Microsoft Word criatvidade e trabalho cenario musical bahia doc



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4

   

M

ECANISMOS DE 

D

IVULGAÇÃO 

 



C

APTAÇÃO DOS 

P

ÚBLICOS

 

 

 



4.1

   

A

 

M

ÚSICA NO 

B

ALCÃO DE 

V

ENDAS

 

 

A ampliação do mercado de música baiana é uma das mudanças mais importantes do meio 



musical de Salvador nos anos 90, pois implica a consolidação da axé music como estilo no mercado 

fonográfico local e nacional e o fim da sazonalidade de seu consumo.  

No final dos anos 80, os discos das bandas de axé music chegaram facilmente a marca de 400 

mil cópias e conseguiram farta execução nas FMs brasileiras, através de um poderoso marketing 

bancado por gravadoras que controlam a programação radiofônica. Os shows destas bandas baianas 

levam imensas platéias às casas de espetáculo de todo o Brasil. Assim, a música produzida na 

Bahia, aparentemente regionalizada, se expande no mercado nacional.  

axé music foi durante a década de 90 a grande novidade do showbiz. A imprensa do eixo Rio- 

S. Paulo desembarca em Salvador para investigar o novo movimento musical baiano. Artigos de 

jornais e revistas traçavam paralelos entre a nova movimentação musical e os movimentos 

anteriores que haviam transformado a música brasileira, como a Bossa Nova e a Tropicália, também 

liderados por baianos como João Gilberto, Caetano Veloso e Gilberto Gil. E a mídia televisiva 

passava a produzir e veicular imagens dos blocos afro de Salvador. Assim, a axé music se 

transformava num fenômeno de mídia e sinalizava sua ascensão comercial.  

Os blocos Carnavalescos ampliaram as atividades de suas respectivas bandas e se 

transformaram em produtoras com sedes próprias e expediente corrente, criando empregos diretos e 

indiretos durante todo o ano. Segundo Ary da Mata, diretor da Casa do Carnaval, “Quem primeiro 

apontou para o caminho da profissionalização foram os blocos de trio”

21

. Estes blocos colhem a 



fatia mais lucrativa desse setor da economia baiana, que atrai para Salvador milhares de turistas no 

período Carnavalesco. O lucro dessas empresas vem da venda de vestimentas para os associados 

dos blocos, patrocínios e shows. Os blocos de trio, mesmo competindo pela conquista de novos 

associados, se unem em torno de interesses comuns e impulsionam a “indústria axé”. O capital que 

                                                 

21

Ary da Mata in Jornal A Tarde, A baianização do Brasil, 30.5.95. 




 

53

move este mercado vem de todos os lados. A fonte mais conhecida é a dos blocos e seus associados, 



mas há também o patrocínio para trios e a publicidade veiculada nos caminhões-palco.  

Além disso, as produtoras começaram a movimentar dinheiro contratando suas bandas e trios 

para outros eventos ligados ao Carnaval (além das tradicionais micaretas que se realizam em todo o 

interior do Estado da Bahia). Amparadas na consolidação do estilo axé, as bandas baianas, a partir 

de 92, organizam um circuito de festas no Brasil, chamado “carnavais fora de época”, um novo filão 

do mercado que estende as atividades das bandas, na medida em que promove o consumo desta 

música e sua permanência nas paradas de sucesso em qualquer época do ano.  

Os “carnavais fora de época” foram viabilizados tanto pela popularidade quanto pelo caráter 

empresarial que as bandas assumiram. Campina Grande, na Paraíba, foi a primeira cidade a 

contratar bandas baianas para realizar o Micarande, uma espécie de mini-Carnaval capitaneado por 

bandas famosas de Salvador, como Chiclete com Banana, Cheiro de Amor, Eva, Olodum, Ara Ketu, 

etc. Logo depois, Natal-RN, promoveu o primeiro Carnatal, e Fortaleza-CE , o Fortal. A partir daí, 

o circuito foi se expandindo inicialmente em outras cidades nordestinas, até alcançar as cidades do 

sul e sudeste como Belo Horizonte-MG que promove o Carnabelô, e São Paulo-SP onde o 



Carnasampa reuniu em agosto de 95, 80 mil pessoas na Avenida Sumaré

22

. Atualmente existem 



cerca de 40 “carnavais fora de época”, que incluem cidades como Florianópolis-SC e a capital do 

país com o Micarecandango que acontece em agosto. A instalação deste circuito de festas 

representa um novo e importante nicho de mercado que mantém ativa a produção de música baiana 

durante todo o ano. 

Uma outra forma de expansão do mercado são os chamados “blocos alternativos” como o Nana 

Banana do Chiclete com Banana; Adão do Eva; Côcobambu do Asa de Águia, Eu Vou do Pinel; etc, 

espécies de filiais dos grandes blocos, que mantém a estrutura básica, mas barateia os custos para os 

associados e não desfilam no circuito central da cidade, e sim no circuito da orla. O bloco afro Ilê 

Aiyê, colocou neste circuito, apenas no Carnaval de 96, o bloco alternativo Eu também sou Ilê, com 

contava com a participação de associados brancos. O Carnaval de 97 contou com a presença de 36 

blocos alternativos no circuito Barra-Ondina, para onde a folia se estendeu nos últimos anos, devido 

ao aumento do número de foliões trazidos sobretudo pelo turismo. 

Um outro braço da atuação empresarial das bandas baianas de trio elétrico, são os franchises

Este tipo de negócio, iniciado pelas bandas de grande porte, a partir de 93, coloca os blocos em 

                                                 

22

 Folha de S. Paulo, 29.8.95 




 

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outras praças e envolve o prestígio da banda e, na maior parte dos casos, na utilização do nome do 



bloco. O setor de relações públicas da Mazana, produtora da Banda Chiclete com Banana, a 

primeira a se lançar neste novo negócio, explica suas intenções: “O nosso projeto é estar em cada 

capital e grande cidade brasileira”

23

. Para tanto, a indústria axé movimenta um alto capital 



financeiro. 

Com tudo isso durante os anos 90, a  posição do produto musical baiano no mercado 

fonográfico do país, independente da discussão de qualidade artística, ficou bastante confortável. À 

época pelo menos dez nomes lideravam o mercado nacional de shows, detendo uma fatia de 30% 

deste mercado, com cachês que variam entre 30 e 50 mil reais. A música baiana representou 10 a 

15% do mercado de discos. Daniela Mercury vendeu em três lançamentos cerca de dois milhões de 

discos. Netinho chegou a um milhão de cópias no seu disco gravado ao vivo, no Palace- SP, em 

1996. A Banda Eva vendeu em 97 um milhão e meio de cópias e, em 99, o É o tchan! somou em 5 

lançamentos dez milhões de discos vendidos. As bandas Chiclete com Banana, Cheiro de Amor, 

Asa de Águia, alcançam uma média de 300 mil cópias por ano. Outras bandas como Olodum, Ara 

ketu, Timbalada, ultrapassaram a faixa de cem mil cópias. As gravadoras nacionais contavam cada 

vez mais com artistas baianos em seus elencos, e as frequentes aparições em programas de 

Domingo em redes de televisão concorrentes, aumentam não somente sua audiência como também 

a vendagem de discos. 

O rentável mercado de música baiana reorganizou também o circuito de shows e modifica a 

posição dos artistas locais no showbiz baiano. As bandas afro passaram a sair de seus bairros de 

origem não somente para realizar ensaios em outros espaços da cidade, mas também para fazer 

shows frequentemente realizados em clubes que comportam até 15 mil pessoas, através de “shows-

dobradinhas”, ou seja, shows com mais de uma banda, atraindo com isso públicos maiores, 

ecléticos e mestiços. O sucesso desses shows duplos que reúnem bandas afro e bandas de trio, foi 

tão grande que incentivou a formação de shows múltiplos. Os formatos 3 em 1 ou 4 em 1 foram 

frequentes, pois eram uma eficiente estratégia para alcançar públicos maiores.  

Ao longo dos anos 90, o mercado musical de Salvador ganharia ainda outros contornos: a 

penetração da produção local no mundo da world music

24

 que provoca uma movimentação musical 

estrangeira na cidade. A partir de 1994, Salvador passa a sediar eventos de grande porte como o Fest 

in Bahia, anualmente realizado, durante 4 anos, que fez convergir para a cidade as novas estrelas 

                                                 

23

 Jaíra Zeidjen, in A Tarde, 31.5.95 



24

 No decorrer dos anos 90, o festival de Montreux incluiu em sua programação a « Noite Baiana » e vários outros festivais de 

música da Europa contam com artistas do meio musical de Salvador. 



 

55

internacionais. Em 1997, ano da última edição do evento, o Festival reuniu artistas de vários países que 



falam a língua portuguesa. A “diva dos pés descalços”, Cesária Evora, de Cabo Verde, dividiu o palco 

do Teatro Castro Alves com Gal Costa.   

Revistas americanas como a Rolling Stones e a Afro-pop enviaram jornalistas para cobrir o 

Festival, garantindo a presença do meio musical baiano em publicações estrangeiras especializadas em 

música. Além disso, a presença de produtores da Radio Nova da França, especializada em "música 

étnica" e produtores do Montreux Jazz Festival e do Festival Suíço de Cue, fortaleciam a expectativa 

de produtores locais que o Fest in Bahia servisse como vitrine para o mercado da world music

Também a partir de 94, vem se realizando anualmente em Salvador o Percpam  - Panorama 



Percussivo Mundial, o festival  organizado por Gilberto Gil e Naná Vasconcelos

25

, com ampla 



cobertura da imprensa local, nacional

26

 e internacional. Segundo Beth Cayres, produtora do evento, 



“são 200 pessoas envolvidas num trabalho de caráter cultural, que visa transformar definitivamente a 

cidade em capital mundial da percussão”

27

. A revista Veja afirmou: Os Tambores da Raça - Reunidos 



num festival de percussão, negros de todo o mundo molham suas raízes na Bahia. Salvador, do ponto 

de vista das manifestações culturais é um país dentro do país

28

 

Salvador começa a aparecer no cenário mundial, como um pólo de produção musical. Segundo 

Caetano Veloso, "Salvador fez um esforço por meio de todos nós de se ligar com o mundo 

desabusadamente. E continua fazendo isso"

29

. Cresce a presença de estrangeiros interessados em 



música afro-baiana, sejam eles turistas, músicos, pesquisadores ou produtores. Depois que o músico 

norte-americano Paul Simon gravou com o Olodum, o percussionista do Zaire Ray Lema, um dos mais 

importantes nomes da world music (ao lado de Salif Keita, Fela Kuti, Yossou N’Dour, pais da moderna 

música africana), também foi à quadra do Olodum para tocar com o mestre Neguinho do Samba. O 

produtor norte-americano Creed Taylor esteve em Salvador para gravar um programa especial para a 

TV sobre o tema. Segundo a diretora Amy Roslyn, “o trabalho é uma sequência da ascensão da música 

afro-brasileira em todo o mundo” 

30



Nos últimos anos os contatos internacionais são cada vez mais frequentes. O grupo Ara Ketu foi 

entrevistado por David Byrne para um documentário na TV americana sobre música africana, além de 

                                                 

25

 Na sua primeira edição (94), o Festival foi organizado por Arrigo Barnabé e Naná Vasconcelos. 



26

 A Folha de S. Paulo, embora conte com agência local (do grupo Folha da Manhã) envia um crítico de música especialmente para 

cobrir o evento, que dura três dias.  

27

Beth Cayres in Folha de S. PauloSalvador vira a capital da percussão, 9.3.95. 



28

 Revista VejaOs tambores da raça, 5.4.95. 

29

 Caetano Veloso in Folha de S. Paulo, Caetano de novo, 22.11.97. 



30

Amy Roslyn in Correio da Bahia, 25.11.95. 




 

56

ter viajado a Guiana Francesa como representante brasileiro no Festival de Música Negra de Caiena. O 



Olodum encontrou o cineasta Spike Lee nos EUA durante a  primeira turnê norte-americana do grupo, 

iniciada em Montreal. O Olodum participou também do Festival de Artes de Nova York. Em 97, 

Michel Jackson, grava cenas para seu videoclip, no Pelourinho.  

 

 






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