Microsoft Word Dissert Final mari doc



Baixar 0.81 Mb.
Pdf preview
Página50/82
Encontro20.06.2021
Tamanho0.81 Mb.
1   ...   46   47   48   49   50   51   52   53   ...   82
 
 
V - A CENTRALIDADE DO CONCEITO DE VONTADE 
 
 
 
No contexto do pensamento agostiniano, a vontade ocupa um lugar central e em torno dela se 
desenvolve toda a teoria moral de Agostinho. Em O livre-arbítrio, percebe-se como a vontade é um 
conceito profundamente desenvolvido pelo bispo de Hipona, pois toda a argumentação empreendida 
por  Agostinho  baseia-se,  em  última  análise,  neste  conceito.  Será  através  dele  que  o  hiponense 
explicará  a  responsabilidade  do  agente  moral  por  seus  atos,  isentando  Deus  de  qualquer 
responsabilidade pela presença do mal no mundo. 
Em  A  Trindade,  Agostinho  apresenta  o  tema  da  vontade  como  uma  potência  ligada  à 
memória e à inteligência, ou seja, um elemento que colabora no processo do conhecimento trilhado 
pelo  homem,  desde  as  coisas  materiais,  presentes  no  mundo  sensível,  até  ao  conhecimento  mais 
pleno, o contato com a Sabedoria e o reconhecimento de Deus como um ser transcendente e eterno, 
além de todas as nossas capacidades. É a vontade, definida por Agostinho como “amor” que, junto 
com a “memória de Deus” e a “inteligência de Deus”, conduz ao conhecimento e ao amor daquele a 
quem o homem deve sempre estar voltado, Deus, a plena felicidade. A vontade, juntamente com a 
memória  e  a  inteligência  constituem  o  que  Agostinho  chama  de  a  Trindade  interior  presente  no 
homem, o que remete ao Deus Uno e Trino. 
Embora  o  conceito  de  vontade  seja  trabalhado  por  Agostinho  de  formas  distintas  em  
Trindade e em O livre-arbítrio, não podemos considerar desvinculados, como veremos a seguir, os 
sentidos de vontade empregados em tais obras. 
Todo  o  pensamento  de  Agostinho,  desde  os  seus  primeiros  escritos,  tem  por  único 
objetivo conhecer e amar a Deus, meta de sua incessante procura. Ora, o homem busca a Deus 
a  partir  de  sua  realidade  de  ser  humano  presente  e  atuante  no  mundo,  interagindo  com  ele 
através de sua capacidade de conhecimento. Tanto em A Trindade como em O livre-arbítrio, a 
 


 
81 
vontade  é  uma  potência  que  deve,  por  seu  natural  atributo  de  ser  livre,  conduzir  o  homem, 
desde o conhecimento e a interação com o mundo sensível até o amor daquele que transcende 
toda a realidade e todo pensamento, Deus, o único que deve ser fruído e amado pelo homem. 
Por  trás  dos  sentidos  do  conceito  de  vontade,  trabalhados  em  ambas  as  obras,  está  a 
busca de Agostinho por encontrar-se e repousar naquele que é a meta de toda a sua procura, o 
Deus  criador.  Ainda  que  se  reconheçam,  em  A  Trindade  e  em  O  livre-arbítrio,  duas  formas 
utilizadas  por  Agostinho  para  trabalhar  o  mesmo  conceito,  fundamental  no  conjunto  de  sua 
obra, a saber, a vontade, pode-se dizer que ambas remetem à dinâmica da condição humana
227

ao processo da história da humanidade, desde o pecado  original, momento em que o  homem, 
através de seu livre-arbítrio, distanciou-se da reta ordem estabelecida pelo criador. A busca de 
todo  o  homem e  a busca  constante do  homem Agostinho  é a de reconhecer  a  necessidade de 
interagir e conhecer o mundo, considerando-o apenas como um meio – e não como fim – para 
alcançar  a  plena  felicidade,  que  só  se  encontra  em  Deus.  Assim,  em  O  livre-arbítrio,  a 
dinâmica  da  vida  humana  revela-se  como  um  processo  que  retrata  a  vontade  como  um 
movimento da alma em constante luta, provocada pela liberdade, atributo essencial da vontade, 
que faz o homem mover-se entre querer e não querer alguma coisa. Em A Trindade, a vontade 
manifesta-se  como  uma  potência  presente  no  interior  do  homem,  que  o  move  a  conhecer  o 
mundo, as coisas que o rodeiam, conhecer-se a si mesmo e, desse modo, voltar-se sempre mais 
para Deus. Em ambas as obras, portanto, apesar de os conceitos serem trabalhados de formas 
distintas, a finalidade é a mesma, ou seja, a busca incessante pelo Bem supremo, Deus. Assim, 
os sentidos do conceito de  vontade apresentados por Agostinho, embora distintos,  não devem 
ser considerados isoladamente. 
Para Agostinho, a vontade é uma potência interna, automovente, livre e dotada de livre-
arbítrio, que é o poder de escolha da vontade. Os sentidos dados por Agostinho ao conceito de 
vontade revelam que o ser humano deve, enquanto criatura, estar sempre
 
ligado ao criador, de
 
modo  que  sua  vontade  não  se  desvie  de  sua  principal  meta:  a  busca  da  plena  felicidade  e  do 
único repouso para a alma humana, Deus. 
                                                
227
  Cf.  CUNHA,  M.  P.  S.  O  movimento  da  alma,  p.  102-103:  “Sem  vontade  não  há  felicidade,  pois  a 
sabedoria decorre da vontade boa, do amor, da graça, e é através dela que podemos também levar uma vida 
miserável. A vontade é expressão da singularidade de cada um [...]. Na complexa interação da vontade com a 
graça,  isto  é,  na  vontade  como  liberdade,  no  direcionamento  da  vontade  para  o  mutável  e  na  preferência 
desmedida por este, no relacionamento da vontade com a memória e a inteligência, vemos delinear-se o ser 
humano  agostiniano  e  as  tensões  de  sua  realidade,  da  vida  humana.  A  vontade  está  presente  na  vida 
intelectual  e  moral,  e  conduz a ambas; na  verdade  esses  dois  domínios  são  contíguos  e  não  se  separam.  A 
influência  da  vontade no  domínio  do  conhecimento  sensível  se  dá  através  das  funções  de  dirigir,  manter  e 
unir. No conhecimento de si e de Deus se dá como amor. Na vida moral é a vontade que nos impulsiona. Ela 
é o eixo tanto da vida moral como da intelectual, visto ser o eixo do ser humano: somos o que amamos e o 
que amamos é o que determina o que fazemos, é a nossa vontade”. 

1   ...   46   47   48   49   50   51   52   53   ...   82


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal