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A sede social do América Futebol Clube



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A sede social do América Futebol Clube 

 

O América Futebol Clube sempre foi considerado o clube da classe média alta de Natal e como tal 



acalentou o desejo de uma sede social que fizesse jus às exigências dos seus sócios féis ao 

vermelho e branco da camisa do time. Segundo o jornalista esportivo Everaldo Lopes,  



O bairro do Tirol teve duas fases: antes e depois da majestosa sede do América na 

Avenida Rodrigues Alves. Até o final dos anos 50, havia a pequena sede social 

localizada no mesmo terreno, porém com a frente para a Rua Maxaranguape (...). As 

festas na “Babilônia” praticamente fechavam as ruas próximas ao clube e, no 

Carnaval, virava um pandemônio. As grandes noitadas de Momo reuniam cinco mil 

pessoas, que ninguém sabe como cabiam ali dentro. A partir daí, o bairro virou zona 

nobre da cidade, o preço [dos imóveis] foi para as alturas. Diziam até, que ser 

presidente do América seu prestígio só ficava abaixo do governador e do prefeito.  

 

Fig. 9: Vista aérea da sede social do América 

Fonte: Glênio Leilson, 2000                     

                                    

     

 

O terreno da nova sede foi adquirido em 1929 junto ao Estado, pelo presidente do clube, com 



recursos próprios. O terreno, que foi então doado ao América, abrange todo o quarteirão onde 

hoje está plantado o seu maior patrimônio, o imponente edifício-sede do clube. A Sede Social do 

América teve sua inauguração no dia 14 de julho de 1966. O projeto de arquitetura data do ano de 

1959 e é de autoria do arquiteto Delfim Amorim, professor do curso de arquitetura da Escola de 

Belas Artes de Recife.  

De acordo com Gondim et al (1991), Delfim Fernandes Amorim nasceu a 2 de abril de 1917, na 

Freguesia de Amorim – Concelho da Póvoa de Varzim, distrito do Porto, Portugal. Em 1947 

terminou o curso de arquitetura na escola de Belas Artes da cidade do Porto. Teve importante 

atuação na produção arquitetônica de Portugal e foi professor assistente na cadeira de Grandes 

Composições na mesma escola que se formou, durante os anos de 1950 e 1951. Chegou ao 

Brasil no final do ano de 1951, fixando-se no Recife, onde residiam familiares e amigos. Foi 



 

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responsável, junto com os novos arquitetos atuantes nessa época, pela renovação da 



arquitetura no nordeste. Viveu no Recife até o seu falecimento em abril de 1972. 

A sede social do clube América (Fig. 10) foi projetada segundo os princípios da arquitetura 

moderna, vigentes nos anos de 1960, com alguma influência da arquitetura recifense.  

 

Fig. 10: Fachada com panos de vidro 



Fonte: Arquivo do Autor, 2007 

 

 



No final dos anos 1950, um jovem artista potiguar dava provas de seu talento também como 

muralista: Newton Navarro. Ainda estamos investigando na nossa pesquisa como se deu o convite 

para o pintor criar o mural na imensa parede de fundo do salão de festas. Neste período a 

parceria com o outro jovem pintor, Dorian Gray Caldas, já era conhecida pela confecção dos 

murais do atual IFRN (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – campus Natal 

Central). 

Newton Navarro Bilro, pintor, desenhista, dramaturgo e poeta, um dos grandes artistas do Rio 

Grande do Norte, nasceu no dia 08 de outubro de 1928, na cidade do Natal (onde faleceu em 

1992). A inclinação artística de Newton Navarro desde cedo já despertara. Herdou do seu pai 

essa aspiração para a arte já que ele trabalhava muito bem a madeira, o ferro e a alvenaria. Sua 

mãe também tinha muita sensibilidade para as artes. Duarte (2008) conta que “Navarro foi para o 

Recife estudar Direito, desistiu e transferiu-se para a Escola de Belas Artes, iniciando com 

sucesso sua carreira de pintor e artista plástico. Aluno de Cícero Dias e seu fraternal amigo

conviveu com artistas famosos da época, na cidade pernambucana.” 

Foi no cenário do farol de Mãe Luiza, do porto, praias e barcos, que o grande artista potiguar viveu 

e desenvolveu sua arte. Entre pescadores, mulheres, gatos, rendeiras, igrejinhas, o mar e o sol 

forte de Natal que Navarro cresceu. Foi observando as coisas do nordeste, as pessoas em seu 

lazer, no seu trabalho, as danças tradicionais, a mitologia, os jogos de futebol entre ABC e 

América, os grandes rivais do futebol local. Ao retratar Natal e seus habitantes, ele buscava 

identificar os largos e ruas da boemia, becos simples, casario humilde, igrejas e prédios onde 



 

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acontece a história da cidade, as bananeiras dos quintais, casas simples das favelas e as pipas 



coloridas. 

Dele são alguns dos murais mais conhecidos em edifícios públicos da cidade de Natal: IFRN 

(Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – campus Natal Central), já citado, Prédio do 

IPASE (ambos em parceria com Dorian Gray), SESC (Serviço Social do Comércio, no centro da 

cidade), e o mural da extinta Galeria do Povo.  

No pavimento térreo da edificação localiza-se o grande salão de festas que se comunica com o 

exterior através de grandes esquadrias em madeira e vidro sugerindo a interpretação de um dos 

princípios do ideário moderno – a fenêtre “en bandeau” (janela-cortina). Uma grande escada de 

caráter escultural (Fig.12), em mármore e guarda-corpo em madeira marrom avermelhado liga o 

térreo ao pavimento superior. Em toda a edificação o contraste entre a madeira avermelhada e o 

branco do mármore proporciona sofisticada interação entre os materiais. O mármore aparece nos 

pisos e no revestimento dos pilares internos e na imponente fachada do prédio onde foi usado um 

recurso estrutural, que apóia o piso através de consoles de concreto, liberando- a do solo, criando 

imensa área sombreada, que transmite e proporciona leveza à edificação. 

 

Fig. 11: Escada helicoidal, revestida em mármore     



    Fonte: Glênio Leilson, 2000     

                                                                                  

O mural de Newton Navarro (Fig. 12) destaca-se pela monumentalidade no salão de festas do 

clube. A transparência da fachada envidraçada transporta a pintura para a rua, para o espaço 

público, de onde é visto dos carros e também pelos pedestres que trafegam pela Avenida 

Rodrigues Alves.  

 



 

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Fig. 12: Sede do América. Projeto de Delfim Amorim 

Mural de Newton Navarro. 1960 

Fonte: Foto do autor. 2007

 

Raros são os registros mais antigos da obra que contagia o público com seus alegres 



personagens, dançando, cantando, tocando. Numa viagem no tempo e no espaço, parece que as 

figuras da pintura “Dança” (1910) de Henri Matisse foram convidados para um baile de carnaval 

em Natal, no nordeste do Brasil e se “esbaldam” ao som do frevo, do maracatu, dos caboclinhos, 

dos ganzás, dos atabaques e dos reco-recos. Lutam e dançam a capoeira.  

 

 

 



Fig. 13: Salão de festas com mural ao fundo 

Fonte: Arquivo Tribuna do Norte. 

 

Assim como nos painéis do IFRN, também datados da década de 1960, o tratamento gráfico é 



sofisticado e revelador da sua obsessão pelo movimento que só a linha pode proporcionar. O 

preenchimento das figuras com estas linhas tem o mesmo valor dos desenhos em menor escala. 

Sugerem elementos decorativos, porém participam ativa e intimamente do plano compositivo da 

obra. 


Sobre o muralismo de Navarro, CARVALHO (2005) diz que: 

Navarro mostra todo o vigor de um grafismo próprio, não obstante sermos compulsivamente 

levados a comparar o seu com o trabalho de outros muralistas brasileiros, particularmente 

Portinari, apesar mesmo da falta de cor. Mas Navarro reserva suas peculiaridades, como a 

capacidade de mostrar movimento e leveza em seus esquemas que, tendendo ao 

geométrico e abusando das retas, também remetem ao cubismo, fonte formal indiscutível de 

muitos artistas modernistas brasileiros (...). 


 

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Nesta elaborada síntese, Navarro aplica elementos formais cubistas para, como Picasso 



ou Braque, discutir a planaridade do seu suporte e criar contra-planos internos e externos às 

figuras, obviamente sem o radicalismo dos vanguardistas do começo do século vinte.  

 

 



 

 




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