Meu chefe é um algoritmo: um novo instrumento de opressão ou mecanismo de libertaçÃO? My boss is an algorithm: a new instrument of oppression or mechanism of liberation?


O TRABALHO NAS PLATAFORMAS DIGITAIS: OPRESSÃO OU LIBERTAÇÃO?



Baixar 94.24 Kb.
Página5/13
Encontro17.03.2020
Tamanho94.24 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   13
3. O TRABALHO NAS PLATAFORMAS DIGITAIS: OPRESSÃO OU LIBERTAÇÃO?
A utilização massiva das novas tecnologias da informação e comunicação, combinada com o uso intensivo da IA e dos algoritmos, vêm impactando diretamente os postos de trabalho, a ponto de os especialistas revelarem preocupação com o desaparecimento da figura do trabalhador. Para o mercado de trabalho, o desenvolvimento das ferramentas tecnológicas permitiu uma redução de custos para as empresas, maior facilidade nas transações comerciais e maior velocidade no fluxo das informações.9

Contudo, tal mudança impulsionada pela quarta Revolução Industrial e pela globalização trouxe um quadro de apreensão e incerteza. Se antes as empresas preferiam contar com quadro próprio de trabalhadores, dependentes e subordinados para a prestação de serviços, hoje tal necessidade não se faz mais presente frente à expansão do trabalho em ambientes virtuais. A principal consequência disso, como se abordará, é a subtração da face humana.

A expansão do trabalho em plataformas digitais tem desencadeado um novo modelo de ocupação profissional, caracterizado pela descentralização das atividades, pela ausência de um estabelecimento físico, pela prestação de serviços mais especializados, ensejando a criação de uma nova modalidade de ocupação profissional. Nesse novo contexto, as empresas não contratam mais trabalhadores (salvo os estritamente necessários), sendo apenas responsável por colocar os usuários em contato com os prestadores de serviço (pessoa individual, autônoma e independente).

O exemplo desta transformação é a chamada uberização do trabalho, definida pela pesquisadora Ludmila Costhek Abílio, doutora em Ciências Sociais pela UNICAMP, como um processo que ganhou grande visibilidade com a entrada da empresa Uber no mercado e seus milhões de motoristas cadastrados pelo mundo. Em entrevista concedida ao Instituto Humanitas Unisinos, a pesquisadora explica que a nova modalidade de trabalho vai muito além do Uber e da economia digital: “a uberização é um novo passo tanto nas terceirizações quanto na redução do trabalhador à pura força de trabalho, disponível, desprotegida, utilizada na exata medida das demandas do mercado” (SILVA, 2018).

O novo modelo de mercado de trabalho têm se revelado uma excelente ferramenta para o mundo dos negócios, aumento da produtividade, redução de custos e gestão das empresas, as quais não precisam promover processos seletivos, realizar treinamentos, promover a adaptação dos recém contratados, tampouco há preocupação com a observância dos direitos trabalhistas e com processos demissionários.

Contudo, os mesmos benefícios não se verificam em relação ao prestador do serviço, a quem o sociólogo Ricardo Antunes chama de escravo digital, na sua obra ‘O Privilégio da Servidão: o novo proletariado dos serviços na era digital’. O sociólogo enxerga a automação como uma maior precarização do trabalho humano e menciona o caso do esquema “zero hora”, nascido na Inglaterra, o qual vem ganhando espaço no mundo. Antunes (2018) destaca que a instabilidade e a insegurança são traços constitutivos das novas modalidades de trabalho e complementa que:


Trata-se de uma espécie de trabalho sem contrato, no qual não há previsibilidade de horas a cumprir nem direitos assegurados. Quando há demanda, basta uma chamada e os trabalhadores e as trabalhadoras devem estar on-line para atender o trabalho intermitente. As corporações se aproveitam: expande-se a “uberização”, ampliasse a “pejotização”, florescendo uma nova modalidade de trabalho: o escravo digital. Tudo isso para disfarçar o assalariamento (ANTUNES, 2018).
O trabalho intermediado pelas plataformas digitais, além de promover a coisificação do trabalhador, convertendo-o em uma ferramenta com disponibilidade permanente, sem garantia de direitos, aumenta a precarização do mercado de trabalho e a superexploração, comprometendo o futuro dos trabalhadores. A prática tem demonstrado que, se num primeiro momento laborar nessa modalidade oferecia a sensação de flexibilidade para exercer as atividades como e quando quiser, a realidade tem se mostrado diversa: a alta competitividade entre profissionais exige entregas excessivamente rápidas, prazos apertados e muitas horas de trabalho.

Outro dado preocupante apontado pelo Jornal Financial Times é que no novo modelo de mercado de trabalho, os profissionais são chefiados por algoritmos, através de seus smartphones. A nova gerência algorítmica “direciona, instrui, controla e avalia o trabalho do empregado à distância, de forma anônima e utilizando um dispositivo eletrônico como intermediário.” (GAULIA, 2018). Contudo, se de um lado há uma redução das despesas e dos custos e uma multiplicação de serviços para os consumidores, de outro, há um empobrecimento das relações de trabalho, subtraindo a face humana do contexto.

No novo modelo, no qual são oferecidas venda de serviços on-line, os trabalhadores realizam tarefas a distância e são avaliados por quem os contrata, criando-se uma espécie de sistema de reputação online.10 Ou seja, no trabalho via plataformas digitais, a empresa figura como uma mediadora entre o trabalhador e o cliente, terceirizando todos os elementos possíveis considerados custos do trabalho, inclusive a própria avaliação do trabalho prestado fica a cargo dos clientes usuários, que automaticamente controlam a qualidade do serviço.

Assim, a subordinação, um dos elementos da relação de emprego, passa por adaptações, isso porque na uberização do trabalho, a subordinação não desaparece. O empregado, antes fiscalizado pelo empregador, passa a ser controlado por avaliações de terceiros, surgindo uma nova forma de subordinação e, com base nas informações dos clientes, são tomadas as decisões da empresa, inclusive a própria dispensa do trabalhador. Nas palavras do Professor Adrián Todolí Signes:


La aplicación de la presente doctrina al nuevo tipo de empresa, deja pocas dudas de que la plataforma es la que dicta las normas organizativas de obligado cumplimiento que considera necesarias, mientras que el trabajador solo puede aceptarlas o no trabajar. No nos encontramos ante el paradigma de la "coordinación de actividades" entre empresarios, sino ante una serie de normas impuestas por la empresa propietaria de la plataforma virtual que el trabajador que quiera sumarse ha de cumplir11 (SIGNES, 2015, p. 12).
Estudo realizado por professores da Universidade de Oxford, na Inglaterra, com mais de 700 profissionais que atuam em plataformas desse tipo em países da Ásia e da África, apontou que “a organização por algoritmo das plataformas, que rankeia os trabalhadores de acordo com a avaliação feita pelos clientes, substitui outros tipos de controle de trabalho remoto” (ARCOVERDE, 2018). Quanto à questão da liberdade para os profissionais, o estudo revela que:
Mais da metade acha que a demanda por trabalhadores nas plataformas é pequena comparada com a oferta, e a grande maioria (80%) diz que seu ritmo de trabalho é totalmente determinado pelas exigências dos clientes. "A autonomia de trabalhar na 'economia dos bicos' geralmente vem às custas de fazer horários longos, irregulares a pouco sociais, o que pode levar à falta de sono e à exaustão", diz Alex Wood, pesquisador do Oxford Internet Institute e coautor do estudo. Para se destacar em meio a outros profissionais, muitos tentam ser mais rápidos que os concorrentes. Mais da metade (54%) diz trabalhar em alta velocidade, 60% precisam cumprir prazos apertados, 54% reportam perder horas de sono para entregar os trabalhos e 22% têm problemas com dores como resultado do trabalho (ARCOVERDE, 2018).
Tal rotina enfrentada pelos trabalhadores uberistas12 retrata aquilo que o filósofo sul coreano Byung-Chul Han denomina de a ‘sociedade do cansaço’, fruto da ‘sociedade do desempenho’, na qual as pessoas cobram-se cada vez mais por melhores resultados, pela maximização da produção, tornando-se, elas próprias, exploradoras de si mesmas, a ponto de trabalharem mais e ganharem menos. Com relação à liberdade e seus efeitos na sociedade do desempenho, Han (2015, p. 29-30) traz a seguinte reflexão:
O sujeito de desempenho está livre da instância externa de domínio que o obriga a trabalhar ou que poderia explorá-lo. É senhor e soberano de si mesmo. Assim, não está submisso a ninguém ou está submisso apenas a si mesmo. É nisso que ele se distingue do sujeito de obediência. A queda da instância dominadora não leva à liberdade. Ao contrário, faz com que liberdade e coação coincidam. Assim, o sujeito de desempenho se entrega à liberdade coercitiva ou à livre coerção de maximizar o desempenho. O excesso de trabalho e desempenho agudiza-se numa autoexploração. Essa é mais eficiente que uma exploração do outro, pois caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade. O explorador é ao mesmo tempo o explorado. Agressor e vítima não podem mais ser distinguidos. Essa autorreferencialidade gera uma liberdade paradoxal que, em virtude das estruturas coercitivas que lhe são inerentes, se transforma em violência. Os adoecimentos psíquicos da sociedade de desempenho são precisamente as manifestações patológicas dessa liberdade paradoxal.
A base operacional de prestação de serviço via aplicativo não traz ganhos para a pessoa que presta serviço.13 Além de desmantelar direitos fundamentais do trabalhador, promover maior precariedade e segmentação laboral, o trabalho desenvolvido nas plataformas digitais compromete a saúde do trabalhador e representa fator de risco laboral. O novo modelo de trabalho promovido pela revolução tecnológica vem desencadeando um processo de adoecimento dos trabalhadores, que se veem bombardeados pela pressão para o atingimento de metas cada vez maiores, por uma desvalorização sua e do seu trabalho, pela grande concorrência para menos trabalho, pela pouca criatividade e capacidade de controle, pela falta de perspectiva de um futuro estável e pelo consumo de remédios tarja preta, em razão da ansiedade, da depressão e da perda de sentido do trabalho.

O processo de precarização das relações de trabalho, que vem se firmando com o novo modelo de trabalho, fortifica a autoexploração, os processos de adoecimento mental, as práticas de assédio moral, o desalento, além de acentuar o hiperindividualismo, na medida em que atribui ao próprio trabalhador a culpa do seu insucesso. Tais fatores exigem uma legislação que proteja o trabalhador, salvaguardando-o da precarização.

Todavia, a reforma trabalhista recentemente aprovada no Brasil fez exatamente o contrário, indo ao encontro daquilo que vem sendo chamado de capitalismo de plataforma. Assim, tal modelo de negócio encontra maior espaço em países cuja legislação é menos protetiva, daí porque o discurso neoliberal de “modernização” das relações de trabalho casa muito bem com o novo paradigma de trabalho proposto por quem defende a uberização deste. Nas palavras da pesquisadora Ludmila Abílio:
A uberização em realidade quer dizer a formação de uma multidão de trabalhadores autônomos que deixam de ser empregados, que se autogerenciam, que arcam com os custos e riscos de sua profissão. E que, ao mesmo tempo, se mantêm subordinados, que têm seu trabalho utilizado na exata medida das necessidades do capital. São nanoempreendedores de si, subordinados e gerenciados por meios e formas mais difíceis de reconhecer e mapear, por empresas já difíceis de localizar – ainda que estas atuem cada vez mais de forma monopolística (SILVA, 2018).
Ou seja, apesar do discurso amplamente difundido por estas empresas, de que são meras plataformas de tecnologia14 com o objetivo de interligar pessoas, percebe-se a incidência dos elementos caracterizadores do vínculo empregatício15 entre as plataformas digitais (que gerenciam os aplicativos) e os prestadores de serviço, de forma que “a atuação do direito do trabalho perante esse novo tipo de trabalho é imprescindível”, tendo em vista a tendência de que as empresas passem a incorporar essa nova organização laboral (CARELLI, 2017, p. 145).

Como visto, o trabalho via plataformas digitais, guiado pelo uso dos algoritmos e da inteligência artificial, se intensificou nos últimos anos de forma global, transformando as relações laborais. Aquilo que muitos poderiam vislumbrar como maior flexibilidade, maior autonomia e fonte de libertação, tem, na verdade, se revelado uma exploração do trabalho humano, marcado por longas jornadas e assunção dos custos e riscos pelo trabalhador.

Portanto, o trabalho nas plataformas digitais, muito antes de libertação, tem servido como instrumento de opressão, precarização, insegurança e adoecimento, de forma que é necessária a atuação do direito do trabalho para o fim de preservar os direitos fundamentais dos trabalhadores.




Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   13


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal