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parte  da  evidência  do  famoso



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parte  da  evidência  do  famoso  Cogito  de  Descartes  e  mais  ainda  na  sua  versão  mais  rica  e  adequada  em  Agostinho.  A 
existência da vontade livre em nós é tão evidente que a sua evidência é num certo sentido mais primária e indubitável do que 
aquela  de  todas  as  outras  verdades  evidentes  dadas  no  Cogito.  Naturalmente,  essa  proridade  não  deve  ser  entendida 
absolutamente: pois, sem a evidência da nossa existência e atividade de pensar, também a nossa liberdade e vontade não 
poderiam ser dadas. Contudo, a observação de Agostinho é válida secundum quid, no seguinte sentido: se assumíssemos, per 
impossibile,  que  todas  as  outras  verdades  dadas  no  Cogito  seriam  dubitáveis,  poderíamos  ainda  estar  certos  de  que 
quereríamos livremente e desejaríamos evitar o erro e alcançar a verdade. Pois, mesmo se pudéssemos estar em erro sobre 
todas  as  coisas,  ainda  permaneceria  verdadeiro  que  não  queremos  estar  em  erro,  e  dessa  vontade  livre  podemos  ter 
conhecimento certo” (SEIFERT, J. “Somos livres?”. p. 7-8. Tradução de Roberto Hofmeister Pich. Conferência proferida na 
PUCRS em 28.11.07);  Sobre a questão do cogito agostiniano, afirma Christoph Horn: “A avaliação de que Descartes é o 
fundador da filosofia moderna não se fundamenta, naturalmente, no fato de o período de vida do racionalista francês cair na 
era das descobertas geográficas e científicas, das guerras confessionais e das formas incipientes do capitalismo. Antes, parece 
existir uma inovação filosófica notável, e característica para a modernidade, na convicção de Descartes de ter descoberto um 
fundamento inabalável do conhecimento e, com isso, a asseguração de todo o saber humano na certeza do eu pensante. Por 
isso, resulta surpreendente que argumentos nos quais a automanifestação imediata daquele que pensa desempenha um papel 
importante já possam ser descobertos na Pai da Igreja da Antigüidade Tardia isto é, em Agostinho. Em analogia à concepção 
cartesiana  de  um  cogito,  (ergo)  sum,  alguns  historiadores  da  filosofia  falam  também,  nesse  sentido,  de  um  cogito 
agostiniano” (HORN, C. “Qual o significado do cogito agostiniano? (De Civitate Dei XI 26)”. p. 1. Tradução de Roberto 
Hofmeister Pich. Conferência proferida na PUCRS em 25.05.2006). 


 
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homem,  garantindo  a  possibilidade  de  que  este  se  volte  à  verdade,  ao  conhecimento  e  ao  amor  a 
Deus, Verdade suprema
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A única aspiração de Agostinho era conhecer a Deus e conhecer a sua própria alma. Todos os 
passos presentes na caminhada do conhecimento, desde o primeiro degrau até o cume, fazem parte 
deste  processo.  A  totalidade  do  conhecimento,  desde  o  conhecimento  sensível  e  do  conhecimento 
inteligível,  é  parte  de  um  único  anseio  pelo  qual  se  desenrola  toda  teoria  do  conhecimento 
agostiniana. Todos os nossos conhecimentos e todos os nossos amores, desde os mais baixos até os 
mais  elevados,  são  aspectos  da  única  tendência  do  inquieto  coração  do  Agostinho:  descansar  no 
conhecimento e no amor a Deus, a Verdade plena, que foi o motivo de toda a sua busca: 
 
Grande és tu, Senhor, e sumamente louvável: grande a tua força, e a tua sabedoria não 
tem limite. E quer louvar-te o homem, esta parcela de tua criação; o homem carregado com 
sua condição mortal, carregado com o testemunho de seu pecado e com o testemunho de 
que  resistes aos soberbos;  e,  mesmo assim,  quer  louvar-te  o  homem,  esta parcela de  tua 
criação. Tu o incitas para que sinta prazer em louvar-te; fizeste-nos para ti, e inquieto está o 
nosso coração, enquanto não repousa em ti
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Para Agostinho, o mal consiste justamente no distanciamento de Deus, por parte do homem, 
que,  por  sua  livre  vontade,  escolhe  direcionar  todo  o  seu  amor  às  coisas  inferiores,  inclusive  a  si 
mesmo, gerando o orgulho em detrimento do amor devido a Deus, única realidade a ser buscada e 
amada por si mesma, a fonte da plena felicidade. Desse modo, torna-se necessário analisar novamente 
a  potência  da  vontade,  sob  um  novo  prisma,  a  saber, sua  centralidade  na  obra O  livre-arbítrio.  A 
potência da vontade, sendo dotada de livre-arbítrio, torna o homem responsável pelos seus atos.  
Ao propor uma trajetória ascensional do conhecimento, que parte da realidade sensível até 
chegar a Deus, Agostinho deixa claro que a meta de tal processo é orientar todas as forças da alma ao 
Bem  supremo,  à  vida  feliz.  Este  é  o  papel  da  vontade:  ser  a  potência  que  orienta  e  impulsiona  o 
homem,  enquanto  ser  racional,  a  optar  e  abraçar  a  virtude  e  o  bem,  evitando  as  seduções  do 
mal e a queda no pecado. 
 
                                                
225
 Cf. BOEHNER, P; GILSON, E. História da Filosofia Cristã, p. 154: “Estamos aqui em face de um acontecimento de 
capital importância na história da filosofia. É pela primeira vez que deparamos uma prova da existência de Deus baseada na 
mais evidente das verdades, a saber: na existência da consciência conhecente. Não só isso: Agostinho funda a evidência 
desta verdade na existência do próprio sujeito que duvida, abalando assim o ceticismo pela raiz, isto é, pelo mesmo ato que 
lhe serve de fundamento. Esta primeira certeza implica três verdades: visto que o sujeito que pensa não pode pensar sem 
viver, nem viver sem existir, ele sabe que pensa, que vive e que existe”. 
226
 AGOSTINHO, Santo. Confissões, p. 15. “Magnus es, Domine, et laudabilis valde: magna virtus tua et sapientiae tuae 
non  est  numerus.  Et  laudare  te  vult  homo,  aliqua  portio  creaturae  tuae,  et  homo  circumferens  mortalitatem  suam, 
circumferens testimonium peccati sui et testimonium, quia superbis resistis; et tamen laudare te vult homo, aliqua portio 
creaturae tuae. Tu excitas, ut laudare te delectet, quia fecisti nos ad te et inquietum est cor nostrum, donec requiescat in te” 
(Conf. I 1,1). 

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