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DICIONÁRIO - POESIA DA ALTERIDADE EM MANOEL DE BARROS - PARADOXO DA DESPALAVRA
TESE - SUJEITO SINTÁTICO E REFERENCIAÇÃO INDETERMINADA, ACHEGAS AO FENÔMENO DO EMPRÉSTIMO LINGUÍSTICO - REDEFININDO OS TERMOS EMPRÉSTIMO E ESTRANGEIRISMO, A NECESSIDADE DE CONCEPÇÕES SOCIOLINGUÍSTICAS E HISTÓRICO-POLÍTICAS COMO PANO DE FUNDO PARA A ELABORAÇÃO DE VERBETES DE DICIONÁRIOS DE ESPANHOL, O PERCURSO ONOMASIOLÓGICO APLICADO A UM DICIONÁRIO DE IDIOMATISMOS
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


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Considerações iniciais 
 
 
 
Refletir  sobre  poesia  brasileira  contemporânea,  de  forma  geral,  e  analisar,  em 
específico,  a  obra  de  Manoel  de  Barros,  empenha-nos  a  olhar  com  objetividade  algumas 
características próprias da linguagem poética. Ao escolher fazê-lo, tendo como base a noção 
de alteridade, a presente pesquisa coloca-se diante do desafio de elaborar apontamentos que 
colaborem  com  os  estudos  da  teoria  e  da  crítica  literárias  e  que  possam  contribuir  para  o 
conhecimento mais aprofundado da obra barreana.  
 
Quando  Manoel  de  Barros  cita  Fernando  Pessoa  na  epígrafe  de  Retrato  do  artista 
quando  coisa  (1998),  escolhe  os  seguintes  versos:  “Não  ser  é  outro  ser”  (1998,  p.11)  e,  em 
seguida,  inicia seu poema com versos como: “Já posso amar as moscas como a mim mesmo” 
(1998,  p.11)  ou  “Sapos  desejam  ser-me”(1998,  p.  11),  o  poeta  demonstra  buscar 
relacionamentos  que  extrapolam  os  encontros  vividos  pelo  ser  humano,  e,  por  outro  lado, 
revelam  um  conhecimento  profundo  da  palavra  inscrita  no  mundo,  sobretudo  na  natureza. 
Esses encontros acontecem numa dialética  que se desdobra ao longo da obra. Ele é o poeta 
que dá às moscas e ao sapo a dignidade de serem o eu ou o tu, ou, ainda, integrarem-se na 
relação ser-me.  
 
Para pensar este sujeito, trazemos aqui um trecho de O Sujeito Lírico fora de si (2013), 
em  que  Michel  Collot  (1952),  escritor  e  crítico  literário  francês,  apresenta  a  relação  do  eu 
lírico para com o mundo exterior. Quando realiza o movimento de sair de si mesmo e ir ao 
encontro do mundo, rompe-se com a ideia de que o eu poético estaria encerrado em si mesmo 
e,  a  partir  de  então,  tudo  seria  criado  para  conceder  ao  outro  uma  experiência  de 
pertencimento  numa  relação  mais  ampla,  que  é  influenciada  pela  própria  palavra,  como 
vemos no trecho a seguir: 
 
 
Essa possessão e essa privação manifestam a influência sobre a subjetividade 
lírica  de  uma  alteridade,  que  não  é  necessariamente  uma  transcendência. 
Aliás,  ela  pode  se  exercer:  por  meio  da  sedução  de  um  ser  humano,  no 
lirismo  amoroso,  pela  ação  do  Tempo,  no  lirismo  elegíaco,  ou  no  apelo  do 
mundo, que encanta o poeta cósmico. E ela não se separa da influência que a 
própria palavra exerce, que se apodera do poeta bem mais do que ela emana 
dele. (COLLOT, 2013, p.222) 
 
 
Abordar a questão da palavra ou da despalavra, servindo-nos da noção de paradoxo, 
em que a palavra se apodera do poeta bem mais do que emana dele, é um dos caminhos que 
seguiremos para a realização da presente pesquisa, isso porque, a despalavra barreana, como 


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ele mesmo explica, é a capacidade de mostrar a centralidade da palavra e como ela pode ser o 
tu,  na  relação  eu-tu,  sem  a  necessidade  de  que  ela  (a  palavra)  seja  carregada  de  conceitos 
(termo  usado  aqui  para  especificar  a  dificuldade  que  um  conceito  fechado  pode  gerar)  ou 
significados  pré-definidos.  Existe  um  movimento  de  saída  de  si  e,  logo  em  seguida,  a 
libertação de significados pré-constituídos. O que pretendemos, apontando esses aspectos, não 
é  afirmar  que  um  ou  outro  processo  seja  o  mais  adequado  para  a  criação  poética,  mas, 
sobretudo, mostrar como esses movimentos sugerem saída, encontros e desencontros.  
 
 Hoje eu atingi o reino das imagens, o reino da  
 despalavra
 Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades  
 humanas. 
 Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades  
 de pássaros. 
 Daqui vem que todas as pedras podem ter qualidades  
 de sapo. 
 Daqui vem que todos os poetas podem ter qualidades  
 de árvore. 
 Daqui vem que os poetas podem arborizar os pássaros. 
 Daqui vem que os poetas podem humanizar  
 as águas. 
 Daqui vem que os poetas devem aumentar o mundo  
com as suas metáforas.   
Que os poetas podem ser pré-coisas, pré-vermes,  
podem ser pré-musgos. 
Daqui vem que os poetas podem compreender  
o mundo sem conceitos. 
Que os poetas podem refazer o mundo por imagens,  
por eflúvios, por afeto.  
(BARROS, 2013, p.354) 
 
 
Ao  buscar  este  caminho  poético  da  centralidade  da  palavra,  o  poeta,  que  nasceu  em 
Cuiabá  (MT)  e  mudou-se  ainda  menino  para  o  Pantanal,  parece  revelar-nos  um  cenário 
extremamente original do ponto de vista da criação e das referências literárias. Além de ser, 
ao mesmo tempo, regional e universal, pois é capaz de expressar sentimentos e emoções que 
são de todos os seres, além de demonstrar o quanto a natureza – plantas e animais – fazem 
parte  dessa  universalidade.  Comparado  à  Guimarães  Rosa,  por  sua  capacidade  de  compor 
textos em linguagem de carga poética inigualável, ele é citado pela crítica como alguém que 
consegue  impressionar  pela  simplicidade  e  pela  síntese.    Manoel  de  Barros  publicou  seu 
primeiro livro – Poemas concebidos sem pecado – aos 21 anos, e, não parou de escrever até 
quase a sua morte em 2014, aos 97 anos, na cidade de Campo Grande (MS).  


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Ocupante  da  cadeira  número  1  da  Academia  Sul-Mato-Grossense  de  Letras,  Barros 
publicou  seu  último  livro:  Escritos  em  verbal  de  ave,  em  2011.    Sua  obra  foi  traduzida  na 
Espanha,  França,  Estados  Unidos  e  publicada  em  Portugal.  Em  2008,  foi  tema  do 
documentário Só dez por cento é mentira, de Pedro Cezar
1
.  
 
Em  relação  ao  corpus  de  investigação  da  presente  pesquisa,  elegemos  Retrato  do 
artista quando coisa
2
 (1998), obra dividida em duas partes. A primeira tem o mesmo título do 
livro  –  Retrato  do  artista  quando  coisa  -  e  contém  16  poemas;  a  segunda  –  Biografia  do 
Orvalho –, é composta por 12 poemas, mais um Apêndice. Com estilo livre e a ausência de 
qualquer tipo de padrões, seja na elaboração, seja na enumeração e classificação dos poemas 
nos livros, Manoel de Barros nos ajuda a compreender o fazer poético como um movimento 
livre, que cria significados outros para além daqueles que já conhecemos.  
 
Se, por um lado, a alteridade – entendida como a inevitável relação com um outro – 
parece  marcar  a  obra  de  Manoel  de  Barros,  diversamente,  ele,  o  poeta,  mostra-se  como 
alguém capaz de sozinho e sem regras pré-estabelecidas, transcender os limites da palavra a 
ponto de transformá-la e colocá-la num lugar relacional inusitado. “Hoje eu atingi o reino das 
imagens, o reino da despalavra” (BARROS, 2013, p. 354). 
 
A partir da análise dos poemas de Manoel de Barros, especificamente do livro Retrato 
do  artista  quando  coisa  (1998),  queremos  perguntar-nos  sobre  os  desdobramentos  que  a 
relação  com  palavra  desencadeia  e  em  que  medida  encontramos  nos  poemas  de  Manoel  de 
Barros a palavra como outro 
 
 A  pesquisa  insere-se  dentro  de  tantas  outras  iniciativas  que  colaboram  para  que  o 
poeta, que  já teve livros premiados dentro e fora do  país, torne-se ainda mais conhecido e 
possa  entrar  sempre  mais  decididamente  para  a  cena  literária  brasileira  como  alguém  que 
soube,  de  maneira  ímpar,  expressar    o  homem  em  diálogo  com  a  sua  própria 
contemporaneidade,  em  outras  palavras,  capaz  de  lançar  luzes  em  sua  própria  época, 
conforme  afirmou  Giorgio  Agamben  na  obra  O  que  é  ser  contemporâneo  e  outros  ensaios 
(2009). 

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