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TARDE CHUVOS A 
 
Choveu a tarde inteira. 
O sol desceu enrolado em xales negros 
De nuvens negras de veludo negro. 
Sem espiar a gente sequer 
Por uma fresta qualquer. 
Que sol friorento também, que sol mulher! 
 
As árvores dos quintais rezam murmúrios 
Embuçados em véus brancos de noivas 
Que um chuvisqueiro fino, em arrepios, 
lhes empresta para dormir. 
E elas ciciam baixinho 
Umas cousas que o vento, de mansinho, 
Quando passa lhes diz. . . e ele passa bem pertinho 
Para só elas ouvir. 
 
E já noite, o chuvisqueiro continua, 
Encharcando, monótono, os telhados 
Numa canção contínua de sons continuados. 
Como eu gostava de ouvir, quando pequeno, 
A canção do chuvisqueiro nos telhados 
Embalando-me o sono sereno 
Atulhado de sonhos alados e azulados! 
 
 


Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 58 - 
 
Saio à janela. Olho a rua. 
Enfileiram-se os postes geométricos, 
Esguios, finos, esqueléticos, 
Esticando os braços longos, fantasmais, 
Segurando na ponta os seus lampeões elétricos. 
A iluminar a rua para a gente passar. 
E será que não se cansam 
De tanto tomar chuva
De tanto segurar? 
E essas gotas de prata que dançam no fio, 
Que fazem prodígios de ginástica, 
Que equilíbrio as sustém?. . . mas ai, um arrepio, 
Foi-se uma. . . e vem outra em seu lugar... 
Uma vai, outra vem. . . 
Dançando uma dança fantástica 
Na corda bamba do fio bambo 
Sem parar. 
 
Vem subindo um incógnito molambo, 
Um trapo humano de gente qualquer. . . 
M as, oh! que aconteceu?. . . 
Escorregou na calçada. . . 
E nas vestes farrapos, na cara embuçada 
Não se sabe se é homem ou mulher. 
Depois, passa um negrinho assobiando, 
Sem chapéu (não faz caso de molhar-se) 
Sob a janela, e, carapinha chuviscada 
Com perolazinhas de cristal, 
Atirou-me um sorriso disfarce 
Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 59 - 
De seus dentes de cal. 
Quando aponta algum auto caricato 
Esticando faixas retas de luz rabiscadas 
Obliquamente pelo chuvisqueiro, 
Andam sombras movediças, espectrais, 
Descomunais, 
Pela tela dos muros silenciosos
Onde um gato ensopadinho da silva faz miau. . . 
E no escuro da alcova o menino doente 
Tem medo, eu sei, de tudo isso. . . 
M as a vovó lhe grita lá de dentro: 
“M enino, dorme tranqüilo. . . “ 
E acrescenta depois: – “Não sejas mau. .. “ 
Essas vovós têm sempre o que dizer! 
 
Rondando os focos foscos 
Redemoinham besouros tontos 
Zumbindo como avião. 
Pondo sombras gigantescas 
No chão. 
Que lembram, na impressão grotesca, 
As asas romanescas 
De imenso morcegão. 
 
E a chuva vai caindo, vai caindo. . . 
Não pára. 
No fim da rua um guarda-chuva vai sumindo... 
Foi sumindo. . . sumiu de uma vez. . . 
E eu fico pensando naquela. gente 
Que mora no fim da rua, nos arrabaldes, 


Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 60 - 
Onde não existe nem luz talvez. 
Deve haver tanto pobre indigente, 
Tanto menininho chorando de frio 
E de fome. . . M as, embalde, 
A mamãe não pode dar-lhe um leite quente, 
Nem um leito macio. . . 
 
O chuvisqueiro continua cantando nos telhados 
A sua canção. 
E o pranto de piedade dos coitados 
M e está molhando, de mansinho, 
O coração. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 61 - 
 
 


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