Lá nos JO, eu confesso que... a minha mãe lembra que eu comentei com ela, que se fosse 
mais um dia de competição eu não ia agüentar. Então eu talvez estivesse assim realmente 
ou no ápice, ou talvez já numa descendência da forma física, mas que então foi assim, 
acho que foi um acerto. Minha mãe até acha que passou do ponto. O certo seria, você 
estar no auge esse tempo todo. E não já estar nesse... (expressão de cansaço). Mas é 
muito difícil. Ainda mais para uma pessoa que não tinha essa experiência. Acho que o 
Brasil não tinha escola e tudo mais, então acho que foi atingida a meta sim (LUISA 
PARENTE, p.6-7). 
 
 
Os treinos lá eram todos escalados. A gente chegou e já tinham todos os horários de 
treino. Aonde a gente ia treinar, a gente treinava de manhã e de tarde. De manhã num 
ginásio, de tarde no outro. Treinava forte. No primeiro e no segundo dia, é sempre para 
habituar ao aparelho. A gente não faz série completa, mas se a pessoa já chega e se 
adapta ao aparelho, pode fazer série já.  Mas era mais reduzido do que aqui, porque 
como tinham várias equipes, vários países, não tinha tanto tempo para a gente ficar no 
ginásio. Eram treino mais reduzidos (ANA PAULA RODRIGUES, p.8).  
 
                                                 
185
 Responsabilidade pessoal e desenvolvimento de excelência. 


 
 
280
Chegando lá em Atenas, os treinos já não eram tão puxados, porque véspera da 
competição não pode, então tem os horários tudo certinho para treinar, mas a gente tinha 
todas as tarefas que se não cumprisse acumulava para o dia seguinte. Eles elaboraram 
para gente e a gente tinha que seguir aquela rotina de treinamento. [...] E a gente 
conseguiu não foi por sorte, não foi nada em vão, a gente treinou muito duro. Só nós que 
treinamos, sabemos o que passamos. Cada uma, sempre lembra como era difícil. Muito 
treino mesmo. Muito treino, exaustivo, eu chegava no fim do dia morta, eu não tinha 
ânimo nenhum nem para subir a escada de casa, foi bem exaustivo mesmo, mas valeu a 
pena, teve resultado (CAROLINE MOLINARI, p.5-6).  
 
E os treinos lá na Olimpíada foram duros. A mesma coisa! Foi bem duro porque estava 
calor, bem quente e normalmente estava muito claro o ginásio. Entrava luz que até doía 
o olho. E acho que a parte mais difícil lá de Atenas, foi de acostumar com os aparelhos 
que eram JF (Janssen Fritsen), se eu não me engano. A trave era normal, paralela, a 
gente no terceiro dia já estava mais ou menos todo mundo meio que acostumando. O 
salto era muito duro, o solo jogava mais ou menos também, era meio fofo (LAÍS 
SOUZA, p.7). 
 
É possível perceber a seriedade e certeza do trabalho desenvolvido com a 
equipe representante brasileira em Atenas, no qual houve um direcionamento e uma meta certa e 
realizada com a experiência de quem já viveu várias periodizações para JO. No depoimento de 
Camila Comin, citado anteriormente neste mesmo tópico de análise, ela fala da diferença da 
participação nos JO de Sidney e de Atenas, dizendo que em 2004 o objetivo não era mais 
participar, era competir, um diferença observada também nas gerações anteriores à Sidney, nas 
quais o objetivo era participar.  
Sobre a experiência de Soraya Carvalho nos JO, foi possível revelar apenas o 
processo da descoberta de sua lesão e seu tratamento, ainda tentado na véspera da competição: 
 
Essa historia é muito desgastante. Quando eu cheguei lá na Olimpíada, eu falei com a 
Vicélia e disse: “estou tão cansada”, assim eu realmente estava preocupada. Porque eu 
competi machucada muitas vezes e você vai. Sabe como é. Mas dessa vez eu estava 
realmente preocupada porque eu não ia conseguir assim. Estava muito aguda a dor. 
Quando eu cheguei, eu já fui para o médico direto, fiz alguns exames. Não, eu fiz só uma 
radiografia. Aí eles fizeram vários outros exames e tal, e falaram: “aparentemente, se ela 
não pisar, o pé no chão durante dois dias, se é que é possível, para a preparação dela, 
talvez ela consiga competir. Vamos tentar!”. Isso com tratamento intensivo. Eu tinha 
fisioterapeuta dentro do meu quarto na vila, da delegação, de uma hora em uma hora e 
meia ele colocava gelo. Ele ficou de plantão a madrugada toda para fazer um tratamento 
para ver se melhorava. E nesse ínterim, na época dos treinamentos eu ia fazer paralela, 
fazer parte de preparo físico. Sem tocar, estava de muleta, já.  
Depois do segundo dia minha panturrilha tinha desinchado bastante. Mas assim, estava 
muito roxa. Aí o médico falou: “não, vamos fazer uma ressonância”. Aí que viram que 
eu estava com uma fratura por estresse e estava com sangramento nas áreas de 
crescimento, estava com quase rompimento do ligamento, tendão de Aquiles, esqueci 
como é que chama. Então assim, estava muito grave, era uma lesão muito, muito grave. 
E foi aí que o chefe médico falou: “olha, é uma atleta jovem. Está muito aguda. A fratura 

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