Microsoft Word Em busca de uma identidade lingüística o vernáculo escocês em The Acid House, de Irvine Welshdoc fabiana doc


cocês, que se reúne em Edimburgo. Acreditamos que, dentro desse quadro, a co-



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cocês, que se reúne em Edimburgo. Acreditamos que, dentro desse quadro, a co-

laboração que Irvine Welsh presta em The Acid House ao resgate do escocês co-

mo língua literária que justifica atenção e análise.. 

 

Palavras-chave: Identidade lingüística, Vernáculo, Escócia 

 

Este  artigo,  vinculado  ao  projeto  de  pesquisa  da  Professora 



Doutora  Ana  Lúcia  de  Souza  Henriques  (UERJ),  pretende  discutir 

algumas  questões  relativas  à  identidade  lingüística  escocesa  focali-

zando  o  uso  do  vernáculo  em  dois  contos:  “Snuff”  e  “The  Granton 

Star Cause” do livro The Acid House, de Irvine Welsh. 

Esse escritor escocês  vem  ganhando bastante espaço na cena 

literária  mundial nos  últimos  anos. Algumas de suas obras foram a-

daptadas para o cinema, como é o caso de Trainspotting e The Acid 

House. Tal  sucesso  se  deve,  em  grande  parte,  aos  assuntos  bastante 

atuais e polêmicos de suas histórias que abordam tópicos como, por 

exemplo, o uso de drogas. 

Em suas narrativas, Irvine Welsh tanto utiliza o inglês padrão 

grafado  de  maneira  convencional  quanto  de  acordo  com  o  sotaque 

escocês,  além  de  palavras  e  expressões  em  vernáculo  escocês.  Este 

fato  associado  a  uma  maneira  inovadora  de  desenvolver  seus  enre-

dos, muitas vezes inusitados, torna Welsh um escritor aclamado pelo 

grande público na época atual. 

Quando nos referimos ao vernáculo escocês, tomamos por ba-

se a opinião de A. J. Aitkin. Ao comentar a questão da língua falada 

na Escócia, Aitkin afirma que: 




 

o  discurso  de  um  indivíduo  vai  variar  de  acordo  com  região  (algumas 



regiões  são  mais  “escocesas” do que  outras),  classe  social,  idade,  sexo, 

circunstância (por exemplo, o famoso contraste entre o discurso de sala 

de  aula  e  de  playground),  e  as  lealdades  nacionais  e  locais  do  falante. 

Este  discurso  misturado  e  variado  é  o  vernáculo  do  dia-a-dia,  mas  não 

mais que isso. (AITKIN, 1996:. xii.) 

Neste  trabalho  enfocaremos  os  diferentes  usos  de  vernáculo, 

procurando observar a classe social e o nível educacional a que per-

tencem os personagens. As variedades encontradas podem ser toma-

das como contribuições para marcar traços distintivos da identidade 

lingüística desses falantes. 

Quanto  ao  título  do  primeiro  conto  selecionado,  “Snuff”,  sa-

bemos que esse termo vem sendo utilizado para definir uma catego-

ria  específica  de  filmes  que  se  limitam  a  apresentar  cenas  reais  de 

morte e tortura. Entretanto, talvez por se tratar de um uso ainda mui-

to  recente,  esse  vocábulo  não  conste  em  dicionários  como  o  Webs-

ter´s Unabridged Dictionary, mas apenas em dicionários de expres-

sões informais do inglês falado, como, por exemplo, Talkin´ Ameri-



can:  a  Dictionary  of  Informal  Words  and  Expressions  (HARMON, 

1995). 


Em “Snuff”, o protagonista Ian Smith é um homem extrema-

mente formal obcecado por filmes e vídeos. O objetivo de Ian é o de 

assistir a todas as produções cinematográficas atribuindo a cada uma 

delas  um  comentário  crítico  e  uma  cotação  que  pode  variar  da  nota 

zero à nota dez. No seu Halliwell’s Film Guide, ele assinala o nome 

do filme a que assistira com caneta fluorescente amarela, escrevendo 

comentários na margem da página, como por exemplo: “8. Brilhante. 

Outra atuação maravilhosa de de Niro. Scorsese é o indisputado mes-

tre do gênero.”

 

(WELSH, 1994: 65.) 



Sua  obsessão  se  transforma  num  problema  a  partir  do  mo-

mento em que assistir a filmes passa a ser o que de mais importante 

faz  em  sua  vida,  levando-o  inclusive  a  menosprezar  qualquer  outra 

ocupação. Os vídeos a que ele assiste o afastam de tudo e de todos. 

Em  seu  trabalho,  não  tem  amigos,  seus  companheiros  sabem  muito 

pouco de sua vida, como vemos no exemplo abaixo:

 

Eles o chamavam de garoto do vídeo no escritório onde ele trabalhava, 



mas pelas costas. Ele não tinha verdadeiros amigos, sua maneira de ser 

repulsava familiaridade.

 

(Idem




 

Tais  películas  acabam  por  funcionar  como  uma  espécie  de 



anestésico,  impedindo  que  ele  sinta  e  viva  a  realidade  a  sua  volta. 

Essa apatia pode ser observada em, por exemplo, dois momentos dis-

tintos: sua separação conjugal e a morte de sua mãe. Quando sua es-

posa  o  troca  por  outro,  não  consegue  sentir  nenhuma  dor  por  essa 

perda. Consciente de sua apatia, Ian tenta despertar em si mesmo al-

gum sentimento:  

Sua mulher  o havia deixado  há um  ano  atrás.  Smith  sentava  na  cadeira 

tentando se permitir sentir a perda, a dor, mas de alguma forma ele não 

conseguia.  Ele  não  conseguia  sentir  nada,  só  uma  desconfortável  culpa 

por não ter sentimentos

. (

Idem, p. 67)

 

No funeral de sua mãe, ele chega a sentir uma leve dor, prin-



cipalmente quando se recorda do amor que recebera dela na infância. 

Entretanto, essas imagens do passado se misturam a cenas de filmes 

que assistira, fazendo com que ele se distraia, servindo como um a-

nestésico para sua dor.  

Sua  solidão  acaba  por  intensificar  essa  forte  compulsão  por 

filmes, tornando Ian num homem muito frio e extremamente metódi-

co,  que  se  distancia  de  sua  própria  humanidade.  Esse  isolamento  o 

conduz  ao  suicídio  por  enforcamento.  O  momento  de  sua  morte  é 

gravado  em  vídeo.  Essa  gravação  faz  dele  o  protagonista  de  um 

snuff, pois, como mencionamos anteriormente, esse termo vem sendo 

utilizado para definir uma categoria específica de filmes que se limi-

tam a apresentar cenas reais de morte e tortura. 

 A  maneira  com  que  Ian  se  expressa  pode  ser  reveladora  da 

classe  social  a  que  pertence,  a  classe  média.  Seu  contato  constante 

com  filmes  variados  serve  para  ampliar  sua  cultura  geral.  Esse  per-

sonagem  utiliza  o  inglês  padrão  provavelmente  em  decorrência  de 

um somatório de fatores: seu nível de escolaridade, sua ampla cultu-

ra e, além disso, sua extrema formalidade.

 

Em "Snuff", o vernáculo escocês está presente de forma mo-



derada na linguagem mais informal do personagem Mike Flynn, um 

colega de escritório de Ian, como podemos observar em: 

Cristo, ninguém  vai  conseguir  te  parar  agora,  hein,  Ian?  Hollywood, 

lá vamos nós! Vou te dizer, você pega a Yvonne aqui para estrelar num 

filme pornô. Você dirige, eu produzo.

 

(Idem, p. 73-74) 



Christ, there’ll be nae stopping ye now,  Ian  eh? Hollywood here  we 


 

come!  Tell  you  what,  we’ll  get  Yvonne  here  to  star  in  a  porno  movie. 



You direct, I’ll produce. 

Em  inglês  padrão,  as  palavras  escocesas  que  surgem  acima 

como nae e ye seriam respectivamente no you. Como o uso do ver-

náculo está restrito às falas de Flynn, podemos pensar na hipótese de 

que Welsh  utiliza o escocês  nessa  narrativa, tal qual o faz  em algu-

mas outras, como um elemento marcador de informalidade e/ou des-

contração na fala de personagens de classe média ou de classe pobre. 

Daí em  “Snuff” seu uso não  ser recorrente, pois nesse conto predo-

mina um tom de seriedade e formalidade, que reflete a maneira com 

que se comporta o personagem principal. 

“The  Granton  Star  Cause”,  a  segunda  narrativa  selecionada, 

enfoca  um conjunto de  mudanças  marcantes e repentinas  na vida a-

parentemente  tranqüila  de  Boab  Coyle,  um  jovem  escocês  de  23  a-

nos. Sua inércia habitual, somada a outras características de sua per-

sonalidade  pacata,  acaba  por  desencadear  uma  sucessão  de  reações 

negativas nas pessoas com as quais ele convive. Seus colegas do ti-

me de futebol The Granton Star preferem não mais o escalar para os 

jogos, pois acreditam que ele não possa contribuir para o sucesso do 

time. Ter sido excluído do time será a primeira de uma série de de-

cepções sofridas por Boab. 

A segunda decepção é causada por sua  incapacidade de bus-

car  sua  própria  independência.  Essa  atitude  faz  com  que  seus  pais 

acabem  por  expulsá-lo  de  casa,  alegando  que  deveria  deixar  de  ser 

dependente e que sua presença lhes tira a privacidade. Boab fica es-

tarrecido diante desse comunicado inesperado. 

Sem a companhia dos amigos do futebol e sem ter onde mo-

rar, o rapaz ainda sofre uma terceira decepção quando sua namorada 

Evelyn escolhe trocá-lo por outro melhor, segundo afirma. 

Em vez de procurar recuperar as posições que perdera, extra-

vasa  sua raiva depredando uma cabine de telefone. Essa não parece 

ter  sido  uma  atitude  acertada,  pois  desencadeia  uma  série  de  martí-

rios em sua vida, inclusive o de passar uma noite na cadeia. 

Depois  de  tantas  derrotas,  Coyle  encontra  Deus  em  um  pub. 

Revoltado com a incapacidade de ação do rapaz, diz que nada daqui-

lo teria acontecido se alguma atitude tivesse sido tomada. No entan-

to, Deus compara Sua personalidade à do jovem escocês:

 



 

Você é igual a mim. Um idiota preguiçoso, apático e relaxado. Agora eu 



detesto  ser  assim  e,  sendo  imortal,  eu  não  posso  punir  a  mim  mesmo. 

Mas eu posso punir você, colega, e é isso que eu pretendo fazer. (Idem

p. 130) 

You’re  jist  like  me.  A  lazy,  apathetic,  slovenly  cunt.  Now  ah hate  bein 

like  this,  n  bein  immortal,  ah  cannae  punish  masel.  Ah  kin  punish  you 

though, mate. That’s whit ah intend tae dae. 

As  palavras  em  vernáculo  que  aparecem  na  citação  acima 

como “jist”, “ah”, “bein”, “n”, “cannae”, “masel”, “kin”, “whit”, “ta-

e”  e  “dae”,  em  inglês  padrão  seriam  “just”,  “I”,  “being”,  “and”, 

“can’t”, “myself”, ‘can”, “what”, “to” e “do”. 

Podemos  observar  que  Deus  admite  não  ser  perfeito,  como 

vemos no exemplo acima. Curiosamente, esse Deus imperfeito utili-

za  uma  linguagem  em  que  palavras  em  vernáculo  escocês  ocorrem 

com freqüência. O  Deus de  Welsh – humanizado como um escocês 

bebendo  cerveja  em  um  pub  –  enfrenta  questionamentos  similares 

aos de qualquer mortal.  

Como castigo, Deus transforma Boab em uma mosca, e é des-

ta forma que ele passa o resto de seus dias, vingando-se daqueles que 

julgava injustos, inclusive seus pais. Usando as condições oferecidas 

pelo seu novo corpo, faz com que aqueles que julga responsáveis por 

suas  decepções  sofram  de  intoxicação.  Boab  morre  esmagado  com 

um jornal por sua mãe que jamais poderia imaginar que seu filho es-

tivesse preso àquela forma de vida. 

Essa história envolve pessoas de baixo poder aquisitivo em si-

tuações  informais,  o  que  justifica  a  utilização  do  vernáculo  escocês 

por  todos  os  personagens,  com  pequenas  diferenças  de  intensidade. 

Quanto mais alto o nível educacional de uma pessoa, o que está ge-

ralmente ligado à classe social, maior é a utilização do inglês padrão. 

Em “Snuff”, Ian, que trabalha em um escritório, utiliza o inglês sem 

marca  de  vernáculo  em  seu  discurso.  Já  Boab  Coyle,  motorista  de 

caminhão,  usa  o  vernáculo  sem  restrições.  Entretanto,  em  persona-

gens como o chefe de Coyle, o vernáculo se apresenta de forma me-

nos intensa devido ao posto de chefia que ocupa, como vemos a se-

guir:  “Sente-se,  Boab,  eu  vou  direto  ao  assunto,  colega.”  (Idem,  p. 

127) (“Sit doon, Boab, I’ll come straight to the point, mate.”) 

Na  frase  acima,  apenas  a  palavra  “doon”,  “down”  em  inglês 

padrão, pertence ao vernáculo. É interessante comparar esse discurso 



 

com  o  do  pai  de  Coyle  onde  predomina  o  vernáculo  escocês,  como 



vemos abaixo: 

o seguinte, filho, é hora de você sair fora dessa casa. Você tem 23 anos 

agora, muito velho para um rapaz morar com a mãe e o pai. Eu quero di-

zer,  eu  estava  no  mar  com  a  Marinha  Mercante  aos  17  anos.  Simples-

mente não é natural, filho, você entende? (Idem, p. 121) 

Thing  is,  son,  it’s  time  ye  wir  ootay  this  hoose.  Yir  twinty-three  now, 

which is far too auld fir a laddie tae be steyin wi his ma n faither. A me-

an, ah wis away tae sea wi the Merchant Navy at seventeen. It’s jist no 

natural, son, d’ye understand? 

As  palavras:  “ye”,  “wir”,  “ootay”,  “hoose”,  “yir”,  “twinty”, 

“auld”, “fir”, “tae”, “steyin”, “wi”, “n”, “faither”, “ah”, “wis”, “jist” 

e  “d’ye”  em  inglês  padrão  seriam  respectivamente:  “you”,  “were”, 

“out  of”,  “house”,  “you’re”,  “twenty”,  “old”,  “for”,  “to”,  “staying”, 

“with”, “and”, “father”, “I”, “was”, “just” e “do you”. 

Em  relação  a  essa  busca  de  uma  identidade  lingüística  esco-

cesa,  percebemos,  a  partir  dos  elementos  destacados  nas  histórias 

aqui analisadas, que o uso do vernáculo está presente nas falas mais 

informais  de  personagens  com  razoável  grau  de  escolaridade  e  que 

geralmente se expressam em inglês padrão. A utilização mais recor-

rente do vernáculo fica mais restrita às falas daqueles com mais bai-

xo grau de escolaridade. 

Concluímos,  então,  que  o  uso  da  língua  feito  pelos  persona-

gens Welshianos está de acordo com a definição de Aitkin anterior-

mente citada, ou seja, se tomarmos o uso do vernáculo para medir o 

quanto são escoceses, uns são mais “escoceses” do que outros, devi-

do a sua proveniência, classe social, dentre outros fatores menciona-

dos pelo lingüista. 

 


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