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FAZENDA NATAL 
 
(À moda de Paulo Setubal) 
 
Num alto sereno e claro
Lustroso ao sol qual verniz, 
Somente agora reparo 
Que fica o trecho mais raro 
Do meu querido país. 
 
Só agora é que verifico 
Toda a beleza que tem. 
E quase me beatifico 
Ante recanto tão rico 
Que os meus olhares revêem. 
 
Na paz singela e discreta 
De um quarto do casarão, 
Eu vim no mundo, poeta, 
O pobre e mísero esteta 
De versos que sou então. 
 
Asseada, toda branquinha, 
De um lado a escola se vê. 
Foi nela, com “Nhá Zefinha”, 
A meiga professorinha, 
Que eu aprendi o “abecê”. 
 


Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 32 - 
Perto da cerca, sombreando 
O fundo ali do quintal, 
Eternamente ciciando 
- M arulho longínquo e brando - 
Frondeja o verde bambual. 
 
E fica, do lado oposto
Repleto de par em par, 
Cheirando a espigas e a mosto 
O velho paiol. . . Que gosto! 
Tão cheio, quase a estourar! 
 
Sob o pomar, como é belo, 
Que delicioso frescor! 
Nas frondes, que olor singelo, 
Onde irisado cuitelo 
Volita de flor em flor! 
 
No outono, que gostosura 
[)e frutas em profusão! 
Que gulodice e doçura! 
M ais doce que rapadura 
(Perdoando a comparação) 
 
O poço de sob o rancho, 
O galinheiro, o curral. 
E além, num mourão, muito ancho
Um carniceiro carancho 
Espreita os bois. . . e o pombal. 
 
Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 33 - 
Troncos imóveis, em fila, 
Pelo declive do val, 
Semeando sombra tranqüila 
Se o sol na altura cintila, 
Despenca-se o eucaliptal! 
 
Por entre as frondes, à sesta, 
Zunem insetos sutis. 
E, às vezes, rompem em festa
Depois de chuva funesta, 
Sanhaços e bem-te-vis. 
 
Abaixo, beirando o rumo 
Do sítio de “seu” Natal, 
Perto da roça de fumo, 
Com folhas novas a prumo 
Alastra-se o bananal. 
 
Dá ganas que não aturo, 
Junta águas no paladar, 
Lembrando um cacho maduro 
Oculto no verde-escuro, 
Difícil de se encontrar. 
 
E a velha estrada que corta 
O sítio, em curvas, à toa, 
Parece, vermelha e torta, 
Enorme, esquisita aorta 
Do seio da terra boa. 
 


Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 34 - 
Outrora sim, veia estranha, 
Com carros descomunais, 
Levava, em golfões, na entranha, 
Toda  a riqueza da apanha - 
O sangue dos cafezais . 
 
Hoje por ela, carroças 
Transitam, raras, e só. 
Bordejam-na extensas roças, 
De quando em quanto, palhoças, 
E ruivas nuvens de pó. 
 
Não pensem se disse outrora 
Que foi há muito, talvez, 
Tinha doze anos, e, agora, 
Não pondo nenhum de fora 
Eu devo ter trinta e três. (N.B – o livro foi escrito em 
l959) 
 
Reparem: toda essa terra 
De barrocais e espigões 
Até pertinho da serra 
(Se a minha mente não erra) 
Floriu em ricos talhões. 
 
Adiante, na encruzilhada, 
A capelinha traduz 
Assim de novo caiada 
Recordações da passada 
Festança de Santa Cruz. 
Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 35 - 
Quem nunca a apreciou ainda 
Vá lá, vá ver o que é. 
A festa mais rara e linda 
Que sempre inicia e finda 
 Num tremendo racha-pé. 
 
Gemem sanfonas e violas - 
Alma de todo o sarau. 
E no tropel que rebola 
Não faltam as “Nha Carolas” 
Ao lado do “Seu Nhô Lau”. 
 
M as, minha pena, descanse, 
Por ora, deste labor, 
Pois que a matéria é do alcance 
De um volumoso romance 
Que não sabemos compor. 
 
Depois, talvez, se a memória 
Não nos faltar na ocasião, 
Contaremos toda a história 
Dessa fazenda que é glória 
Dos tempos da escravidão. 
 
 
 
 
 
 
 


Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 36 - 


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