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Mistérios do Oriente com Shahrazád



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Mistérios do Oriente com Shahrazád 

 

 

A cultura árabe atualmente tem sido mal compreendida pelo Ocidente que passa 

uma visão distorcida do que foi a grandiosa civilização árabe. Portanto, lançar pontes entre 

este campo cultural proporcionando visões que parecem ser paradoxais é o objetivo deste 

trabalho, que reconstrói a imagem difusa que o Ocidente criou do Oriente por meio da 

literatura. A famosa obra “As Mil e uma Noites” que influenciou grandes autores no 

Ocidente.  

Ao longo dos catorze séculos, os árabes expandiram um ideal de vida estabelecido 

por uma forte relação do homem com a religião e assim avançou para o entendimento da 

ligação entre o mundo físico com o mundo espiritual. Foi baseado no Alcorão que os árabes 

compuseram o quadro histórico da cultura islâmica, e mesmo que a história deste povo 



tenha começado antes do Islamismo, foi a partir da identidade criada por esta unidade 

religiosa que os árabes conquistaram o mundo. 

A partir da expansão árabe o Ocidente, convém lembrar, especialmente a Europa, 

via o Islam com olhar de perigo, de temor, como até hoje é visto. Empreender um diálogo 

entre Ocidente e Oriente, evocando as mais belas histórias que despertam o sentido 

existencial do homem, propondo olhar o outro, o diferente, a outra face de uma sociedade 

que tem como princípio, a paz e a justiça, e sempre buscou incentivar o conhecimento para 

compreensão do homem e na sociedade que está inserida.  

Permitir uma viagem ao mundo árabe, para compreender como questões religiosas 

que neste vasto cenário, depende da fé que determinou o modo de vida deste povo, foi a 

pretensão do trabalho. A palavra de Deus é levada aos árabes por meio do Alcorão e do 

Hadith que são os ditos e feitos do Profeta Mohammad, que guiaram os novos valores 

árabes. È possível penetrar na cultura árabe e entender como a fé silenciou os poetas pré-

islâmicos que transformaram a palavra em imagem. A literatura árabe fez parte de uma 

civilização que multiplicou seus livros em bibliotecas, pois a paixão pela palavra produziu 

ilustres pensadores que criaram belíssimas obras literárias no mundo árabe. 

As narrativas das “Mil e uma noites” prendem a atenção do leitor que nas diferentes 

situações e olhares se encontram nas histórias que as tornam permanentes. As três histórias 

selecionadas para analisar a representação do feminino dentro de uma cultura patriarcal, 

demonstra as diferentes mulheres existentes na sociedade árabe. O sultão Shahriár, 

personagem opressor e detentor do poder, costumava matar as mulheres do seu reino depois 

de desposá-las. A figura central Shahrazád representa a figura da mulher redentora. A 

imagem da mulher é retratada em alguns momentos como perversa, maligna e responsável 

pela desordem da sociedade, mas em outros momentos é vista como virtuosa, assegurando 

o bem estar do homem e do meio em que vive.      

 

Um povo que constituía pequenas tribos nômades na península arábica, 



impulsionado por uma religião, criou uma cultura distinta que por meio da língua árabe 

organizou o império islâmico. Assim, abrir portas para compreender o caráter do homem 

árabe, nas suas relações sociais para que assim seja possível desvendar o espírito árabe. 

Dessa forma, a literatura proporciona condições para penetrar na alma de um povo, 

promovendo a reflexão do uso da imaginação, da produção e criação de uma complexa 



expressão cultural. “As mil e uma noites” sugerem uma viagem aos mistérios do oriente, 

mostrando o homem e seu mistério na noite, que nas infinitas histórias não só transferem 

seus questionamentos para o espaço da ficção, mas entrelaçam as diferentes representações 

da mulher e do homem no espaço social, histórico e cultural. 

 

No tempo em que emergiam grandes religiões, o homem deixou de confiar 



apenas na sua memória, e assim desenvolveu a arte de registrar seus feitos e pensamento 

permitindo a compreensão da sua história. Portanto, a história é um processo que possibilita 

a compreensão humana nas diferentes e múltiplas possibilidades existentes na sociedade, 

que por meio das fontes e dos fatos pode-se desfazer o emaranhado de contradições. 

 Traçar um panorama sobre a cultura árabe resgatando alguns fatos históricos da 

civilização islâmica, pode produzir novos olhares, novos conhecimentos sobre o que se 

pensa conhecer, facilitando a compreensão e explicação das causas e implicações no mundo 

árabe. E uma vez que presente e passado estão indissociavelmente ligados na História, e 

essa muitas vezes afasta-se de sua principal finalidade, que é levar a reflexão sobre as 

formas de vida e de organização social em todos os tempos e espaços, torna-se necessário 

revistar a cultura árabe que deixou marca cultural na Europa e no mundo.   

  No século VII, a península arábica era habitada por tribos que disputavam o poder, 

eram idólatras e extremamente supersticiosos. Um homem chamado Mohamad era, junto 

do seu povo, um homem possuidor de qualidades distintas, como prudência, generosidade, 

justiça, gratidão, verdadeiro e honesto. Com esta conduta moral e num ambiente que 

necessitava de valores, foi que após receber a primeira mensagem de Deus na gruta onde 

meditava, traçou uma organização social e unificou a Arábia, algo até então inconcebível. 



Quando atingiu os seus 40 anos, recebeu a sua missão, Deus escolheu-o para orientar, guiar 

e tirar o povo da ignorância e escuridão. 

Foi assim que um dia o Profeta Mohamad meditando na caverna, viu o Anjo Gabriel 

que lhe disse “Lê”, e Mohamad respondeu “Eu não sei ler”. Então Mohamad sentiu como 

se o anjo estivesse estrangulando-o e depois o libertou. Então, ouviu outra vez a ordem “lê” 

Mohamad, disse ao anjo novamente “eu não sei ler”. Então, Mohamad foi outra vez 

apertado e liberto e o Anjo repetiu a ordem pela terceira vez, “lê” e assim Mohamad 

perguntou: “o que devo ler” e o Anjo disse: 

 “Lê em nome do Seu Senhor, que criou. 

  Criou 


homem 


de 

um 


coágulo. 

 

 



Lê. E seu Senhor é o mais generoso. 

 

 



Que ensinou com o cálamo. 

 

 



Ensinou o homem aquilo que não sabia.” 

 

Surata, 96, versículos 1,2,3,4. 



 

 

 



Desde então, ao longo dos quatorze séculos, os muçulmanos constituíram uma 

grande nação que contribuiu com sua participação, evidentemente gloriosa, nos 

acontecimentos transformadores do homem dentro da história. Foi neste período de 

domínio e glória que o homem do deserto começou a olhar mais alto e além dos prazeres 

humanos, olhando fixamente para além dos céus. Este mistério é expresso pelas letras do 

alfabeto árabe que iniciam a segunda surata do Alcorão Sagrado, assinalando os segredos 

formados por letras idênticas àquelas com que os árabes formam seus vocábulos, e assim 

desafiando continuamente o intelecto humano.  

 

Foi o Alcorão Sagrado que mais profundamente guiou e deu forma à vida dos 



árabes, que estimulados pela nova fé, governaram grandes áreas do mundo. Nos tempos 


antigos grandes impérios, bizantino, romano e otomano, como Bagdá, Cairo, governaram 

vastos territórios, e os Árabes também fizeram parte da história espalhando-se da China até 

a Península Ibérica. 

 

Segundo Jarouche, pesquisador renomado da cultura árabe, há muitos 



questionamentos sobre a questão árabe. Entre elas, é, se os árabes constituíram de fato uma 

etnia, ou seria, mero subproduto da religião muçulmana, ou o termo remeteria, antes de 

mais nada, a um conceito cultural razoavelmente expandido? Ou seja, a cultura árabe seria 

uma aglutinação dos outros povos que constantemente passavam pelo importante porto da 

arabia? O fato é que toda a sua história se inicia no vasto apêndice de terra conhecida como 

Península Arábica. 

A Península Arábica situa-se ao meio da Ásia e da África, e não se encontra muito 

longe da Europa, ocupando uma posição única entre os três continentes, por este motivo, 

tornou-se ponto estratégico na rota comercial entre Império Romano e a Índia, viabilizando 

amálgamas e transferências entre várias culturas. Sua população era constituída, na maioria, 

por nômades que não se fixavam em determinado lugar, deslocando-se permanentemente 

em busca de pastagens. As tribos eram constituídas por beduínos que criavam suas leis em 

defesa da sua liberdade, honra e dignidade, pois não possuíam um governo centralizado 

antes do Islam. 

O período pré-islâmico é chamado pelos árabes de jahiliyya

1

 que significa “era da 

ignorância”, Jarouche explica que esta expressão era usada pelos árabes para marcar o 

período histórico antes do Islam, levando à idéia de que antes o homem se encontrava nas 

                                                 

1

 Jahiliyya é a expressão usada para se referir ao período idólatra da história dos árabes anterior ao Islam. 



Significa em árabe a era da ignorância. 


trevas, e o termo “jahiliyya” era para depreciar a sociedade que não era Islâmica. Portanto, 

o objetivo era marcar uma imagem negativa dos árabes não muçulmanos mostrando que 

estavam na obscuridade adorando pedras, árvores, ídolos, estrelas e espíritos, tudo exceto 

Deus. Este momento foi descrito pelos árabes como “época da ignorância” e foi registrada 

sob a ótica da religião. O Islam opôs-se ao antigo costume e convenceu o povo árabe que 

todas as noções de moral, de cultura e de civilização até então praticados eram primitivas, e 

apesar do povo possuir uma língua altamente desenvolvida e capaz de expressar as mais 

delicadas imagens do pensamento humano de um modo notável, seu conhecimento ainda 

permanecia limitado.   

 

A cultura e a literatura árabe floresceram esplendidamente durante a Idade 



Média conferindo unidade em meio à diversidade. Os muçulmanos preservaram a cultura 

grega para o Ocidente, que mais tarde tornou-se essencial para o Renascimento, e mesmo 

assim permaneceram fiéis aos rígidos ensinamentos do Alcorão. A primeira tradução de 

Aristóteles foi paga em diamantes, e todos que possuíam riquezas incentivavam as artes, 

portanto em nenhuma parte do mundo se manifestou tamanha paixão por livros.

 

Portanto, é importante conhecer a trajetória e as características do povo muçulmano para 



distorcer a imagem construída pelo ocidente. Eduard Said, escritor contemporâneo palestino, 

ressalta que Orientalismo é o conhecimento intelectual conhecido pelo ocidental a fim de legitimar 

sua supremacia, sendo que todos que ensinam, escrevem ou investigam sobre o Oriente, em todos 

os aspectos é Orientalismo. Segundo Said (1990 p. 52), a visão do Oriente tem sido uma construção 

intelectual, literária e política do Ocidente como meio deste último ganhar autoridade e poder sobre 

o primeiro. Através da desconstrução de discursos, pensamentos e imagens produzidas ao longo dos 

últimos séculos, com incidência especial sobre a literatura européia do século XIX, Said tenta 

provar que o Ocidente construiu a sua própria identidade por oposição à do Oriente. Ao longo desse 




processo de identificação foi consolidada a idéia que a diferença entre o Ocidente e o Oriente é a 

racionalidade, o desenvolvimento e a superioridade do primeiro, e ao segundo são atribuídas 

características como aberrante, subdesenvolvido e inferior. 

A rica multiplicidade da cultura árabe vem confirmar o seu progresso cultural que foi e 

continua sendo representada pelas incomparáveis bibliotecas que surpreendeu a Europa. Assim, a 

história da literatura é o reflexo da alma de cada povo, porque nela está refletida toda a sua criação, 

seus anseios, seus problemas, sua arte, na forma mais completa das artes que é a palavra. Segundo 

LIMA (1964), “Através da literatura se exprime de forma insubstituível os estados da alma e os 

propósitos pessoais”.  

 

Portanto, a leitura das diferentes histórias contadas por Shahrazád nas “Mil e uma 



noites” contribuem para compreensão do pensamento do homem do deserto, que ao contar 

ou ler uma história, tem sobre as pessoas o poder de exercer a sua própria essência 

significativa. A narradora Shahrazád abre portas para mostrar o poder da imaginação nas 

recorrentes histórias que transmitem um desejo promissor da liberdade da mulher, bem 

como na construção das desigualdades dos gêneros. Histórias que descrevem os papéis 

diferentes entre homens e mulheres revelando suas vontades, fantasias e desejos nas 

diversas esferas da cultura árabe.   

 

A. S. Byatt diz em um artigo que a narração é tão parte da natureza humana como a 



respiração e a circulação do sangue, e que a ficção moderna tentou inutilmente acabar coma 

história, substituindo-a por flashbacks, epifanias e fluxos de consciência. Segundo Pascal 

“Contar histórias é algo intrínseco ao tempo biológico, do qual não podemos fugir. A vida é 

como estar numa prisão da qual, todos os dias, companheiros de cela são levados a 

execução. A sentença de morte de Shahrazád é a mesma que ocorre em nossas vidas como 

narrativas, isto é, lutamos no inicio, meio e fim pela sobrevivência. 




 

A arte de contar histórias é uma característica de todo ser humano, porque responde 

à necessidade mais profunda de tornar possível “experimentar o que o outro experimenta” 

(RIZOLLI, 2005, p.6)  e dessa forma trocar experiências. O fato do homem antigo possuir 

pouco conhecimento científico dos fenômenos da vida natural e humana, fez com que o 

pensamento mágico dominasse a literatura. Assim, o fantástico e o maravilhoso sempre 

foram e continuam sendo um elemento importante para despertar envolver o leitor nas 

tramas desenvolvidas pelos personagens. 

Quando as palavras ainda não existiam, as histórias eram contadas por meio de 

olhares, da mímica, dos gestos, dos sons e dessa maneira contava-se os sentimentos do 

medo, as surpresas, o desejo, o desconforto, a coragem, as conquistas. Portanto, não só as 

palavras, mas os gestos e olhares são instrumentos de conexões, entre quem conta e quem 

ouve a história. Provocar situações em que prevalece à vontade de uma comunicação 

autentica suscitando sentimentos em comum, e saber que a sua vivência é parecida com a 

vivência do outro, fundiu-se em todas as partes onde o homem se agregava em sociedade. 

Sabe-se que na antiguidade contadores de histórias reuniam a tribo ao redor do fogo (e isso 

ainda acontece em alguns lugares do mundo), usando mitos, lendas e fábulas para explicar 

os mistérios da vida. Assim, uma das grandes funções das histórias é mostrar que não 

estamos sozinhos em nossas rivalidades, conflitos e aspirações. No passado as lembranças 

transmitidas oralmente encontravam necessidade de explicar os fatos que aconteciam ao 

seu redor, e assim esclarecer os problemas da vida, os relacionamentos humanos, o enigma 

da morte, conduzindo o ouvinte ou leitor a uma viagem pelos principais ritos de passagem 

da vida humana, então nasciam as formas de contar histórias. 


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