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PREPARAÇÃO DESPORTIVA DE MUITOS ANOS



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2.2. PREPARAÇÃO DESPORTIVA DE MUITOS ANOS 
 
 
Cada componente do sistema de preparação será posteriormente aprofundado e 
relacionado com a preparação na Ginástica Artística.  
 
O nível dos resultados no desporto de hoje é tão alto que só pessoas que se dedicaram à 
atividade desportiva durante muitos anos são capazes de superar este nível e mesmo se 
aproximar deste. Por isso, à medida que crescem os resultados desportivos e se 
acumulam os conhecimentos multiformes referentes à preparação do atleta, tornou-se 
evidente a necessidade de definir vias metodológicas rigorosas de preparação de muitos 
anos do atleta (ZAKHAROV; GOMES, 2003, p.285-286). 
 
Nesta modalidade há a necessidade de um cuidado ainda maior na preparação 
do desportista devido às características da faixa etária das atletas, que iniciam uma especialização 
desportiva anterior à maioria das atletas de outras modalidades desportivas. Portanto, os 
componentes da preparação, supracitados, devem ter a preocupação com o desenvolvimento de 
uma preparação de muitos anos, “que determinam a estratégia para a conquista de níveis elevados 
no desporto” (Ibid., p.286). 
A preparação de muitos anos divide-se, segundo Zakharov; Gomes (2003), em 
cinco etapas: 
1.  Preparação preliminar 
2.  Especialização Inicial 
3.  Especialização aprofundada  
4.  Resultados superiores 
5.  Manutenção dos resultados 
 
A faixa etária de cada uma destas etapas difere entre as diversas modalidades 
desportivas. O caso da Ginástica Artística será discutido posteriormente.  
Segundo Balyi (1998), abordado por Smith (2003), as fases de um treinamento 
a longo prazo poderiam ter a seguinte nomenclatura: fase fundamental (em inglês destacando-se  


 
 
105
FUNdamental, como um período de divertimento), fase de treinar para treinar, treinar para 
competir e treinar para vencer, como uma forma mais didática para o entendimento dos técnicos.  
A preparação de muitos anos depende de diferentes fatores, como: 
⇒ 
conhecimento das idades de resultados mais expressivos, chamada de “zona de 
possibilidades ótimas”: na Ginástica Artística feminina essa faixa etária é compreendida 
entre os 15 e 19 anos (SMOLEUSKIY; GAVERDOUSKIY, [199-]; ZAKHAROV; 
GOMES, 2003), o que foi confirmado nos JO de Pequim, no qual as campeãs olímpicas 
estavam na faixa etária de 16 a 20 anos, com exceção da ginasta Oksana Chusovitina, que 
foi medalhista de prata na prova de Salto aos 33 anos. 
⇒ 
“os ritmos ótimos de crescimento em tempo dos resultados desportivos, assim 
como o período total de obtenção do nível de altos resultados desportivos”: na Ginástica 
Artística demora-se em média cinco anos para obtenção dos primeiros resultados e sete 
anos para resultados internacionais (ZAKHAROV; GOMES, 2003, p.287). 
 
Isto não significa que ginastas talentosos não possam obter resultados 
anteriormente a isso, mas o conhecimento científico que se tem do desporto mostra que, “os 
prematuros resultados desportivos relativamente altos são, em sua maioria, conseqüência de uma 
preparação forçada” (ZAKHAROV; GOMES, 2003, p. 288). 
 
A preparação em longo prazo, racionalmente estruturada, pressupõe uma seqüência 
rigorosa na solução dessa tarefa, condicionada pelas particularidades biológicas de 
desenvolvimento do organismo humano, pelas leis naturais de formação do alto nível 
desportivo numa modalidade desportiva, pela eficiência dos meios de treinamento e dos 
métodos de preparação, etc. (GOMES, 2002, p. 94-95). 
 
O imediatismo de resultados, a falta de planejamento de novos processos de 
detecção, seleção e promoção de talentos aliados ao desconhecimento científico são aspectos que 
levam os técnicos de categorias de base, na maioria das vezes os mais inexperientes
64
 no Brasil, a 
ultrapassarem etapas importantes de uma preparação de muitos anos.  
                                                 
64
 O meio desportivo tem como cultura colocar os técnicos mais jovens em categorias de base das modalidades. À 
medida em que ele evolui e se torna mais experiente, a tendência é que passe às equipes juvenis, adultas e 
profissionais. Dificilmente temos técnicos especializados em categorias de base e que sempre estarão neste posto. É 
uma cultura da área desportiva e que cria essa expectativa aos recém formados.  


 
 
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A vontade de alguns técnicos de conseguir, o mais rápido possível e por vias mais 
simples, uma boa atuação de seus atletas nas competições leva a crer que, na prática da 
preparação dos desportistas jovens, devemos sugerir meios e métodos mais potentes de 
treinamento moderno, aplicados na preparação de atletas de alto nível. Isso provoca o 
crescimento acelerado de resultados de determinados êxitos nas competições infantis e 
de juniores, mas, ao mesmo tempo, provoca a perda da perspectiva da obtenção de altos 
resultados na idade ótima. Tais tipos de treinos estão freqüentemente ligados a sérias 
perturbações da saúde dos jovens desportistas, à preparação técnica e funcional 
unilateral e a fracassos psíquicos. Em conseqüência, a sua longevidade desportiva não é 
tão grande (GOMES, 2002, p.94). 
 
O fenômeno de abandono da vida desportiva devido a estresse e treinamento 
excessivo é chamado de “dropout”. “Porém, muitas vezes, antes de abandonar o esporte, o atleta 
passa pela síndrome de burnout. A síndrome de burnout  (grifo do autor), [...] tratada como 
esgotamento, é de cunho tanto físico, quanto psicológico e emocional” (CHIMINAZZO, 2005, 
p.35). O mesmo autor ressalta que:  
 
Em adolescentes, essa síndrome apresenta-se num contexto mais delicado que deve ser 
bem estudado, pois se constata que, cada vez mais, jovens atletas passam por um 
processo de especialização precoce em alguma modalidade esportiva e, 
conseqüentemente, abandonam-na muito cedo, fazendo sua carreira ser mais curta do 
que poderia ser (2005, p.46). 
 
“A especialização precoce no desporto de rendimento pode pois, entender-se 
como uma das manifestações da tendência geral para a especialização em todos os ramos da 
actividade do Homem” (MARQUES, 1991, p.9), mas especializar-se precocemente não significa 
apenas especializar-se cedo. Quão cedo? Qual a idade que pontua esse termo? Sete anos, nove 
anos, cinco anos? Quando o termo especialização precoce está corretamente colocado? O termo 
“especialização precoce” é carregado de significados, portanto um termo complexo de se definir. 
Não podemos entendê-lo como qualquer iniciação desportiva em idades baixas. Mesmo porque, 
de acordo com Marques (1991): 
 
[...] não é possível entender o desporto de rendimento e os mecanismos de 
enquadramento da preparação dos jovens talentos desportivos sem compreender a 
necessidade de todas as crianças iniciarem um processo de preparação desportiva, no seu 
sentido unitário de formação e educação. (MARQUES, 1991, p.10).  
 


 
 
107
Paes (2007)
65
, referendando Marques (1991), entende que a criança não 
pode ser adaptada às regras desportivas oficiais e sim as regras é que devem se adaptar à criança, 
exatamente neste contexto. Caso contrário, pode vir a ser prejudicial ao desenvolvimento 
harmônico entre aprendizagem das técnicas do desporto e seus valores morais, cuja importância 
deve ser trabalhada com os atletas (PAES, 1992).  
“Se o treino estiver adaptado ao desenvolvimento físico e psíquico da criança 
não há razão para receios. E hoje os fundamentos teóricos e metodológico do treino com jovens 
atingiram um nível de desenvolvimento apreciável” (MARQUES, 1991, p.13).  
Segundo Filin e Volkov (1998): 
 
O conhecido ginasta M. VARONIN, certa ocasião disse: ...o desporto de alto nível não 
exige somente grandes esforços para assimilar as cargas impostas... Uma coisa é quando 
estas cargas – físicas e psicológicas – recaem sobre uma pessoa madura, preparada e 
capaz de receber tais cargas, e outra muito distinta, quando estas cargas, no afã de atingir 
o “topo” no desporto de alto nível, são impostas às crianças que naturalmente 
“queimam-se”, sem sequer atingir esse “topo”, ou deixar sua lembrança desportiva 
(p.118).  
 
Devido à importante fase de desenvolvimento da criança e do adolescente, 
deveriam trabalhar com esse público treinadores experientes e que consideram a variedade de 
movimento e a sua exploração, como um aspecto importante do processo de formação desportiva, 
enxergando a relevância disso nas etapas seguintes da preparação de muitos anos, adequando as 
exigências da modalidade às características de cada faixa etária. 
A prática de diferentes desportos pode ser um caminho para essa diversificação 
de movimentos, mas também há a possibilidade de desenvolver uma variedade de movimentos 
em uma modalidade específica, ou seja, a diversificação na especialização, valorizando esse 
aspecto no planejamento do treinamento.  
Mesmo na questão da participação a competições, se adequado e crescente pode 
trazer muitos benefícios à criança, principalmente relacionados à auto-estima e ao 
desenvolvimento do gosto pelo vencer. Segundo Candeias et al (199-): 
 
Não se trata de querer a vitória a qualquer preço, não se trata de trabalhar para ser o 
primeiro, mas interessa que ele esteja a treinar diariamente para tentar ser um vencedor. 
                                                 
65
 Informação verbal 


 
 
108
Cabe, porém ao treinador determinar os objetivos daquilo que é vencer. Nestas 
idades é bastante conhecida a idéia da importância de ganhar a si próprio, de melhorar os 
seus resultados, melhorar as suas prestações para só depois começar a valorizar o fato de 
ganhar aos outros. É o treinador que tem de dar oportunidade para que as crianças 
atinjam objetivos que se traduzam em vitórias, para que a sua auto-estima se valorize e 
construa. Caso contrário seremos eternos perdedores (p.27).   
 
Paes (1992) desenvolveu um estudo com histórias de vida dos principais 
jogadores e técnicos do basquetebol nacional, e constatou que apenas 25% dos jogadores 
participaram da “categoria mini” (inicial) da modalidade e que 75% dos jogadores que obtiveram 
destaque nacional na “categoria de elite” do basquetebol não participaram da “categoria mini” e 
iniciaram a modalidade após os 12 anos de idade. Outra questão apresentada neste estudo foi a da 
cultura desportiva na família dos atletas que iniciaram cedo e conseguiram destaque na 
modalidade ser bastante presente, o que pode ter influenciado a permanência no desporto mesmo 
com o início prematuro na modalidade.  
Wiersma (2000) também aborda que muitos atletas soviéticos foram 
especializados precocemente e que, ao longo do tempo, se percebeu que os atletas que eram 
especializados desta forma, obtinham seus melhores resultados próximo aos 16 anos e depois 
tinham dificuldade de melhorar ainda mais, e que aqueles especializados mais tarde, e com uma 
diversidade de experiências, tinham uma melhora na sua performance até idades mais altas.  
Segundo Platonov [199-], a idade de início na modalidade, de nadadores campeões, varia muito, 
mas aqueles que iniciam tarde e conseguem alcançar grandes marcas, têm como característica a 
prática de outras modalidades desportivas anteriores à natação. Ao mesmo tempo, os que iniciam 
muito tarde, não conseguem alcançar os objetivos importantes para grandes marcas, assim como 
os que iniciam muito cedo, e com resultados em idades muito baixas, têm sido acompanhados de 
lesões e problemas de saúde. 
Vorobiov (apud FILIN; VOLKOV, 1998) sobre esse assunto destaca que:  
 
os atletas que começaram com grandes cargas, são capazes de aumentar em um ano seus 
rendimentos desportivos em até 50%; porém no ano seguinte, a melhora dos resultados 
já é menor, e nos anos consecutivos observa-se uma redução gradativa. Já para os atletas 
que começam com cargas menores, depois de 7-8 anos de treinamento, em cada ano, 
ocorre uma melhora gradativa em relação ao anterior (p.114).  
 


 
 
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Na Ginástica Artística a idade mínima, determinada pela FIG, para 
participação em Campeonatos Mundiais é de 15 anos e, em Jogos Olímpicos, de 16 anos. Essa 
determinação da FIG surgiu na década de oitenta, com o objetivo de limitar a participação de 
ginastas muito novos na categoria adulta, voltada a uma preocupação na questão da 
especialização precoce. Um exemplo marcante que retrata bem esse fato foi o da ginasta romena 
Nádia Comanecci, que teve destaque nos Jogos Olímpicos de Montreal em 1976 no Canadá, 
quando foi campeã olímpica e a primeira ginasta a tirar a nota 10 na história da modalidade em 
JO, aos 14 anos de idade (SMOLEUSKY; GAVERDOUSKY, 1996). 
 
A predominância de ginastas muito jovens é parte do contexto atual da modalidade. Ao 
longo da história da GA, foi possível observar que há 40 anos, predominavam as 
mulheres mais velhas, como a ginasta Larisa Latynina, que foi campeã olímpica aos 34 
anos de idade. Na década de 70, começaram a surgir as “pequenas notáveis” como Olga 
Korbut e Nadia Comaneci que, no auge de suas carreiras, ainda encontravam-se entre o 
período da infância e da adolescência”. (FERREIRA FILHO, NUNOMURA, 
TSUKAMOTO, 2006, p.23) 
 
A GA contemporânea, com exigências de realização de muitas dificuldades 
técnicas (elementos de alta dificuldade e valor) e, ao mesmo tempo, a perfeição da execução dos 
elementos, requer uma especialização desportiva em baixa faixa etária. Além disso, a questão 
“das ajudas” (segurança das ginastas pelo técnico) em exercícios de maior “risco” é facilitada 
com uma criança (menor e mais leve) e muitos exercícios começam a ser ensinados, mesmo que 
com facilitações (auxílio, trampolim acrobático, fosso, tumble track, etc) quando a ginasta ainda 
não possui capacidade de executá-los sozinha nos aparelhos oficiais, mas já estão sendo treinados 
na parte técnica com essas facilitações.  
O início do direcionamento do treinamento para fins de rendimento desportivo, 
ou seja, etapa de especialização inicial em diferentes desportos tem, entre outros parâmetros, a 
faixa etária de resultados superiores na modalidade e o tempo de treinamento para se atingir esse 
nível. Além disso, também considera as características e, principalmente, o desenvolvimento das 
capacidades físicas predominantes na modalidade desportiva. Na GA, segundo alguns autores, o 
tempo aproximado de treinamento é de oito anos para alcançar a fase de resultados superiores, 
que se dá entre 15 e 19 anos (SMOLEUSKIY, GAVERDOUSKIY, [199-]; ZAKHAROV, 


 
 
110
GOMES, 2003), como citado anteriormente. Filin e Volkov (1998) mencionam que este 
período é de cerca de seis anos, mas o consideram a partir da categoria juvenil para o nível 
internacional.  
A partir disso, a categoria competitiva inicial em nível nacional na GA é na 
faixa etária de 9 e 10 anos (pré-infantil).   
Considera-se a necessidade da especialização com baixas faixas etárias quando 
a criança está sendo direcionada à competição, quando o treino tem um objetivo das regras 
competitivas, mesmo que de categorias de base, ou seja, de acordo com a referência adotada, 
quando se encerra a etapa de preparação preliminar e se inicia a etapa de especialização inicial.  
Ainda sobre essa necessidade de especialização desportiva em baixa faixa 
etária, Lanaro Filho e Bohme (2001, p.159) comentam que: 
 
Algumas modalidades esportivas, em função de características muito específicas, tais 
como a ginástica artística, a ginástica rítmica desportiva e a natação, entre outras, 
necessitam que esta seleção seja realizada um tanto precocemente, em razão do 
aproveitamento das fases sensíveis para obtenção de determinados domínios motores e 
ou melhoria de determinadas capacidades motoras, como por exemplo alto grau de 
flexibilidade nas articulações (...).  
 
 
A partir disso, o estudo segue detalhando os componentes do sistema de 
preparação desportiva relacionando-o diretamente com a modalidade de Ginástica Artística 
feminina, levando em consideração a interligação destes componentes e as etapas da preparação 
de muitos anos. 
 
 



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