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3.4.6. ASPECTOS NUTRICIONAIS NA GINÁSTICA ARTÍSTICA 
 
 
Os aspectos nutricionais foram bastante relatados nos depoimentos orais das 
ginastas participantes de JO. Além disso, sabe-se que pela necessidade de um baixo peso na 
modalidade, muitas vezes existe uma cobrança por parte dos técnicos e nem sempre há a 
orientação de um profissional especializado nesse aspecto. 
Na geração das ginastas pioneiras, nenhuma delas teve orientação nutricional 
com profissionais especializados, mas todas comentam sobre a pressão dos técnicos para 
emagrecer.  Luisa Parente relata: “nutrição também era “por fora” e muita coisa às vezes era do 
próprio treinador. [...] Enfim, era uma época que não se tinha estrutura” (p.17). Tatiana 
Figueiredo também recorda-se: “não tínhamos acompanhamento psicológico, nem nutricional, 
não. Só ter que manter o peso. Mas não tinha orientação profissional (p.3). 
 
Nutricionista também não tinha direito. Nenhuma orientação, só pressão, só pressão: 
“tem que perder peso!” e pesava. Pesava mais a gente que procurava se interessar e 
aprender. Mas não tinha muita paranóia com isso não, tinha sorte da equipe ser magra. 
Tinha aquele exame anual ou semestral que eu te falei. Eles mediam o percentual de 
gordura, faziam aquele teste tudo direitinho. E eu lembro que nossa equipe era magra, os 
meninos eram esqueléticos, que eu me lembre tinha 9% de percentual de gordura. Era 


 
 
234
bom não era? Eu era uma das mais magras, tudo magrinha (CLÁUDIA MAGALHÃES, 
p.11-12). 
 
 
Nesta mesma geração, alguns problemas relacionados à dificuldade na 
manutenção de peso são revelados pelas ginastas, sobre si mesmas ou sobre colegas de 
treinamento: 
 
  Em Barcelona, a expectativa era a mesma. Nós não sabíamos da nossa realidade. 
Olimpíada ainda não tinha como uma medalha, disputar medalha, mas nós podíamos já 
melhorar a classificação. Então o objetivo seria ficar entre as vinte, talvez. [...] Mas eu 
no refeitório, me apaixonei pelo Magnum (risos). O Magnum é o Picolé Mega, da Kibon 
ou sei lá da Yopa. E eu não o conhecia. E só tinha lá. O lançamento era lá em Barcelona. 
Depois é que veio para o Brasil. O de amêndoas então! E não foi só isso não. Havia já 
um desgaste também. E já era mais velha, a Georgette já não me dominava muito. 
Tinham outras coisas que de alguma maneira talvez influenciaram negativamente. Não 
de concentração porque você vai ver depois durante a competição, você foi bem, mas 
aconteceu, essa questão da ansiedade. A ansiedade! Acho que isso não foi um fato 
isolado, alguma coisa que gerou ansiedade e que com isso fez com que você não 
controlasse a alimentação. De fato, eu estava em um treinamento em Madri, que a gente 
passou um mês lá com intercâmbio antes da Olimpíada. E lá eu estava bem, estava com 
peso bom, ideal. E lá no dia da Olimpíada, que começou a competição, eu estava com 
dois quilos acima desse meu peso de Madri (LUISA PARENTE, p.9-10).  
 
E quando eu já estava parada, me chamaram para voltar e participar do último Pan-
americano de 95. Eu tive que emagrecer, porque existe essa situação das ginastas que 
dessa fase de encerramento, de transição. [...] Pela primeira vez que eu tive algum 
medicamento para ajudar a emagrecer porque era um tempo muito curto, de janeiro a 
março que eu tinha que entrar em forma, e eu estava cinco ou mais quilos acima. Então 
fiz uso de medicamento acompanhado de médico. Mas só fiz porque realmente o prazo 
era curto, senão não teria feito isso, até porque gosto de alimento saudável e poderia 
fazer dieta (LUISA PARENTE, p.11).  
 
Distúrbio alimentar, na faculdade eu tinha colegas que tinham bulimia, não crônicas, 
mas elas comiam muito e vomitavam (risos). Tinham outras que controlavam as calorias, 
por exemplo: eu vou comer só um saco de batata frita, é a única coisa que eu vou comer 
o dia inteiro, porque eu gosto, minhas calorias vão ser só consumidas disso. Existia isso. 
As pessoas perdidas. Não tinham uma orientação ou às vezes têm, mas não seguem. 
Então ficam soltas. Por exemplo, em Curitiba é uma coisa controlada. É mais fácil. 
Difícil é a pessoa ter a consciência e seguir isso. Principalmente adolescente. É muito 
difícil (TATIANA FIGUEIREDO, p.3).  
 
 
Na geração das ginastas de transição, todas tiveram algum acompanhamento, 
mesmo que seja apenas a partir do apoio da Confederação Brasileira de Ginástica, com a seleção 
permanente. Das quatro ginastas deste grupo, apenas Soraya Carvalho não foi beneficiada pela 
estrutura multidisciplinar relatada pelas ginastas na seleção permanente a partir de 2002. Daniele, 


 
 
235
Daiane e Camila puderam usufruir de uma estrutura mais adequada para as ginastas 
representantes brasileiras. Sobre a orientação nutricional que tiveram, expõem: 
  
Nunca tive apoio psicológico. Nenhum. Nutricional em 96, no início do ano de 96 nós 
fomos num SPA. Foi a Luisa e foi a Georgette. A gente foi dar uma pequena palestra 
sobre alimentação de atletas. Mas a partir daí tinha um medico, um nutricionista do SPA. 
E esse SPA disponibilizou esse médico para fazer o meu acompanhamento nutricional. 
Então, foi a primeira vez que eu realmente segui e foi quando eu senti uma melhora na 
minha disposição para o treino, para agüentar o treinamento de quatro horas seguidas. Eu 
ia treinar quatro horas de manhã e, no meio desse tempo, eu não comia nada, não havia 
nenhuma reposição e ele que introduziu isso. Então, eu agüentava o treino até o final, eu 
me senti bem, eu realmente “sequei”, eu me senti mais forte (SORAYA CARVALHO, 
p.10).  
 
Em relação à estrutura médica e nutricional, no início era mais difícil. Agora não. Desde 
que foi montada a estrutura da seleção permanente sempre teve a estrutura de médico, 
nutricionista, fisioterapeuta. [...] Acho que a parte nutricional ajuda sim, a orientação, 
tudo, porque a gente tem que cuidar bastante, mas muitas vezes não adianta ter a parte 
nutricional se a gente não cuida, se a gente mesmo não cuida da nossa alimentação 
(DANIELE HYPÓLITO, p.14).  
 
A partir dos 18 anos sentia que cansava mais, o cansaço ia acumulando, na sexta feira 
parecia que tinha passado um trem em cima de você. Então esse apoio médico veio em 
boa hora, nutricionista,saber o que comer para ter um rendimento melhor, comer mais 
proteínas, carboidratos, comer menos gordura e mais legumes, facilitar a digestão. Aí 
começa a ter problema renal porque não faz xixi direito, porque tem muito impacto, a 
gente começou a fazer exames. [...] Começamos a tomar complemento alimentar porque 
treinava de manhã e de tarde, faculdade de noite, estresse da faculdade, estresse do 
treino, meu dia era 24 horas com atividade física, tinha uma hora que eu ia pirar. Com 
certeza, não tem como não. Então essa parte foi bem, comecei a tomar muito 
complemento vitamínico, proteína, poli - vitamínico, “ginseng” para ter mais energia, 
mais fôlego, para o organismo acompanhar essa evolução. A gente tinha a técnica, mas o 
corpo não obedecia por conta do cansaço (CAMILA COMIN, p.19-20).  
 
 
Nesta geração também há relatos de problemas relacionados à dificuldade de 
manutenção de peso que, muitas vezes, tornam-se problemas psicológicos, o que também pode 
ser influenciado pela pressão que é imposta pelo ambiente da ginástica, pela cultura de restringir 
a alimentação sem orientação profissional
167

 
Para os Jogos Olímpicos, eu fui um mês antes para Houston no Texas. Onde tem o 
centro de treinamento do Bela Karoly
168
. Eu fui um mês antes e comecei a treinar lá. 
Sinceramente, eu acho que faltou conhecimento para minha técnica. Ela não tinha esse 
                                                 
167
 Nesta parte não será revelado o nome das ginastas para que não fique explícita a identidade das pessoas.  
168
 Técnico romeno, que treinou a ginasta Nádia Comaneci e mora nos EUA, onde trabalha há mais de 20 anos, tendo 
sido algumas vezes técnico norte-americano.  


 
 
236
conhecimento. Um mês antes da Olimpíada ela aumentou volume e intensidade de 
treinamento e diminuiu a minha alimentação. Em todos os campeonatos, ela nunca teve 
muita noção assim da quantidade que a gente podia comer. Então assim, “oh, o café da 
manha vai ser só um iogurte light e meia fruta.” A gente comia aquilo. Na hora do 
almoço, uma alface. Mas quando ela ia para o quarto dela, a gente ia para o nosso e 
comia muito. Então no final das contas, até compensava, balanceava. Só que nesse 
“camp” de treinamento, era no meio do mato. Então, não tinha para onde correr. Porque 
não tinha loja ali do lado que a gente pudesse comer, não tinha. Eu lembro que o cara da 
alimentação ia com uma van lá, montava o restaurante, retirava tudo e ia embora. [...] Ai 
eu fiquei durante esse mês inteiro e sentia muita fome. Eu ia dormir para não sentir, para 
parar 
de sentir fome (p.12). 
 
Quando voltei da Olimpíada, fiquei uns dez meses treinando e aí parei. Eu tentei voltar 
várias vezes, mas não consegui. Eu engordei muito. Engordei uns catorze quilos depois 
que eu parei e aí era muito difícil voltar a treinar, muito difícil de aceitar você com esse 
corpo. Porque, é tão valorizado o corpo na ginástica, que qualquer coisa fora é 
inadequada (p.16).  
 
Este último depoimento, assim como de outras gerações pode ser comprovado 
por meio de outras pesquisas desenvolvidas com ginastas e que apresentam resultados 
compatíveis com os relatos, assim como Berry e Howe (2000) revelam em sua pesquisa com 
atletas de modalidades relacionadas a aspectos estéticos, que essas atletas demonstram maior 
insatisfação com seus corpos, indicando neste público, com freqüência, distúrbios alimentares.   
Na nova geração, as ginastas foram mais influenciadas durante as suas 
formações desportivas pelas condições de melhor estrutura, oferecidas pela CBG, pois treinavam 
em Curitiba, como é o caso de Ana Paula Rodrigues e Caroline Molinari, ou transferiram-se para 
lá, como Laís Souza. Portanto, todas tiveram acompanhamento nutricional na sua formação 
desportiva:  
 
Em relação a outros profissionais trabalhando na preparação para os Jogos Olímpicos, a 
gente teve uma psicóloga no ano da Olimpíada. [...] Nutricionista também.  A gente teve. 
Estava sempre com a gente ali esse ano. Ela deu um cardápio para cada uma seguir. De 
acordo com seu peso, a sua altura, referente da menina, para a gente seguir certinho. Não 
sair da linha mesmo. Para comer o que tinha que comer. [...] A gente sempre tinha uma 
escapadinha. Porque no chocolate acho que era a nossa necessidade e não tinha. Aí a 
gente perguntou para ela como que a gente podia fazer, e aí a gente almoçava e a nossa 
treinadora, a Iryna dava uma barrinha de cereal, um chocolate antes do treino da tarde. A 
gente seguia certo assim (ANA PAULA RODRIGUES, p.6-7).  
 
Temos nutricionista e ela fala disso, fala tudo direitinho. É mais uma orientação mesmo. 
Não tem um cardápio. Antes até tinha, mas agora, nessa seleção mais recente cada uma 
tem seu controle, sabe o que tem que comer para não engordar e sabe o que não pode 
comer, como por exemplo, às vezes uma não pode comer muito pão porque é fatal. Vai 
acabar, mesmo, engordando demais. Ou chocolate, ou doce, mas eu, por exemplo, como 


 
 
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de tudo. Eu como pizza, como lanche, como tudo que for “engordiet”. Mas eu sei a hora 
de comer e a hora de parar. Então, tem que ter esse controle. Muitas vezes eu engordo. 
Muitas vezes. Mas eu procuro me controlar para não ficar com esses problemas, esse 
estresse (LAÍS SOUZA, p.10).  
 
Problemas relacionados a esse assunto também ocorreram nesta nova geração, o 
que demonstra mais uma vez o descontrole das ginastas em relação à alimentação e a pressão de 
seus técnicos
169
 que oferecem uma orientação, muitas vezes, sem bases científicas, apesar das 
ginastas possuírem orientações profissionais de nutricionistas: 
 
Voltei dos JO e ainda treinei um pouquinho, mas eu já nem treinava muito por causa da 
minha fratura por estresse na perna e, conseqüentemente, por causa do remédio que eu 
tomei para canela (cápsulas de cálcio). Eu fiquei com cálculo renal. Porque eu não podia 
beber muita água, não sei se a Camila comentou isso com você. A gente não podia beber 
água demais no treino, porque diziam que engordava. Não sei, tem um fundamento eu 
acho. Se eles falam, é porque deve ter alguma coisa. Não podia beber muita água, tinha 
que segurar o peso e eu tomava essas cápsulas de cálcio nos JO para tentar recuperar a 
fratura da canela, só que não adiantava e quando eu voltei, eu tinha muita dor no rim, eu 
estava com 12 cálculos. Eu nunca tinha tido cálculo renal, nunca ninguém da minha 
família teve. O médico disse que foi por causa disso, uma conseqüência daquilo: 
treinando igual uma maluca naquele calor de Atenas e não repondo todo líquido 
necessário, aconteceu isso. Acabou que formaram os cálculos e eu tinha muita dor, 
cólica renal e não conseguia treinar mais. Eu já estava com vontade de parar mesmo, e 
meio que juntou tudo (p.8).  
 
Em 2006 eu comecei o ano assim... fui levando. Chegou começo de fevereiro eu estava 
desanimada, comecei a engordar, estava difícil, complicado. O meu técnico começou a 
me chamar à atenção, eu fui desanimando, não sei. Acho que já tinha dado o meu limite 
(p.4). 
 
 
Depois da ginástica, muita coisa mudou depois que eu parei de treinar, muita coisa, 
minha cabeça mudou. Sabe eu era muito, acho que todas as ginastas são, “menininhas” e 
eu era muito certinha e exigente comigo mesma. Se a Iryna falasse que eu tinha 
engordado eu ficava triste, eu chorava porque aquilo me magoava profundamente, ainda 
mais vindo dela que eu gosto muito, parecia que era uma ofensa. [...] Então depois disso 
eu comecei a amadurecer e via que as coisas que ela fazia eram só para o meu bem. Às 
vezes você acha que é para implicar, mas não é isso. Minha mãe não comprava as coisas 
para eu comer para eu não engordar, não era para eu ficar sem comer, era para me 
ajudar, todo mundo queria ajudar. Mas a gente não consegue ver isso, só depois que pára 
de treinar que a gente vê. [...] Agora eu posso sair, posso comer o que eu quiser (p.9-10).  
 
Mas sobre a alimentação, acho que é a parte mais difícil para a atleta de alto rendimento. 
A gente aqui da seleção, principalmente a partir do momento que você começa a se 
desenvolver, quando dá uns dezessete para dezoito anos, que é a parte mais difícil 
mesmo. Porque tem que controlar muito e se você respirar um pouquinho mais, já vai 
engordar. Porque a gente sempre tem que estar naquele peso. Então, se você come um 
                                                 
169
 Nesta parte não será revelado o nome das ginastas para que não fique explícita a identidade das pessoas. 


 
 
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pouco a mais... “tum”... “estoura”. E esse negócio de peso é importante, muito 
importante porque, por exemplo, você está acostumada a carregar esse peso na hora de 
treinar e a hora que dá meio quilo a mais, você já não vai mais conseguir fazer a mesma 
coisa porque você já está no seu auge (limite). Para fazer uma série de paralela, alguma 
coisa assim, você já está fazendo seu máximo e ainda colocando mais meio quilo, ou um 
quilo, você vai sofrer muito mais. Vai fazer o dobro de força. E a gente está preparada 
para fazer só aquele ali. 
Olha agora eu estou com bastante problema de peso. Eu nunca tive, assim, problema, até 
dezesseis anos, até dezessete eu não tive muitos problemas. Depois de menstruar que 
fica muito complicado. Menstruei com dezessete anos. A partir daí foi meio complicado. 
No começo eu não podia nem beber muita água que eu chegava na balança e engordava. 
E não entendia. Por que será que está acontecendo isso? Daí logo eu menstruei, e estava 
aí a explicação. E então começam os hormônios a saltar assim de você. Agora distúrbio 
alimentar eu nunca tive. Mas têm várias ginastas quando dá essa idade assim, começa a 
dar loucura. Porque ela quer treinar, mas ela não consegue porque está com peso a mais. 
Então, muitas meninas acabam tendo bulimia até anorexia (p.10).  
 
Petrie (1993) apud Kerr et al (2006) verifica, em seus estudos sobre desordens 
alimentares com ginastas colegiais norte-americanas, que 61% das ginastas apresentam indicação 
de desordens alimentares e 50% gostariam de ser mais leves, e vai ao encontro também do 
estudo, anteriormente citado, de Berry e Howe (2000) sobre a insatisfação com os próprios 
corpos em modalidades como a GA.  
É interessante observar também que entre as dez ginastas estudadas, não há 
uma homogeneidade em relação à dificuldade de manter o peso, sendo que algumas falam do 
assunto sem muitos problemas durante a carreira desportiva, enquanto outras enfatizam a 
dificuldade neste aspecto: 
 
Eu nunca tive nenhum distúrbio alimentar. Eu nunca tive problema com peso. Eu sempre 
fui magra e nunca passei do peso que tinha que estar. Então para mim não foi difícil 
manter o peso porque eu comia ali o que tinha que comer e ficava no peso normal. 
Comia alguma coisinha a mais, não engordava assim. Só de uns anos para cá 2005, que 
eu já comecei a mudar o corpo e comecei a engordar. Mas eu nunca tive problema de 
peso. Eu menstruei só quando eu saí da Ginástica, com 18 anos, 17 para 18 anos. (ANA 
PAULA RODRIGUES, p.7). 
 
Eu tenho um pouco de dificuldade com peso, sim, porque a minha família tem. Eu puxei 
a parte da minha mãe, então, a parte da minha mãe sempre teve problema com peso, 
então acabei puxando a parte da minha mãe. Mas isso não é só você não se cuidar. Você 
tem que ver também, que muita coisa a gente pega da genética, então, eu tenho que me 
cuidar bastante porque se eu não me cuido, qualquer descuido que eu tenha, eu engordo 
muito fácil (DANIELE HYPÓLITO, p.13-14).  
 
Relacionando os depoimentos orais das ginastas com a literatura levantada 
sobre aspectos nutricionais e ginastas, é possível verificar que o conteúdo dos depoimentos vai ao 
encontro das pesquisas realizadas com ginastas e atletas de alto rendimento desportivo. Ribeiro e 


 
 
239
Soares (2000) verificaram em seus estudos com ginastas brasileiras um consumo energético 
abaixo dos preconizados para adolescentes, com consumo de cálcio e carboidratos abaixo do 
esperado e Constantini et al (2000) verificaram a deficiência de ferro.  
Esses dados podem justamente ser evidenciados por meio dos depoimentos das 
ginastas, que relatam dietas inadequadas, muitas vezes indicadas pelos próprios técnicos, ou 
realizadas pelas próprias ginastas como uma alternativa que pode ser considerada extrema, após 
momentos de compulsão à comida, devido à necessidade da manutenção de baixo peso.    
   
Eu não vi casos de bulimia, porque acho que você não vê isso, não na minha geração. 
Nem na anterior, mas assim, nessa geração atual... Até as meninas de outros países, a 
gente sabe de alguns casos e tiveram casos atualmente. Eu nunca tive. Eu tive 
compulsão. Chegava sábado, terminava o treino, como a gente sabia que sábado à tarde 
não tinha treino e domingo também não e ninguém ia pesar a gente, eu comia 
compulsivamente. Não só eu, como todas as meninas, de comer até passar mal, aí depois 
usar laxante. Eu nunca vi um caso de anorexia e bulimia na minha geração. [...] Mas a 
gente usava esses métodos. Íamos correr depois, passava um tempão sem comer, porque 
a gente sabia que já na segunda-feira ia ter que pesar (SORAYA CARVALHO, p.11).  
 
A questão de manter o peso é a única coisa que eu acho que a gente tinha que aprender a 
lidar, na Ginástica, no mundo inteiro. Porque todas as ginastas sofrem com isso. Podem 
ir a qualquer lugar do mundo e vai ter atrito entre ginasta e treinador, em relação ao 
peso. Nós sabemos que tem que ter. É uma questão estética, é questão de integridade 
física, de evolução técnica. Mas, por que há o descontrole? Geralmente não é porque tem 
um problema hormonal, porque senão ela também não estaria no alto nível. Então é uma 
questão de ansiedade. E essa ansiedade, pode ser gerada por vários fatores. Então 
geralmente é a pressão psicológica. Ou a insegurança em relação a uma competição, ou a 
insegurança, ou a insatisfação. Então tem que descobrir. Então teria que ter alguma coisa 
que possa estudar isso, um mecanismo que possa ajudar as ginastas a se conhecerem 
melhor e controlarem essa ansiedade. Que não possam descarregar no chocolate que 
comem escondido, porque todo mundo come. Enfim, eu me lembro que mais velha a 
gente já sabia que não podia comer, sabia que estava errada (LUISA PARENTE, p.17-
18).  
 
A conscientização das atletas nem sempre se transforma em atitudes adequadas, 
pois a maioria das ginastas desta pesquisa relata a existência de nutricionistas na sua formação e 
não há um resultado satisfatório, ou seja, nem sempre a informação e orientação adequadas 
formarão ginastas com atitudes pertinentes, coerentes e necessárias com a vida de uma atleta de 
alto nível. 
Deutz et al (2000) em pesquisa desenvolvida com ginastas americanas, algumas 
participantes de JO de Atlanta (1996), apresentam dados de desequilíbrio energético devido a 
restrições ou dietas inadequadas, o que pode ser visto nos depoimentos de algumas ginastas ja 


 
 
240
mencionados anteriormente. Esse desequilíbrio, segundo os autores, gera disfunção de ciclo 
menstrual, aumento de lesões, diminuição da densidade óssea, diminuição de gasto calórico em 
repouso e, consequentemente, aumento do tecido adiposo.  
Essas conseqüências podem ser vistas na carreira das ginastas, quando Soraya 
Carvalho, Caroline Molinari e Laís Souza relatam fraturas por estresse e ingestão de cápsulas de 
cálcio para suprir a deficiência, após a fratura, o que gera outros problemas, como cálculos renais, 
relatados por Laís e Caroline. 
As restrições, ou dietas inadequadas, ainda podem ser observadas na orientação 
de técnicos que não deixam suas ginastas efetuarem a reposição de líquido adequada, justificando 
que a ingestão de água pode fazê-las engordar. Esse tipo de orientação vai totalmente contra 
qualquer princípio fisiológico, não havendo fundamentação científica sobre o assunto, inclusive 
podendo gerar quedas na performance das ginastas, além dos problemas de cálculos renais 
mencionados.  
Em reportagem do jornal desportivo Lance, em 28 de dezembro de 2007, 
retrata-se esse fato com a seguinte manchete: “Falta de água internou Laís”. Na reportagem 
noticia-se que Laís Souza esteve internada por cinco dias em Curitiba com problemas de cálculos 
renais e menciona-se a seguinte explicação dos médicos: “O problema foi causado basicamente 
pela baixa ingestão de água”, complementado pela fala de Laís: “A gente bebe menos água do 
que o normal e acaba dando problema, como aconteceu comigo. A Jade também teve algo 
parecido com o que tive. O peso é uma preocupação da gente também, né!” (RAMOS, 2007, 
p.23).    
Algumas ginastas não relatam problemas graves com peso, mas a pressão dos 
técnicos em relação a essa questão é mencionada com freqüência nos depoimentos, tornando-se 
uma cultura dos ginásios de ginástica, muitas vezes sem necessidade, como relata Soraya 
Carvalho, que viveu alguns anos com ginastas pioneiras, de transição e com as da nova geração 
quando atuou como técnica, e diz que observou essa questão da comida descontrolada em todas 
as ginastas:  
 
Eu acho que na ginástica você sempre tem problema com peso, mesmo que você seja 
magra. É essa coisa da ginástica, louca, de proibição de comida, que eu comecei a ter 
depois que começaram a me proibir. [...] Eu vejo isso de geração em geração. Você vê o 
filme da Nádia tem isso. A Luisa tinha isso. E passou varias táticas para a gente. E vai 


 
 
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passando isso de geração para geração. Eu estava no centro lá de excelência (Curitiba), 
eu morava com as meninas, e era a mesma coisa (p.10-11).   
 
Muitas destes distúrbios que podem vir a acontecer com ginastas de elite não 
são aparentes e, muito menos divulgados pela mídia, o que pode ser observado na pesquisa 
realizada por Kerr et al (2006), na qual verificou-se que 92% dos pais das ginastas não imaginam 
a possibilidade de distúrbio alimentar em suas filhas e 81% consideram que os técnicos orientam 
de forma apropriada. Ainda neste estudo, 54% dos técnicos disseram que eles mesmos 
determinam a necessidade de manter o peso, por meio da aparência das ginastas e 20% dos 
árbitros disseram já terem visto técnicos encorajando suas ginastas a praticarem técnicas não 
saudáveis de emagrecimento.   
Ribeiro e Soares (2000) sugerem orientações com as pessoas envolvidas na vida 
das ginastas para que se tenha um resultado mais adequado:  
 
[...] o planejamento de ações conjuntas para reforçar os conhecimentos em nutrição de 
técnicos, de pais, de responsáveis e principalmente das atletas, visando uma melhora na 
conduta alimentar, a fim de garantir que a nutrição não seja um fator limitante, no 
rendimento e na saúde destas adolescentes (p.189).  
 
Alguns depoimentos relacionados aos problemas para lidar com a manutenção 
de peso e à pressão muitas vezes exercida pelos técnicos, acabam causando um ansiedade em 
relação a esse aspecto, muitas vezes prejudicando a atleta. A ginasta Soraya Carvalho menciona 
que seu pai, no início, como não era do ambiente gímnico, não a proibia de se alimentar 
normalmente e lidava com a manutenção do peso com naturalidade, mesmo porque ela não tinha 
dificuldades com isso. A partir do momento que o “alertaram” em relação a essa questão e ele 
começou a controlar sua alimentação, ela começou a ficar ansiosa em relação ao ato de comer, 
gerando inclusive uma compulsão à comida.  
 
Eu sempre fui magra, forte e como meu pai era do judô, para ele, atleta tem que comer 
para ter energia. E as pessoas, outros treinadores, começaram a falar com ele. Porque 
meu pai, às vezes ele vinha e me dava um chocolate antes do treino e isso era uma rotina 
diferente das outras ginastas. E os outros treinadores começavam a falar para o meu pai: 
“olha, não deixa ela comer assim. Não pode ficar dando chocolate para ela”. Mas 
começaram a falar tanto, que meu pai começou a me proibir. E pai, é aquela relação. Pai 
e treinador, então na minha casa eu era proibida. Então eu comecei a ficar com essa 
coisa de: “ah, eu quero comer.”. E mesmo se você não tivesse vontade você comia. 
Então, teve uma época que eu dei uma aumentada, daí eu emagrecia. Eu nunca tive 


 
 
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grandes problemas de peso. Eu sempre consegui manter. Mas era assim, aquilo fica 
dentro de qualquer ginasta. Essa coisa de alimentação: “agora eu quero comer um doce, 
agora eu quero comer isso, o treinador foi embora, vamos comer igual umas 
desesperadas” (SORAYA CARVALHO, p.11) 
 
 
 
Luisa Parente também aborda o assunto alertando para a necessidade de estudos 
a ele relacionados para que os técnicos saibam lidar melhor com essa questão, pois não se trata 
apenas da informação, como já foi discutido no tópico de aspectos nutricionais. Luisa reflete, 
portanto, sobre algumas possibilidades da ansiedade das ginastas com a alimentação, o que passa 
a ser um problema psicológico. 
Caroline Molinari em citação anterior, também fala desta ansiedade e da 
importância dada a esse aspecto a ponto de abalá-la, de não conseguir enxergar que a sua família 
não comprava determinados alimentos para ajudá-la a manter o peso e de se sentir aliviada por 
poder comer atualmente.  
E não são apenas estes aspectos que cercam a vida de uma ginasta, outros 
influenciam na pressão para as competições, na concentração, na motivação e permanência na 
modalidade, nos medos, entre outros, havendo muitas vezes a necessidade de um profissional da 
psicologia para um trabalho multidisciplinar, tópico que será discutido a seguir.  



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