Microsoft Word abretesesamo doc



Baixar 4.58 Kb.
Pdf preview
Página23/109
Encontro17.03.2020
Tamanho4.58 Kb.
1   ...   19   20   21   22   23   24   25   26   ...   109
O S ITIO ONDE NAS CI 
 
Nasci num sítio cheio de mangueiras 
No pomar. 
(Eu não tenho vergonha de o confessar. ) 
Havia perto a fazenda de Santana 
Alastrando casas desperdiçadamente 
Nas fraldas da colina bem em frente. 
De manhã cedo quando me levantava 
E ia à janela, 
Em desordem postadas as casas esparsas 
Pareciam-se bem com um bando de garças 
Que tivesse pousado no meio das copas
Imóvel, 
No dilúvio do banho matinal 
E universal 
Da luz do sol. 
 
A casa onde eu morava era no cocuruto, 
Na nuca alta de outra colina. 
A chaminé esguia imitava um charuto 
Baforando fumaça lá pra cima. 
A casa onde eu morava 
Andava ao sol o dia inteiro
No terreiro,  
De braços dados com a escola de papai. 
E eu armazenava no meu peito 
Um certo orgulho altivo e prazenteiro 


Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 46 - 
Quando alguém me dizia: “ai, 
Tudo isso é de seu pai?!”. 
 
Os eucaliptos desciam pela encosta 
Num atropelo de troncos escamosos, 
Sustentando no cimo a copa em flecha 
Que deixava escoar, brecha por brecha, 
Uma chuva luminosa de raios luminosos. 
No estio, havia aqui tantas cigarras 
Embalando o meio-dia preguiçoso, 
Com suas cantilenas bárbaro-bizzarras, 
Que eu supunha que cada tronco esguio 
Tivesse uma cigarra em todos os seus nós! 
Ou que cada folhinha viridente 
Tivesse, internamente
Aguda voz. 
 
E os laranjais!  
E o bananal lá embaixo 
Com as folhas em faca contra o céu! 
E o cafezal na procissão eterna pelas encostas! 
E o paiol velho cuspindo espigas pelas fendas! 
E os terreiros que no tempo da colheita, 
Quando enxutos, 
Secavam camadas grossas de café. 
Quando a chuva, porém, os ensopava 
O pessoal, depressa, o enfileirava 
Em montes aguçados como tendas! 
E o pasto, as roças. . . e as estradas. . . 
E, ao longe, serras, serras azuladas, 
Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 47 - 
Que desejei tantas vezes conhecer. 
Azuis, como eram azuis os castelos ideados 
Na minha cacholinha infantil 
Sedenta de saber. 
Serras que limitavam o meu mundo
Interrogando o horizonte anil: 
“Que haveria além, além?. . . “ 
Anseio profundo... 
O sítio onde nasci! 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 48 - 


Compartilhe com seus amigos:
1   ...   19   20   21   22   23   24   25   26   ...   109


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal