Microsoft Word Capítulo 1 lucia doc



Baixar 55.18 Kb.
Pdf preview
Página2/2
Encontro31.12.2020
Tamanho55.18 Kb.
1   2
 

1.2 A fortuna crítica  

 

 



No âmbito da literatura produzida no país sobre o contexto dos anos de 1960 e 

1970 é comum encontrar os nomes de Assis Brasil, Fernando Gabeira, Antônio Callado, 

Roberto Drumond, Renato Tapajós, Ignácio de Loyola Brandão e o próprio Benito 

Barreto, que, de certa forma, fizeram parte de um projeto de resistência contra a 

instauração do regime ditatorial-militar na década de 1960, apostando na arte como 

porta voz dos que não tiveram voz, ou dos que foram silenciados pelos desmandos de 

um poder tirânico. Entretanto, Benito Barreto, assim como a obra aqui estudada, 

continua pouco conhecido do público em geral. Os estudos críticos dos romances 

também são escassos, se considerarmos a grandiosidade e a dimensão dos temas aí 

apresentados, sua contribuição para este importante período da História nacional. 

Dentre os trabalhos existentes acerca da tetralogia, destaco os de José 

Hildebrando Dacanal, que analisou Os guaianãs em dois de seus livros: A literatura 



brasileira no século XX,  de 1984; e Nova Narrativa épica no Brasil. Grande sertão: 

veredas, O coronel e o lobisomem, Sargento Getúlio, Os guaianãs,  de 1988. Através 

deles é possível perceber o entusiasmo com que o crítico teceu suas análises, pois, no 

estudo que efetuou, registrou: 

 

A saga monumental de Os guaianãs, cuja grandiosidade épica a 



coloca, se não acima, pelo menos no mesmo nível que O tempo e o 

vento e Grande sertão: veredas e faz dela uma das obras definitivas e 

culminantes de toda a ficção brasileira, oferece um sem-número de 

ângulos e temas a partir dos quais pode ser analisada (DACANAL, 

1988, p. 102). 

 

 

Dacanal destaca como característica importante nos romances a diversidade de 



temas que servem de exemplo de vários processos históricos presentes na formação da 

identidade nacional. Para ele, o segundo volume seria o mais crítico de todos, e o define 

como: 

 

o caldeirão fervente em que se misturam o arcaico e o moderno, a 



costa e o sertão, deles nascendo um país em caminho para o futuro. 

Politicamente em crise, culturalmente caótico e socialmente injusto, 

mas já unificado, homogêneo, e pelo menos potencialmente, 

autônomo. Neste sentido, a obra monumental de Benito Barreto 




28 

O Brasil tirânico em Os guaianãs 

resume e encerra o ciclo da nova narrativa épica no Brasil e o faz, 

eticamente e politicamente, com uma mensagem de esperança num 

possível amanhã de justiça e dignidade para os pobres e humilhados 

(DACANAL, 1988, p. 107). 

 

Na esteira de Dacanal encontramos outros registros acerca desse livro, que 



merecem ser destacados:  

 

...o escritor mineiro amassou em seus dois romances, Plataforma 



vazia Capela dos homens, um chão de muita experiência vivida, um 

denso conhecimento de coisas e almas... Esse povo que se movimenta 

no livro premiado pelo Walmap é uma conquista árdua, e por vezes 

dura, é a própria realidade desse verdadeiro, desse indiscutível 

romancista, Benito Barreto. 

Jorge Amado 

 

 

A obra é, sem duvida, uma grande conquista da literatura mineira. 



Mário Palmério 

 

 



Capela dos homens movimenta cerca de 40 personagens, todos com 

igual força; com base em qualquer deles pode-se fazer um filme. 

Ziraldo 

 

 



Benito Barreto dá vida à sua gente e escreve sob a égide de uma visão, 

usando, para isso, de instrumentos diretos numa técnica narrativa de 

extremo aguçamento. Sua população e seu espaço, seus personagens e 

seus lugares estão aí, e vão além, sua mundologia é própria e, contudo, 

vem de outra; é ficção e, contudo, diz uma verdade, numa dimensão 

alegórica e ao mesmo tempo real, que brota de uma velha tradição do 

romance: a de repetir o que está aí, sendo diferente; a de recriar-nos 

fora de nós, sendo um prolongamento nosso. 

Antonio Olinto 

 

 



No caso de Benito Barreto o que interessa é que ele fez de Capela dos 

homens  um romance verdadeiro, uma captação estética perfeita, em 

que terra e gente se entrosam num dinamismo vivo, na perspectiva do 

tempo. Espaço, tempo e vida são as coordenadas do romance. Todas 

as três estão presentes neste volume, que acrescenta um pouco de 

força e expressão à nossa literatura. 

Herculano Pires 

(BARRETO, 1986, orelhas técnicas) 

 

 



Outro trabalho acerca de Os guaianãs é o de João Hernesto Weber, Caminhos do 

romance brasileiro: de A moreninha a Os guaianãs (WEBER, 1990). Em sua 

abordagem, ele destaca enfaticamente o embaralhamento feito por Barreto entre o 

enredo da obra como um todo e as vicissitudes da História do Brasil, desde o início do 



29 

O Brasil tirânico em Os guaianãs 

século XX até as décadas de 1960 e 1970. Para este crítico, a obra se torna original 

porque Benito conseguiu fazer uma interpretação dos elementos nacionais e da nação, 

relacionando-os com os acontecimentos referentes à esfera internacional. Seu estudo se 

aproxima muito do realizado por José Hildebrando, no sentido de ver a obra como uma 

representação da História brasileira. 

Também Malcolm Silverman comentou a tetralogia e, em Protesto e o novo 



romance brasileiro (2000), o crítico norte-americano caracteriza os livros como 

representantes de uma corrente regionalista histórica à contemporânea literatura 

nacional. Na oportunidade, Silverman os classifica de romances engajados; no entanto, 

ao se prender nesta classificação, vários outros elementos deixaram de ser observados.  

Vale ressaltar ainda que esses estudos e análises específicas da obra de Benito 

foram efetuados somente após 1986, coincidentemente, o ano de sua reedição. De 

acordo com Tânia Pellegrini, no livro Gavetas vazias (1996), o final da década de 1980 

foi uma época em que a crítica estava empenhada em situar as décadas anteriores, com o 

intuito de atribuir uma identidade para um período considerado carente culturalmente.  

No decorrer desta pesquisa localizamos ainda um trabalho acadêmico, a tese de 

doutorado em Literatura Comparada – Imagens e histórias do Brasil: Ser(tão) Guaianãs 

– de Maria José Angeli de Paula, em que ela faz uma leitura da obra analisando-a pelos 

discursos históricos com outras narrativas literárias contemporâneas. (Foi defendida em 

2003 na Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis.) Além da tese, 

escreveu também dois artigos. Um deles foi apresentado no VIII Congresso Luso-Afro-

Brasileiro de Ciências Sociais, em Coimbra-Portugal, e o outro, no IV Congresso 

Internacional da Associação Portuguesa de Literatura Comparada, no mesmo país. Se 

comparado com a grandiosidade do tema tratado nos romances, pode-se dizer que sua 

fortuna crítica é reduzida, principalmente no período em que apareceram as primeiras 

publicações, pois limitou-se a artigos e resenhas publicados em periódicos, suplementos 

literários e algumas participações de pessoas amigas em capas e contracapas dos livros.  

A seguir, deteremo-nos em cada um dos romances com um resumo e uma 



pequena crítica. 

 

 

 

 

 



Compartilhe com seus amigos:
1   2


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal