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single-minded son of the working class], quem conduziu o país através 

da árdua luta de resgate de uma raça acorrentada e de reconstrução de 

um mundo social” (idem

P

. 20).



14 

A  resposta  veio  por  meio  de  uma  carta,  assinada  pelo  embaixador  dos 

Estados Unidos na Inglaterra, Charles Francis Adams. O embaixador informava 

na carta que Lincoln havia recebido a mensagem e que expressava, em caráter 

pessoal,  o  desejo  de  se  provar  merecedor  da  confiança  recebida  de  “tantos 

amigos  da  humanidade  e  do  progresso  ao  redor  do  mundo”  (MARX,  1972. 

P



238).  Embora  cuidadosamente  reafirmasse  abster-se  de  todo  propagandismo  e 



intervenção ilegal, Lincoln, nas palavras do embaixador, afirmava:  

“As nações não existem por si só, mas para promover o bem-estar e a 

felicidade  da  humanidade  por  meio  de  relações  benevolentes  e  do 

exemplo. É nesta relação que os Estados Unidos consideram sua causa 

no presente conflito com a escravidão, mantendo a insurgência como a 

causa da natureza humana, e derivam novos incentivos para perseverar 

dos  testemunhos  dos  trabalhadores  da  Europa  de  que  a  atitude 

nacional  recebe  sua  aprovação  esclarecida  e  suas  simpatias  sinceras” 

(idem

P

. 239-240.) 



O  governo  dos  Estados  Unidos  estava  ciente  de  que  o  único  apoio  que 

recebera  durante  a  guerra  havia  sido  proveniente  das  classes  trabalhadoras,  as 

quais  haviam  participado  ativamente  das  manifestações  contrárias  a  uma 

intervenção da coroa inglesa no continente americano. Por essa razão, Lincoln 

manifestou  seu  reconhecimento  do  apoio  recebido  pelos  trabalhadores 

europeus.  Apesar  de  suas  reticências  iniciais,  Marx,  em  uma  carta  cheia  de 

sarcasmo  endereçada  a  Engels  em  fevereiro  de  1865,  festejou  a  resposta  de 

Lincoln à AIT e o fato das manifestações da associações e clubes da burguesia 

                                                        

14  À  luz  dos  textos  anteriormente  citados,  nos  quais  Marx  menciona  a  mediocridade  de 

Lincoln, percebe-se uma boa dose de ironia nessa definição do presidente como “the single-

minded  son  of  the  working  class”.  Literalmente    single-minded  é  aquele  que  possui  uma 

única coisa na cabeça.  



Lincoln, Marx e a guerra civil nos Estados Unidos 

 

 



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britânica  terem  sido  praticamente  ignoradas:  “Apropos.  O  fato  de  Lincoln  nos 

responder  tão  cortesmente  e  tão  bruscamente  e  de  modo  puramente  formal  à 

'Sociedade  pela  Emancipação  Burguesa'  deixou  The  Daily  News  tão  indignado 

que não publicaram a resposta a nós. (…) Você pode imaginar quão gratificante 

foi isso para nosso pessoal” (M

ECW

, v. 42, 



P

. 86.) 


Poucos  meses  depois  o  presidente  Lincoln  foi  assassinado  e  Andrew 

Johnson assumiu a presidência. Procurando repetir o sucesso da carta anterior, 

o Conselho Central da AIT decidiu no dia 2 de maio mandar uma carta ao novo 

presidente. Marx mais uma vez redigiu o texto, o qual foi aprovado na reunião 

do  dia  9  de  maio  e  despachado  logo  a  seguir  por  intermédio  do  embaixador 

Charles  Adams.  Embora  a  guerra  já  estivesse  decidida,  o  momento  era  de 

grande intensidade dramática e a direção na qual a reconstrução nacional seria 

realizada era ainda incerta. Desta vez o autor da mensagem carregou nos tons, 

escreveu  um  texto  fortemente  emotivo  e  foi  mais  condescendente  do  que  nas 

vezes anteriores com o presidente Lincoln, o qual agora era apresentado como 

um mártir:  

“Mesmo os sicofantas que, ano após ano, e dia após dia, exerceram seu 

trabalho  de  Sísifo  de  assassinar  moralmente  Abraham  Lincoln  e  a 

República que ele dirigiu, estão agora horrorizados com essa explosão 

universal  de  sentimento  popular,  e  rivalizam  uns  com  os  outros  em 

espalhar  flores  retóricas  sobre  seu  túmulo  aberto.  Finalmente  eles 

descobriram que era um homem, que não poderia ser intimidado pela 

adversidade, 

nem 

intoxicado 



pelo 

sucesso, 

conduzindo-se 

inflexivelmente  para  seu  grande  objetivo,  nunca  comprometendo-o 

pela  pressa  cega,  maturando  lentamente  seus  passos,  nunca  voltando 

atrás,  jamais  se  afastando  da  onda  de  fervor  popular,  nunca 

desanimando com o afrouxamento do impulso do povo, temperando o 

rigor  com  o  calor  de  um  coração  bondoso,  iluminando  cenários 

escuros  com  paixão  de  um  sorriso  bem-humorado,  fazendo  com 

humildade  e  simplicidade  seu  trabalho  titânico,  enquanto  os 

governantes nascidos no céu costumam ornamentar as pequenas coisas 

com a grandiloquência da pompa e do estado; em uma palavra, um dos 

raros homens que conseguiu se tornar grande, sem deixar de ser bom. 

Essa, na verdade, era a modéstia deste homem grande e bom, no qual o 

mundo  só  descobriu  um  herói  depois  de  ter  caído  como  mártir.” 

(M

ECW



, v. 20, 

P

. 99.) 




Revista Outubro, n. 22, 2º semestre de 2014 

 

224 



O texto é claramente exagerado e repercutia o estado de indignação popular 

depois do assassinato de Lincoln, mas também tinha um forte conteúdo politico 

e procurava apontar a direção que a AIT desejaria que fosse tomada no “árduo 

trabalho de reconstrução política e regeneração social” (idem

P

. 100). Em suas 



linhas  finais  a  missiva  deixava  o  tom  emotivo  e  grandiloquente,  bem  como 

afastava-se  definitivamente  a  fraseologia  “vulgar-democrática”  e  afirmava 

decididamente a bandeira da AIT: a emancipação dos trabalhadores. Mais uma 

vez, Marx destacou as origens sociais do presidente: 

“Um profundo senso de sua grande missão poderá salvá-lo de qualquer 

transigência  com  os  duros  deveres.  Você  nunca  esquecerá  que  para 

iniciar  a  nova  era  da  emancipação  do  trabalho,  o  povo  americano 

depositou  as  responsabilidades  da  liderança  sobre  dois  homens  de 

trabalho  –  Abraham  Lincoln,  um,  Andrew  Johnson,  o  outro”  (idem, 

ibidem.) 

Essa  carta  ficou,  entretanto,  sem  resposta  e  logo  as  esperanças  de  seus 

signatários se viram frustradas. Vencida a guerra rapidamente o governo passou 

à  reconstrução  do  capitalismo  nos  Estados  Unidos.  Durante  seu  mandato 

Johnson vetou leis destinadas a proteger os afrodescendentes e permitiu que os 

estados  confederados  retornassem  à  União  sem  garantir  a  adoção  de  direitos 

iguais para os ex-escravos. Nesses estados, durante seu governo foram adotados 

“black codes” que converteram trabalhadores negros em servos nas plantações, 

presos  a  elas  por  contratos  de  trabalho  que  não  poderiam  ser  rompidos  sob 

pena de prisão (Z

INN

, 2005, 


P

. 199). Marx rapidamente passou a desconfiar do 

novo presidente e cerca de um mês depois da mensagem da AIT a Johnson já 

manifestava a Engels suas reservas e via a reação avançar:  

“A  política  de  Johnson  não  me  agrada.  Uma  ridícula  afetação  de 

severidade  para  com  indivíduos;  até  então  excessivamente  vacilante  e 

fraco quando se trata de agir. A reação já está posta na América e em 

breve se fortalecerá muito se a atual atitude indolente não for deixada 

para trás imediatamente.” (M

ECW


, v. 42, 

P

. 163).  



As  desconfianças  tornaram-se  oposição  aberta  e  em  novembro  de  1866 

Marx escreveu François Lafargue comemorando a derrota eleitoral de Johnson e 

concluindo:  “Os  trabalhadores  do  Norte  finalmente  compreenderam 

plenamente  que  os  trabalhadores  brancos  nunca  se  emanciparão  enquanto  os 




Lincoln, Marx e a guerra civil nos Estados Unidos 

 

 



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trabalhadores  negros  forem  ainda  estigmatizados”  (idem

P

.  334).  A  reação 



empreendida por Johnson tornava essa perspectiva mais distante e a atitude de 

Marx  mais  violenta  contra  ele.  Em  agosto  de  1867  escreveu  ao  editor  do  Le 






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