Microsoft Word Artigo Patricia Penkal de Castro. 22. 02


A Bela Adormecida: da agressão sexual a mediocridade



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A Bela Adormecida: da agressão sexual a mediocridade 

 

Ao  analisar  as  versões  do  conto  A  Bela  Adormecida,  percebe-se  que  a 



personagem da princesa passa por inúmeras transformações afim de acompanhar as 

mudanças  sociais,  principalmente  com  relação  a  posição  das  mulheres  e  dos 

estereótipos. 

 

Assim mudam-se os costumes, mudam-se as identidades dos homens e suas relações 



sexuais.  E  o  recurso  à  metamorfose  nos  contos  maravilhosos  contemporâneos  são 

exemplos  das  transformações  vivenciadas  por  nossa  sociedade  atual.  Isso  não  quer 

dizer que nos contos de fadas tradicionais não havia metamorfose, pelo contrário, ela 

era recorrente nessas histórias, porém não no sentido de proporcionar uma mudança 

de sentido ou de perspectiva, como fazem as histórias contemporâneas. (THEODORO, 

2012, p. 31) 

 

Para iniciar a análise observaremos como cada história tem início. Em todas as 



versões  analisadas,  o  rei,  pai  da  menina,  aparece  como  responsável  pela  menina  e 

seu  futuro.  Este  fato  pode  ser  observado,  pois  é  ele  quem  está  encarregado  de 

convidar os sábios e as fadas para o batizado. A figura da mãe não é evidenciada na 

história  de  Basile  (1634),  é  citada  nas  demais  versões,  mas  não  chega  a  ganhar 

destaque  em  nenhuma  delas.  Outro  fato  interessante  é  que  nas  versões  de  Basile 

(1634) o nome da menina só é mencionado no meio da história, na de Perrault (1687), 

a  menina  não  tem  nome,  e  nas  demais  versões  é  que  seu  nome  passa  a  ter  uma 

importância.   

Ao comparar o início das diferentes versões do conto, evidencia-se a relação 

existente  entre  a  realidade  e  o  conto,  uma  vez  que  seus  discursos  refletem  os 

comportamentos  adotados  socialmente.  O  fatodo  rei  ser  o  responsável  e  o  fato  das 

crianças não terem inicialmente nome demonstram um discurso de poder do homem e 

o  silenciamentoquanto  a  importância  do  papel  da  mulher  na  sociedade.  Ruth  B. 

Bottigheimer  (1987,  p.  51  apud  MARTINS,  2005,  p.  17)  afirma que  “o  discurso  pode 

ser  visto  como  uma  forma  de  dominação,  em  que  o  uso  da  fala  é  umindicador  de 

valores sociais e da distribuição do poder dentro da sociedade”, evidenciando o poder 

masculino no silenciamento das mulheres.  

 

 



A  visão  da  inferioridade  e  da  subordinação  das  mulheres  mostra  que  existe  uma 

ideologia sexista e de despersonalização destas na religião e na sociedade. A ideologia 

que veicula a inferioridade e subordinação das mulheres é reproduzida por meio de um 

discurso androcêntrico, dentro do sistema patriarcal. (TOMITA, 2002, p. 60) 

 

Outro aspecto a ser observado, são os atributos dados a princesa. Na primeira 



versão  não  há  referencias  a  beleza  de  Talia.  Nas  versões  de  Perrault  (1687),  dos 


Grimm  (1812)  e  Disney  (1959),  as  fadas  atribuem  dons  e  beleza  a  princesa 

evidenciando  os  padrões  de  estereótipos.  Padrões  esses  reforçados  nas 

características  atribuídas  às  fadas,  sendo  as  boas  belas  e  são  convidadas  para  o 

batizado  enquanto  que  as  más  são  velhas  e  feias  ou  são  esquecidas  ou  não  são 

convidadas para o batismo. 

A mulher enquanto objeto, fica nitidamente representada na versão de  Basile 

(1634),  quando  Taliaé  estupra.  RosemanyRuether  (1993)  explica  que  o  estupro  não 

resulta de um desejosexual incontrolável, o que na verdade ele revela é o desprezo e 

hostilidade  contra  asmulheres.  A  autora  evidência  que  o  estupro  nunca  acontece 

isoladamente,normalmente,  é  seguido  de  violência  e  mutilação  transformando  a 

mulher em objeto, sendo tratada como mercadoria. 

Na  versão  do  filme  Malévola  (2014),  a  princesa  Aurora  é  estuprada,  mas 

assume  a  condição  de  mulher  objeto  quando  é  oferecida  pelo  pai  como  prêmio  a 

aquele que conseguir derrotar e matar Malévola. 

Nas  versões  de  Perrault  (1687),  Irmãos  Grimm  (1812)  e  Disney  (1959)  a 

princesa apresenta-se como a boa moça a espera do príncipe encantado, uma forma 

de “recompensa” por sua beleza, bondade e submissão. 

A questão da opressão em relação à princesa aparece em todas as versões, o 

que  muda  é  a  roupagem  que  cada  um  dos  opressores  assume,  estabelecendo  as 

relações de poder e evidenciando o mal. Na versão Sol, Lua e Talia (1634), a esposa 

do rei assume esse papel, ao se mostrar enciumada pela traição do marido, tentando 

matar os filhos e a própria Talia sem demonstrar a menor compaixão em seus atos. Na 

versão de Perrault (1687), é a mãe do príncipe que assume a responsabilidade pela 

maldade por ciúmes do filho tenta matar a nora e os netos. Ambas as protagonistas 

das maldades tem um fim trágico, a morte. 

Nas versões dos Grimm (1812) e Disney (1959) não há referências ao destino 

das  fadas  más.  O  que  é  evidenciado,  assim  como  nas  demais  histórias  é  que  a 

princesa é salva pelo príncipe e que viveram felizes para sempre. 

O filme Malévola (2014) é a versão que mais se difere dos demais. Ele aborda 

a questão de que o mal em algumas situações pode ser justificado pelas interferências 

dos  fatos.  Outro  aspecto  ressaltado  nessa  versão  que,  o  bem  e  o  mal  assumem 

significados  diferentes  de  acordo  com  o  ângulo  que  são  vistos.  O  mesmo  acontece 

com  o  belo  e  o  feio.O  que  o  enredo  mostra  é  que,  Malévola  só  lança  sua  maldição 

sobre a menina, pois foi traída pelo seu pai, o grande amor de sua vida. E essa foi a 

forma encontrada por ela para fazer com que ele sofresse da mesma forma como ele 

havia feito com ela. O que ela não contava é que viria a amar a princesa. 




Os  aspectos  relacionados  a  feiura  e  a  maldade  também  ganham  outra 

conotação, aqui a maldade não é representado pelo feio, muito pelo contrário Malévola 

é  dotada  de  uma  beleza  arrasadora.  O  mal  também  não  é  tão  mal  assim,  e  os 

sentimentos  de  uma pessoa  pode  mudar,  a  ponto  de  Malévola  se  arrepender  de  ter 

lançado  a  maldição  na  menina  tentando  reverter  a  situação.  Outro  aspecto  que 

demonstra  o  arrependimento  é  que  após  a  concretização  da  profecia,  Malévola  se 

desespera e manda buscar o príncipe para tentar reverter o mal que tinha cometido. 

Apesar  do  príncipe  beijar  a  princesa,  ela  não  desperta  o  que  revela  que,  nos  dias 

atuais, o amor entre um homem e uma mulher não são suficientes para quebrar uma 

maldição.  O que faz  a princesa  despertar  e  o beijo  de  Malévola,  que  demonstra  um 

amor maternal e incondicional por Aurora. 

No final do filme, outra representação das mudanças sociais é a demonstração 

da força feminina quando Malévola, apesar de ferida consegue derrotar o rei matando-

o e livrando-se da dominação. 

Com  todas  as  modificações  observadas  percebe-se  que  os  contos  não  são 

criados  aleatoriamente,  eles  estão  inseridos  em  um  contexto  histórico,  que  muda 

constantemente, rearticulando a realidade e transformando a linguagem, com isso, a 

literatura  demonstra  que  as  próprias  mentalidades  mudam  não  só  com  relação  ao 

comportamento moral, mas também, com relação às questões éticas, a ausência de 

hierarquização e nos perfis tanto masculinos como femininos. 

 




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