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S AUDADES  
 
Hora em que o coração depressa bate, 
Trava combate, mudamente trava; 
E de sob as cinzas surgem de repente 
Sombras que a mente no íntimo guardava. 
 
Vêm todas empoadas, 
Longas, desmesuradas; 
Que caminhos terão elas andado?! 
Vêm pelos corredores intermináveis 
Do castelo encantado 
Da saudade; 
Trazem braçadas de recordações. . . 
 
Terna saudade desse tempo lindo 
Que vai fugindo e que não volta mais. 
Infância – lago azul por entre flores 
Policolores de infantis ideais. 
 
Terna saudade! Entardecer de mato 
Leve desmaio de um beijar de outono. 
E cisma a mente num gostoso anseio 
Num devaneio doce de abandono. 
 
Terna saudade! Esfacelando mágoas 
Fogem as águas dos natais riachos 
Das margens quietas exibindo olores 


Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 80 - 
Despencam flores em ridentes cachos. 
Terna saudade! O laranjal fremindo, 
Brisas fugindo ao lhe afagar a fronde. 
Angústias magas de um sabiá que sonha! 
Ave tristonha donde vieste?. . . Donde?! 
 
Terna saudade. . . Repicar de sinos; 
M agoados hinos na distância enorme 
M orrem aos poucos. . . mas por que se cala 
Por que não fala mais a torre? – Dorme. . . 
 
Por que se expande essa penumbra incerta? 
Por que deserta se desdobra a serra? 
Por que das cousas agoniza a alma, 
Que dúbia calma esse mistério encerra? 
 
Passado, 
País encantado 
Que desejamos sempre rever
Guardando cousas que lá ficaram 
M as que trouxemos e se irmanaram 
Em comunhão perene com o nosso ser! 
 
Saudade! A estância pequenina e quieta 
Onde nascemos e que existe ainda 
Já velhinha, porém, quase caída. . . 
Ah! se ela visse de novo o seu menino 
Depois de tantos anos,  
Depois que conheceu o rol dos desenganos, 
De certo não haveria de negar-lhe 
Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 81 - 
Um pouco mais daquela extinta felicidade. 
O quintal, o pomar, lá em baixo o rio, 
Tudo numa aquarela da memória. . . 
Dias de sol noites de lua, 
Talvez campinas, talvez montanhas, 
A escola, os mestres, os companheiros. . . 
Ah! quanta cousa, quanta cousa. . . quanta! 
Tudo se foi. . . E que nos resta agora? 
- Essa doçura que devora, 
- Saudade que quebranta! 
 
Saudade. . . A igreja toda refulgindo, 
A criançada de  branco, em procissão. . . 
O dia mais feliz e mais belo da infância - 
A festa da primeira Comunhão. 
M omento de ventura inapagável, 
De candura e inocência a transbordar 
Do pequenino e palpitante coração. 
 
Saudade. . . Lamurienta serenata 
Povoando de lamúrias o sertão. 
Sumindo além no fundo do estradão 
Sob o frio palor da lua de prata... 
Violões e flautas a gemer tristonhos 
No silêncio da triste solidão; 
Vozes levando para região dos sonhos 
O caboclo que adora o seu violão. 
Eco saudoso a se perder chorando 
Na amplidão. 
 


Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 82 - 
 
Saudade. . . Um coração que foi amado 
Por uma chama viva e fulgurante 
Ardeu juntinho de outro coração. . . 
M as, coitado, 
Bufou, raivoso, o vento da ilusão 
Que, apagando-lhe o fogo causticante, 
Deixou apenas na alma soluçante, 
Um pouquinho de cinzas e de pranto. 
E destruiu assim sem compaixão 
Uma vida feliz, cheia de encanto. 
 
Saudade. . . Entes queridos 
Já há longos anos desaparecidos 
Do nosso olhar. 
M as que não deixam, de quando em quando
De, silenciosos, nos visitar. .. 
De vir sentar-se ao nosso lado 
Nas horas longas de melancolia; 
De suplicar-nos durante a prece 
O consolo de uma Ave-M aria. 
 
Saudade. . . Anjo da Guarda de quem parte 
E a estranhas terras vai pedir morada. 
Companheira das noites de suspiros 
Com o qual o exilado a dor reparte 
Visão consoladora e amargurada 
Do último porto que ficou atrás. . . 
Adeus. . . e enquanto tudo foi sumindo 
Em longínqua e nostálgica miragem 
Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 83 - 
Só ela o acompanhou na sua viagem. 
Saudade. . . Sedutora e oculta fonte 
Que, sedentos andamos a buscar. 
Cuja água deliciosa, se tragada, 
M ais vontade em nós deixa de a tragar.  
Água que tem uma virtude maga 
Que quanto mais se bebe e mais se traga 
M ais abrasa e provoca mais ardor. 
Água melíflua, saborosa e clara, 
Que, bebida, depois nos põe nos lábios 
M ais intenso amargor. . . 
 
Saudade riso, saudade pranto, 
Saudade alívio, saudade dor. 
Saudade prece, saudade canto, 
Saudade sonho, saudade amor! 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 84 - 
 
 


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