Microsoft Word Economia e Sociedade 44 Artigo 6



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Economia e Sociedade, Campinas, v. 21, n. 1 (44), p. 143-164, abr. 2012.

 

O mercado como ordem social  



em Adam Smith, Walras e Hayek 

1

 



Angela Ganem 

2

 



 

 

 



Resumo 

O objetivo do artigo é apresentar criticamente as teorias do mercado de Adam Smith, Leon Walras e 

F. A. Hayek, sublinhando o que se considera terem em comum, ou seja, a ideia de mercado como 

expressão da ordem social capitalista. Entende-se que esta concepção do mercado como ordem social 

aparece originariamente na história do pensamento econômico e na história das ideias através da 

solução de Adam Smith frente aos filósofos do contrato e avança, analiticamente, um século após, na 

tentativa de demonstração lógico-matemática da Teoria do Equilíbrio Geral em Walras para adquirir 

souplesse



 teórica necessária a sua sobrevivência, no século XX, na teoria de Hayek, em que a 

história  realizaria  o  autodesenvolvimento  da  ordem  do  mercado.  O  texto  percorre  as  filiações 

filosóficas e as implicações metodológicas das teorias do mercado desses grandes autores, mostrando 

as formas diferenciadas que elas assumem: ordem natural para Smith, ordem racional para Walras e 

ordem espontânea para Hayek. 

Palavras-chave: Teorias do mercado; Ordem social; A. Smith, 1723-1790; L. Walras, 1834-1910;  

F. Hayek, 1899-1992. 

Abstract 

The market as a social order in Adam Smith , Walras and Hayek 

The objective of the article is to critically present the liberal theories of Adam Smith, Leon Walras 

and F. A. Hayek, underlining what they have in common, that is, the idea of market as a general 

theory of society and the construction of scientific attributes that make possible the understanding of 

the supremacy of market order against other forms of social organization. It is assumed that this 

conception of market as social order appears originally in the history of economical thought and in 

the  history  of  ideas  through  Adam  Smith’s  solution  against  contract  philosophers  and  that  it 

advances analytically, a century later, in the attempt of logic-mathematic demonstration in Walras, to 

acquire  the  necessary  theoretical 

souplesse

  for  its  survival,  in  the  XX  century,  in  the  Darwinian 

adventures of the Austrian school libertarians, specially Hayek, for whom history would realize the 

self-development  of  the  market.  The  text  will  traverse  the  philosophical  filiations  and  the 

methodological  implications  of  the  marketing  theories  of  those  great  authors  showing  the 

differentiated forms they assume: natural order for Smith, rational order for Walras and spontaneous 

order for Hayek. 

Keywords: Market theories; Social order; A. Smith, 1723-1790; L. Walras, 1834-1910; F. Hayek, 

1899-1992. 

JEL B40.  

                                                           

(1) Trabalho recebido em 13 de agosto de 2010 e aprovado em 10 de novembro de 2010. 

(2) Professora visitante do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE/UFRJ), 

Rio  de  Janeiro,  RJ,  Brasil.  E-mail: 

aganem@terra.com.br

.  Este  trabalho  faz  parte  da  pesquisa  intitulada: 

As 


teorias do mercado em Smith, Walras e Hayek: uma abordagem histórico-filosófica

. Valho-me dos resultados 

parciais  do  estudo  das  teorias  desses  três  autores  para  construir,  neste  trabalho,  a  unidade  e  as  diferenças 

existentes entre elas. Agradeço os pertinentes comentários dos pareceristas desta Revista.  




Angela Ganem

 

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Economia e Sociedade, Campinas, v. 21, n. 1 (44), p. 143-164, abr. 2012. 

Introdução

 

O objetivo do artigo é apresentar criticamente as teorias do mercado de 



Adam Smith, Leon Walras e F. A. Hayek, sublinhando o que se considera terem 

em  comum,  ou  seja,  a  ideia  de  mercado  como  expressão  da  ordem  social 

capitalista. Entende-se que esta concepção do mercado como ordem social aparece 

originariamente  na  história  do  pensamento  econômico  e  na  história  das  ideias 

através  da  solução  de  Adam  Smith  frente  aos  filósofos  do  contrato,  e  avança, 

analiticamente, um século após, na tentativa de demonstração lógico-matemática 

da  Teoria  do  Equilíbrio  Geral,  em  Walras,  para  adquirir  a 

souplesse

  teórica 

necessária a sua sobrevivência, no século XX, com a teoria de Hayek, em que a 

história realizaria o autodesenvolvimento da ordem do mercado. O texto percorre 

as  filiações  filosóficas  e  as  implicações  metodológicas  das  teorias  do  mercado 

desses  grandes  autores,  mostrando  as  formas  diferenciadas  que  elas  assumem: 

ordem natural para Smith, ordem racional para Walras e ordem espontânea para 

Hayek.

 

Na década de 1990, assistimos a um debate que envolveu vários campos 



das ciências sociais: a questão sobre o fim da História. Seu eixo central, embora 

com  variantes  filosóficas,  residia  na  ideia  da  inexorabilidade  do  mercado,  um 

processo  sem  sujeito  que  culminaria  na  democracia  liberal,  a  face  política  da 

vitória da lógica do mercado e da globalização. No campo doutrinário, discursos 

apologéticos  elegeram  entusiasticamente  o  mercado  como  passado,  presente  e 

devir  das  sociedades  contemporâneas.  Uma  nova  teoria  do  mercado,  menos 

matemática e mais afinada a seu tempo foi um dos grandes pilares deste discurso: 

a  teoria  do  mercado  espontâneo  de  F.  A.  Hayek.  O  capitalismo  “humano”  de 

Hayek  glorificava a autorregulação do mercado, colocando-se, de uma só feita, 

como o herdeiro legítimo de Smith e como crítico exemplar do que denominou o 

“racional construtivismo’’ dos modelos matemáticos neoclássicos.  

Hoje, o discurso muda frente à força da crise financeira que se abriu no 

mundo globalizado. Em tempos de críticas ao neoliberalismo, até economistas do 

interior do programa neoclássico de pesquisa vêm a público posicionar-se contra o 

fundamentalismo do mercado e sua utópica capacidade de autorregulação. Além 

do  debate  acerca  da  teoria  mais  plausível  para  explicar  a  inteligibilidade  do 

mercado, volta-se à velha ideia de regular o mercado, ponto nevrálgico da crítica 

que  Hayek  fez  não  apenas  ao  keynesianismo,  mas,  sobretudo,  aos  seus  pares 

neoclássicos,  que,  na  sua  avaliação,  cometeram  erros  de  concepção,  abrindo 

possibilidades teóricas e políticas de correção das falhas do mercado pelo Estado.  

Em  que  pese  o  maniqueísmo  instaurado  pelos  defensores  do  mercado 

frente  ao  Estado,  tem  ficado  cada  vez  mais  difícil  não  reconhecer  teórica  e 




O mercado como ordem social em Adam Smith, Walras e Hayek 

 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 21, n. 1 (44), p. 143-164, abr. 2012. 



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politicamente a força incontestável do seu papel na constituição e na sobrevivência 

da  ordem  capitalista.  Mas,  enquanto  as  circunstâncias  históricas  mostram  a 

importância crucial do Estado, sobrevivem, no campo das ideias e na tentativa de 

influenciar as políticas econômicas e sociais, as teorias do mercado autorregulável. 

Este  trabalho  tem  como  eixo  as  teorias  de  Smith,  Walras  e  Hayek 

identificadas como exemplares no entendimento da lógica do mercado como teoria 

da  sociedade  capitalista.  Neste  quadro  referencial,  mostram-se  as  razões  pelas 

quais elas foram eleitas como as mais significativas frente às inúmeras teorias do 

mercado  existentes,  sublinhando-se  os  elementos  que  as  unem  conceitualmente 

bem como os aspectos peculiares que as diferenciam entre si.  

A perspectiva é histórico-filosófica, o que significa que se articulam as 

teorias  e seus  métodos  à história,  processo  não apenas  aberto  às  injunções  dos 

fatos econômicos, mas também comprometido com o movimento do pensamento e 

o  jogo  conflituoso  das  ideias  Neste  sentido,  a  compreensão  da  história  do 

pensamento é a de que ela é tecida por releituras, rupturas e tensões que se movem 

a cada momento em dois planos, o da história das ideias e o da história do próprio 

capitalismo. No plano do pensamento, dialogam com a economia, a história das 

ideias, a história da ciência e os grandes sistemas filosóficos.  

Finalmente, faz-se necessário sublinhar que não se procederá a uma leitura 

que defende uma trajetória evolutiva da história das teorias do mercado em que 

Walras superaria Smith ou que Hayek representaria o estágio atual da teoria e a 

sua  forma  mais  acabada.  Rejeita-se  essa  perspectiva  positivista  da  leitura  da 

história  e  propõe-se  revisitar  as  formas  peculiares  que  cada  uma  assume, 

respeitando  o  seu  movimento  interno  e  a  sua  inserção  na  história.  É  o  que  se 

realiza  nas  próximas  sessões,  seguido  das  considerações  finais,  nas  quais  são 

estabelecidas as pontes de ligação entre elas e os pontos que as separam.  

 

1  Adam  Smith  e  o  mercado  natural  como  explicação  para  a  ordem  social 



emergente 

 

A economia política nasce com a implantação do capitalismo e como fruto 



da modernidade, e tem em Adam Smith seu marco fundador. Ele a inaugura com 

uma  interpretação  sistematizada  da  ordem  social  capitalista,  observando-a  tanto 

pela ótica da produção, da acumulação e do excedente como pela forma mercado. 

A ótica da produção, da acumulação e do excedente econômico analisada 

no  quadro  histórico-social  está  ligada  ao  caminho  aberto,  no  século  XVII,  por 

William Petty e desenvolvido por Adam Smith e pelos fisiocratas no século XVIII. 

Já a leitura pela ótica do mercado remete Smith diretamente à história das ideias e 

a sua importante contribuição na construção do ideário liberal. A solução da mão 




Angela Ganem

 

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Economia e Sociedade, Campinas, v. 21, n. 1 (44), p. 143-164, abr. 2012. 

invisível, em que interesses privados ao invés de se chocarem produzem bem-estar 

social, se contrapõe e supera as formulações do contrato social para a explicação 

da emergência da ordem social liberal nascente. E é nesse sentido peculiar que é 

considerada, por inúmeros autores, como a palavra final da modernidade. 

Comunga-se  com  a  ideia  de  que  Adam  Smith  está  entre  os  grandes 

pensadores da modernidade, entre aqueles que aceitaram um dos maiores desafios 

teóricos da humanidade que é explicar a emergência e a regulação da ordem social 

sem recorrer à explicação divina. Em verdade, trata-se da questão inauguradora do 

movimento  antropocêntrico  da  Revolução  Científica  Moderna,  da  qual 

participaram  inúmeros  autores  no  intento  de  descobrir  métodos  capazes  de 

explicar  a  ordem  física  e  a  ordem  social  emergente.  A  solução  smithiana  vai 

fornecer, três séculos após a ruptura dos modernos frente à síntese aristotélica, 

uma  resposta  convincente  e  afinada  à  nova  ordem  capitalista.  O  processo  de 

construção  do  indivíduo  e  do  individualismo,  fortes  componentes  do  ideário 

liberal, encontrou um adequado arcabouço teórico na solução smithiana da mão 

invisível

3

.  E  não  é  por  outra razão  que  a  teoria  do mercado  de  Smith  se  torna 



inquestionavelmente a matriz teórica da ordem social liberal, e a economia, dentro 

desta perspectiva, passa a ser entendida como o terreno sobre o qual a “harmonia 

social”  pode  ser  pensada.  A  explicação  smithiana,  assentada  única  e 

exclusivamente  na  imponderável  e  complexa  ação  dos  indivíduos,  traz 

“naturalmente”, como resultante, a ordem social do mercado. Uma ordem natural, 

posto que regida por leis naturais e que tem como  ponto de partida a natureza 

humana, ou o homem como ele realmente é, herança do realismo inaugurado na 

modernidade por Maquiavel

4

.  


Adam Smith, ao oferecer a solução do mercado como explicação para a 

emergência  da  ordem  social,  define  o  projeto  da  economia  como  ciência,  ao 

mesmo tempo que dialoga com a questão filosófica central dos modernos: como 

entender a emergência da ordem social sem recorrer à explicação divina? Expulsos 

os anjos do céu, ao homem, resta-lhe fornecer tanto uma explicação para a ordem 

física como uma forma de inteligibilidade para a ordem social.  

                                                           

(3) Esse processo de construção do ideário liberal que culmina em Smith e no nascimento da economia 

pode ser estudado sob diversos ângulos e por inúmeros autores. Destacam-se: Dumont (1977); Hirshman (1977); 

Rosanvallon (1979); Vidonne (1986); Bianchi (1987); Dupuy (1992); Defalvard (1995); Redman (1997) e Zanine 

(1997), citados em Ganem (2000). 

(4) “Maquiavel (1469-1527) é a primeira tentativa, no campo da política, de ruptura com a explicação 

divina, apresentando uma teoria política ditada pela práxis de aconselhar o príncipe na difícil tarefa de governar. 

O radicalismo de seu realismo político se apresenta na idéia de que os povos constituem seus próprios destinos e 

numa noção de interesse associada a ragione de stato, que rompe com a noção de avareza e se associa a um modo 

esclarecido de governar”.

 

Ver Ganem (2000).  




O mercado como ordem social em Adam Smith, Walras e Hayek 

 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 21, n. 1 (44), p. 143-164, abr. 2012. 



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Smith pensa a sociedade como um moderno, isto é, como autoinstintuinte, 

e a encara como desencantada (nos termos weberianos). Com isso, constrói uma 

solução em que a sociedade não será mais fundada sobre uma exterioridade, mas 

sobre  ela  mesma.  Neste  objetivo,  Adam  Smith  torna-se  um  dos  mais  geniais 

representantes da modernidade: ele transforma a economia em centro explicativo 

da  sociedade  através  da  universalidade  do  desejo  de  ganho  dos  homens.  Sua 

solução afirma que os interesses privados, ao invés de se chocarem, produzindo a 

guerra,  são  agraciados  por  uma  mão  invisível  que  os  orienta  para  o  bem-estar 

coletivo.  Uma  solução  aparentemente  simples,  mas  que  se  tornou  em  uma  das 

metáforas centrais da economia e contribuiu decisivamente para definir um dos 

caminhos teóricos da disciplina

5



Dentro  do  campo  das  ideias,  formas  embrionárias  da  noção  de  mão 



invisível aparecem inicialmente, por exemplo, na ironia da Fábula das Abelhas, de 

Mandevillle,  em  que  “vícios  privados  geram  benefícios  públicos”

6

,  e  em 



Montesquieu, um dos autores pilares do 

topos


 liberal. Neste último, uma noção de 

mão invisível aparece na teoria do 

doux commerce,

 na noção de equilíbrio e na 

possibilidade  de  paz  e  civilidade  como  resultados  da  troca  comercial  entre  as 

nações.  Afinal,  a  troca  “

acalma  e  suaviza  as  paixões

”,  dirá  Montesquieu,  que 

entende o ganhar dinheiro no comércio como uma paixão inocente e calma, e que 

possui a previsibilidade e a constância necessárias para se constituir em princípio 

explicativo do comportamento humano, aspecto dessa sociedade, brilhantemente 

destacado  por  Albert  Hirshman  (Hirshman,  1977

).

  Essa  teoria  que  compõe  o 



ideário  liberal  se situa  nas  antípodas  da  leitura  que Marx  faz,  um  século  após, 

sobre o período de acumulação primitiva do capital: um processo essencialmente 

violento e anticivilizatório de relação desigual entre as nações. 

Adam Smith herda de Locke a concepção do direito de propriedade como 

uma  extensão  do  direito  à  vida,  garantindo  os  bens  acumulados  no  estado  de  

 

                                                           



(5) Pelo menos dois caminhos se abrem na HPE, pós-Smith: de um lado, nos desdobramentos da teoria 

do valor-trabalho expresso no enfoque da produção, distribuição e acumulação de capital dos clássicos e de Marx 

– a tradição da Economia Política, e de outro, na leitura neoclássica, que revisita Smith exclusivamente pela ótica 

do mercado – a tradição da 

Economics, 

ou da


 

Economia Positiva

(6)  “Mandeville  (1670-1733),  em 



The  Fable  of  the  Bees

,  publicado  em  1714,  veicula  idéias 

marcadamente  modernas,  ao  mesmo  tempo  em  que  ironiza  a  sociedade  liberal  nascente.  O  paradoxo  social, 

apresentado na idéia de que benefícios públicos resultam de ações viciosas, explora a noção de mão invisível, 

articulando a paixão privada do vício ao resultado coletivo do benefício público e encarna exemplarmente a 

filosofia utilitarista, no sentido de que o que se busca é a maior felicidade para o maior número possível de 

pessoas. (...) Dentro dessa linha, consultar Ely Halévy, no seu livro de 1903, já considerado um clássico da 

história das idéias, ‘

La formation du radicalisme philosophique

’, em que o autor realça uma linha de continuidade 

entre Mandeville e Smith através da noção de mão invisível: ‘Smith retoma a doutrina de Mandeville expondo-a 

sob uma forma não mais paradoxal e literária, mas racional e científica’

 

(Halévy, 1994, citado em Ganem, 2000).



 


Angela Ganem

 

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Economia e Sociedade, Campinas, v. 21, n. 1 (44), p. 143-164, abr. 2012. 

natureza  e  oferecendo  o  arcabouço  jurídico  institucional  necessário  e 

indispensável para que ele pudesse erigir uma teoria do mercado livre de qualquer 

injunção de um pacto produzido pelo Estado. No limite, Locke vai fornecer um 

elemento crucial que faltava ao 

constructo 

smithiano: a precondição ao direito da 

possibilidade da emergência “natural” da ordem social.  

Por outro lado, se, para Smith, Hobbes apresentou uma construção teórica

7

 



que o desafiava, David Hume, seu contemporâneo e colega, alunos que foram do 

mestre Hutcheson, contribuiu para a fundação da universalidade de uma paixão 

peculiar  da  sociedade  nascente

o  desejo  de  ganho  ou  o  desejo  de  acumular 



dinheiro,  ou  mais  precisamente,  o  desejo  de  melhorar  a  sua  própria  condição

Hume  substitui  a  benevolência  ou  altruísmo  de  seu  mestre  pelo  conceito  de 



simpatia, adentrando na arena incômoda da aprovação moral, através da ideia de 

que  os 


espíritos  dos  homens  são  espelhos  uns  para  os  outros

,  elementos  de 

intersubjetividade que serão tratados de forma mais complexa e acabada por Adam 

Smith  na  Teoria  dos  Sentimentos  Morais  (Smith,  1996  [1759]);  (Smith,  1998 

[1795]). 

Com  a  introdução  do  elemento  moral,  tem-se  duas  perspectivas  para  a 

compreensão da ordem do  mercado que significam leituras divergentes sobre a 

obra do autor. Elas envolvem, além da explicação da ordem social, a questão sobre 

natureza  do  nascimento  da  economia.  Nessas  leituras  estão  em  jogo  duas 

compreensões opostas sobre esse nascimento. As leituras sobre a relação existente 

ou não entre a Teoria dos Sentimentos Morais (TSM) e a Riqueza das Nações 

(RN) geraram uma importante controvérsia no âmbito da história do pensamento 

econômico,  conhecida  como  o  “problema  Adam  Smith”,  ou 

das  Adam  Smith 

Problem

,

 



nome dado pela Escola Histórica Alemã para a disputa de duas teses 

sobre a leitura da obra de Smith.  

A primeira tese define uma ruptura entre a Teoria dos Sentimentos Morais 

(TSM) e a Riqueza das Nações (RN), e a segunda advoga uma leitura unitária da 

obra. Em uma primeira leitura, a moral é totalmente descartada da fundação da 

economia, o interesse redunda em 

self interest,

 um princípio explicativo 

minimal

 

para uma ciência que guarda como espelho a física newtoniana. A partir dessa 



leitura da obra do autor, Adam Smith – filósofo da Teoria dos Sentimentos Morais 

                                                           

(7)  Ao  apresentar  sua  solução,  Adam  Smith  está  também  se  contrapondo  à  solução  do  contrato  de 

Hobbes. Embora tenha sido Maquiavel quem descobriu o continente ao qual Hobbes edifica a sua doutrina, será 

através de uma axiomática rigorosa que ele demonstra, de uma só feita, o surgimento da sociedade, da política e 

do direito, frutos do pacto social. Uma solução inequívoca para o medo da morte, do extermínio dos homens entre 

si na sua luta competitiva pelo desejo de glória. Ver (Ganem, 2000). 



O mercado como ordem social em Adam Smith, Walras e Hayek 

 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 21, n. 1 (44), p. 143-164, abr. 2012. 



149 

–  superaria  a  inconveniência  dos  julgamentos  morais,  recortando  a  ação  dos 

homens e definindo-se como um economista “pragmático”

8

.  



Para esta interpretação da obra, o sujeito smithiano será visto como um 

prelúdio  do  homem  econômico  racional  e  toda  teoria  de  Adam  Smith  estaria 

representada  na 

Riqueza


,  considerada  como  um  esboço  literário  da  explicação 

acabada  dos  neoclássicos,  um  século  depois.  Neste  sentido,  Walras,  através  do 

modelo canônico, retoma a solução smithiana e a traduz em seus próprios termos: 

um  tratamento  teórico  rigoroso  expresso  na  solução  lógico-matemática  da 

explicação da ordem social. Esta primeira leitura, considerada triunfante, advoga a 

garantia  de  uma  mão  invisível  que  orquestra  desejos  individuais,  encapsula  os 

valores  e  a  moral,  e  se  traduz  na  fórmula  perfeita  definidora  do  mercado.  O 

mercado, como dirá Hahn, dois séculos mais tarde, repetindo a ideia smithiana da 

mão  invisível  como  ordem  social,  “

impõe  a  ordem  no  caos  potencial” 

(Hahn,1986).  

Uma segunda leitura, com a qual aqui se identifica, tem como argumento 

central  a  ideia  de  que  tanto  a  economia  como  o  comportamento  do  sujeito 

smithiano não estão livres de injunções morais, o que reforça a natureza filosófica 

do autor, manifesta na obra 

Teoria dos sentimentos morais

9

. Através desta leitura 



da ordem social, a economia nasce sob a paternidade de um filósofo moral, o que 

significa que não é possível compreender a obra nem o autor, sem aceitar a sua 

unidade. Para os defensores desta leitura, o correto seria iluminar a 

Riqueza


 com  

 

                                                           



(8) São muitos os autores que se identificam com essa perspectiva que isola as duas obras e as trata 

separadamente: 1) esta perspectiva nasce na Escola Histórica Alemã, na qual o próprio Smith é acusado de não 

ter deixado claro a dupla de instintos egoísticos e sociais; 2) alguns autores levantam a influência que Smith 

sofreu  do  método  dedutivo  geométrico  (quando  da  sua passagem  pela  França),  que  isola  elementos,  criando 

universos  separados,  o  egoísmo,  de  um  lado,  e  a  simpatia,  de  outro;  3)  Jacob  Viner,  em  1927,  defende  o 

argumento de que Smith abandona a metafísica da TSM para dar lugar ao realismo da economia na RN; 4) a tese 

dos dois domínios é retomada por dois monstros iconoclastas: Louis Dumont e Albert Hirshman e 5) finalmente, 

a tese que perpassa o tempo é inaugurada pela leitura neoclássica canonizada: o sujeito smithiano é um prelúdio 

do HER. Para a apresentação das duas correntes, consultar Raphael D. D. e Macfie (1976) e Bertrand (1992). 

Para uma defesa da unidade da obra, consultar Viner (1971).  

(9) A segunda leitura que preza a unidade da obra tem os seus defensores distribuídos no tempo: 1) em 

1890,  ocorre  a  primeira  reação  à  leitura  reducionista da  obra do  autor. Ela  foi  feita por  seus biógrafos,  que 

recuperaram os testemunhos do autor. No Prefácio à sexta edição da TSM (e depois de um grande sucesso da 

RN), Smith afirma que a TSM é a sua obra mais importante; 2) em 1923, Glen Morrow trabalha com a ideia de 

que tanto o egoísmo como a simpatia têm um mesmo operador moral; 3) Robert Heilbroner, em 1982, lê  o 

homem prudente da TSM como o homem interessado da Riqueza; 4) D. Marshall vê o teatro como forma de 

compreensão da inteligibilidade da ordem social manifesta na TSM; 5) em 1992, Jean Pierre Dupuy rompe com a 

ideia de benevolência e liga o interesse ao amor-próprio. No Brasil, Ana Maria Bianchi foi a primeira autora a 

tratar dessa polêmica questão. Consultar: Bianchi (1982), Heilbroner (1982), Dupuy (1992), Bertrand (1992), 

Raphael, D. D. e Macfie (1976), e Ganem (2000). Também na tentativa de articular as duas obras, consultar 

Ganem (2002) e Cerqueira (2004). 



Angela Ganem

 

150  



Economia e Sociedade, Campinas, v. 21, n. 1 (44), p. 143-164, abr. 2012. 

os escritos filosóficos da 

Teoria

 para entender a relação entre as duas obras. Na 



explicação da ordem social, a 

TSM


 funciona como obra tão importante quanto a 

RN

, não sendo, portanto, a ela redutível. Além disso, a noção de interesse privado 



não se esgota no 

self-interest

 e carrega consigo a moralidade subjacente à noção 

de amor-próprio. O amor-próprio, eixo do interesse, é uma paixão que retira sua 

substância do reconhecimento do outro. Ao necessitar visceralmente da aprovação 

do  outro,  o  sujeito  smithiano  reafirma  ontologicamente  a  sua  substancial 

incompletude. Como um ser incompleto, ele se aproxima muito mais da ideia de 

um 


homo mimeticus,

 ou ainda, de uma racionalidade complexa em que o indivíduo 

age, tomando como referência o julgamento do outro. Dupuy chama essa relação 

do  sujeito  com  ele  mesmo  através  do  social  em  Smith  de  uma 

boucle  auto-

referencielle

 (Dupuy, 1992)

 

De outro lado, para Smith, a mão invisível é mais que 



um operador técnico, ela é um operador social e sua ideia de mercado como uma 

teoria da sociedade se traduz na explicação da emergência da ordem social liberal. 

Finalmente, para esta leitura, o nascimento da economia em Adam Smith 

não se faz rompendo com a moralidade. Isto significa que ele deixou clara a tensão 

e a situação paradoxal para seus herdeiros: a autonomia da economia só poderá ser 

realizada com reduções. No século seguinte, os neoclássicos levantam as fronteiras 

disciplinares necessárias para recortar o campo da economia, expulsando, do seu 

domínio,  a  moral  e  os  valores.  Neste  objetivo  asséptico  de  autonomizar  a 

disciplina, os neoclássicos lançam as bases, na história do pensamento econômico, 

de uma economia que se pretende positiva, ideologicamente neutra e análoga à 

mecânica clássica (Ganem, 1996). 

 

2 A ordem racional do mercado de Walras e a tentativa de transformar a 



economia num teorema

 

Todavia, se na origem explicativa da ordem liberal sobrevivem polêmicas 



sobre  o  sujeito  smithiano  e  sobre  a  natureza  do  fenômeno  econômico,  as 

exigências de positividade e cientificidade requeridas ao longo dos séculos XVIII 

e XIX não deixam mais dúvidas sobre o caminho de axiomatização a ser seguido 

por uma ciência carente de provas e enfeitiçada pelo espelho da física. Para uma 

ciência que elege como seus os critérios newtonianos de cientificidade e que se 

define  como  análoga  à  mecânica  clássica  (Walras,  1952  [1874]),  só  lhe  resta 

assumir  o  desejo  incontido  de  tornar-se  um  dia 

hard  science

,  expulsando 

definitivamente de seus domínios a moral, os valores e o Estado. Em primeiro 

lugar, guarda-se a ambição smithiana do mercado como teoria geral da sociedade. 

Em  seguida,  procede-se  à  passagem  epistemológica  de  uma  ordem  explicada  a 

partir  de  uma  herança  empirista  e  comungada  a  um  projeto  baconiano-

praxeológico  de  ciência  rumo  a  uma  ciência  que  se  definirá,  nos  seus 




O mercado como ordem social em Adam Smith, Walras e Hayek 

 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 21, n. 1 (44), p. 143-164, abr. 2012. 



151 

fundamentos,  como  essencialmente  racionalista  e  apriorista.  Neste  quadro,  a 

matemática, a formalização e a modelização passam a ser os critérios soberanos e 

definidores de cientificidade. 

Walras  mantém  a  ambição  smithiana  do  mercado  como  uma  teoria  da 

sociedade e procede às reduções necessárias à demonstração. O sujeito smithiano, 

movido pelo autointeresse, cortado por paixões, dá lugar ao homem econômico 

racional herdado de Mill, cujo cálculo maximizador traz como resultado a ordem 

racional.  O  fundamento  microeconômico  dessa  ordem  é  um  ser  abstrato, 

atomizado  e  movido  pelo  cálculo,  e  que,  através  de  um  mecanismo  de  ajuste 

automático, produz o equilíbrio, uma noção (precisa) física que substitui a noção 

(vaga) de bem-estar smithiana.  

Neste sentido, o elemento central da contribuição de Adam Smith, a mão 

invisível,  passa  de  operador  social  a  operador  técnico,  e  sua  função  é 

compatibilizar a oferta e a demanda. Nesse quadro teórico, a economia elimina, de 

seu espaço disciplinar, o Estado, a moral ou qualquer outra injunção valorativa. Se 

Adam Smith legou à história do pensamento econômico a ideia da economia como 

fundamento  da  sociedade  e  a  do  mercado  como  viabilizador  da  ordem  social 

liberal,  Walras  inaugura  o  esforço  demonstrativo  necessário  a  uma  ciência  que 

elege, como seus, os critérios newtonianos de cientificidade e se volta para a busca 

de  resultados  da  aplicação  do 

esprit  géometrique

  dos  modernos  ao  seu  campo 

disciplinar (Ganem, 1996). 

Em finais do século XIX, não bastava afirmar que os interesses individuais 

produziam  algo  que  se  traduzia  na  noção  coletiva  de  bem-estar.  Para  a  teoria 

marginalista, além do instrumento do cálculo diferencial ser aplicado aos desejos e 

às decisões econômicas, fazia-se necessário demonstrar lógico-matematicamente a 

ordem racional do mercado. E será este desafio que Walras enfrentará dentro da 

perspectiva de transformar a ciência econômica em um teorema. A partir de uma 

abordagem  axiomática,  ideal,  e  de  hipóteses  irreais  e  parâmetros  altamente 

restritivos, pretenderá demonstrar que o equilíbrio do mercado existe, é estável e 

ótimo e, de uma certa forma, revelar o desejo de construir aprioristicamente os 

fundamentos rigorosos de uma ciência que se pretende exata. Não é à toa que a 

ambição walrasiana está no 

hard core

 da teoria neoclássica, sendo considerada, 

por Schumpeter, como um marco teórico da ciência econômica.  

A mudança nos rumos da economia foi de tal ordem que é considerada, 

por  muitos  autores,  como  uma  mudança  de  paradigma,  nos  termos  de  Thomas 

Khun, pois se tratava de um afastamento das questões da distribuição da renda e 

dos  problemas  do  desenvolvimento,  próprios  dos  clássicos,  para  se  concentrar, 

preponderantemente, nas questões do mercado. Em primeiro plano estava o estudo 



Angela Ganem

 

152  



Economia e Sociedade, Campinas, v. 21, n. 1 (44), p. 143-164, abr. 2012. 

do mercado, elemento central e meio de coordenação das atividades, e não mais a 

produção, a acumulação e a distribuição. As relações funcionais e a busca pela 

determinação  dos  preços  em  regime  de  concorrência  perfeita  passam  a  ser  as 

questões  centrais  da  economia,  tratada  dentro  da  academia  como  uma  ciência 

positiva. Fascinado pelos resultados da física e da mecânica, Walras entendeu a 

economia

 

“como  análoga  à  físico-matemática,  ideologicamente  neutra, 



fundamentalmente  voltada  para  a  determinação  dos  preços  num  regime  de 

concorrência pura” (Walras, 1952, [1874]).  

À redefinição do campo e do método, somou-se uma precisão quantitativa 

maior expressa na técnica marginalista, o instrumental que definiu o padrão de 

rigor da revolução metodológica ocorrida na economia no final do século XIX. 

Chamada de Revolução Marginalista, caracterizou-se por centrar os estudos nas 

variações  efetuadas  nas  margens  ou,  em  outros  termos,  no  cálculo  diferencial. 

Também foi entendida como uma teoria da maximização porque a melhor posição, 

ou a posição ótima das variáveis, expressava o ponto máximo da função. Mas o 

termo que se tornou hegemônico foi o da teoria neoclássica, termo utilizado pela 

primeira vez por Veblen, em 1910, que definia, com propriedade, uma nova escola 

de pensamento econômico inaugurada em fins do século XIX. A concepção do 

valor, centrada na utilidade, e da riqueza, definida pela escassez, traduziam uma 

profunda  mudança  nos  rumos  da  economia,  rompendo  com  a  perspectiva  dos 

clássicos (Smith e Ricardo) e com a de Marx, que tinha no trabalho (e na sua 

exploração pelo capital) a origem do valor. Não era, entretanto, apenas na ideia do 

valor-utilidade que a concepção de Walras se opunha à dos clássicos. Havia uma 

intenção clara em estudar a riqueza do ponto de vista de uma ciência pura, distante 

dos  valores  e,  sobretudo,  entendendo-a  na  troca:  uma  economia  voltada  para  a 

teoria da alocação dos recursos escassos em fins alternativos

10

.  


Mas o que aqui importa particularmente destacar é a construção da linha 

de continuidade entre o desígnio lógico-matemático da Teoria do Equilíbrio Geral 

de Walras e a solução da ordem smithiana. Walras costura uma das pontes mais 

importantes da teoria econômica e inaugura a economia positiva no fôlego de uma 

microeconomia  geral  cujo  objetivo  era  demonstrar  lógico-matematicamente  a 

ordem do mercado autorregulável. Essa continuidade é constatada, sobretudo, por 

                                                           

(10) Em suas palavras

: “L’économie politique est essentiellement la théorie de la détermination des prix 

sous  un  régime  hypothètique  de  libre  concurrence  absolue.  L’ensemble  de  toutes  choses  matérielles  ou 

immatérielles qui  sont  susceptibles d’avoir  un prix parce qu’ellles  sont  rares,  c’est à  dire à la fois utiles et 

limitées en quantité forme la richesse sociale. C’est pourquoi l’économie politique pure est aussi la théorie de la 

richesse social

” (Walras, 1951 [1874]). 

 



O mercado como ordem social em Adam Smith, Walras e Hayek 

 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 21, n. 1 (44), p. 143-164, abr. 2012. 



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seus  fiéis  seguidores,  os  neo-walrasianos  contemporâneos,  que  entendem  a 

solução smithiana como um esboço do modelo canônico walrasiano

11



Para se perceber claramente esta linha de continuidade construída pelos 

neoclássicos  na  redução  aos  seus  próprios  termos  da  obra  de  Smith,  pode-se 

recorrer ao já clássico 

Analyses General Competitive

 de Arrow e Hahn, em que, 

para os autores, Smith “forneceu a contribuição mais importante ao pensamento 

econômico no entendimento geral dos

 

processos sociais”. Esses autores tratam a 



solução smithiana da explicação da emergência da ordem social do mercado como 

um  prelúdio  da  Teoria  do  Equilíbrio  Geral  (TEG).  Eles  reafirmam  a  visão 

canonizada  pelos  neoclássicos  de  que  a  solução  smithiana,  embora  matriz,  foi 

limitada  –  porque  literária  –  e  que,  portanto,  mereceria  um  fino  acabamento 

lógico-demonstrativo. Em seus termos: “Adam Smith foi o criador da teoria do 

equilíbrio geral, ainda que se possa colocar em dúvida a coerência e a consistência 

do seu trabalho” (Arrow; Hahn, 1971, p. 14).  

Já F. Hahn afirma, com muita propriedade, os objetivos da TEG: “a TEG é 

uma  resposta  abstrata  a  uma  importante  questão  abstrata:  uma  economia 

descentralizada contando somente com os preços pode gerar a ordem? A resposta 

da  TEG  é  clara  e  definitiva:  nós  podemos  descrever  uma  tal  economia  e  suas 

propriedades. E esta teoria faz mais do que mostrar a possibilidade da ordem numa 

economia  descentralizada.  Ela  mostra  que  o  equilíbrio  possui  a  seguinte 

propriedade:  não  existe  nenhuma  outra  alocação  de  bens  melhor  que  a  do 

equilíbrio”.  E  em  seguida,  “a  TEG  descreve  uma  situação  onde  o  interesse 

privado, egoísta, simplesmente governado pelos preços pode se harmonizar com 

uma economia coerente e ordenada. Os preços de equilíbrio impõem a ordem num 

caos potencial” (Hahn, 1986).  

Este caminho, inaugurado por Walras, será retomado na década de 1950 e 

terá  como  grande  marco  teórico  os  desdobramentos  matemáticos  de  Arrow  e 

Debreu, expressos na demonstração da existência do equilíbrio e na enunciação 

dos  teoremas  do  bem-estar  (Arrow;  Hahn,  1971).  Mas,  se  por  um  lado,  a 

demonstração da existência e da “otimicidade” pode ser considerada um sucesso 

incontestável (se nos abstrairmos das dificuldades dos efeitos das externalidades 

                                                           

(11) Ver, a propósito, a crítica superficial e equivocada que Marcos Lisboa (Lisboa, 1999) fez à autora, 

afirmando que esse argumento de linha de continuidade é um recurso retórico-ideológico. Como visto, trata-se de 

um ponto de vista teórico em que é detectada uma linha de continuidade construída por Walras, vis-à-vis a Smith. 

Walras relê Smith nos seus próprios termos e tenta, a partir daí, demonstrar matematicamente a ordem racional do 

mercado  (mais  tarde,  esta  ambição  é  peremptoriamente  assumida  pelos  seus  principais  seguidores,  os  neo-

walrasianos). Consultar Ganem (1996).  



Angela Ganem

 

154  



Economia e Sociedade, Campinas, v. 21, n. 1 (44), p. 143-164, abr. 2012. 

no caso da ordem ótima)

12

,

13



dando um novo 

élan


 ao desígnio demonstrativo dos 

neoclássicos, por outro lado, a questão da estabilidade é algo que tem se mostrado 

inalcançável

13

.



14

Ela  denuncia  as  dificuldades  teóricas  de  se  dar  conta  da 

complexidade e expõe a tensão existente entre o coerente (lógico-matemático) e o 

complexo  (o  processo  de  obtenção  da  estabilidade)  no  âmbito  da  teoria 

neoclássica. 

Em verdade, o projeto racional construtivista dos neoclássicos revela que 

somente no plano da axiomática se poderia evocar o mito fundador de um mundo 

ordenado segundo leis inequívocas e a partir de uma racionalidade onisciente que 

pleiteia que “todo objeto pode ser pensado e todo problema pode ser resolvido a 

partir de um bom uso da razão” (Descartes, 1959 [1641]). 

Se para os seus teóricos a resposta da TEG é 

clara  e  definitiva

 (Hahn, 

1986)  e  que  foram  encontradas  as  boas  “regras  para  a  direção  do  espírito” 

(Descartes,  1985  [1623]),  aqui  a  pretensão  de  demonstrar  a  superioridade  se 

explica  pela  busca  de  um  mito  racional

14

15

em  que  o  modelizador  constrói  uma 



idealidade como a TEG walrasiana, em que leis gerais definiriam uma pretensa 

ordem racional do mercado

15

.

16



.  

                                                           

(12) No plano estritamente lógico-eficiente do discurso da TEG, a presença dos efeitos externos impede 

a obtenção de uma ordem ótima. A resposta da teoria a esta impossibilidade é a internalização dos efeitos, mesmo 

sabendo das dificuldades teóricas de tal empreendimento (Arrow; Hahn, 1971; Guerrien, 1989) e da fissura que a 

sua  presença  abre  na  defesa  incondicional  do  mercado  como  uma  estrutura  racional  otimizante,  exigindo  a 

participação do Estado para corrigir disfunções. Em outros termos, o mercado não asseguraria infalivelmente a 

conjunção entre eficiência e equidade. Mesmo tentando o “ótimo de segundo 

rang

“, o que se observa é “o drama 



epistemológico dos neoclássicos, que, por força de precisar as condições que permitiam à mão-invisível funcionar 

plenamente, subordinaram esta mão-invisível à mão visível do Estado” (Lagueux,1989; Ganem, 1995). 

 

(13) Para a prova da estabilidade, o teorema de Sonnenschein, Mantel e Debreu é definidor do impasse. 



O  teorema  constata  a  impossibilidade  de  generalização  da  hipótese  de  substituibilidade  bruta.  Ou  seja,  num 

contexto  de  equilíbrio  geral,  as  análises  de  oferta  e  de  demanda  tornam-se  cada  vez  mais  complexas,  e  a 

convergência cada vez mais problemática (Guerrien, 1989). Arrow e Hahn registram a impossibilidade de se 

fundar,  microeconomicamente,  um  modelo  geral  estável

“nós  podemos  falar  de  um  aspecto  tristemente 



anedótico de nosso empreendimento: é possível analisar caso a caso, mas não se consegue estabelecer nenhum 

princípio geral” (Arrow; Hahn, 1971, p. 321).

 

(14) A noção de “mito racional“ pode parecer, à primeira vista, uma heresia, mas não o é. Embora o mito 



primitivo seja da ordem da integração do homem com a cosmologia e a guerra fraticida entre o mito e a razão na 

história  das  ideias  gregas  tenham  feito  da  razão  a  vencedora  (a  destruição  da  mitologia  pela  autoridade  das 

estruturas matemáticas pitagóricas), ele renascerá servindo à razão, emagrecido de seus conteúdos enriquecedores 

originários.  Ele  renasce  num  reencontro  trágico-asséptico  com  a  onipotente  razão  na  modernidade  (Gusdorf, 

1984; Illiade, 1963; Ganem, 1996). 

(15) “Os esforços inúteis expressos nas tentativas de conciliar maximização e equilíbrio – e de ambos 

com exigência de realismo – revelam mais do que desconfortos metodológicos susceptíveis de serem superados 

com a complexidade crescente dos cálculos e mostram a mais cruel das idiossincrasias dos neoclássicos: seu 

desejo ascético de construir aprioristicamente os fundamentos rigorosos de uma ciência pura, para uma ciência 

que é de natureza social. A ilusão que os arrasta para o terreno do mito é a mesma que alimenta a idéia metafísica 

de uma ciência que se pretende pairar neutra, objetiva e eternamente sobre a moral, a incerteza, o tempo histórico, 

enfim  sobre  as  contingências de  um  mundo  que  teima não  ser  aprisionado  pelos  ditames  da 1ógica  formal” 

(Ganem, 1996). 

 



O mercado como ordem social em Adam Smith, Walras e Hayek 

 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 21, n. 1 (44), p. 143-164, abr. 2012. 



155 

Em  última  análise,  esta  utopia  racionalista  de  que  o  conhecimento  e  a 

direção do mundo se farão a partir de uma “possibilidade lógica” remete a TEG ao 

mito da razão em que o mercado pode ser demonstrado e, através da engenharia 

social, construído. E será exatamente através deste filão filosófico – já trilhado por 

inúmeros  críticos  à  razão  construtivista  –  que  Hayek  articulará,  num  só 

pensamento,  a  crítica  filosófica  à  razão  cartesiana  e  uma  defesa  teórica 

contemporânea do mercado. 

 

3 Hayek e a ordem espontânea: da teoria à apologia do mercado



 

A  teoria  do  mercado  de  Hayek  suscita  o  enfrentamento  de  múltiplos 

desafios,  pois  trata-se  de  uma  teoria  que,  assentada  numa  cosmovisão  da 

sociedade,  encerra  contribuições  metodológicas  atuais,  além  de  críticas 

consistentes  à  formulação  matemática  da  teoria  neoclássica.  Para  além  dessa 

questão,  trata-se  de  uma  articulação  viva  entre  a  teoria  e  o  projeto  político 

ideológico da doutrina ultraliberal do mercado como ordem social.  

Hayek  segue  Walras  e  Smith  e  produz  uma  teoria  do  mercado  que  se 

traduz  numa  teoria  da  sociedade.  Além  disso,  extrapola  todos  os  limites  da 

economia  ou  de  qualquer disciplina 

sctricto  sensu

  para  se  colocar  no  plano  da 

filosofia social e da teoria da história. Em que pese a força de seus argumentos 

teóricos,  estes  estão  intimamente  ligados  a  uma  perspectiva  ideológica  do 

mercado.  E  é  esta  delicada  relação  que  se  procura  mostrar,  sem  não  antes 

sublinhar que o autor construiu uma teoria do mercado atual, palatável e muito 

mais sedutora que os pesados modelos matemáticos dos neoclássicos e que, por 

conta disso, se pode constatar ainda hoje a influência que sua teoria exerce em 

alguns meios acadêmicos e na divulgação para a sociedade em geral na ideia do 

mercado como solução para os impasses vividos pela ordem social do capitalismo. 

Acredita-se  que  é  no  trato  desta  constatação  que  reside  a  importância  de  sua 

contribuição para as teorias do mercado e a dimensão dos esforços requeridos para 

contestá-la. 

Hayek, como é sabido, foi o mentor do colóquio de Mont Pelérin, Suíça, 

em  1947,  que  contava,  entre  os  seus  trinta  e  sete  ilustres  participantes,  Karl 

Popper, Lionel Robbins, Milton Friedman, Machlup, Franz Knigth, Von Mises, 

Michael Polanyi e Maurice Allais. A Sociedade de Mont Pelérin, a qual presidiu 

durante  14  anos,  tinha  como  objetivo  enfrentar  a  crise  moral,  intelectual  e 

econômica  da  Europa  do  pós-guerra  através  de  um  projeto  político-econômico 

cujo fundamento era

 a liberdade de um povo no contexto das sociedades abertas 

ou  das  great  societies

.

 

Os  inimigos  dessa  sociedade  aberta  eram  os  regimes 



totalitários  do  fascismo  e  do  stalinismo.  Entretanto,  a  sua  crítica,  como  a  de 


Angela Ganem

 

156  



Economia e Sociedade, Campinas, v. 21, n. 1 (44), p. 143-164, abr. 2012. 

Popper


16

,

17



se concentrou no stalinismo, pois o objetivo ideológico de ambos era 

atingir  a  construção  de  uma  nova  forma  de  organização  da  sociedade  que  não 

fosse  a  regida  pelo  mercado  capitalista.  Para  Hayek,  o  melhor  exemplo  do 

caminho da servidão é o caminho traçado pelo plano ou desígnio de uma classe 

operária,  uma  razão  onipotente  que  entende  a  sociedade  como  uma  máquina 

racional ou uma ordem fabricada e que constrói, pela deliberação de seus sujeitos 

sociais, um devir socialista (Hayek, 2002, [1944]).  

Por outro lado, através de sua crítica filosófica ao racionalismo cartesiano 

ou à onipotência da razão, também atinge a modelização e a matematização da 

teoria neoclássica. Na crítica ao modelizador ou à racionalidade neoclássica, ataca 

a ordem racional do mercado de Walras e a entende como uma compatibilidade 

ex 


ante

 de agentes autointeressados e dotados de uma razão onipotente. 

Nesse sentido, Hayek critica, de uma só feita, a desmesura da razão dos 

agentes neoclássicos assim como a da razão da classe operária e de seus aliados. 

Ambas, afirma ele, são formas manifestas do racional construtivismo

17

18



e cometem 

o mesmo erro: não respeitam a ordem natural e espontânea do mercado. E, para 

ambas  formas  do  racional  construtivismo,  avisa:  “Nós  não  inventamos  nosso 

sistema  econômico.  Nós  não  somos  suficientemente  inteligentes  para  isso.  E 

ainda:  “O  erro  do  racional-construtivismo  é  a  ilusão  de  que  os  fatos  estão 

presentes  no  espírito  de  um  indivíduo  e  que  ele  pode  edificar  a  partir  desse 

conhecimento cristalino dos dados reais uma ordem desejável” (Hayek, 1973)

18

.



19

 

A crítica filosófica ao racional construtivismo levou-o, paradoxalmente, a 



uma abertura de novos horizontes para o velho projeto liberal de mercado. Através 

das  contribuições  metodológicas  e  epistemológicas  que  o  aproximam  tanto  de 

Popper (através de sua trajetória de erros e acertos) como da heterodoxia (com o 

                                                           

(16) Karl Popper escreve, nessa mesma época, uma crítica ao marxismo. Ambos foram duros em relação 

à ideia de um fim da história associada ao que chamaram de profético mundo socialista. Guardadas as diferenças 

de método, a 

Miséria do historicismo,

 de 1944, e 

A sociedade aberta e seus 

inimigos

de 1945, ambos de Popper, 



e  o 

Caminho  da  servidão,

  de  Hayek,  publicado  originalmente  em  1946,  têm  o  mesmo  alvo:  desmontar 

cientificamente o argumento da possibilidade de uma leitura da história e derrubar a visão profética do socialismo 

decorrente de supostas leis imanentes. (Ganem, 2009).  

(17) Para o racionalismo cartesiano existe um método único de caráter universal, 

ta mathema

, método 

matemático perfeito e totalmente dominado pela inteligência. Ele define as regras para a direção do espírito, que 

são as regras matemáticas da evidência, da enumeração, da divisão e da síntese. A dúvida refuta o que é sombrio, 

nebuloso ou do domínio da opinião para se alcançar as primeiras verdades claras, evidentes e axiomáticas. A 

partir  destas  premissas  apodíticas,  axiomáticas,  a  verdade  lógica  é  alcançada  por  dedução  (Descartes,  1959 

[1641]); 1985 [1623]). Já o conceito de construtivismo significa construir a partir da razão ou como fruto da 

razão, ou ainda como resultado do plano. Neste sentido, a sociedade, a moral, as leis, a linguagem, o mercado 

seriam construídas pela razão sem levar em conta a tradição e a cultura (Ganem, 2005). 

(18) “Hayek, em todos os seus mais importantes trabalhos (1937, 1952, 1967, 1973, 1988), identifica 

com maestria o cerne dos principais pontos do método cartesiano, retirando daí uma conseqüência direta desse 

método: a ação racional é aquela inteiramente conhecida e demonstrável pela razão e as realizações dos homens 

são produtos de seu raciocínio” (Ganem, 2005). 



O mercado como ordem social em Adam Smith, Walras e Hayek 

 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 21, n. 1 (44), p. 143-164, abr. 2012. 



157 

uso de regras, instituições, processo e evolução), Hayek nos apresenta uma teoria 

articulada  em  vários  planos  em  que  estão  intimamente  ligadas  a  economia,  a 

sociedade, a cultura e a filosofia.  

Hayek  parte  de  um  indivíduo  ignorante,  em  um  mundo  complexo  e 

inalcançável  pelo  conhecimento  na  sua  totalidade.  Esse  indivíduo  seguidor  de 

regras, parte de um processo de experimentações, tateia e, entre erros e acertos, 

produz  espontaneamente,  isto  é,  sem  nenhuma  intenção  ou  desígnio,  a  ordem 

social.  Regras,  instituições,  complexidade  do  fenômeno  social,  racionalidade 

limitada, estes e muitos outros elementos, são o seu 

menu 

conceitual que fornece 



souplesse

 teórica a sua obra, liberada das restrições do processo de matematização 

dos neoclássicos. 

Para o autor, a ordem racional produzida pela racionalidade onipotente ou 

pelo desígnio das classes operárias tem como suposto uma razão que vê o mundo 

como passível de ser captado por um conhecimento perfeito. Diferentemente desta 

perspectiva, Hayek toma, como ponto de partida teórico, um indivíduo ignorante 

frente  a  um  mundo  complexo  cuja  razão  limitada  é  incapaz  de  desvelar  a 

totalidade. Um mundo que jamais será conhecido totalmente e que, dele, o homem 

só dispõe de um incompleto e fragmentado conhecimento. Neste momento, fica 

clara  a  identificação  de  sua  teoria com  o  racionalismo  crítico  popperiano,  com 

suas  proposições  constantemente  renovadas  e  sua  humilde  correção  de  erros, 

elementos que sustentam a sua tese da provisoriedade do conhecimento.  

Entretanto, este homem ignorante tem consciência de suas limitações e as 

contorna  através  de  um  processo  de  experimentação  que,  para  Hayek,  é 

simultaneamente  a  porta  de  entrada  da  liberdade:  “somos  livres  e  ignorantes, 

abertos  para  o  imprevisível  e  para  o  não  determinado”  (Hayek,  1983).  Neste 

processo de experimentação, os homens examinam os fatos e se adaptam, tendo 

em vista os seus próprios fins. Eles selecionam as regras de comportamento que 

oferecem soluções para problemas recorrentes. Intersubjetivamente ou em grupos, 

não se exige, segundo o autor, consenso quanto aos fins, mas somente quanto aos 

meios  capazes  de  servir  a  uma  grande  variedade  de  propósitos.  As  regras 

selecionadas, produtos da experiência de gerações, são sobretudo gerais porque 

não podem atender a fins particulares e, sim, respeitar o princípio de aumentar a 

oportunidade de todos. Neste processo, o papel do Estado é garantir o fundamento 

lógico de uma sociedade livre, ou seja, assegurar os direitos negativos do cidadão. 

(Hayek, 1937; 1973).  

A ordem resultante é uma ordem espontânea, filha dileta da catalaxia, uma 

estrutura transcendental ou uma categoria inacessível à razão que se preserva, para 

ele, no mito da mão invisível. A origem 

katallatein 

significa trocar, mas o jogo da 

catalaxia,  para  Hayek,  é  mais  do  que  a  troca:  é  o  jogo  da  concorrência,  por 



Angela Ganem

 

158  



Economia e Sociedade, Campinas, v. 21, n. 1 (44), p. 143-164, abr. 2012. 

excelência,  a  única  forma  de  se  gerar  riqueza.  Na  sua  teoria  da  evolução 

cultural

19

20



ocorre  um  processo  de  aprendizagem  social  em  que  se  entende  que, 

quanto mais a sociedade se torna complexa, mais acertadas e espontâneas são as 

regras, regras, essas, que reafirmam o jogo catalítico do mercado. Nessa teoria, 

Hayek afirma que seu objetivo é explicar como funciona o processo sem tentar 

explicar  seus  resultados  ou  predizer  o  seu  curso.  Razão  e  cultura,  para  ele,  se 

desenvolvem concomitantemente. Criticando o que chama de discurso profético de 

Marx,  ele  dirá:  “A  sociedade  não  deve  ser  dirigida  para  um  fim  escatológico”

 

(Hayek, 1973; 1988) 



Entretanto, nesta altura de sua construção teórica, verifica-se um paradoxo 

no  seu  raciocínio,  muito  bem  detectado  pelo  filósofo  francês  Luc  Ferry:  “o 

hiperliberalismo de Hayek é um hiper-racionalismo porque ele pressupõe como 

Hegel  que  na  história  tudo  se  desenvolve  racionalmente  e  que  mesmo  as 

iniciativas aparentemente mais irracionais participam da auto-realização de uma 

razão: a do mercado (...). À força de preservar os direitos e a liberdade dos efeitos 

nefastos do intervencionismo, o liberalismo hayekiano confia tudo à história ou ao 

autodesenvolvimento do mercado” (Ferry,1984).  

Lendo  essa  assertiva  pelo conceito nuclear  de regras,  contata-se  que  as 

regras da concorrência, serão para Hayek, as de maior êxito. Isto significa que 

todas  as  iniciativas  dos  homens  se  direcionam  para  a  escolha  de  regras  que 

participam  “necessariamente”  da  auto-realização  do mercado.  Entende-se  que  a 

eleição necessária das regras da concorrência se dá porque mercado para Hayek é 

um  método.  Um  método  tão  indispensável  como  a  matemática  o  foi  para 

Descartes. Em que pese suas críticas ao racionalismo, Hayek se coloca num plano 

ultrarracional de leitura da história e acaba por reeditar o mito da mão invisível 

como  um  processo  impessoal  e  inexorável  do  mercado.  Esta  ideia  do  mercado 

como passado, presente e devir ou como fim da história fornece, segundo opinião 

aqui  destacada,  os  elementos  necessários  à  passagem  da  teoria  à  apologia  na 

defesa  do  mercado  como  a  melhor  forma  de  organização  para  as  sociedades 

contemporâneas.  

  

                                                           



(19) Hayek, em sua Teoria da Evolução Cultural, retoma a tradição de Mandeville, Hume e Smith, e 

desenvolve a ideia de uma evolução cultural anterior ao conceito biológico de evolução. Ele mostra que essa 

tradição  criou  a  atmosfera  do  pensamento  evolucionista  no  estudo  da  sociedade  muito  antes  de  Darwin.  O 

enfoque evolucionista dos filósofos morais escoceses indica que os produtos da civilização são o resultado de um 

processo de regularidades. Eles não são guiados por uma previsão, mas são os frutos do resultado não intencional 

de ensaios e erros. Um processo que não é resultado da criação consciente das instituições pela razão, mas um 

processo em que cultura e razão se desenvolvem concomitantemente; é famosa a sua assertiva de que o homem 

não adotou novas normas de conduta porque é inteligente. Tornou-se inteligente ao se sujeitar a novas normas de 

conduta (Ganem, 2005). 



O mercado como ordem social em Adam Smith, Walras e Hayek 

 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 21, n. 1 (44), p. 143-164, abr. 2012. 



159 

Considerações finais: unidade na diferença

 

Partimos  da  ideia  de  que  os  três  autores,  Smith,  Walras  e  Hayek, 



distribuídos no tempo e no espaço da História do Pensamento Econômico, têm, 

como  elo  teórico,  o  mercado  autorregulável  para  a  explicação  da  ordem  social 

capitalista. A razão que constrói a unidade entre os três é aparentemente trivial, 

mas  muito  pouco  explorada.  Trata-se  da  compreensão  do  objeto  mercado  para 

além dos limites do mecanismo de oferta e demanda, situando-o no plano de uma 

ordem social ou de uma teoria da sociedade, ou ainda na forma de organização da 

sociedade capitalista. A singularidade e genialidade desses autores, como visto, 

constatam-se nas marcas indeléveis que deixaram na história das ideias, na história 

do  pensamento  econômico  e  na  influência  nas  políticas  econômico-sociais 

implementadas pelos países capitalistas. 

Em  Smith,  constatou-se  que  a  economia  nasce  como  uma  teoria  do 

mercado,  uma  explicação  científica  para  a  emergência  da  ordem  liberal.  Smith

 

apresenta  a  fórmula  ou  a  lógica  do  mercado  liberal  em  seu  estado  mais  puro, 



espontâneo

  e


  natural,

 

como  ele  afirma:  os  interesses  privados,  ao  invés  de  se 



chocarem  produzindo  a  guerra,  são  agraciados  por  uma  mão  invisível  que  os 

orienta  para  o  bem-estar  coletivo.  Esta  solução  de  Smith  alçou  a  economia  ao 

debate das ideias da modernidade como também definiu um dos projetos teóricos 

da  disciplina,  inserindo-o  no  projeto  liberal.  Nesta  explicação,  Adam  Smith 

construiu  um  profundo  diálogo  com  os  modernos  e  definiu  os  fundamentos  da 

economia imbricados com a filosofia moral dos séculos XVII e XVIII. A solução 

do mercado de Smith para a ordem social supera a noção do contrato como lógica 

para  os  fenômenos  coletivos.  Sua  explicação  do  mercado  não  se  limita  a  um 

estudo do “local de trocas”, e a economia termina por invadir todo o terreno da 

sociedade. Esta ordem social explicada a partir do indivíduo – o homem como ele 

realmente  é  – com  as  suas  paixões, sem  intencionalidades  e/ou  desígnios  gera, 

dentro dessa perspectiva, o bem-estar coletivo 

Já o segundo momento, datado de fins do século XIX, está inserido no 

quadro da revolução marginalista e de uma mudança de paradigma na economia 

em  que  Walras  é  um  dos  seus  mais  ilustres  representantes.  Seu  objetivo  de 

demonstrar lógico-matematicamente a ordem social do mercado significa que ele 

guarda a ambição de Smith do mercado como uma teoria da sociedade ao mesmo 

tempo  em  que  enfrenta  questões  epistemológicas  em  torno  da  natureza  da 

economia, suas possibilidades demonstrativas e as reduções necessárias para tal. 

Walras, através da releitura que faz de Smith, costura uma das mais importantes 

pontes  da  teoria  econômica,  inaugurando,  neste  processo,  a  economia  positiva. 

Uma continuidade constatada por seus herdeiros neo-walrasianos contemporâneos, 

que  entendem  a  solução  smithiana  como  um  esboço  do  modelo  canônico 

walrasiano.  




Angela Ganem

 

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O terceiro momento do pensamento liberal é marcado por uma crítica que 

parte do interior teórico da ótica do mercado. O protagonista é Hayek. Sua crítica 

atinge  aspectos  epistemológicos  e  normativos  do  modelo  walrasiano  em  três 

planos: uma crítica à ambição daquele que confecciona o modelo, uma crítica à 

racionalidade onipotente dos indivíduos e, finalmente, uma crítica à intervenção 

do  planejador  ou  do  governo  que  pretende  corrigir as  falhas  do  mercado.  Para 

Hayek,  uma  das  melhores  expressões  da  modernidade  é  a  ambição  walrasiana 

demonstrativa  do  mercado:  uma  perspectiva  que  supõe,  do  ponto  de  vista 

filosófico, que o mundo é capaz de ser desvelado pelo uso de um bom método. Ali 

residiria  a  ideia  equivocada  de  que  os  fenômenos  econômicos  e  sociais  são 

passíveis de serem captados por um conhecimento perfeito, no caso, a matemática. 

O  segundo  ponto  da  crítica  diz  respeito  à  concepção  neoclássica  ortodoxa  do 

comportamento  dos  indivíduos  que,  dotados  de  racionalidades  onipotentes, 

produzem, por suas escolhas racionais, uma ordem equilibrada, estável e ótima. 

Em oposição a essa onipotência, Hayek sugere um homem ignorante, seguidor de 

regras e sabedor de suas limitações frente a um mundo complexo que jamais será 

totalmente desvelado. Finalmente, sua crítica atinge o racionalismo construtivista 

do planejador que almeja, a partir de reformas sucessivas, corrigir o mercado – 

uma  contradição  em  termos  para  ele,  já  que  toda  intervenção,  por  suposto,  é 

produtora de injustiças e ineficácias.  

No  que  diz  respeito  à  história  da  implantação  do  capitalismo,  a  ordem 

natural  do  mercado  de  Adam  Smith  é  o  resultado  de  uma  leitura  testemunhal, 

descritiva  e  empírica  desse  fenômeno.  A  essa  perspectiva,  alia-se  a  capacidade 

incontestável  do  autor  de  construir  leis  naturais  que  fornecem  as  condições 

epistemológicas necessárias para o nascimento da Economia marcado pela ideia 

do mercado como ordem social. O segundo momento, expresso na ordem racional 

de Walras, situa-se na segunda metade do séc. XIX, momento, esse, em que se 

constata  o  apogeu  do 

laisser-faire

  como  teoria  e  política  do  capitalismo  e  do 

mercado. Neste período, tem-se a afirmação da economia positiva cientificamente 

espelhada na física. Finalmente, o terceiro momento, em fins do séc. XX, após a 

crise do comunismo e do 

welfare state, 

tem em Hayek uma teoria que alimenta as 

possibilidades de se articular o fim da história com a vitória da globalização e da 

democracia liberal sob a égide da supremacia do mercado. 

Para  além  da  unidade  teórica  constatada,  registrou-se  diferenças  nas 

formas que a ordem social do mercado assume para cada um dos autores. Trata-se 

de uma ordem natural para Smith, uma ordem racional para Walras e uma ordem 

espontânea  para  Hayek.  A  elas  estão  associadas  perspectivas  epistemológicas e 

filosóficas distintas. Smith é herdeiro do empirismo anglo-saxônico e da filosofia 

moral  gestada  ao  longo  de  três  séculos,  o  que  impede  uma  leitura  simplista  e 

economicista  do  autor.  Já  Walras  revela  uma  perspectiva  filosófica  cartesiana 



O mercado como ordem social em Adam Smith, Walras e Hayek 

 

Economia e Sociedade, Campinas, v. 21, n. 1 (44), p. 143-164, abr. 2012. 



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aliada ao espelho da física, onde, ao racionalismo  matemático de Descartes, se 

pode  somar  Newton  através  da  mecânica  clássica.  A  solução  matemática  de 

Walras  aponta  para  um  racionalismo  sem  limites.  A  ambição  de  demonstrar 

matematicamente o mercado como uma ordem equilibrada, estável e ótima é a 

expressão  mais  acabada  da  onipotência  da  razão  ou  da  ideia  de  transformar  a 

economia num poderoso teorema.  

A ordem espontânea de Hayek parte de regras e realiza uma interlocução 

profícua  com  o  racionalismo  popperiano.  Entretanto,  em  que  pese  a  leveza 

inconteste de sua teoria baseada em regras comportamentais frente aos pesados 

modelos  matemáticos  neoclássicos,  Hayek  recai  numa  defesa  doutrinária  do 

mercado  como  a  única  forma  possível  de  organização  para  as  sociedades 

contemporâneas. 

Finalmente,  a  leitura  caminhou  no  sentido  oposto  a  uma  perspectiva 

cumulativa,  evolutiva  ou  positivista  das  teorias  do  mercado  em  que  Walras 

naturalmente  superaria  Smith,  e  Hayek  se  traduziria  na  sua  expressão  mais 

acabada.  Ao  contrário,  sobrevém  a  convicção  de  que  algo  rico  e  específico  da 

teoria  de  Adam  Smith  se  perde  na  história  do  pensamento  econômico  ao  ser 

submetida à releitura empobrecedora que a teoria neoclássica fez na tentativa de 

reduzi-la  aos  seus  próprios  termos.  Walras  e  os  adeptos  da  economia  positiva 

substituem  a  ênfase  na  estrutura  produtiva,  distributiva  e  de  processo  da 

acumulação do capitalismo (temas da economia política que foram retomados por 

Ricardo e Marx) pela ênfase no mercado. Com isso, a leitura neoclássica, além de 

direcionar os rumos da história do pensamento econômico, ignorou o diálogo que 

Smith estabeleceu com a história das ideias e com a possibilidade de uma leitura 

interdisciplinar de sua obra em que a economia não necessariamente romperia com 

a moralidade, a ética e os valores. 

A teoria da ordem racional de Walras, ao mesmo tempo que expressa um 

avanço em termos matemáticos registrado na aplicação das técnicas marginalistas 

no exercício da demonstração da ordem do  mercado racional, elege o mercado 

como foco central e levanta barreiras disciplinares com relação as demais ciências 

sociais. Fortalece a ideia de uma utopia racionalista de que o conhecimento e a 

direção do mundo se farão a partir de uma possibilidade lógica em que o mercado 

pode ser demonstrado e construído, desrespeitando qualquer herança ou tradição. 

Já o terceiro autor, Hayek – um dos mais importantes teóricos e ideólogos 

do neoliberalismo – apresenta uma teoria coerente com a sua visão de mundo dos 

idos de 40, quando publicou o 

Caminho da Servidão

, cujo objetivo era desmontar 

a possibilidade de leis da história que pudessem conduzir ao socialismo. Hayek se 

apropria dessa ideia de curso da história e substitui a utopia do socialismo pela do 

mercado. Como visto, suas leis imanentes (as regras necessárias da concorrência 




Angela Ganem

 

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Economia e Sociedade, Campinas, v. 21, n. 1 (44), p. 143-164, abr. 2012. 

capitalista)  determinam  a  ideia  de  um  processo  sem  sujeito  que  culminaria  na 

democracia  liberal,  a  face  política  da  vitória  da  lógica  do  mercado.  Hayek,  ao 

defender o mercado como fim da história e como melhor forma de organização 

das sociedades contemporâneas, passa, sem mediações, da teoria para uma defesa 

apologética  do  mercado  nos  tempos  atuais.  Tempos,  esses,  marcados  pela 

descrença  nesse  discurso  e  pela  constatação  em  círculos  cada  vez  maiores  da 

academia e da sociedade da importância visceral do Estado na construção e na 

manutenção da ordem do mercado capitalista. 

 

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