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O Brasil tirânico em Os guaianãs 

 

 

 



 

 

 



 

 

 

Capítulo 1 

Benito Barreto e o universo dos Guaianãs 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

“...há mais poesia e mais coisas de ouvir e de 



entender no estranho coração dos homens do que 

na mais grande estrela.” 

 

Benito Barreto/Mutirão para matar 



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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O Brasil tirânico em Os guaianãs 



 

1.1 A formação 

 

O escritor Benito Barreto nasceu em 17 de abril de 1929, em Dores de 



Guanhães, interior de Minas Gerais, numa pequena fazenda denominada Fazenda da 

Guarda, propriedade de uma avó, onde os pais do autor estavam apenas de passagem. 

De acordo com Benito, em entrevista concedida a Giovanni Ricciardi:  

 

A fazenda pertencia a minha avó, era o único patrimônio duma família 



de muitos filhos e, pois, meus pais estavam ali por pouco tempo; 

deviam logo se mudar a fim de que os outros irmãos, cada um por sua 

vez, desfrutassem o bem comum... (RICCIARDI, 2008, p. 95).  

 

 



É interessante observar, através da entrevista, como o núcleo familiar e o meio 

ambiente no início da década de 1930 marcaram sobremaneira a vida e, 

conseqüentemente, a produção literária de Barreto, no que se refere aos aspectos 

culturais e sociológicos: 

 

Guardo desse período – primeiros anos da década de 30 – mais na 



forma, talvez, de medos e aflições vividos ou da impressão de suas 

imagens, mais isso do que, propriamente, lembranças – qualquer coisa 

como a memória de homens e armas movimentando-se por minha 

casa, ou de passagem, com meu pai entre eles vozes, medos, silêncios, 

gritos e partidas e chegadas noturnas enquanto minha mãe com minha 

irmã (hoje freira, Irmã Virgínia, a atual Madre Geral da Ordem das 

Franciscanas Clarissas, sediada em Roma) rezavam. Essa fase, que 

cobre toda a década, passa, pois, pelas Revoluções de 30/32, pela 

tentativa comunista em 35, a revolta integralista ou fascista de 38, e 

vai terminar em 39, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial (...) 

Não sei precisar o que mais me marcou, nesse período, mas toda a 

minha obra literária, pelo menos tudo nela, que, no meu entender, se 

apresenta com alguma força e humanidade, reflete de algum modo o 

menino que eu fui e a infância que eu tive, naqueles anos, sobretudo o 

que esse menino viu, sonhou e sofreu (RICCIARDI, 2008, p. 96-97). 

 

 



Segundo Barreto, o intelectual da família era o pai, mas quem os fez estudar, a 

ele e à irmã mais velha, foi a mãe, que, convencida da importância dos estudos para o 

futuro dos filhos, e apesar das dificuldades, os enviou para o Colégio das Freiras 

(Clarissas) e o Ginásio dos Frades em Conceição do Mato Dentro, em Minas Gerais. 

Pode-se dizer que o início da produção literária de Barreto se deu na adolescência, como 

nos conta o autor ao ser perguntado sobre quando nasceu a vocação de escritor: 




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O Brasil tirânico em Os guaianãs 

 

Quando colegial em Conceição do Mato Dentro, no interior de Minas, 



eu tinha sido um poeta de verso fácil, que costumava agradar a meus 

colegas e a gente da cidade. E como os produzia, a esses poemas, de 

forma quase torrencial, quando cheguei na Capital, Belo Horizonte, 

pelos 16 anos, já os tinha em quantidade bastante para um livro. E 

essa idéia começou a trabalhar em mim e a crescer: lançar um livro, 

ser poeta, as pessoas lerem e declamarem os meus versos, essas 

coisas... Entretanto, e de repente, o jovem e impetuoso versejador que 

vinha da cidadezinha do interior, tomava conhecimento, pela primeira 

vez, da poesia maior, dos modernistas Bandeira, Drummond, Shimidt 

e outros. Foi um golpe devastador nas minhas veleidades e pretensões, 

tão forte e profundo que, não satisfeito com atirar no Rio Arrudas 

todos os meus versos, abandonei a poesia para todo o sempre. (...) Um 

dia, porém, tendo chegado aos 30 anos e já depois de ter vivido a 

paixão que fora para mim a minha militância revolucionária, na 

ressaca do golpe e amargura que foram, para mim, a denúncia do 

stalinismo e certas revelações, tive vontade de pôr no papel alguma 

coisa que eu próprio tinha vivido. Mas só para mim. Como se, não o 

fazendo, corresse o risco de as esquecer e perder. Foi assim 

(RICCIARDI, 2008, p. 99-100). 

 

 



Apesar da pouca idade, o autor, ao conhecer os escritores canônicos da literatura 

brasileira, faz uma autocrítica rígida sobre seus escritos precoces, e revela a dimensão 

do seu envolvimento com o Partido Comunista. Ainda muito jovem, na adolescência, 

abandonou tudo para se entregar ao Partido. Como militante profissional foi para o 

Nordeste do país, vivia a hipótese da Revolução, acreditando que o socialismo era o 

único caminho. Após a denúncia do stalinismo e uma viagem a Moscou – antiga União 

Soviética –, percebeu a falência do socialismo, desencantou-se, o que o impulsionou a 

registrar a experiência transferindo para seus livros a tumultuada conjuntura política dos 

anos de 1960, bem como as relações problemáticas e os questionamentos da dinâmica 

sociopolítica daquele momento. 

Atualmente, Benito Barreto reside em Belo Horizonte, onde, além de escritor, é 

jornalista e responsável por revistas de informações do mercado da construção civil, 

para engenheiros e empresas construtoras.

1

 



Plataforma vazia, publicado pela Editora Itatiaia, em 1962, é o romance inicial 

da tetralogia. Com esta obra, Benito participou do Concurso de Literatura Cidade Belo 

Horizonte, conquistando o primeiro lugar. Nesta ocasião, o amigo e já conhecido 

escritor Jorge Amado deu o seguinte depoimento:  

                                                            

1

 Remeto o leitor para a entrevista de Benito Barreto concedida a Giovanni Ricciardi em Biografia e 



criação literária. Entrevista com escritores mineiros. UFOP, 2008. v. 3. 


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O Brasil tirânico em Os guaianãs 

 

Um livro de estréia deve ser a revelação de um talento de escritor



nada mais é justo esperar de uma primeira tentativa no terreno da arte 

da literatura. Plataforma vazia, de Benito Barreto, cumpre 

perfeitamente esta função: revela aos leitores brasileiros o romancista 

de talento e de autêntica vocação que é o moço mineiro com larga 

experiência de vida nordestina. (...) Poderosa é a capacidade de 

comunicação de sentimentos revelada pelo autor, o que faz de 



Plataforma vazia um desses livros cuja leitura nos arrasta e nos obriga 

a participar, com interesse e emoção, das vidas ali levantadas por um 

homem de real talento e de coração generoso. A carreira desse 

romancista se inicia sob o signo do sucesso (BARRETO, 1986, orelha 

técnica).  

 

 



A exemplo de outros escritores, como Érico Veríssimo e Jorge Amado, Benito 

também se mostrou insatisfeito com o desfecho de seu romance e resolveu dar 

continuidade à obra e à trajetória daquelas personagens, desenvolvendo o fio de suas 

vidas, ou seja, as vicissitudes às quais estavam sujeitas em determinada época, 

escrevendo assim os outros três volumes. 

Em 1968, Benito Barreto publicava o segundo livro, denominado Capela dos 



homens, com o qual angariou mais um prêmio, Walmap-Rio. Este romance, juntamente 

com Cafaia, de 1975, foi traduzido para o russo e publicado na antiga União Soviética, 

em 1980. Para Antonio Olinto, seu prefaciador, 

 

(...) esta é uma obra social no mais amplo sentido da classificação. Seu 



mundo de interior é o que existe, o que está aí, e seu estar-aí não se 

acha preso a esquemas literários ou não. Ao lado de sua mundologia e 

dentro dela, o autor ergue uma série de análise de que seus 

personagens saem nítidos, contudo misteriosos, antes de tudo vivos 

(BARRETO, 1986, p. 7). 

 

 



Em 1974, lançou Mutirão para matar, o terceiro volume. Em 1975, publicou 

Cafaia, último romance da tetralogia, completando a saga dos seus “Guaianãs, um povo 

de mineiros e nordestinos em cuja vida ressoa, no entanto, toda a problemática 

existencial do homem brasileiro e do homem de qualquer parte deste nosso conturbado 

fim de século” (BARRETO, 1975, orelha técnica).  

Assim como aconteceu em Plataforma vazia, neste último, o escritor Jorge 

Amado também deu seu parecer, com o seguinte comentário: 

 



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O Brasil tirânico em Os guaianãs 

 

 

A importância da obra romanesca de Benito Barreto cresce de livro 



para livro. Quando ele chega ao quarto romance da saga iniciada com 

Plataforma vazia já nos encontramos diante de um painel de poderosa 

força, onde a realidade da vida nacional se afirma dramática e cujo 

herói é o povo.  

A presença de Benito Barreto no romance brasileiro contemporâneo é 

altamente estimulante. Longe de todo e qualquer maneirismo, ele 

domina seu ofício, é um jovem mestre da nossa ficção (BARRETO, 

1975, contracapa). 

 

 



Em 1978, publicou pela Editora Casa de Minas Ltda. Vagagem: viagens e 

memórias sem importância. Como uma biografia, lemos nesse livro a trajetória de vida 

do autor, desde a infância até a viagem feita à Europa, principalmente a visita a Moscou, 

onde pôde conhecer de perto a decadência do socialismo, o que o levou à desilusão com 

o Partido Comunista. 

 

(...) um registro de viagens e memórias, que recolhe às vezes sob color 



de ficção, andanças e impressões da vida do autor, ocasionalmente o 

vago vulto de pessoas e das coisas que o marcaram. (...) Dir-se-ia que 

aqui o romancista é personagem de si mesmo: o que conta, através de 

uma sucessão de histórias é, com efeito, a aventura de sua própria 

vida, uma caminhada que começa a bordo de um balaio, na mais 

remota infância em sua Dores de Guanhães, e que o leva até Moscou e 

Leningrado, onde acaba por descobrir que perdeu (ou esqueceu, 

talvez) o endereço de seus próprios deuses (BARRETO, 1978, p. 9). 

 

 

Em 1993, o escritor publicou, pela mesma editora, A última barricada, numa 



edição artesanal, em cujas páginas convivem a coluna de jornal, a crônica, o conto e o 

romance. O livro reúne colaborações do autor no jornal Estado de Minas, no período de 

03/12/89 a 07/08/91. Em 2000, vem a público Um caso de fidelidade, um texto 

recheado de figuras e contradições em que o pastiche como elemento constitutivo das 

narrativas pós-modernas, aliado ao desencanto existencial da narradora, substituem a 

grande narrativa épica dos livros anteriores.  

Em abril de 2009, Benito Barreto lançou pela Editora Casa de Minas seu mais 

recente trabalho, Os idos de maio, que inicia, segundo o autor, uma trilogia de romances 

históricos denominados Saga do caminho novo, que pretende reconstruir a história da 

Conjuração Mineira, com todo o seu povo a tomar vida, a se fazer gente, mais que 

personalidades de empoeirados livros de História. 



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