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O JOÃO BAIANO 
 
Quando eu era pequeno 
Tinha um medo louco do João Baiano. 
Aquele negro que andava de alpargatas 
E um facão pendendo da cintura. 
(Um facão descomunal!) 
E nas noites escuras afundado no leito 
A minha fantasia de criança 
Ideava-o um gigante ressurgido 
De enorme compostura 
E corpo colossal
Que tivesse saído dos recônditos da mata. 
M as o João Baiano era bom. 
Negro velho dos tempos do Brasil- Colônia, 
Do Brasil-Pequeno, do Brasil-M enino, 
Tinha, no rosto, a paciência dos escravos; 
Na estatura, a rijeza dos robustos; 
Nas cicatrizes, as vergastadas da escravatura. 
E por tudo o estoicismo no destino 
E os estigmas dos bravos. 
 
Depois que eu cresci o João Baiano 
Começou a habitar no rancho brasileiro 
Da minha alma. 
E quando o vi pela última vez, já velhinho 
E alquebrado 
(tinha mais de cem anos se não me engano) 
A sua figura calma 
De herói dos cafezais 


Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 172 - 
Ficou gravada em cheio no meu íntimo. 
Tão profundamente 
Que o não esqueci jamais. 
Nunca mais!  
Disseram-me que ainda vive. 
Coitado, deve estar tão branquinho! 
Também para ser pai deste Brasil-Homem de hoje 
Não é brincadeira! 
Foi ele, o João Baiano, que deu rijeza 
Às carnes brasileiras. 
Ele, que lhe injecionou em sangue africano 
A seiva musculosa 
Que todos os anos faz exibição escandalosa 
No festival das flores e dos frutos dos cafezais. 
O suor dos cativos africanos 
Foi chuva diluviana que empapou, 
Por extenso, o território nacional; 
Que escorreu de cada monte e todo o vale 
E fez brotar, em cada, um cafezal. 
E é por isso que ao passar por qualquer 
Talhão verde negro de café, 
Suponho ainda ver escravizado, 
Em filas obedientes enquadrado, 
Como tropas infinitas de soldados, 
Um africano velho acorrentado, 
Solene, eternamente, acocorado, 
M artirizado, 
Em cada pé. 
 
 
Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 173 - 
O João Baiano era bom. 
E passou a morar no rancho acaboclado 
De minha alma. 
Talvez seja ele mesmo que agora salma, 
Com aquele seu jeitão de feiticeiro, 
Estes versos desconjuntados, 
Estas linhas sem a mínima instrução; 
Livres como era livre a idéia dele, 
Pois que ele tinha o pensamento libertado 
Embora o corpo 
Estivesse sujeito ao chicote do patrão. 
 
O João Baiano era bom. 
Fazia gaiolas e bodoques 
Pra criançada da fazenda. 
E muitas vezes dizia à mocidade 
No barbarismo feliz de sua linguagem, 
Semi-selvagem; 
“M oços, eu não tenho  a liberdade 
Que a nhá Isabelinha concedeu 
Aos negros da escravidão, 
Porque nesta terrinha brasileira 
Eu tenho a minha alma prisioneira 
E argamassado meu coração”. . . 
O João Baiano era bom. 
 
 
 
 
 


Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 174 - 
 


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