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Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 191 - 
 
 
PALES TRANDO NA TARDE 
 
Alguém estendeu o véu negrejante 
Sobre o cadáver ainda quente do dia 
Apagando os contornos da cidade. 
As sombras 
Agacham-se sobre os telhados do casario. 
E ficam espreitando a lua grande 
Que vai despontar daí a pouco 
Galgando, devagarinho, o céu. 
As elétricas, patetas, 
Nem vêem que estão sendo indiscretas 
Indefinindo a forma dos fantasmas 
Agachados por sobre o casario. 
As antenas põem “ós” de admiração, no alto 
E, de fato, elas mesmas 
São pontos esguios de exclamação 
Na dúvida das trevas noturnas. 
 
“Ciranda, cirandinha”. . . 
“Vintém queimado”. . . . 
“Passa, passa, bom barqueiro”... 
A gurilândia se movimenta 
No reino democrático das calçadas. 
 
No quintal o arvoredo 
medita, estático. 
Até parece que está com medo 


Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 192 - 
De se mostrar. 
Por onde andará a brisa brincalhona 
Que o faz cantar ou gemer como sanfona 
Ou, em surdina, soluçar?! 
 
- O’ de casa?! 
- Pode entrar, dona Alegria. 
- O’ de casa?! 
- Pode entrar, dona Tristeza. 
- O’ de casa? 
- Pode entrar, dona Saudade. 
Vieram as três. 
M as uma de cada vez. 
Veio a Tristeza e foi embora. 
Veio a Alegria e foi embora. 
Veio a Saudade e não quis ir. 
E eu fiquei conversando com a Saudade 
Na minha íntima casa de cidade. 
Contou-me cousas que eu nem mais lembrava 
Do “in illo tempore” da infância. 
Então senti inveja daquela criançada 
Que morava na gurilândia democrática 
Da calçada. 
E ela perguntou-me se eu queria 
Ser de novo criança como aquelas. 
Tive vontade de lhe não responder. 
M alvada, essa dona Saudade, 
torturando a gente assim sem mais nem menos. 
- Desculpe, dona, mas essas 
Não são coisas de se fazer. 
Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 193 - 
Levou-me, depois, a um longo passeio 
Pelo reino encantado  
Que existe mergulhado 
No lago azul do passado. . . 
 
“Psiu”. . . – Quem foi? Alguém?. . . 
“Caramba! E que susto me pregou!”. . . 
Oh! foi a lua, não há dúvida, foi ela, 
Que está espiando com seus olhões indiscretos 
Por detrás de uma copa pensativa; 
Com aquela cara chinesa e amarela 
Onde há um sorriso de escárneo 
Repuxado nos cantos do boca larga 
Que parece que está rindo da gente 
E dizendo: – “Pateta, que estás a sonhar?” 
 
Fiquei com raiva e fechei a janela 
Bem na cara dela. 
Deitado, pus-me a cismar: 
É sério, a lua tinha razão 
Pois é melhor sonhar dormindo 
Do que sonhar acordado, 
Porque, dormindo, é apenas sonho, 
Acordado, uma ilusão. 
 
 
 
 
 
 


Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 194 - 
 
 


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