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New York Daily Tribune era um empreendimento comercial e a tiragem de 200 

mil exemplares diários fazia dele um negócio bem sucedido. Marx, entretanto, 

recebia  apenas  duas  libras  por  artigo  e  o  jornal  havia  se  comprometido  a 

publicar dois deles por semana. A guerra civil interrompeu as encomendas e, a 

partir de janeiro de 1861, o jornal não publicou outros artigos de Marx, para seu 

desespero.

1

  Em  outubro  desse  ano  a  colaboração  foi  retomada,  mas  em  novas 



bases.  O  New  York  Daily  Tribune  voltou  a  publicar  os  artigos  de  Marx  com 

grande destaque “em um lugar proeminente e particularmente, com anúncio na 

primeira página do jornal” como contou exultante a seu amigo Engels em carta 

de  30  de  outubro  de  1861  (M

ECW

,  v.  41, 



P

.  323).  Mas  o  jornal  novaiorquino 

aproveitou  a  ocasião  para  diminuiu  o  valor  pago  por  artigo  e  passou  a 

remunerar somente textos que escolhia publicar.  

                                                        

1  Em fevereiro de 1862 Marx escreveu a Philipp Becker: “A guerra civil americana significou a 

perda total de minha principal fonte de recursos por um ano. Subsequentemente (há um par 

de meses), os 'negócios' foram restabelecidos, mas em bases muito 'restritas'.” (MECW, v. 41, 

p. 341). 



Lincoln, Marx e a guerra civil nos Estados Unidos 

 

 



205 

A

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ar

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 B



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nc

hi



 

Em  maio  de  1861,  Marx  escreveu  a  Lion  Philips  que  havia  “recebido  uma 

vantajosa  oferta  de  Die  Presse,  de  Viena”,  a  qual  aceitaria  depois  que  “alguns 

pontos  ambíguos”  fossem  esclarecidos  (M

ECW

,  v.  41, 



P

.  277).  Quando  esse 

jornal liberal revisou sua atitude e passou a se opor ao governo de Anton von 

Schmerling  (1815-1893),  Marx  considerou  que  poderia  começar  a  colaborar 

com  ele,  como  deixou  claro  em  sua  carta  a  Engels  de  28  de  setembro  de  1861 

(idem,  ibidem

P

.  321).


2

  A  colaboração  de  Marx  com  o  Die  Presse  durou  de 

outubro de 1861 a dezembro de 1862. Marx escrevia ao preço de uma libra por 

artigo e dez shillings por relato. Embora o jornal fizesse intensa propaganda dos 

artigos de Marx em suas páginas o pagamento não era mais assíduo do que o de 

seu  congênere  americano,  o  que  fazia  com  que  o  Mouro,  em  uma  situação  de 

penúria, reclamasse com seu amigo Engels:  

“Eu não estou muito preocupado com o fato deles não publicarem os 

melhores  artigos  (embora  eu  sempre  os  escreva  de  tal  forma  que  eles 

poderiam  muito  bem  fazê-lo),  mas  é  financeiramente  impossível  para 

mim  quando  publicam  apenas  um  de  cada  quatro  ou  cinco  e  pagam 

apenas por esse. Isso me deprime muito abaixo do padrão dos penny-

a-liners” (Idem, ibidem

P

. 351). 



Nenhum desses jornais era socialista ou dirigido para a classe trabalhadora. 

A linguagem e a abordagem utilizadas por Marx e Engels nesses artigos eram, 

portanto,  cuidadosas.  A  seleção  dos  temas,  também.  No  New  York  Daily 

Tribune publicava os artigos de análise da política europeia, particularmente a 

inglesa. Em Die Presse, por sua vez, foram divulgadas a maior parte das análises 

políticas  e  militares  da  guerra  civil  nos  Estados  Unidos.  Alguns  artigos  sobre 

questões militares foram também assinados por Engels, mas o pagamento ficava 

todo com Marx. 

A  análise  da  correspondência  de  Marx  e  Engels  e  dos  artigos  publicados 

nesses jornais não deixam dúvidas de que ambos, desde o primeiro momento, 

consideraram  que  o  conflito  entre  Norte  e  Sul  tinha  na  questão  da  escravidão 

seu ponto principal e assumiram o partido da União no conflito. Comentando a 

imprensa  britânica,  a  qual  havia  assumido  de  modo  quase  unânime  o  partido 

dos escravocratas, Marx escreveu: 

                                                        

2  Von Schmerling foi ministro do Interior do Império Austríaco de 1860 a 1865. 



Revista Outubro, n. 22, 2º semestre de 2014 

 

206 



“Se é verdade que o Norte, depois de longas hesitações, e de exibir uma 

paciência  desconhecida  nos  anais  da  história  da  Europa,  empunhou 

finalmente a espada, não para esmagar a escravidão, mas para salvar a 

União,  o  Sul,  por  sua  parte,  inaugurou  a  guerra  proclamando  'a 

instituição  peculiar'  como  o  fim  único  e  principal  da  rebelião. 

Confessou  a  lutar  pela  liberdade  de  escravizar  outras  pessoas,  uma 

liberdade  que,  apesar  dos  protestos  do  Norte,  afirmou  ser  posta  em 

perigo  pela  vitória  do  Partido  Republicano  e  a  eleição  do  Sr.  Lincoln 

para a cadeira presidencial.” (M

ARX


, 1972, 

P

. 53-54.)



3

  

A  forma  como  o  conflito  se  apresentava  era,  entretanto,  mediada  pela 



política conciliadora do governo federal. Os secessionistas deixavam claros seus 

propósitos, mas os partidários do governo federal não faziam da emancipação 

dos escravos sua bandeira: “Se o Norte professava lutar apenas pela União, o Sul 

glorificava a rebelião pela supremacia da escravidão” (idem, ibidem.).

4

 Ao longo 



do  século  XIX  os  escravistas  haviam  utilizado  a  União  para  seus  propósitos, 

contando para tal com a colaboração do Partido Democrático no Norte (M

ECW



v.  19, 



P

.  9).  As  sucessivas  acomodações  e  compromissos  entre  o  Norte  e  o  Sul 

resultaram sempre em benefício deste último, a tal ponto que “a União tornou-

se,  mais  e  mais,  escrava  dos  escravistas”  (idem,  ibidem).  Embora  muitos 

políticos  do  Norte  apoiassem  a  escravidão,  Marx  percebeu  a  emergência,  na 

segunda metade da década de 1850, de sinais de mudança e conflito:  

                                                        

3  Publicado no NYDT, 11 Oct. 1861. Uma “instituição particular” foi o eufemismo utilizado 

pelo vice-presidente da Confederação, Alexander H. Stephens para referir-se à escravidão no 

famoso  The  Corner  Stone  Speech,  de  21  de  março  de  1861.  Segundo  Stephens:  “A  nova 

constituição  [da  Confederação]  assentou,  para  sempre,  todas  as  agitadas  questões 

relacionadas com a nossa instituição peculiar , a escravidão Africano como existe entre nós, 

o  estado  adequado  do  negro  em  nossa  forma  de  civilização.  Esta  foi  a  causa  imediata  da 

anterior  ruptura  e  da  revolução  atual.”  (Stephens,  1866,  p.  721)  O  discurso  do  vice-

presidente também deixava clara qual era a real causa da guerra: “Nosso novo governo está 

fundado  (…)  sobre  a  grande  verdade,  que  o  negro  não  é  igual  ao  homem  branco;  que  a 

subordinação do escravo à raça superior é a sua condição natural e normal” (idem, ibidem). 

4  Explicando a John A. Gilmer suas a respeito do programa do Partido Republicano, Lincoln 

escreveu: “Eu não pensei de recomendar a abolição da escravidão no Distrito de Columbia, 

nem  o  tráfico  de  escravos  entre  os  estados,  mesmo  nas  condições  indicadas,  e  se  eu  fosse 

fazer tal recomendação, é bastante claro o Congresso não poderia segui-la.” (Lincoln, 2009, 

p.  212).  Sobre  o  reconhecimento  da  escravidão  no  estados  em  que  já  era  aceita,  Lincoln 

escreveu: a Gilmer: “Você pensa que a escravidão é certa e deve ser estendida; nós pensamos 

que é errada e deve ser restrita. Mas isso não é um motivo para ficarmos zangados um com o 

outro” (idem, ibidem). 



Lincoln, Marx e a guerra civil nos Estados Unidos 

 

 



207 

A

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“A  guerra  do  Kansas,  a  formação  do  Partido  Republicano,  e  a  grande 

votação recebida pelo o Sr. Frémont durante a eleição presidencial de 

1856, eram muitas provas palpáveis de que o Norte acumulara energias 

suficientes para corrigir as aberrações que história dos Estados Unidos, 

sob  a  pressão  proprietários  de  escravos,  tinha  sofrido,  durante  meio 

século,  e  para  voltarem  aos  verdadeiros  princípios  do  seu 

desenvolvimento” (idem, ibidem

P

. 10.) 


Em suma, “o violento choque de forças antagonistas. A fricção, a força que 

moveu a história por meio século” fazia-se sentir de modo cada vez mais aberto 

no território americano (idem, ibidem). A análise de Marx tornava-se mais clara 

e  precisa  em  um  artigo  publicado  poucos  dias  depois  em  Die  Presse.

5

  Ao 


contrário do que o secessionistas e a imprensa inglesa afirmavam, o levante do 

Sul  não  teria  sido  um  protesto  contra  as  tarifas  protecionistas  aprovadas  pelo 

Congresso.  Estas  teriam  sido  votadas  apenas  em  março  de  1861,  depois, 

portanto,  da  rebelião  ter  sido  declarada.  Mesmo  no  Sul  houve  quem  se 

beneficiasse da nova legislação alfandegária, como os proprietários das fazendas 

de cana-de-açúcar da Louisiana.  

A razão principal para a ofensiva dos escravistas do Sul foi, segundo Marx, a 

necessidade  de  novos  territórios  e  da  extensão  territorial,  social  e  política  da 

escravidão  que  o  Sul  possuía:  “a  expansão  contínua  do  território  e  a  extensão 

contínua  da  escravidão  além  de  seus  antigos  limites  é  uma  lei  vital  para  os 

estados escravistas da União” (idem, ibidem

P

. 39).  



O  modelo  econômico  preponderante  nos  estados  do  Sul  era  o  da  grande 

plantação de algodão, açúcar e tabaco com o uso extensivo de terras e trabalho 

escravo.  O  esgotamento  do  solo  ocorria  rapidamente  obrigando  a  expansão 

territorial.  Antigos  estados  escravistas,  como  a  Virginia  e  Maryland,  deixaram 

de  ser  exportadores  de  produtos  agrícolas  e  passaram  a  ser  exportadores  de 

escravos para outros estados do Sul:  

“Assim  que  este  ponto  é  alcançado,  a  aquisição  de  novos  territórios 

torna-se necessária, para que uma parte dos escravistas possam ocupar, 

com  seus  escravos,  novas  terras  férteis  e  para  que  um  novo  mercado 

para a aquisição de escravos, portanto, para a venda de escravos, possa 

ser criado” (idem, ibidem

P

. 39-40)  



                                                        

5  Die Presse, 25 Oct. 1861. 




Revista Outubro, n. 22, 2º semestre de 2014 

 

208 



A expansão territorial também tinha objetivos políticos claros. O acelerado 

crescimento populacional do Norte havia alterado profundamente a balança de 

forças  no  Congresso  e  diminuído  fortemente  o  peso  político  do  Sul.  A  força 

política dos escravistas concentrou-se assim, quase exclusivamente, no Senado, 

onde  cada  estado  tinha  direito  a  duas  cadeiras,  independentemente  de  sua 

população. Para manter sua influência no Senado e na política o Sul necessitava 

da criação de novos estados escravistas, transformando os territórios existentes 

em  territórios  escravistas,  primeiro,  e  em  estados  escravistas,  depois  (idem, 



ibidem

P

. 41). 



Por  último,  a  expansão  era,  também,  uma  necessidade  social.  Restritos  a 

uma oligarquia de 300 mil proprietários, os escravistas do Sul necessitavam de 

novas  frentes  de  expansão  demográfica  que  permitissem  diminuir  a  pressão 

social  dos  “brancos  pobres”,  em  número  crescente  devido  à  concentração  de 

terras,  dando-lhes  a  perspectiva  de  se  tornarem,  também,  fazendeiros  e 

proprietários  de  escravos  (idem,  ibidem).  Sem  uma  significativa  expansão 

territorial,  política  e  social,  a  escravidão  perderia  força,  segundo  Marx,  e 

gradualmente se extinguiria, seria aniquilada na esfera política e ameaçada pelos 

“brancos pobres”.

6

 O Sul corria, segundo, Marx, contra o tempo e agiu de modo 



decidido.  

O programa político que os republicanos apresentaram nas eleições estava 

longe  de  ser  radical.  Propunham  que  os  escravistas  não  recebessem  novos 

territórios,  que  cessasse  a  política  externa  anexionista,  que  o  comércio  de 

escravos  permanecesse  interditado  e  que  as  terras  livres  dos  novos  territórios 

fossem  colonizadas  por  trabalhadores  livres  (idem,  ibidem

P

.  39).  Para 



conquistar  eleitores  no  Sul  do  país,  os  republicanos  silenciavam  sobre  a 

emancipação dos escravos dos estados nos quais ela era considerada legal. Mas 

mesmo  essa  tímida  plataforma  eleitoral  já  era  suficiente  para  que  a  vitória  no 

pleito  levasse  a  uma  luta  aberta  entre  o  Norte  e  o  Sul  (idem,  ibidem

P

.  41).  A 



conclusão de Marx era taxativa: 

“Todo  o  movimento  era  e  é  baseado,  como  se  vê,  na  questão  da 






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