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POEMA BÊBADO 
 
Boêmia de esquinas angulosas 
Com travesseiros errados de postes subindo 
E sustentando lá em cima a candeia elétrica 
Num bruxoleio ondulante, rodopiante, 
Aos olhares bêbados do bêbado boêmio. 
 
Boêmia de esquinas a vomitar lorotas, 
Lorotas longas de horas e horas a fio 
Aos ouvidos frios da praça insensibilizada; 
A decifrar imagens que se truncam, que se 
alongam 
Que se achatam, rodando, rodando, 
Ante a lassidão das pupilas semi-abertas, 
Sonolentas, sonolentas, sonolentas. . . 
 
Bêbado de esquina, 
Testemunha esquecida das horas altas, 
Testemunha única das horas longas 
Da noite arabescamente enluarada 
Com risos caricatos de lua redonda 
Chovendo prata sobre o casario
Bêbado boêmio da esquina, 
Conversando à lua, a mulher de opala, 
Bêbada como tu, bêbada esquecida 
Numa curva do espaço; 
No esquecimento largo de um céu de anil : 


Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 188 - 
Bêbado e lua, que casal bonito, 
Bebendo fatuidades na boêmia da noite! 
 
Fragrâncias ácidas de bebedeiras velhas, 
Cachaçadas que vêm de longe 
Num ciclo de desgraças crepes; 
Gloriosamente, 
Vitoriosamente apagadas na enxurrada, 
Na lavagem do líquido fatídico! 
No fundo, há sempre uma comédia 
Dramaticamente triste, 
Espetros fugidios de uma felicidade breve: 
“Esquecer, esquecer” – resposta amarga. 
 
 E lá vai ele , gingando, gingando, 
Pelo indiferença da calçada solitária, 
Com lembranças esfumadas de um lar que é seu 
E visões de vergonha a apupar-lhe a mente 
Num carnaval íntimo de fantoches diabólicos. 
 
Tropegamente rodopiando, 
Ao desequilíbrio da ventania alcoólica. 
Gesticulando a aparições fantasmas 
Que lhe atravessam a estrada movediça 
Lá vai o bêbado da minha rua
Trôpego, tropicando as pernas langues. 
Alguém o espera no tugúrio miserável, 
Um anjo talvez, sacrilegamente torturado. 
Um anjinho talvez, choramingando 
Na tortura ímpia de uma fome de inocente. 
Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 189 - 
E a miséria desdobrando asas negras
- Águia macabra de mundos negros - 
Fecha-os no abraço fatal de soberana. 
 
E lá vai o bêbado romântico, 
Trôpego, tropicando as pernas langues, 
Esquecido do lar que a águia negra ronda 
E dilacera nas garras impiedosas. 
 
Bêbado desprezado, 
Eu queria escrever-te um poema bonito. 
M as tudo saiu tão soturno, 
Tão triste que nem eu sei se és tu 
Que provocas assim tanta melancolia 
Ou se é a minha alma que anda bêbada 
De tristezas ciganas. 
 
Bêbado de esquinas e bancos de jardins, 
Bêbado de horas mortas de arrabaldes, 
Bêbado desconhecido de estradas do sertão, 
Bêbados das noites hibernais de vento, 
Das noites quentes com vaia de estrelas altas, 
Nas noites impertinentes de chuva fina,  
Eu caminho convosco, de braço, 
Com bebedeiras longas na alma incompreendida, 
Sorvendo dores na boêmia da vida. 
 
 
 
 


Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 190 - 
 
 


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