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NA MORTE DE UM ANJO 
 
Hoje está um tanto triste a minha rua
Beija-a um sol atacado de anemia. 
Uma quietude lívida flutua 
Como um véu de lirial melancolia. 
 
Não percebo, lá fora, nenhum grito 
Da criançada a brincar pelas sarjetas.  
M as eu pressinto um não sei quê de aflito, 
Sorvo um olor defunto de violetas. 
 
Quando fui à janela vi coroas 
Com letras de ouro sobre longas faixas. 
E pude divisar muitas pessoas, 
Trajes negros, caladas, cabisbaixas. 
 
M eu Deus! Por que. . . por que vão todas 
Parando, entrando pela mesma porta? 
A porta da vizinha?. . . Haverá bodas?. .. 
Oh! não. . . é a menininha que está morta. . . 
 
 
 


Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 24 - 
É preciso que eu vá, preciso vê-la. 
Coitada, ela foi sempre tão boazinha. 
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 
A palidez da matutina estrela 
Cobria as faces da amiguinha minha. 
 
Um nó de pranto veio-me à garganta, 
Bailou-me sobre os olhos indeciso. 
Ela estava, porém, tão linda e santa 
Que tinha inda nos lábios um sorriso! 
 
E quase a minha dor não se conforma 
Por toda essa crueldade do destino
Lançando assim a sua infausta norma 
Contra um ente tão puro e pequenino. 
 
Entre os buquês e a vaporosa veste 
Toda de branco como um casto lírio 
M ais parecia uma visão celeste 
Prestes a erguer o vôo para o empírio. 
 
As lágrimas maternas são diamantes 
A estrelejar-lhe o pequenino esquife. 
Entre todos os prantos circunstantes, 
Talvez, o único pranto não patife. 
 
O enterro foi à tarde. Longas filas 
De crianças em bonita procissão. 
Via-se o luto nas joviais pupilas 
E a dor pulsava em cada coração. 
Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 25 - 
 
O caixãozinho, branco como a neve
Atrás de todos, carregado a passo, 
Ia seguindo tão macio e leve 
Qual se plumas levasse no regaço. 
 
Curiosa e triste toda a vizinhança 
Afluiu à janela – o rosto sério - 
Para ver essa pálida esperança 
A caminho feral do cemitério. 
 
Os sinos das igrejas nos seus dobres 
Puseram notas de delicadezas. 
Sempre assim dobram quando é para os pobres 
Pois não lhes querem aguçar tristezas. 
 
“Papai! M amãe Oh! nunca mais. Oh! Nunca! 
Adeus”‘ – dizem os bronzes compassivos. 
“Ela se foi, ceifou-a a morte adunca, 
Jamais haveis de vê-la dentre os vivos”. 
 
E eu jamais hei de ouvir as vozes dela 
No meio de outras crianças, na calçada; 
De certo há de, no céu, estar mais bela 
Entre os anjinhos da eternal morada. 
 
 
 
 
 


Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 26 - 
 
 
 
 
 
 
JUDAS  
 
Pálido, a cabeleira em desalinho, 
Olhar de desespero, frio e agudo
Aproxima-se Judas, de mansinho, 
E oscula o M estre:- “M estre, eu te saúdo”. 
 
E a pedra, e o inseto, e a planta, e a flor, e o espinho; 
Jerusalém, a terra, o espaço. . . tudo 
Horrorizou-se estupefato e mudo 
Ante a hediondez de beijo tão mesquinho. 
 
M as Jesus, o “Agnus Dei” humilde e quieto
A transbordar de compaixão e afeto 
Pondo na face um resplendor celeste, 
 
Deixa pousar o seu olhar sagrado 
Sobre o olhar do traidor envergonhado 
E. diz-lhe ainda:- “Amigo, a que vieste?!”. 
 
 
 
 
 
Abre-te, Sésamo! 
                                                 Lino Vitti 
- 27 - 
 
 
 
 


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