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EM JUNHO 
 
Passo as férias de Junho pela roça 
Numa casa de campo dos avós, 
Onde minha alma lentamente possa 
Fruir uns dias, esquecida e a sós. 
 
E longe da cidade barulhenta, 
Livre das garras férreas do afazer, 
Percebo que outra seiva me aviventa 
E me transforma inteiramente o ser. 
 
Levanto cedo, quase escuro. Ganho 
O caminho que leva ao ribeirão 
E, resoluto, salto n’água ao banho 
Contratacando o frio e a cerração . 
 
M as, enquanto, banhando-me, tirito, 
E tento disfarçá-lo num falsete, 
Um bem-te-vi maroto lança um grito 
De escárnio, desfraldando o seu topete. 
 
“Bem-te-vi”. . , e de repente a passarada 
Pelas copas, nas cercas, no capim, 
Num festivo explodir de gargalhada, 
Bandeiras despregadas, ri de mim. 
 
 


Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 202 - 
Largo as águas depois, e, saio, a trote, 
Sob bruscos arrepios que me mordem. 
Pronto, enfim, mangas curtas e culote, 
Botas altas, cabelos em desordem. 
 
Faz frio. Boto aos ombros a espingarda. 
Não por caça, costume que adquiri. 
E saio satisfeito sob a guarda 
De um belo cão de fila – o meu Tupi. 
 
Vale em vale, espigão por espigão, 
Roça por roça, tudo, enfim, percorro. 
Como enormes novelos de algodão 
Vai rolando o nevoeiro pelo morro. 
 
Quase sempre a neblina leve e tesa 
Envolve o despertar destas manhãs, 
Qual se o Inverno cobrisse a natureza 
Com suas longas e antiquadas cãs. 
 
F vou seguindo por pastagens, grotas, 
Por atalhos e trilhos e caminhos, 
Com salpicos de orvalho sobre as botas 
E arranhões de agudíssimos espinhos. 
 
Pulam das moitas, céleres e a furto, 
As lebres e os nambus, subitamente, 
Prumam num vôo rumoroso e curto 
Pondo sensacionais sustos na gente. 
 
Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 203 - 
Às vezes quando é intenso o nevoeiro 
Pelos curvas da estrada topo e esbarro 
De encontro a um camarada ou um roceiro 
Que passam deliciando o seu cigarro. 
 
Respondo-lhe o bom dia com prazer 
Pois maior é o prazer deles em dar-mo. 
M ais que todos, porém, gosto de ver 
Um bondoso africano – o velho Carmo. 
 
Que homem extraordinário numa prosa! 
É uma delícia a gente pôr-se a ouvi-lo. 
A voz grossa, pausada, melodiosa! 
Que gestos calmos e que olhar tranqüilo! 
 
Com ele, como dizem, prosa é mato. 
Sabe falar de todos e de tudo; 
De passado e presente, pois, de fato, 
Jamais o vi, por um momento, mudo. 
 
Outros vezes, por largos carreadores, 
Corto a verde extensão dos cafezais 
Sob o cantarolar dos lavradores 
E o trinado das aves matinais. 
 
Há dias em que um sol louro e brilhante 
Rasga as cortinas brancas da neblina 
E me oferta o cenário deslumbrante 
Do despertar festivo da campina. 
 


Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 204 - 
Tudo canta e rebrilha num delírio 
Por todos os recantos da devesa 
Dando a impressão de um pequenino empíreo 
Que Deus fez e esqueceu na natureza. 
 
É então que fruo em meio a tanta festa 
O saudável sabor de meu passeio, 
Compreendendo o viver da roça honesta 
E a saúde que jorra de seu seio. 
 
Vêm, todavia, umas tristezas vagas 
Já me anuviarem a alma de saudade, 
Ao lembrar que deixar devo estas plagas 
Pelo sórdido ambiente da cidade. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 205 - 
 
 


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