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escravidão.  Não  no  sentido  de  saber  se  os  escravos  devem  ser 

                                                        

6  Runkle  (1964, 

P

.  136)  acredita  que  o  esgotamento  espontâneo  da  escravidão  era  uma 



perspectiva excessivamente otimista por parte de Marx. 


Lincoln, Marx e a guerra civil nos Estados Unidos 

 

 



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emancipados  a  título  definitivo  ou  não  nos  atuais  estados  escravistas, 

mas  se  os  20  milhões  de  homens  livres  do  Norte  devem  continuar  se 

submetendo  a  uma  oligarquia  de  300  mil  donos  de  escravos;  se  os 

vastos  territórios  da  república  deve  ser  viveiros  para  estados  livres  ou 

para  a  escravidão;  e,  finalmente,  se  a  política  nacional  da  União  deve 

ter como dispositivo a extensão armada no México, América Central e 

América do Sul” (idem, ibidem

P

. 42.). 


Marx considerava que o rápido crescimento econômico e populacional dos 

estados  do  noroeste  era  a  causa  da  agudização  dos  conflitos  entre  o  Sul  e  o 

Norte. A população nesses estados era, em sua maioria, de imigrantes alemães e 

descendentes de ingleses, proprietários rurais independentes. Entre 1850 e 1860 

essa população cresceu 67%, atingindo a cifra de quase 8 milhões de pessoas e 

superando os 5 milhões que habitavam os estados escravistas que proclamaram 

a  sucessão.  Esse  desenvolvimento  acelerado  dos  estados  do  noroeste  alterou 

profundamente  a  balança  política  dos  Estados  Unidos  e  garantiu  a  vitória  dos 

republicanos nas eleições de 1860. Foram também esses estados, segundo Marx, 

os primeiros a se manifestarem contra a secessão (idem, ibidem

P

. 41).


7

  

No final de outubro de 1861 escreveu um artigo publicado no início do mês 



seguinte  em  Die  Presse,  no  qual  afirmava  que  a  guerra  da  “Confederação 

Sulista”  era  uma  guerra  de  conquista  para  a  extensão  e  perpetuação  da 

escravidão”  (idem,  ibidem

P

.  49).  Para  os  secessionistas,  depois  da  vitória  dos 



republicanos  não  era  mais  possível  transformar  os  estados  e  territórios 

fronteiriços  em  estados  escravistas  sem  romper  com  a  União.  Para  o  Norte,  a 

cessão desses territórios e estados aos escravistas significaria uma rendição e o 

sitiamento  pelo  Sul,  uma  situação  que  levaria  de  fato,  “não  a  dissolução  da 

União mas sua reorganização, uma reorganização com base na escravidão sob o 

controle  reconhecido  da  oligarquia  escravista”  (idem,  ibidem

P

.  50.)  Daí  o 



alcance do conflito e seu caráter inconciliável:  

“A  luta  presente  entre  o  Sul  e  Norte  é,  portanto,  nada  mais  que  uma 

luta entre dois sistemas sociais, o sistema de escravidão e do sistema de 

trabalho  livre.  A  luta  irrompeu  porque  os  dois  sistemas  não  podem 

mais  viver  pacificamente  lado  a  lado  no  continente  norte-americano. 

Ela  só  pode  ser  encerrada  com  a  vitória  de  um  sistema  ou  outro.” 

(Idem, ibidem.) 

                                                        

7  Cf. Também. a carta de Marx a Engels, 1 Jul. 1861 (M

ECW


, v. 41, 

P

. 301). 




Revista Outubro, n. 22, 2º semestre de 2014 

 

210 



Estes dois sistemas em conflito eram, entretanto, dirigidos por capitalistas. 

Trata-se  de  uma  questão  de  grande  complexidade  sobre  a  qual  muito  tem  se 

discutido.  As  diversas  passagens  de  Marx  a  respeito  do  modo  de  produção 

próprio  da  economia  colonial  não  sempre  são  unívocas.  No  caso  em  questão, 

entretanto,  ele  é  mais  claro,  uma  vez  que  ao  invés  de  definir  o  caráter  da 

economia  colonial  ele  caracteriza  a  classe  que  conduz  o  processo.  Sobre  isso 

Marx é categórico, a exploração colonial foi conduzida por capitalistas. Engels 

concordava  com  isso  e  avançava  a  consequência  política  dessa  caracterização. 

Em  uma  carta  de  maio  de  1862  a  seu  amigo  Marx,  ele  afirmou:  “eu  também 

estou  convencido  da  natureza  burguesa  dos  plantadores,  por  isso  não  duvido 

que  chegado  o  momento  se  tornem  fanáticos  pró-unionistas”  (M

ECW


,  v.  4, 

P



368). 

O  confronto  entre  o  Sul  e  o  Norte  era,  assim,  um  confronto  dirigido  por 

forças capitalistas dos dois lados.

8

 Isto não impedia Marx e Engels de tomarem, 



na guerra, partido em favor do Norte contra os escravocratas do Sul. Mas era na 

perspectiva  de  uma  segunda  revolução,  capaz  de  emancipar  trabalhadores 

escravos e livres que ambos assumiam esse partido.  

 

Guerra constitucional e guerra revolucionária 



No dia 15 de março de 1862, Marx comunicou a Engels suspeitar que sua 

relação com o Tribune estava chegando ao fim: “estou convencido de que eles 

estão  a  ponto  de  me  dar  meu  congè  mais  uma  vez,  juntamente  com  todos  os 

outros  correspondentes  europeus.”  (M

ECW

,  v.  41, 



P

.  352).  Cerca  de  um  mês 

mais tarde reclamou que não estava mais recebendo o jornal (idem

P

. 353) e no 



começo  de  maio  informou  a  Engels  que  os  jornais  de  Manchester  e  Londres 

haviam  noticiado  que  Dana  havia  se  afastado  do  Tribune  devido  a  suas 

divergências  com  Greeley  sobre  a  guerra  (idem,  v.  41, 

P

.  359).  Depois  disso, 



                                                        

8  Runkle  (1964, 

P

.  132)  afirma  que  para  Marx  se  tratava  de  um  conflito  entre  um  sistema 



burguês  e  outro  feudal,  reproduzindo  assim  um  argumento  bastante  comum  na 

historiografia  soviética  do  período  stalinista.  Marx,  entretanto,  nunca  caracterizou  o  Sul 

como feudal e sempre enfatizou o caráter capitalista das grandes plantações e do comércio 

de escravos. 




Lincoln, Marx e a guerra civil nos Estados Unidos 

 

 



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Marx  passou  a  considerar  que  seu  afastamento  do  jornal  e  a  interrupção  do 

envio se tratava de um golpe sujo de Greeley (M

ECW


, v. 41, 

P

. 362).  



Marx  continuou  acompanhando,  nos  meses  seguintes,  os  acontecimentos 

nos Estados Unidos, dedicando-lhes importante atenção, ao mesmo tempo em 

que  avançava  na  redação  de  O  Capital.  Além  dos  artigos  publicados  em  Die 

Presse, sua correspondência constitui uma fonte inestimável.

9

 Ao longo do ano 



de  1862  Marx  e  Engels  passaram  divergir  sobre  as  perspectivas  da  guerra  nos 

Estados  Unidos,  diferenças  essas  pouco  destacadas  pelos  comentadores.  Marx 

foi, desde o primeiro momento, otimista a respeito do resultado do conflito. O 

Sul  havia  tomado  a  iniciativa  e  era  de  se  esperar  que  os  ventos  da  vitória 

soprassem  favoravelmente  aos  secessionistas  nos  primeiros  meses  da  guerra. 

Escrevendo a Lion Phillips, em maio de 1861, Marx registrou sua opinião: 

“Não  tenho  dúvidas  de  que  na  primeira  parte  da  luta  as  escalas 

favoreçam o Sul, no qual a classe de proprietários brancos aventureiros 

provê  uma  fonte  inexaurível  de  milícias  marciais.  No  longo  prazo,  é 

claro,  o  Norte  será  vitorioso  e  se  a  necessidade  surgir  ele  terá  uma 

última carta na manga na forma de uma revolução dos escravos” (idem

P

. 277.)  



As  vitórias  iniciais  do  Sul  foram  facilitadas  pela  política  conciliadora  do 

Norte, o qual procurou evitar o conflito, primeiro, e, depois, adiá-lo ao máximo. 

Escrevendo  a  Engels  em  julho,  Marx  afirmou  que  o  Norte  “durante  50  anos 

inferiorizou-se,  fazendo  uma  concessão  atrás  de  outra”  (idem

P

.  300).  Tais 



concessões  haviam  reforçado  a  instituição  da  escravidão  nos  estados  do  Sul, 

permitido sua expansão a novos territórios e dado tempo para os secessionistas 

se armarem e prepararem militarmente. Mas a força econômica do Norte e sua 

maior  quantidade  de  homens  livres  poderiam  fazer  com  que  a  balança  militar 

pendesse  para  seu  lado  durante  o  desenrolar  do  conflito.  Se  essa  inversão  na 

correlação  de  forças  não  ocorresse  o  Norte  ainda  poderia  estimular  a  rebelião 

dos escravos no Sul. Era essa perspectiva de transformação do conflito em uma 

guerra revolucionária aquela que Marx e Engels julgavam mais promissora. 

                                                        

9  Esta correspondência foi sistematicamente ignorada pelos recentes comentadores.  




Revista Outubro, n. 22, 2º semestre de 2014 

 

212 



Já  em  janeiro  de  1860,  Marx  havia  festejado  em  uma  carta  a  Engels  os 

levantes  de  negros  ocorridos  em  protesto  contra  a  execução  de  John  Brown.

10

 

Considerava que essas manifestações de revolta popular eram o primeiro sinal 



de uma revolução dos escravos e uma das “maiores coisas que estão ocorrendo 

agora no mundo” (idem

P

. 4). A emancipação dos escravos e o alistamento dos 



negros  no  exército  da  União  eram,  para  Marx  e  Engels,  o  caminho  para  uma 

guerra revolucionária contra o Sul escravista. Mas o governo nortista adiava ao 

máximo essas medidas e permitia o avanço das tropas sulistas.  

No  dia  1º  de  setembro  de  1861  o  New  York  Daily  Tribune  publicou  a 

proclamação  do  general  John  Charles  Frémont  (1813-1890)  na  qual  era 

anunciado  o  confisco  das  propriedades  dos  habitantes  do  Missouri  que 

apoiassem  a  Confederação  e  a  emancipação  dos  escravos  dos  rebeldes.  O 

presidente Lincoln havia instruído Frémont a decretar a libertação apenas dos 

escravos que tivessem sido utilizados pelos confederados nos combates, mas o 

general  foi  além  e  declarou  a  emancipação  de  todos,  despertando  a  ira  de 

Washington.  Os  protestos  dos  escravistas  dos  estados  fronteiriços,  como  o 

Kentucky fizeram o governo revogar o decreto de Frémont e demiti-lo do posto 

de comandante-em-chefe do Missouri (M

ECW


, v. 19, 

P

. 51).



11

  

Marx  considerou  que  a  demissão  de  Frémont  era  um  ponto  de  virada  na 



guerra civil. Como primeiro candidato do partido Republicano, nas eleições de 

1856,  e  como  o  primeiro  general  que  havia  ameaçado  os  escravistas  com  a 

bandeira da emancipação, o comandante militar do Missouri era um obstáculo 

à  conciliação  com  os  escravistas  dos  estados  fronteiriços  promovida  pelo 

governo em Washington (idem

P

. 86-87). A popularidade de Frémont era uma 



ameaça  mesmo  depois  de  sua  demissão.  O  correspondente  do  Die  Presse 

considerava  que  se  o  Norte  continuasse  a  sofrer  pesadas  derrotas  militares  o 

Noroeste poderia encontrar em Frémont a liderança necessária para “esmagar o 

sistema predominantemente diplomático de travar a guerra” (idem

P

. 88).  


                                                        

10  Nos últimos anos da década de 1850 o abolicionista branco John Brown (1800-1859) liderou 

uma insurreição armada antiescravista em Kansas. Preso em 1859 foi condenado à morte. A 

análise clássica sobre os episódios é a de W.E.B. DuBois (2007). 

11  Os chamados estados fronteiriços compreendiam, além de Kentucky, Delaware, Maryland, 

Virginia, North Carolina, Tennessee, Missouri e Arkansas . 




Lincoln, Marx e a guerra civil nos Estados Unidos 

 

 



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Era esse insistente recurso à negociação e conciliação com as lideranças do 

Partido Democrático e com os escravistas dos territórios fronteiriços a causa das 

dificuldades  que  o  Norte  enfrentava.  Marx  criticou  esse  sistema  em  um  artigo 

publicado em novembro de 1861 em Die Presse:  

“A  ansiedade  para  manter  os  'leais'  senhores  de  escravos  dos  estados 

fronteiriços  com  bom  humor,  o  medo  de  jogá-los  nos  braços  de 

secessão, em uma palavra, a ternura com os interesses, preconceitos e 

sensibilidades  desses  aliados  ambíguos,  infligiram  desde  o  início  da 

guerra  uma  ferida  incurável  no  governo  da  União  enfraquecendo-a, 

conduzindo-a  a  meias  medidas,  obrigando-a  a  dissimular  o  princípio 

da guerra e o principal ponto vulnerável do inimigo, a raiz da maligna 

escravidão em si.” (idem

P

. 50-51.) 



A crise na condução da guerra continuou, segundo Marx, após a demissão 

de  Frémont.  As  baixas  eram  cada  vez  maiores  e  as  primeiras  derrotas 

humilhantes.  Outros  generais  passaram  a  considerar  a  emancipação  dos 

escravos  como  a  única  alternativa  para  vencer  o  conflitos.  Marx  descreveu  a 

crise sobre a questão da escravidão em um artigo publicado em Die Presse em 

dezembro  de  1861.  Depois  da  declaração  de  Frémont,  foi  a  vez  do  general 

William  T.  Sherman  (1820-1891),  comandante  em  South  Carolina,  ir  além  e 

decretar  que  não  apenas  os  escravos  de  rebeldes,  mas  também  os  de 

proprietários  “leais”  à  União  poderiam  ser  emancipados  e,  em  certas 

circunstâncias  “armados”.  A  seguir,  o  coronel  John  Cochrane  (1813-1898) 

reivindicou o “armamento de todos os escravos como uma medida militar”. O 

secretário  de  Guerra  Simon  Cameron  (1799-1889)  manifestou-se  favorável  às 

ideias de Cochrane e foi por isso censurado pelo secretário do Interior (cf. idem

P

. 115).  



Em  meados  de  1862  as  críticas  de  Marx  e  Engels  ao  governo  da  União 

tornaram-se  mais  estridentes.  Engels,  particularmente,  era  mais  pessimista  e 

chegou  a  achar  que  a  guerra  poderia  ser  perdida  devido  às  vacilações  em 

Washington.  Em  uma  carta  a  Marx,  datada  de  30  de  julho  de  1862,  ele 

protestou: 

“que covardia por parte do governo e do Congresso! Eles recuaram do 

serviço  militar  obrigatório,  das  medidas  fiscais  firmes,  de  atacar  a 

escravidão, de tudo o que é urgente, tudo é deixado passar livremente 

e,  se  alguma  medida  decidida  finalmente  chega  no  Congresso,  o 



Revista Outubro, n. 22, 2º semestre de 2014 

 

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honorável  Lincoln  a  cobre  com  tantas  cláusulas  que  fica  reduzida  a 

nada.” (M

ECW

, v. 41, 



P

. 387.) 


Engels não guardou palavras para se referir aos generais nortistas: “um mais 

estúpido  do  que  o  outro”  e  “incapazes  da  menor  iniciativa  e  de  uma  decisão 

independente” (idem, ibidem). “Incompetência e covardia em todo lugar, exceto 

entre  os  soldados  comuns”  era  o  que  o  companheiro  de  Marx  via  (idem, 



ibidem). Sua ira não preservou sequer o povo do Norte, o que só fazia aumentar 

o  pessimismo.  A  “completa  ausência  de  qualquer  resiliência  entre  o  povo  é  o 

que me comprova de que isso é tudo”. O povo, afirmava, “é mais incompetente 

do  que  tivesse  sido    subjugado  por  3  mil  anos  pelo  cetro  austríaco”  (idem, 



ibidem).  Tudo  levava  Engels  a  crer  que  a  guerra  contra  os  escravistas  estava 

perdida:  “a  menos  que  o  Norte  imediatamente  adote  uma  postura 

revolucionária  receberá  a  terrível  surra  que  merece,  e  isso  é  o  que  parece 

acontecer.” (idem

P

. 388.) 


Marx  também  tinha  suas  críticas,  como  deixou  claro  em  um  artigo 

publicado  em  Die  Presse  em  4  de  agosto  de  1862.  A  suspensão  pela  União  do 

recrutamento de novas tropas, depois da conquista do Tennessee “condenou o 

exército a um constante enfraquecimento”, afirmou Marx (M

ECW

, v. 19, 



P

. 226). 


O correspondente do jornal austríaco considerava que as razões da crise eram 

políticas  e  se  deviam  à  influência  do  Partido  Democrático  sobre  o  governo 

federal. Mas também considerava que Lincoln começava a se mover na direção 

correta,  ameaçando  os  estados  fronteiriços  com  “uma  inundação  pelo  partido 

abolicionista”  (idem

P

.  227).  Esses  novos  movimentos  por  parte  do  governo 



eram  atribuídos  às  pressões  provenientes  dos  estados  do  Noroeste  e  de  New 

England,  os  quais  forneciam  a  maior  parte  dos  novos  recrutas  e  estariam 

“determinados  a  forçar  o  governo  a  uma  guerra  de  tipo  revolucionário  e  a 

inscrever  na  bandeira  listrada  e  estrelada  o  grito  de  batalha  de  'Abolição  da 

Escravidão'.” (idem

P

. 228.) 



A  guerra  entraria  assim,  segundo  Marx,  em  uma  nova  fase:  “Até  agora 

apenas  assistimos  o  primeiro  ato  da  guerra  civil  –  a  guerra  travada 

constitucionalmente. O segundo ato, a guerra travada revolucionariamente, está 

próximo”  (idem,  ibidem).  As  divergências  de  Marx  com  Engels  tornaram-se 

explícitas na carta que lhe endereçou no dia 7 de agosto: “Eu não compartilho 

muito  tuas  opiniões  sobre  a  guerra  civil  americana,  não  acredito  que  seja  só 




Lincoln, Marx e a guerra civil nos Estados Unidos 

 

 



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isso.”  Em  sua  carta  considerava  que  a  guerra  estava  “tomando  outro  curso”  e 

que  as  coisas  poderiam  mudar  de  repente.  Uma  guerra  revolucionária  não 

deixava  de  estar  em  seu  horizonte:  “O  Norte  vai,  finalmente,  fazer  a  guerra  a 

sério, recorrer a métodos revolucionários e derrubar a supremacia dos políticos 

escravistas  dos  estados  fronteiriços.  Um  único  regimento  de  pretos  teria  um 

efeito  notável  sobre  o  estado  de  ânimo  sulista.”

12

  Por  último,  se  Lincoln  não 



tomasse a iniciativa e abandonasse a via diplomática, Marx considerava que os 

estados do Noroeste e New England poderiam passar eles próprios à ação: “Se 

Lincoln não der um jeito (que ele, no entanto, vai dar), haverá uma revolução.” 

(M

ECW



, v. 41, 

P

. 400.) 



A perspectiva de uma revolução no Norte foi novamente exposta por Marx 

em  sua  carta  a  Engels  de  10  de  setembro.  Nessa  missiva,  ao  contrário  de  seu 

amigo,  afirmou  que  continuava  “firmemente  com  a  opinião  de  que  o  Norte 

venceria  no  final”,  muito  embora  a  guerra  pudesse  passar  por  várias  fases, 

inclusive  cessar-fogos.  As  vacilações  do  Norte  eram  para  ele  compreensíveis, 

embora não aceitáveis: “A maneira em que o Norte está travando a guerra não é 

senão o que se poderia esperar de uma república burguesa, onde a farsa reinou 

suprema por tanto tempo” (idem

P

. 416). O Sul, por sua vez, era dominado por 



uma  oligarquia  filibusteira  que  poderia  recorrer  aos  piores  métodos, 

empurrando o Norte a medidas extremas. Por essa razão, Marx não descartava 

que a república burguesa fosse levada a uma revolução: “É possível, é claro, que 

algum tipo de revolução venha a ocorrer no próprio Norte” (idem, ibidem.)  

Em setembro de 1862, Lincoln divulgou uma proclamação preliminar que 

anunciava a emancipação dos escravos de todos os territórios confederados que 

não retornassem à União até o dia 1º de janeiro do ano seguinte. A ameaça foi 

cumprida  e  uma  nova  proclamação  foi  divulgada  nesse  dia  emancipando  os 

escravos.  Escrevendo  em  outubro  de  1862,  Marx  considerou:  “o  manifesto 

abolindo  a  escravidão,  é  o  documento  mais  importante  na  história  americana 

desde  o  estabelecimento  da  União,  equivalente  a  rasgar  a  ponta  da  antiga 

                                                        

12  Marx  usa  uma  expressão  em  inglês:  “nigger  regiment”.  A  expressão  nigger  tem  hoje  um 

conteúdo extremamente preconceituoso racista e foi raríssimas vezes utilizada por Marx. O 

uso  que  fez  dela  em  sua  correspondência  pessoal,  assume,  segundo  Kevin  Anderson,  um 

significado  antirrascista,  uma  vez  que  dramaticamente  opõe  aos  escravistas  o  levante 

daqueles que mais odiavam e, ao mesmo tempo, mais temiam (2010, p. 98).  



Revista Outubro, n. 22, 2º semestre de 2014 

 

216 



Constituição americana.” (M

ECW


, v. 19, 

P

. 250.) Com a proclamação de Lincoln 



a guerra começava a tomar o rumo desejado por Marx e Engels desde o início e 

assumia o caráter de uma guerra revolucionária.  

Mas  o  ritmo  dessa  evolução  era  muito  mais  lento  do  que  o  desejado  por 

ambos.  No  dia  29  de  outubro,  Marx  voltou  a  considerar  a  própria  natureza 

burguesa da democracia norte-americana como uma trava para a realização de 

uma  guerra  revolucionária:  “Como  outros,  é  claro  que  estou  ciente  da  forma 

desagradável  assumida  pelo  movimento  chez  Yankees,  mas,  tendo  em  conta  a 

natureza de uma democracia 'burguesa', acho isso explicável.” (M

ECW

, v. 41, 



P

421.)  Por  razões  semelhantes  Engels  maninha  sua  atitude  reticente  e 



desconfiada perante os eventos nos Estados Unidos.  

Em uma carta de 5 de novembro de 1862, Engels manifestou suas diferenças 

com  seu  amigo  Marx:  “não  estou  certo  de  que  os  eventos  se  desenvolvam  de 

uma  forma  tão  clássica  como  você  imagina”  (M

ECW

,  v.  19, 



P

.  423).  A 

passividade do povo no Norte, que aparentemente não via a guerra como “uma 

verdadeira  questão  de  sua  existência  nacional”,  aumentava  seu  pessimismo. 

Engels  demonstrava  forte  antipatia  por  um  povo  que  apesar  de  estar  em 

superioridade  numérica  deixava-se  abater  e  cuja  única  descoberta  depois  de 

tantos meses de guerra teria sido a de que “todos os seus generais são idiotas e 

seus  funcionários,  vigaristas  e  traidores.  As  coisas  deveriam  certamente  tomar 

um rumo diferente, mesmo em uma república burguesa” (idem, ibidem).  

Ao  invés  de  uma  revolução  no  Norte,  como  Marx  parecia  ver,  Engels 

considerava  mais  provável  “uma  contrarrevolução  democrática  e  uma  paz 

vazia”  que  aceitasse  a  divisão  dos  estados  da  fronteira  (idem,  ibidem).  As 

reservas de Engels não lhe impediam, entretanto, de manter firme seu apoio ao 

Norte  contra  o  Sul  escravista.  Marx  não  partilhava  desse  pessimismo, 

considerava  que  os  sulistas  enfrentavam  maiores  problemas  do  que  os 

percebidos por seu companheiro. e achou por bem censurá-lo em uma carta do 

dia  17  novembro:  “Parece-me  que  você  adota  um  ponto  de  vista  unilateral  da 

confusão americana” (M

ECW

, v. 41, 



P

. 429).  

A  colaboração  de  Marx  com  Die  Presse  encerrou-se  no  mês  seguinte.  A 

partir daí suas pesquisas para a redação de O Capital ocuparam a maior parte de 

seu tempo e o tema da guerra civil nos Estados Unidos tornou-se cada vez mais 

raro  na  correspondência  entre  os  dois  amigos.  Engels  permaneceu  com  suas 




Lincoln, Marx e a guerra civil nos Estados Unidos 

 

 



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reservas, principalmente a respeito da habilidade militar dos generais do Norte. 

Em  maio  de  1864  os  exércitos  da  União,  comandados  pelo  general  Grant 

lançaram a terceira ofensiva contra Richmond, a sede do governo confederado. 

Embora  considerasse  Grant  o  mais  talentoso  dos  generais  do  Norte,  Engels 

angustiava-se com as manobras militares: “A campanha da Virginia é mais uma 

vez  caracterizada  pela  inconclusão,  ou  mais  precisamente,  pela  dificuldade  de 

levá-la a qualquer forma de decisão” (idem

P

. 531). Marx respondeu no início 



de junho: “As notícias da América parecem-me boas.” (idem

P

. 538.) 



Em setembro de 1864, Engels ainda continuava preocupado. As eleições se 

aproximavam  e  embora  a  reeleição  de  Lincoln  fosse  dada  como  certa,  a 

campanha  eleitoral  influenciava  a  condução  militar  do  conflito  (idem

P

.  559). 



Embora  mais  otimista,  Marx  mantinha-se  cuidadoso,  principalmente  devido  a 

sua  desconfiança  nas  instituições  políticas  dos  Estados  Unidos:  “No  que  diz 

respeito  à  América  eu  considero  o  presente  momento,  entre  nous

extremamente  crítico.  (…)  As  eleições,  em  um  país  que  é  o  arquétipo  do 

embuste  democrático  é  cheia  de  armadilhas  que  podem  inesperadamente 

desafiar a lógica dos eventos” (idem

P

. 561-562). Marx previa, entretanto, que 



uma  verdadeira  revolução  poderia  ter  lugar.  Se  Lincoln  perdesse  a  eleição 

poderia  ocorrer  uma  “revolução  genuína”,  um  levante  popular  contra  os 

escravistas.  Mas  se  ele  vencesse,  a  hipótese  mais  provável,  a  situação  também 

seria  favorável,  uma  vez  que  o  presidente  exerceria  seu  novo  mandato  com 

“uma  plataforma  muito  mais  radical  e  em  circunstâncias  completamente 

diferentes” das anteriores (idem

P

. 562).  



A  guerra  assumiu,  de  fato,  novas  características  após  a  proclamação  de 

janeiro de 1863. Em sua clássica análise do período, publicada originalmente em 

1935, o historiador negro W. E. B. Du Bois (1868-1963), considerou que a fuga 

de  escravos  das  plantações  do  Sul  durante  a  guerra  teve  o  alcance  de  uma 

verdadeira greve geral:   

“esses  escravos  tem  um  enorme  poder  em  suas  mãos.  Simplesmente 

parando  de  trabalhar  eles  pode  ameaçar  de  inanição  a  Confederação. 

Caminhando para os campos da Federação eles mostraram a vacilantes 

nortistas  a  possibilidade  de  usá-los  facilmente  e,  ao  mesmo  tempo, 

privar os inimigos de usa-los em seus campos” (D

B

OIS



, 1999, 

P

. 121). 




Revista Outubro, n. 22, 2º semestre de 2014 

 

218 



Para Du Bois, foi essa greve geral dos trabalhadores negros a causa principal 

da derrota dos exércitos confederados. Acossados atrás de suas próprias linhas 

os  escravistas  tiveram  que  escolher  entre  perder  a  guerra  e  perder  suas 

plantações.  Em  novembro  de  1864,  Engels,  em  carta  a  seu  amigo  Joseph 

Weydemeyer,  o  qual  se  encontrava  lutando  na  América  contra  os  escravistas, 

não  relutou  em  considerar  a  guerra  civil  nos  Estados  Unidos,  uma  “guerra 

popular (...) sem lugar desde que os grandes estados passaram a existir e a qual 

poderá,  no  final,  apontar  a  direção  para  o  futuro  de  toda  a  América  pelos 

próximos  séculos.”  (M

ECW


,  v.  42, 

P

.  39).  A  abolição  da  escravidão  era 



considerada  um  acontecimento  histórico  transcendente  o  qual  liberaria  as 

forças produtivas e reposicionaria os Estados Unidos no cenário internacional:  

“Uma  vez  que  a  escravidão,  o  maior  grilhão  sobre  o  desenvolvimento 

político e social dos Estados Unidos, foi quebrada, o país é obrigado a 

receber  um  impulso  que  lhe  permitirá  adquirir,  dentro  do  menor 

tempo possível, uma posição bastante diferente na história do mundo, 

e  um  uso  será  encontrado,  logo  a  seguir,  para  o  exército  e  a  marinha 

que a guerra lhe fornece” (idem

P

. 59).  


No  início  de  1865  a  guerra  já  estava  decidida.  Engels  dizia  a  seu  irmão 

Rudolf  que  “o  Sul  está  gradualmente  exaurindo-se  e  não  pode  substituir  seus 

exércitos,  enquanto  o  Norte  ainda  não  mobilizou  metade  de  seus  recursos.” 

(idem

P

. 61.) Em 3 março, o mesmo Engels escreveu a Marx para dizer-lhe que 



considerava que em um mês estaria tudo decidido, o que de fato ocorreu no dia 

9  de  abril,  quando  o  general  Robert  E.  Lee  (1807–1870)  finalmente  se  rendeu 

perante Grant em Appomattox (M

ECW


, v. 42, 

P

. 113).  



 

A Associação Internacional dos Trabalhadores e Lincoln  

Marx  conhecia  a  insistência  com  a  qual  Lincoln  afirmou  nos  primeiros 

meses do conflito que a guerra não era contra a escravidão e sim em defesa da 

União.  Desejoso  de  manter  o  apoio  dos  membros  do  Partido  Democrático  do 

Norte  e  neutralizar  os  escravistas  dos  estados  fronteiriços  o  presidente  dos 

Estados  Unidos  postergou  o  conflito  ao  máximo  e  repetidas  vezes  afirmou  a 

intenção  de  manter  a  escravidão  nos  estados  nos  quais  ela  já  era  legalmente 

reconhecida. 



Lincoln, Marx e a guerra civil nos Estados Unidos 

 

 



219 

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Como  visto,  Marx  e  Engels  consideravam  que  a  relutância  em  conduzir 

uma  guerra  revolucionária  contra  os  escravistas  assentava  suas  raízes  no 

embuste da democracia “burguesa”. A permanente necessidade de conciliar os 

interesses  das  diversas  frações  das  classes  dominantes  no  âmbito  parlamentar, 

dentre  as  quais  as  forças  escravistas  existentes  no  Norte  e  nos  territórios 

fronteiriços,  levou  o  governo  a  adiar  ao  máximo  a  emancipação  dos  escravos 

nos  territórios  confederados  e  a  criar  regimentos  de  negros  livres  e  armados. 

Lincoln,  cumpria,  desse  modo,  o  papel  que  lhe  era  exigido  e  para  o  qual  era 

talhado. 

A  contraposição  que  Marx  fez  entre  as  personalidades  de  Frémont  e 

Lincoln, quando o primeiro foi demitido de seu cargo, em novembro de 1861, 

permite  reconstruir  de  modo  mais  preciso  sua  opinião  a  respeito  do 

presidencialismo  estadunidense  e  de  seu  principal  mandatário.  Longe  de 

apresentá-lo como um “grande estadista”, para os leitores de Die Presse, Marx 

via Lincoln como a expressão de uma máquina política que se caracterizava por 

selecionar figuras completamente medíocres:  

“Durante as duas últimas décadas, desenvolveu-se nos Estados Unidos 

a  prática  singular  de  não  eleger  para  a  presidência  um  homem  que 

ocupasse  uma  posição  de  autoridade  em  seu  próprio  partido.  Tais 

homens, é verdade, foram utilizados para manifestações eleitorais, mas 

assim  que  se  passava  a  assuntos  importantes  eles  eram  retirados  e 

substituídos  por  mediocridades  desconhecidas,  influentes  apenas 

localmente.  Desta  maneira  Polk,  Pierce,  Buchanan,  etc,  tornaram-se 

presidentes.  Da  mesma  forma  Abraham  Lincoln.  O  general  Andrew 

Jackson foi de fato o último presidente dos Estados Unidos que devia 

seu posto a sua importância pessoal, enquanto todos os seus sucessores 

deviam  isso,  pelo  contrário,  a  sua  insignificância  pessoal.”  (M

ECW

,  v. 


19, 

P

. 86.)



13 

Ao  contrário  do  impetuoso  Frémont,  o  presidente  eleito  dos  Estados 

Unidos era absolutamente previsível e movia-se sempre, como um advogado do 

interior,  nos  estreitos  limites  da  Constituição  e  recusando  o  conflito  aberto 

contra  os  escravistas:  “Lincoln,  de  acordo  com  a  sua  tradição  jurídica,  tem 

                                                        

13  Obviamente, Marx era mais cuidadoso com as palavras usadas quando se dirigia ao público 

dos  Estados  Unidos.  Uma  das  limitações  das  recentes  análises  é,  justamente,  não  perceber 

essa diferença.  



Revista Outubro, n. 22, 2º semestre de 2014 

 

220 



aversão  por  todo  gênio,  ansiosamente  se  apega  à  letra  da  Constituição  e  se 

envergonha  de  todo  passo  que  possa  prejudicar  os  ‘leais’  senhores  de  escravos 

dos estados fronteiriços.” (idem

P

. 87).  



A opinião de Marx não mudou sequer quando teve notícia da proclamação 

da emancipação dos escravos dos estados confederados, em setembro de 1862. 

Pelo  contrário,  não  deixou  de  perceber  na  declaração  a  hesitação  típica  do 

presidente:  

“A figura do presidente Lincoln é sui generis nos anais da história. Sem 

iniciativa,  sem  eloquência,  sem  altivez,  sem  roupagem  histórica.  Ele 

sempre  apresenta  os  atos  mais  importantes  da  maneira  mais 

insignificante possível. (…) Hesitante, resistente, relutante, ele marca a 

aura  de  bravura  de  seu  papel  como  se  tivesse  que  pedir  perdão  pelas 

circunstâncias que o forçaram 'a ser um leão'” (idem

P

. 250.) 


Marx insistia: “Lincoln não é o produto de uma revolução popular”. Ele não 

era feito da mesma matéria de Robespierre, Saint Just e Danton. O juízo era frio 

e duro: “sem brilho intelectual, sem um caráter particularmente destacável, sem 

nenhuma  importância  excepcional;  uma  pessoa  mediana  de  boa  vontade” 

(idem, ibidem.) Ainda assim, a organização social e política dos Estados Unidos 

havia  permitido  que  essa  personalidade  insignificante  ocupasse  um  lugar 

proeminente na história mundial.  

Essa  percepção  dos  limites  das  instituições  dos  Estados  Unidos  e  seu 

presidente  não  impediram  Marx  e  Engels  de  procurarem  pressionar  o 

movimento  abolicionista  e  o  próprio  Lincoln  em  direção  à  guerra 

revolucionária. A revolução não foi uma das causas da guerra civil, mas poderia 

ser  uma  de  suas  consequências.  É  nessa  perspectiva  que  deve  ser  lida  a 

surpreendente  mensagem  que  a  recém-fundada  Associação  Internacional  dos 

Trabalhadores  (AIT),  enviou  ao  presidente  dos  Estados  Unidos.  A  redação  de 

uma  mensagem  de  apoio  a  Lincoln  havia  sido  proposta  por  Alexander  Dick  e 

George Howell (1833-1910), membros do Conselho Central da AIT na reunião 

do  dia  22  de  novembro.  Marx  parece  não  ter  ficado  muito  satisfeito  com  a 

proposta e assumiu a contragosto a missão de ter que redigir a carta para que 

outros  não  o  fizessem,  como  dá  a  entender  a  Engels,  em  uma  carta  de  2  de 

dezembro de 1864: 




Lincoln, Marx e a guerra civil nos Estados Unidos 

 

 



221 

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“A  Mensagem  para  Lincoln  está  agora  na  agenda  novamente,  e 

novamente eu tive que compor a coisa (que é muito mais difícil do que 

escrever um trabalho adequado), na medida em que a fraseologia para 

esse tipo de escrita é limitada, mas ela está pelo menos distinguível da 

fraseologia vulgar-democrática” (M

ECW

, v. 42, 



P

. 49.) 


O  texto  de  Marx  foi  aprovado  pelo  Conselho  Central  no  dia  29  de 

novembro, depois de intensa discussão. Alguns queriam que, de acordo com a 

tradição predominante na Inglaterra, a mensagem a Lincoln fosse encaminhada 

por um parlamentar. Mas essa proposta foi derrotada. Também foi derrotada a 

proposta  de  Victor  Le  Lubez  (1834-?),  o  qual  propôs  que  a  mensagem  fosse 

endereçada ao povo dos Estados Unidos e não a seu presidente (idem, ibidem). 

William R. Cremer (1828-1908), secretário da AIT, utilizou seus contatos com o 

governo dos Estados Unidos para fazer a carta chegar a seu destinatário.  

A mensagem redigida por Marx logo após a reeleição de Lincoln expressa a 

opinião  de  que  em  um  segundo  mandato  o  presidente  poderia  assumir  “uma 

plataforma  muito  mais  radical”:  “Congratulamos  o  povo  da  América  pela  sua 

reeleição por larga maioria. Se a resistência ao Poder Escravista foi a palavra de 

ordem  reservada  de  sua  primeira  eleição,  o  grito  de  guerra  triunfal  de  sua 

reeleição  é  Morte  à  Escravidão.”  (M

ECW

,  v.  20, 



P

.  19.)  A  mensagem  da  AIT 

revela que Marx havia passado a considerar, ou pelo menos a tornar explícito, o 

nexo  existente  entre  a  emancipação  do  trabalho  e  o  fim  da  escravidão.  Sem  a 

emancipação  dos  negros  a  exploração  dos  trabalhadores  assalariados  não 

poderia ter um fim. A libertação dos escravos era, assim, uma condição para a 

emancipação de todos os trabalhadores do mundo:  

“Enquanto  os  trabalhadores,  as  verdadeiras  forças  políticas  do  Norte, 

permitirem  que  a  escravidão  contamine  sua  própria  república, 

enquanto perante o negro, dominado e vendido sem a sua anuência, os 

trabalhadores  de  pele  branca  ostentem  a  mais  alta  prerrogativa  do 

trabalhador  de  venderem-se  a  si  mesmos  e  escolherem  seus  próprios 

mestres,  eles  serão  incapazes  de  atingir  a  verdadeira  liberdade  de 

trabalho,  ou  de  apoiar  seus  irmãos  europeus  na  sua  luta  pela 

emancipação, mas essa barreira ao progresso tem sido varrida pelo mar 

vermelho de guerra civil.” (idem

P

. 20.) 


Marx  esperava  que  assim  como  a  guerra  de  independência  dos  Estados 

Unidos  havia  revitalizado  a  burguesia  europeia,  a  guerra  antiescravista  na 




Revista Outubro, n. 22, 2º semestre de 2014 

 

222 



América fortalecesse a luta das classes trabalhadoras europeias. A mensagem era 

concluída de modo dramático:  

“Eles  [os  trabalhadores]  consideram  uma  dádiva  da  época  que  tenha 

sido  Abraham  Lincoln,  o  dedicado  filho  da  classe  trabalhadora  [the 






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