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Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 177 - 
 
       MANGUEIRA S AUDOS A 
 
M angueira do quintal de minha casa, 
Daquela casa de sítio, tão bonita! 
Quintal não, pois a expansão era infinita 
E não intra-muros como esta da cidade, 
Onde, eu acho, o passarinho-liberdade 
Tem apenas uma asa 
E jaz tombado, encarcerado, 
Na cadeia geométrica 
Dos quintais apertados, 
A lembrar visões tétricas 
De condenados. 
 
Porém, minha mangueira, não é bem isso 
Que tentava escrever. 
É que quando me ponho a esse serviço, 
Não sei porque, logo eu atiço 
A minha fantasia de poeta enfermiço 
A doudejar em disparates, 
Que a gente, por aí a fora, considera 
Qualidades essenciais, profissionais, 
Dos pobres vates. 
 
M angueira, mangueira, talvez secular, 
Pois que já existias quando eu nasci 
E ainda existes agora, depois que eu cresci, 
M angueira copada, gosto muito de ti. 
Lembras-me tantas cousas, 


Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 178 - 
Tantas recordações dos meus tempos de criança, 
Quando eu, com os manos e os priminhos, 
Espichados de costa à sombra mansa 
Da tua copa onde havia passarinhos, 
Espiralávamos na idéia castelos longínquos de 
esperança, 
Castelos incertos, 
De um futuro risonho; 
Que eram apenas sonho; porém, místico sonho 
De olhos abertos. 
Olhos devaneios que nada fitavam, 
Que se perdiam a um tempo na tua fronde, 
No céu, nas serras, nas nuvens que passavam, 
Altas, informes, cheias de estranho frenesi. 
E é por isso, mangueira, é por essas saudades 
Que eu gosto tanto de ti. 
 
Depois, como apreciava olhar-te da janela, 
Quando o vento, enovelando-se em procela, 
Desembestava pelo vale em rouco ronco 
Vergastando o arvoredo! 
(Confesso-o, eu tinha medo!) 
 M as tu, não. Antepunhas-lhe, valente, 
A rijeza dos teus galhos e do teu tronco 
Onde ele uivava em vão, raivosamente. 
Talvez assim quisesses dar-me o exemplo 
De não me deixar levar à toa 
Pelo tufão imenso 
Da maldade. 
 
Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 179 - 
Porém, opor-lhe o tronco do bom senso 
Firmado nas raízes da bondade 
E espalhado nos galhos do bem fazer. 
Quando florescias era um escândalo 
De tantos insetos e abelhas roubadoras 
Que te assaltavam em cardumes. 
Os beija-flores tinham ganâncias de vândalo 
Na conquista do teu mel e dos perfumes. 
E ai deles, coitados, se não foras 
Assim inerte, 
Obrigada a condição que assumes 
De dar sem recompensa, 
Numa excelsa atitude  
De alma imensa . 
 
E chegavam os frutos. 
Louros, como pingos de sol no verde-escuro 
De tua folhagem, 
Hipnotizavam, de longe, os pássaros matutos. 
E a criançada vinha, vinha o pessoal inteiro 
Aproveitar-te largamente a camaradagem 
Da distribuição gratuita das mangas amarelas, 
Tão amarelas como se algum brejeiro 
Pouco antes as mergulhasse num tinteiro 
De aquarelas. 
 
 
Era sempre, de tarde, porém, que eu preferia 
Contemplar o teu vulto 
Desenhado pensativo na melancolia 


Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 180 - 
Do espaço enorme. 
Quando cada coisa tem um alma triste, 
Quando cada coisa se debruça e assiste 
O fúnebre culto 
Do ofício de trevas do dia. 
Era então nessa hora de desconforto 
Do ambiente morto, 
O’ mangueira, 
Que pasmavas a copa cheia de ânsia 
Num êxtase de dúvida, indecisa, 
Semelhando-se bem a este meu ser 
Que se volatiliza, 
Ou, ao menos, tem vontade de se volatilizar 
E, assim, ao Infinito, voar, voar. . . 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 181 - 


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